Samba enfeitiça o Iphan, entra na roda e é tombado como bem imaterial

No mês passado, em Santo Amaro, além da comemoração dos 100 anos de Dona Canô, mãe de Caetano e Maria Bethânia, ocorreu a inauguração da Casa do Samba. Especialistas em samba invadiram o Solar Araújo Pinho às margens do rio Subaé, a Casa do Samba, em evento promovido pelo Iphan para tratar da origem do gênero.
Em outubro o samba carioca virou “entidade de respeito”, foi tombado como bem imaterial, depois de muita boemia eis que o danado chegou lá. Pois é, tomara que isto contamine mais movimentos, alimentos e sons da cultura brasileira. Afinal o samba como outras manifestações da cultura brasileira, apesar de estar no pé, no ouvido e no gosto de muito brasileiro, como se diz por ai “ é quase uma criação de improviso”, tem lá uma longa história, cheia de altos e baixos, perseguições e variações que merecem ser melhor conhecidas. Conforme nota da Folha 10/10/07 : “ O tombamento não traz mudanças imediatas, mas é um estímulo para que a história do gênero entre em currículos escolares e seja alvo de projetos de documentação”.
Eu aqui escuto o cd da Teresa Cristina e Grupo Semente lá da Lapa carioca. Tudo de bom.
por Paula Janovitch

Os ossos do mundo de Flavio de Carvalho

Flavio de Carvalho foi engenheiro, artistas plástico e vegetariano convicto. Mais conhecido por ter sido um transgressor de costumes por desfilar de saias no centro da cidade de São Paulo (Experiência 3)ou atravessar uma procissão de Corpus Christi em sentido contrário e sem tirar o chapéu (Experiência 2), seus atos não foram isolados.

Por estas atitudes e por tantas outras produções, pode-se afirmar que Flávio de Carvalho foi de fato um vanguardista. Um intelectual completo.
Leio seu livro de notas de viagens, Os ossos do mundo(1936). O livro reúne vários ensaios de Flavio sobre viagens e reflexões a respeito de estética, pontos de vista sobre espaço e impressões de viagens. O primeiro dos capítulos já deixa a gente meio desconcertado. Imagine, é sobre viagens de avião,“Voando sobre as Costas Brasileiras e Notas sobre a sensação do medo”. Assunto bem emblemático para quem mora em São Paulo e viveu o drama da queda do avião da TAM.
Flavio confessa seu medo de voar. Mas quando o avião decola, aliás um hidroavião, suas observações do que pode ser visto do alto e as dimensões deste observador humano, quase sobre-humano, mexem com os neurônios. Uma das pérolas de Flavio neste vôo sobre o litoral brasileiro, deixo aqui para os amadores de cidades. Vale a pena ler tudo, pois viajar com Flavio de Carvalho, é um passeio incomum por lugares extremamente comuns:
O homem em vôo sente-se superior porque enxerga a cidade e o mundo das coisas como se enxergasse através de um organismo transparente. Ao mesmo tempo que vejo um personagem carregando uma carroça de verduras, vejo um outro personagem que necessita e procura verduras, mas ambos os personagens nada sabem da existência um do outro – estão apenas conscientes da predisposição individual e por suposição sabem que deve existir perto o personagem com disposição contrária e pronto a recebê-lo. “
E mais adiante seguem suas reflexões sobre este homem que se aproxima de um vidente por conta do lugar que ocupa estando em vôo:
“A visão do homem em vôo adquire mais uma dimensão sobre a visão do habitante da superfície; ele é capaz de prever e calcular o destino do habitante da superfície, o seu ponto de vista percorre o presente, o passado e o futuro desse personagem, porque ele enxerga a predisposição para receber este ou aquele acontecimento, e ele caminha para um rumo conforme a sua receptividade, isto é, o seu comportamento neste dado futuro só pode ser alterado pela sua predisposição ou capacidade de receber coisas. “ 
E por ai vai…
Obras arquitetônicas modernistas de Flavio de Carvalho na mira da imprensa:
Na terça feira, dia 16/out/07, saiu na Folha de São Paulo o estado de algumas obras arquitetônicas modernistas de Flavio de Carvalho. A que teve maior destaque, foi o imóvel da Fazenda Capuava em Valinhos ainda pertencente a familia Carvalho. O imóvel foi tombado em 1982 pelo Condephaat . E, em 2002, devido ao estado de abandono que se encontrava foi feito um acordo entre o Condephaat , a Prefeitura e a família para o restauro. Cinco anos depois, pouca coisa mudou. A família alega que o IPTU do imóvel é muito caro. Já a prefeitura de Valinhos não isenta legalmente este imposto apesar de acenar com proposta de comodato ou doação.
Já a outra obra modernista de Flavio é uma vila de 1938 nos jardins, aqui na cidade de São Paulo. Passou por uma reforma no mês passado, porém afirma o jornal, não ganhou proteção de nenhum orgão de preservação do patrimônio (eu tenho quase certeza que é tombada ou esta com abertura de tombamento). A vila fica na Alameda Lorena, 1257 e tem um conjunto de 17 casas.
As casas foram feitas para aluguel. À época a publicidade das casas vinha com os seguintes dizeres: ” novos modelos para 1938 e 1939, casas frias no verão e quentes no inverno”. As casas demoraram por serem alugadas. Finalmente foram ocupadas por artistas e intelectuais e depois vendidas. Hoje a ocupação da vila é totalmente comercial. Porém não há uma placa ou qualquer referência que lance luz sobre este conjunto arquitetônico do emblemático arquiteto Flavio de Carvalho. Leia mais
Quem quiser saber mais sobre Flavio de Carvalho indico aqui dois livros :
Flavio de R. Carvalho, Os ossos do mundo, São Paulo: ed.Antiqua, 2005 ( notas de viagem)
J.Toledo, Flavio de Carvalho: o comedor de emoções, São Paulo: Unicamp/Brasiliense, 1994: livro biográfico encontrável em sebos.