ToKyo Ga

Acabo de assistir Tokyo Ga de Wim Wenders, filme que o diretor fez durante a produção de Paris, Texas (1984). Em duas semanas Wim Wenders vai ao Japão para buscar imagens, memórias de Tóquio construídas por Yasujiro Ozu: um dos diretores de cinema que Wim Wenders considera um tesouro sagrado do século XX. Seus filmes vão desde o cinema mudo no início do 1900 até os anos 60 quando vem a falecer. O filme Tokyo Ga é tocante a princípio porque trata de um registro totalmente pessoal de Tóquio. Um encontro de Wim Wenders com quase um século de imagens da cidade. Ao mesmo tempo, uma busca que parte da descoberta das pessoas que trabalharam com Ozu, sua técnica de fazer cinema , mas também com uma certa busca de Wim Wenders de identidade através da compreensão das radicais transformações do Japão, de Tóquio, dos elementos do passado que ainda se fazem presentes no ritmo caótico da grande cidade.

O filme de Wenders começa por fragmentos de um filme mudo de Ozu, “ Viagem a Tóquio”. Depois há um corte rápido e chegamos em Tóquio moderna pelo registro de Wim Wenders. Há cenas fantásticas, como os jogos de azar em porões em que o ganho é obtido através do acúmulo de bolinhas. As máquinas em sintonia com os homens mostram uma repetição de movimentos, nada mais do que os famosos passatempos modernos que habitam todas as grandes cidades do mundo. Vicio adquirido pelos moradores de Tóquio após a Segunda Guerra Mundial.
A prática do golf , coqueluche em Tóquio, mas com sutilezas emblemáticas e talvez extremamente vinculadas a tradição oriental japonesa é outro caso exemplar deste fenômeno. Em Tóquio, o golf não requer que o jogador acerte a bolinha no buraco. O foco do esporte esta na repetição e aprimoramento, no movimento do corpo em lançar a bolinha. Falta de espaço ou será mesmo uma forma particular de interpretar o jogo? As repetições também surgem na forma de Ozu dirigir os atores de seus filmes. Uma cultura da precisão de movimentos que se transforma radicalmente após a penetração das influências ocidentais. Há também nostalgia no filme, talvez a noção que esta tradição, a identidade de Toquio dos filmes de Ozu, vai se perdendo à entrada das influências ocidentais.
No fundo o filme trata da identidade e da memória de todos nós. Do desejo de estarmos em contato com algo verdadeiro, um tesouro encantado, por que não? Algo perdido nas nossas próprias memórias. Imagens queridas que se encontram embaralhadas em meio a tantas ofertas/imagens de prazeres rápidos, mas que permanecem presentes e silenciosas no espaço.
Achei por “puro acaso” numa caixa de papéis velhos da minha casa este postal dos anos 90 que ilustra o post, de uma Tóquio frenética, tecnológica e elétrica como diz o missivista da correspondência, mas ainda com a imagem de gueixa pronto para fazer um novo começo. Tokyo Ga é esta memória, de algo que vem de muito antes, mas que parte das duas semanas que Wim Wenders larga as filmagens de Paris,Texas, um filme de buscas, memória e identidade, e vai para Tóquio de Ozu ” apenas para observar, sem querer provar nada pra ninguém”. E ai toda uma outra história pode começar . Vale a pena assistir.
O filme Tokyo GA pode ser alugado em DVD na 2001.
Paula Janovitch

Eu fui a Lapa e não perdi a viagem!!!!

Pois é, o Rio de Janeiro continua lindo e totalmente musical. De uns tempos para cá a história da musicalidade da cidade anda em pauta . O que é totalmente correto e de bom gosto. Caso recente deste mapeamento e reinvenção bem sucedida de um espaço perdido e decadente, é a Lapa carioca. Um bairro que até bem pouco tempo fazia alusão a história de uma boêmia de outros tempos, de malandros e prostitutas que parecia totalmente em ruínas. Fui a Lapa há uns vinte anos atrás. Lembro que entrei numa daquelas vielinhas, talvez cenário do filme Madame Satã, e tomei sangria. Tudo era decadente na região e lembrava com tristeza os outros tempos dos grandes malandros e prostitutas.
Quem vai a Lapa hoje em dia como diz Caetano Veloso, não precisa tomar remédio, porque ela se transformou em saúde pública. Tem um monte de opções para beber, dançar, conversar ou mesmo assistir a um show no Circo Voador. Ainda existem os pequenos hotéis de pernoite e os pontos de travestis da região. Mas até isto vem mudando. Os travestis começam a montar lojas e diversificar seus negócios. Assim como os bares que se abrem na Lapa, são temáticos e aludem a este passado que por muitos anos esteve adormecido sobre a fuligem de uma malandragem mal tratada.
No dia que fui a Lapa, quase na viradinha do ano, escolhi o bar Rio Cenarium e dancei um monte lá. Quando sai, vi uma fila enorme na rua. Bem diferente de outros tempos em que visitar a Lapa era andar solitário por ruas silenciosas.
Para saber mais ver reportagem da Folha de São Paulo 06/01/07

Aos cinquentinha, bossa nova ganha roteiro histórico no Rio

A outra novidade carioca na área do resgate de sua musicalidade é o mapeamento da bossa nova. Na comemoração dos seus 50 anos o historiador Carlos Roquette prepara roteiros em quatro bairros do Rio para mostrar pontos históricos da bossa de João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Morais e Nara Leão. Mas atenção aos interessados, os roteiros serão feitos nos dias 25,26,27 de janeiro. Mais informações no site www.culturario.com.br
Para saber mais, Folha de São Paulo 05/01/07