A cidade é minha, oba!!!!

Pombos sobre mureta de viaduto, centro de São Paulo
Outro dia fui ao cinema e uma moça sentou do meu lado e saiu rapidamente. Quando as luzes se acenderam percebi que ela havia deixado alguma coisa na cadeira, um vídeo com os seguintes dizeres: você foi escolhido para assistir este vídeo. Achei o negócio estranho, a princípio pensei em jogar na primeira lixeira. Mas sou curiosa demais para descartar uma mensagem destas.

Então levei pra casa, coloquei no meu aparelho de DVD e tomei uma distância maior do que a normal do possível “ elemento malfeitor” que poderia disparar raios ou explodir minha televisão. O fato foi que vi vários clipes de filmes bem interessantes de uma produtora independente. No final a orientação foi esta: pegue este DVD e deixe-o para outra pessoa.

Com um artigo da revista Vida Simples (nov/2007), compreendi que este tipo de intervenção chama-se guerrilha urbana. Você pode fazer isto para mostrar seu trabalho, mas também para cuidar da sua cidade. O jornalista Denis Russo Bugierman que escreveu o artigo “ Guerrilha urbana” refere-se a um livro The Guerrilha Art Kit, onde a autora, Keri Smith, aponta um monte de estratégias para cuidar e criar coisas na sua cidade. Por exemplo: Mapas guerrilheiros: – Em casa, desenhe um mapa de sua região ou arrume um já pronto. Complete o mapa com as coisas que você acha importantes, mas que geralmente não apareceriam num mapa: um banco legal para sentar , um gramado bom para deitar…. e aqui completo eu, uma galinha e um galo no caminho, uma pequena lagartixa nascendo na calçada em que você caminha, um orvalho chorado de folha de arvore em começo de dia, a novidade da estação. Marque tudo no seu mapa particular e afixe por ai para outras pessoas.

Para quem quiser saber mais segue o site da Keri: http://www.kerismith.com
Para os que quiserem enviar suas mapas particulares , por favor mandem que eu publico no Versão Paulo.
por Paula Janovitch

Achado e adquirido: Arquitetura Moderna Paulistana


Achei na feira do Bexiga o livro Arquitetura Moderna Paulistana, de Alberto Xavier, Carlos Lemos e Eduardo Corona, editora Pini, 1983.

A idéia do livro é fazer uma mostra/roteiro de vários exemplares de arquitetura moderna de São Paulo com os respectivos endereços. Ou seja, quem quiser, pode anotar o endereço e visitar . O único defeito do livro, que não é defeito mas pura preferência minha, é o fato da organização não ser por região, mas cronológica. Ficaria bem mais fácil e divertido se os autores apontassem percursos, mesmo que pequenos.

Voltando a ordem correta do livro. Tudo começa em 1927 com o primeiro projeto eleito como modernista, na Av. Angélica, 172. Um edifício de apartamentos do arquiteto Júlio de Abreu Junior. Aliás, todos os projetos do livro vem com um pequeno texto, uma fotografia ou duas e um croqui.

Logo na introdução os autores explicam de maneira sucinta o critério de seleção dos projetos considerados modernos e a dificuldade em definir o marco desta modernidade da arquitetura na cidade de São Paulo. E isto não é difícil apenas na arquitetura. Acho que todo mundo que trabalha com este período se depara com os mesmos pontos cegos do quando começamos a ser modernos, será que seria mesmo 1922?
Ai, ai, esta história de que nada de moderno existia antes da Semana de Arte Moderna já assassinou muitas produções interessantes da cidade de São Paulo. Na área da literatura por exemplo, escritores como Juó Bananére, Hilário Tácito, José Agudo e até o conhecido Monteiro Lobato que foram extremamente modernos, passaram ao largo dos participantes presentes na Semana de Arte de Moderna. Acabaram todos com o título duvidoso de pré-modernistas. Conceito totalmente equivocado. De fato foram modernos, ou para ser mais chique ainda como diz o professor Foot, foram antigos modernos. Isto de deixar fora da panela o tempero de época não foi apenas injusto com a produção cultural da cidade, mas de uma parcialidade que tem que ser revista e ampliada para podermos saborear o prato com todos os seus ingredientes.
Os autores deste livro de arquitetura, resolveram desenroscar este nó do primeiro exemplar moderno de arquitetura, definindo que a seleção dos projetos teria como parâmetro a arquitetura moderna racionalista e o domínio da tecnologia do concreto armado. No caso, o primeiro primeiríssimo exemplar de arquitetura moderna transpõe os muros de 1922 , escapa de São Paulo e segue direto para a estação de estrada de ferro de Mairinque (1907) onde Victor Dougbras utilizou pela primeira vez o concreto armado. Só depois de 20 anos é que São Paulo ganhou o seu primeiro edifício moderno, este que citei de Julio de Abreu Junior na Av. Angélica.
Bom, da minha parte, vou pegar o livro, abrir numa das páginas e ir para a rua fotografar aquilo que existe e o que já desapareceu da arquitetura moderna paulistana selecionada nesta obra. Aguardem futuras revelações…
por Paula Janovitch

Samba enfeitiça o Iphan, entra na roda e é tombado como bem imaterial

No mês passado, em Santo Amaro, além da comemoração dos 100 anos de Dona Canô, mãe de Caetano e Maria Bethânia, ocorreu a inauguração da Casa do Samba. Especialistas em samba invadiram o Solar Araújo Pinho às margens do rio Subaé, a Casa do Samba, em evento promovido pelo Iphan para tratar da origem do gênero.
Em outubro o samba carioca virou “entidade de respeito”, foi tombado como bem imaterial, depois de muita boemia eis que o danado chegou lá. Pois é, tomara que isto contamine mais movimentos, alimentos e sons da cultura brasileira. Afinal o samba como outras manifestações da cultura brasileira, apesar de estar no pé, no ouvido e no gosto de muito brasileiro, como se diz por ai “ é quase uma criação de improviso”, tem lá uma longa história, cheia de altos e baixos, perseguições e variações que merecem ser melhor conhecidas. Conforme nota da Folha 10/10/07 : “ O tombamento não traz mudanças imediatas, mas é um estímulo para que a história do gênero entre em currículos escolares e seja alvo de projetos de documentação”.
Eu aqui escuto o cd da Teresa Cristina e Grupo Semente lá da Lapa carioca. Tudo de bom.
por Paula Janovitch

Os ossos do mundo de Flavio de Carvalho

Flavio de Carvalho foi engenheiro, artistas plástico e vegetariano convicto. Mais conhecido por ter sido um transgressor de costumes por desfilar de saias no centro da cidade de São Paulo (Experiência 3)ou atravessar uma procissão de Corpus Christi em sentido contrário e sem tirar o chapéu (Experiência 2), seus atos não foram isolados.

Por estas atitudes e por tantas outras produções, pode-se afirmar que Flávio de Carvalho foi de fato um vanguardista. Um intelectual completo. Leio seu livro de notas de viagens, Os ossos do mundo(1936). O livro reúne vários ensaios de Flavio sobre viagens e reflexões a respeito de estética, pontos de vista sobre espaço e impressões de viagens. O primeiro dos capítulos já deixa a gente meio desconcertado. Imagine, é sobre viagens de avião, “Voando sobre as Costas Brasileiras e Notas sobre a sensação do medo”. Assunto bem emblemático para quem mora em São Paulo e viveu o drama da queda do avião da TAM. Flavio confessa seu medo de voar. Mas quando o avião decola, aliás um hidroavião, suas observações do que pode ser visto do alto e as dimensões deste observador humano, quase sobre-humano mexem com os neurônios. Uma das pérolas de Flavio neste vôo sobre o litoral brasileiro, deixo aqui para os amadores de cidades. Vale a pena ler tudo, pois viajar com Flavio de Carvalho, é um passeio incomum por lugares extremamente comuns:”O homem em vôo sente-se superior porque enxerga a cidade e o mundo das coisas como se enxergasse através de um organismo transparente. Ao mesmo tempo que vejo um personagem carregando uma carroça de verduras, vejo um outro personagem que necessita e procura verduras, mas ambos os personagens nada sabem da existência um do outro – estão apenas conscientes da predisposição individual e por suposição sabem que deve existir perto o personagem com disposição contrária e pronto a recebê-lo. “E mais adiante seguem suas reflexões sobre este homem que se aproxima de um vidente por conta do lugar que ocupa estando em vôo:“A visão do homem em vôo adquire mais uma dimensão sobre a visão do habitante da superfície; ele é capaz de prever e calcular o destino do habitante da superfície, o seu ponto de vista percorre o presente, o passado e o futuro desse personagem, porque ele enxerga a predisposição para receber este ou aquele acontecimento, e ele caminha para um rumo conforme a sua receptividade, isto é, o seu comportamento neste dado futuro só pode ser alterado pela sua predisposição ou capacidade de receber coisas. “E por ai vai…

Obras arquitetônicas modernistas de Flavio de Carvalho na mira da imprensa:
Na terça feira, dia 16/out/07, saiu na Folha de São Paulo o estado de algumas obras arquitetônicas modernistas de Flavio de Carvalho. A que teve maior destaque, foi o imóvel da Fazenda Capuava em Valinhos ainda pertencente a familia Carvalho. O imóvel foi tombado em 1982 pelo Condephaat . E, em 2002, devido ao estado de abandono que se encontrava foi feito um acordo entre o Condephaat , a Prefeitura e a família para o restauro. Cinco anos depois, pouca coisa mudou. A família alega que o IPTU do imóvel é muito caro. Já a prefeitura de Valinhos não isenta legalmente este imposto apesar de acenar com proposta de comodato ou doação.
Já a outra obra modernista de Flavio é uma vila de 1938 nos jardins, aqui na cidade de São Paulo. Passou por uma reforma no mês passado, porém afirma o jornal, não ganhou proteção de nenhum orgão de preservação do patrimônio (eu tenho quase certeza que é tombada ou esta com abertura de tombamento). A vila fica na Alameda Lorena, 1257 e tem um conjunto de 17 casas.
As casas foram feitas para aluguel. À época a publicidade das casas vinha com os seguintes dizeres: ” novos modelos para 1938 e 1939, casas frias no verão e quentes no inverno”. As casas demoraram por serem alugadas. Finalmente foram ocupadas por artistas e intelectuais e depois vendidas. Hoje a ocupação da vila é totalmente comercial. Porém não há uma placa ou qualquer referência que lance luz sobre este conjunto arquitetônico do emblemático arquiteto Flavio de Carvalho. Leia mais
Quem quiser saber mais sobre Flavio de Carvalho indico aqui dois livros :
Flavio de R. Carvalho, Os ossos do mundo, São Paulo: ed.Antiqua, 2005 ( notas de viagem)
J.Toledo, Flavio de Carvalho: o comedor de emoções, São Paulo: Unicamp/Brasiliense, 1994: livro biográfico encontrável em sebos.

Aderentes X permanentes: o que se vê e não se vê na paisagem urbana paulista

Parece que o Conjunto Nacional esta prestes a se despedir do logotipo eletrônico do Banco Itaú. Já o seu relógio digital, tem grande possibilidade de permanecer atendendo à pressa dos paulistanos da mais paulista das avenidas. Em artigo publicado na Folha de São Paulo do dia 05/09/07, explica Juliana Prata, vice-presidente do Condephaat (conselho estadual de patrimônio histórico), que o logotipo do Itaú como todo produto publicitário, é um bem aderente ao imóvel. Logo, pode ser retirado sem descaraterizar o edifício. Da minha parte, se tirarem mesmo o logotipo do Itaú, vou sentir uma drástica mudança na fachada do Conjunto Nacional. O que não faz o hábito à memória…

 Já no centro da cidade, é difícil alguém olhar para cima. E não é que na rua Barão de Itapetiniga há um letreiro do edifício Itá lá no alto do prédio. Aquilo não é bem aderente e ninguém pode tirar. Pelo tipo de letras, deve fazer parte da construção do prédio, então é ” irremovível”. Mas o que será que fez com que resolvessem colocar o letreiro do prédio lá no alto há tanto tempo atrás? Se alguém souber, ou imaginar, pode enviar para o Versão Paulo a explicação do mistérioso letreiro do edifício Itá.

por Paula Janovitch

Dois importantes bancos de imagens fotográficas de São Paulo estão disponíveis a partir deste mês via internet

Neste mês de setembro começam a ser disponibilizados na rede dois importantes bancos de imagens da cidade: os acervos fotográficos do Museu da Cidade e da Fundação Patrimônio Histórico, mais conhecida como antiga Light.
No Museu da Cidade, http://www.museudacidade.sp.gov.br/, dentre vários ambientes sobre serviços, casas históricos, atividades e acervos, localiza-se o banco de imagens que reúne grande parte da memória fotográfica urbana paulistana. As imagens do acervo de negativos da Divisão Iconográficos e Museus do Departamento de Patrimônio Histórico ainda estão sendo incluídas no banco de imagens virtual, mas já é possível se ter uma bela idéia de como fazer a busca e ver vários registros que até então só eram possíveis com a pesquisa no próprio acervo da Divisão. O banco de imagens do Museu da cidade esta incluido no projeto Casa da Imagem e tem acesso pelo site do Museu da Cidade.
A Fundação Patrimônio Histórico da Energia e Saneamento também lança neste mês seu banco de imagens fotográficas on-line. São cerca de 2.300 imagens de um total de 250 mil que vão ser publicadas no site da Fundação, http://www.fphesp.org.br/.
Conforme artigo publicado na Folha de São Paulo de 15/09/07, as imagens que estarão disponíveis on-line “mostram o início da urbanização paulistana vista, principalmente, pela abertura dos trilhos dos bondes”. Algumas imagens já são velhas conhecidas de pesquisadores e amantes da cidade. Principalmente aquelas que foram publicadas nos famosos álbuns da Light. Mas, entre as 2.300 imagens, muita coisa ainda pode ser revelada e vista sobre a cidade da Light.
por Paula Janovitch

Ocupação no ringue

Embaixo do viaduto do Café, na Bela Vista, até bem pouco tempo atrás havia uma verdadeira academia de ginástica que reunia instrumentos de ginástica, um ringue de boxe e até um espaço para biblioteca. Numa das vezes que passei por ali a pé fui convidada pelo treinador a entrar e visitar a academia. Achei interessante o lugar, uma sucata de sonhos de outras academias que naquele lugar criava nova vida. Imaginei aquilo à noite, iluminado, repleto de pessoas gritando e torcendo. Depois de muito tempo, soube que a “academia” debaixo do viaduto havia sido fechada e, nesta quarta-feira 12/09/07, lendo o artigo de Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo, “ Um arquiteto no ringue”, descobri o arquiteto-filósofo Igor Guatelli que adotou a tal “academia”. Ele é especialista na maneira como espaços vazios da cidade são ocupados e tomam novas significações. Como um exemplo ilustre, Gilberto Dimenstein cita a marquise do Ibirapuera de Oscar Niemeyer e os jovens patinadores que deslizam nela criando ali um ponto de referência.
Igor, não só ficou impressionado com a “academia” dos baixos do viaduto, mas resolveu ir à luta e brigar por sua permanência ali. O professor de projetos na faculdade de arquitetura do Mackenzie e seus alunos fizeram um novo projeto para a academia do treinador Nilson Garrido. Para os interessados em conhecer a proposta de academia dos baixos do viaduto do Café, acesse o site, http://www.dimenstein.com.br/.
por Paula Janovitch

Mar de histórias: as nebulosas de Cubatão em registros fotográficos de Bob Wolfenson

Bob Wolfenson resolveu fotografar aquilo que muita gente viu e sentiu na infância e apenas deixou adormecido em memórias dispersas. Pois é, eu particularmente fui uma das crianças que via eternamente as chaminés e a nebulosa paisagem de Cubatão na descida da Serra e tinha a prazerosa sensação de estar chegando ao Guarujá. A minha felicidade naquele lugar misturava-se com um certo horror ao mau cheiro e uma enorme placa que dava para estrada com o número de acidentes de trabalho do dia e quiçá do mês. Depois vinham os banhos de mar, as patas de siri, o barco de inflar cor de abóbora e aquela lembrança das nebulosas de Cubatão na travessia para o mar ficavam para trás, coisas do caminho do mar…

Bob ao registrar em imagens o lugar que é (???) um ritual de passagem entre São Paulo e parte do litoral paulista, oferece a muitos viajantes um presente de rara beleza, com suas fotografias podemos parar e olhar aquelas memórias nebulosas e confusas que nos geraram tanto prazer e desconforto e ter sobre o emblemático lugar um sentimento coletivo de afeto. A exposição esta na Galeria Millan ( rua Fradique Coutinho, 1.360) de seg. à sex. das 11h às 19h.

por Paula Janovitch

O lugar da tragédia do avião da TAM já tem projeto de praça.

Um projeto da prefeitura lança proposta para o lugar demolido do galpão da TAM. Isto me lembrou o seminário da Casa da Dona Yayá que ocorreu ano passado, cujo debate versou sobre os lugares de memórias difíceis. O grupo que foi ao seminário saiu no outro dia para fazer um percurso em alguns lugares selecionados e considerados de memórias dolorosas ou difíceis em São Paulo. Eu adorei o passeio. Cheguei a escrever um texto sobre o evento que se encontra nos posts do Versão Paulo.
O projeto da praça elaborado pelo arquiteto Marcos Cartum para a tragéida da TAM, é delicado e bonito. Dois muros brancos quebrados e um acesso para uma praça com ipês amarelos.
A questão que não quer calar não é nem a idéia e nem o projeto, mas o lugar. Será que as pessoas que perderam seus entes e os habitantes do bairro desejam ter ali um monumento? As memórias difíceis, são também lugares difíceis e passíveis de inúmeros questionamentos. Diante deste pressuposto, será que o projeto de um monumento não veio antes das tantas perguntas serem feitas aos diretos e indiretamente envolvidos?
Não dá para esquecer que neste mês de setembro, exatamente em 11 de setembro um outro lugar de memória difícil esta sendo lembrado e questionada. Ao contrário de uma praça, a idéia de um monumento para o atentado em Nova Iorque tem as dimensões de um arranha- céu. Passaram-se seis anos daquela tragédia, e até hoje sua representação simbólica gera debates e mais debates. Por estas e outros ainda sou favorável à antiga tradição de velar os mortos, enterrá-los para depois pensar na maneira de representá-los.
Para quem quiser saber mais sobre o projeto , a matéria saiu na revista da Folha de 09/09/07.
por Paula Janovitch

O calçamento de São Paulo: buracos e etc…

Buraco, buracolância, buracópolis e outros sinônimos imperavam nos jornais do 1900 para falar dos problemas em relação ao calçamento da cidade. É irônico pensar que em 2006, os jornais voltaram ao tema da pavimentação da cidade. Na Folha de São Paulo do mês de dezembro a Avenida Paulista, senhora na “melhor idade”, completou 115 anos repleta de calçadas esburacadas e camelôs espalhados em seu passeio.

A newsletter do Viva o Centro, chama atenção para um mal que anda atacando as sofridas calçadas da área central. O apelido do malfeitor que produz uma cicatriz no calçamento das ruas não deixa de ser engraçado, bicho geográfico. Com a sutileza que o bicho tratado aqui foi contraído de uma companhia telefônica a GVT/Oi que anda instalando fibras óticas.
Na rua Augusta, a bicharada também anda solta, mas lá ao contrário do centro, é a operação piso novo da própria prefeitura que arma umas arapucas para o pedestre distraído. Mal o novo calçamento, semelhante a bolacha maisena, é inaugurado, o piso começa a murchar e os buracos brotam do chão feito toca de tatu.

Olhando para trás no tempo, o calçamento tem uma história de inadaptações que vem de meados do século XIX, quando a intendência publica da cidade, ainda provinciana, começava a interferir na fluidez e limpeza dos logradouros públicos. No jornal humorístico O Cabrião (1865), temos um diálogo bem interessante entre dois tipos de calçamento, o “dr.Pedregulho” e o “Macadame”, e o total desacerto da administração pública quanto a escolha daquele que seria ideal para as ruas de São Paulo. Alguns queriam o macadame e chegavam a defender publicamente o material, outros iam de pedregulho, mas ambos, ao serem fixados, misturados às ruas de terra da cidade formavam entre si uma lambança geral. Tudo só piorou ao avançar do século XX com a entrada em cena da Companhia Light and Power que passou a executar mudanças nas ruas. O caso da Light era colocar trilhos principalmente nas ruas centrais e, para isso, foi necessário levantar calçadas e cavocar valas nas ruas para fixar os memoráveis caminhos dos bondes elétricos.
A própria Light registrou o caos da cidade em vários álbuns . Porém, no início do século XX, as imagens destes álbuns eram mais para demonstrar a participação da empresa no progresso da cidade do que documentar o início do caos de São Paulo.

A confusão aumentou mais ainda quando de fato chegaram os bondes elétricos e os automóveis. Os pneus fininhos dos veículos importados estouravam a torto e a direito nas ruas desalinhadas e repletas de buracos. As curvas também não eram próprias para os automóveis e nem os diversos calçamentos. O choffeur queria pegar velocidade, e ao começar a descer as ladeiras da cidade o que pegava era buraco e gente.

A pressa e a inabilidade dos motorneiros, também foram algumas das principais causas de acidentes com os bondes elétricos. Não era difícil ver à época um bonde sair dos trilhos e avançar em calçadas e casas.

É desta época que começam a surgir altos índices de atropelamentos e trombadas.

Aliás estas duas palavras apesar de terem seu uso mais freqüente com o surgimento dos veículos motorizados, tem sua origem, lendária ou não, no mundo animal. Atropelamento vem de tropel que tem sua origem no ritmo da pata dos cavalos. E trombada, como reza a lenda paulista, surgiu num dia ensolarado do 1900 e batatinha, quando um elefante fugiu do circo e na corrida desabalada acabou se chocando com um bonde. Foi do encontro do bonde com o elefante que a trombada se fez presente entre nós. Se a história não for verdade verdadeira, não deixa de ter uma raiz etimológica bem interessante para o nosso anedotário local.

Enfim, é triste pensar que o “ buraco é mais embaixo” mas, como moral da história, melhor pensar onde é o buraco do que acabar em um como este que Patrícia Santos fotografou na rua Conselheiro Crispiniano, centro de São Paulo, publicado no Estado de São Paulo em 09 de dezembro de 2006.

Para saber mais:

Mapa dos buracos da cidade de São Paulo: a Veja criou um mapa colaborativo para compartilharmos os buracos da cidade. Se vc tem um buraco conhecido, novo, recuperado, crônico, mal amado, machucado e etc e tal… coloque aqui para sabermos mais da dimensão deste personagem que encontramos nas ruas da cidade com tanta freqüência.
- Ajude a acabar com essa #buraqueira: 50 grafittes que foram feitos sobre buracos da cidade de São Paulo

- Os álbuns da Light apesar de esgotados encontram-se nos alfarrábios e nas feiras de antiguidade da cidade, assim como são perfeitamente consultáveis nas bibliotecas públicas e na própria Fundação do Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo. O que indico é o de título Registros, tem fotos bonitas e uma abordagem interessante das obras da Light na área central de São Paulo.

- O bicho geográfico que ataca São Paulo saiu na newsletter do Vivia o Centro no dia 29/11/06 com o titulo “ bicho geográfico ataca o centro”.
http://www.vivaocentro.org.br/noticias/

- Sobre a história do bonde em São Paulo vale a pena dar uma navegada pelo site do pesquisador Werner Vana. http://www.wvp.hpg.ig.com.br/

- Ainda sobre os bondes, Giselle Beiguelman, historiadora e artista multimídia, fez um artigo sobre os ritmos da cidade com a introdução dos bondes que dá o que pensar. O título é “ Rondó do tempo presente” e foi publicado na Revista Memória, São Paulo, jul./dez., 1995. Esta revista não esta a venda, seus títulos mais antigos encontram-se esgotadíssimos. Com alguma sorte ainda você acha números avulsos destas revistas nas feiras de antiguidade ou em alfarrábios. Para consulta, a coleção encontra-se disponível na Fundação do Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo e na biblioteca do Arquivo Municipal de São Paulo “ Washington Luís” .

- Existe um livro que só trata da história das calçadas em São Paulo, O mundo das calçadas, ed.Humanitas/Imprensa Oficial, 2000. O autor é Eduardo Yázigi, geógrafo da USP. A obra é de fôlego, aborda o tema calçadas desde o 1560 até 1988. O mundo das calçadas esta disponível nas livrarias da cidade.

- Para finalizar, indico um artigo muito legal do Chico Homem de Melo que saiu no portal virtual Vitruvius na seção “ Minha cidade” n.172, out/2006.
“ Crônica de um ícone paulista”, resgata a origem histórica de um calçamento padrão da cidade muitíssimo pisado pelos paulistanos, aquele inspirado nos limites geográficos do Estado de São Paulo. http://www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc172/.

Texto: Paula Janovitch