Mais memórias difíceis: o caso das Torres Gêmeas em Nova Iorque

Achei este pequeno texto que escrevi em 2007 na época em que li dois artigos interessantes publicados respectivamente no jornal Folha de S. Paulo e Estado de São Paulo. Falsa jornalista que sou,  acabei não publicando no calor da hora, mas agora com o 11 de setembro resolvi retirá-lo dos “rascunhos” e  publicá-lo na “atualização”  do Versão Paulo.

Este texto  que publico aqui continua uma discussão já iniciada no blog sobre as memórias difíceis: Memórias difíceis: espaços de reclusão na cidade  e O lugar da tragédia do avião da Tam já tem projeto de praça . Prolongando o assunto   e seus vários significados espaciais e imaginários seguem aqui encadeados os dois   artigos que sairam na imprensa em 2007. Um deles sobre livros,  saiu no caderno “Mais” da Folha de São Paulo do dia 07/10/07. O titulo do artigo era “Torres fêmeas”, uma paródia à tragédia do dia 11 de setembro  em NY. O livro em foco,  O sonho do terror de Susan Faludi, abordava a representação da tragédia através de uma série de reconstruções masculinas que chegavam a remontar o mito da conquista americana: o faroeste. Absurdo? Talvez, a primeira vista  podemos achar  que a autora procure pelo em ovo, afinal diante de uma tragédia destas pensar que a maior parte de suas representações teve um caráter masculino parece bastante estranho. Mas nada que o artigo/resenha aborda parece bobagem, muito pelo contrário. Nos poucos comentários do texto percebe-se que depois de 11 de setembro, apenas algumas vozes femininas se manifestaram. Como se a retomada da defesa do império norte-americano, de fato, ainda morasse “nos bravos homens que dominaram o oeste americano”. Faludi exemplica que este quase arquétipo masculino de retomado do império americano pode ser percebido no filme Guerra dos Mundos (2005) onde Tom Cruise, um pai divorciado e fracassado, reconquista a sua virilidade ao salvar sua filha. Na cena final  do filme Tom Cruise, ao carregar a filha no colo,  faz  eco ao final do clássico Rastros de Ódio (1956) de John Wayne.

Ainda nas palavras da autora, a forte representação da virilidade masculina pós 11 de setembro se enquadra em uma tradição de 300 anos de “ reengenharia cultural”. E Faludi vai mais longe ao visitar a exposição de fragmentos encontrados na tragédia de 11 de setembro na Historical Society. Observa ali a presença de objetos destituídos de textos que acabam sendo canalizados para construções mitológicas. O que também ocorre facilmente no terreno da linguagem. Caso exemplar disto, comenta ela, foi  como as pessoas que trabalharam no destroços do 11 de setembro  fizeram referência ao lugar da tragédia, “ the pile” ( a pilha), enquanto a mídia recorreu ao jargão militar de “ ponto zero”. Ponto zero foi a expressão oficial que de fato pegou e foi incorporada em todas as referências ao local da tragédia.

Guerra dos sexos

Um destroço das Torres Gêmeas encontrado e exposto na Historical Society

Porém a história das Torres Fêmeas não para por ai. Coincidência ou não, no Caderno de Cultura do jornal Estado de São Paulo do mesmo dia surge uma das vozes femininas presentes no caso das Torres Gêmeas . O artigo aborda entre outros temas ligados a ficção e escrita feminina, algumas notícias saídas na imprensa logo depois da tragédia de 11 de setembro que foram escritas por uma sobrevivente, Tânia Head,  que  teve  a veracidade de sua história questionada. Esta testemunha até então fazia parte dos 19 sobreviventes da parte mais alta de uma das Torres. Sua história se passa no dia 11 de setembro, ambientada no Word Trade Center. Gravemente queimada no ataque, Head sustentava a história  que  ao tentar sair da Torre, recebeu uma aliança de um homem moribundo que lhe pediu para entregá-la à família. Ao mesmo tempo,  “Enquanto ela descia do 78 andar da Torre Sul, era sustentada pela imagem mental do vestido branco que usaria no casamento com Dave, seu noivo, que, naquele exato momento, estava preso na outra torre.”

O relato de Head apareceu na imprensa e ela chegou a presidir  até pouco tempo  da publicação deste artigo (2007) uma associação de ajuda aos sobreviventes, além de levar  grupos de turistas ao local da tragédia e, in loco, contar sua versão da história. Hoje seu testemunho  é questionado. O noivo Dave não foi identificado. Seus parentes nunca ouviram falar de Head. Também não há nenhum registro sobre o homem que lhe deu a aliança.

Verdade ou ficção, Head ao tecer sua história, construiu um tipo de redenção em meio a destruição, algo  que a nação americana por um bom tempo adotou como a   história emocionante de uma sobrevivente. Tramada entre a ficção e a tragédia,  parece que fica uma versão feminina da história. Nem muito correta, quase nada verídica, porém que serviu como conforto para muita gente ao longo destes anos em que Head poderia ter sido facilmente desmascarada, mas não foi!

As mulheres  tem lá suas artimanhas e, sem  querer desapontar os céticos,   se as vozes femininas não estão presentes no “ponto zero”, parece que  a escrita feminina tem  imaginação suficiente para inventar um lugar e seus objetos. Tomara que mais vozes femininas mostrem seu poder de invenção, afinal nem tudo tem que acabar sempre  em bang- bang.

Mais sobre o assunto:

Este livro de Susan Faludi, “O sonho do terror” parece não ter publicação brasileira porém, de Faludi,  a ed. Rocco publicou “Domados: Como a cultura traiu o homem americano”, 2006.

Pra quem quiser pensar mais a questão do lugar na construção feminina recomendo a leitura de um clássico da relação entre a  mulher e a ficção,  “Um teto todo seu” de Virginia Woolf. ( link de PDF do livro)

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