Moça vestida de estudante pula muro de terreno baldio e volta às aulas.

foto do Colégio des Oiseaux

Quinta-feira à noite, dia dos namorados, a cidade estava com um congestionamento de casais e mais casais a caminho de, ou indo ao encontro das/dos. Nestas condições resolvi sair de casa para ver um pequeno espetáculo de música + teatro na Praça Roosevelt, “Opera Crua”, com os atores Gero Camilo, Rubi e Luiz Gayotto. Mas para chegar lá, fomos capturados pelos amores lícitos e ilícitos da Augusta street, que hoje mistura o antigo trottoir das mariposas da noite, com a moçada das novas boates e barzinhos da região. O trânsito parou de fato na altura do terreno baldio do extinto Colégio des Oiseaux, travessa da rua Caio Prado, demolido nos anos 70 . De repente, do outro lado da Augusta, onde fica o restaurante Piolin, sai uma moça com roupas de estudante dos tempos idos – saia plissada, meia ¾ , gravatinha e camisa branca – atravessa a rua e pula o muro da escola que ocupava a área de 24.000 metros quadrados. Minha amiga antes do pulo da “estudante” deu um grito do carro, “tá tudo bem com você?” e a moça meio sem jeito falou, “tá, isto é uma peça de teatro”.

Tietê


foto do rio Tietê, 2008
São Paulo nos últimos anos vem tendo várias das suas áreas ocupadas por peças de teatro que andam utilizando a geografia e o mobiliário urbana como espaços cenográficos. Podemos lembrar o corajoso grupo de teatro Vertigem que em uma de suas muitas apresentações, resolveu em 2005 encenar num barco dentro do rio Tietê a peça “ BR-3” (1). A duração da peça foi de mais ou menos 2 h 40 minutos. Atores e espectadores tiveram que incorporar à apresentação, o cheiro do rio e as imundices que pelas suas águas passam. Se não estou enganada, depois que o barco do Vertigem passou pelo rio, ano passado houve em suas margens plácidas um desfile tipo fashion week e vingou um passeio turístico de barco que leva amantes da cidade para navegar por um dos seus trechos. Eu já fui num destes passeios e fiquei impressionada com a sujeira e a quantidade de bichos, aves principalmente, que moram nas cercanias.

 
(1) “BR3 – A Peça” virou documentário
foto de pássaro sobrevoando o rio Tietê, 2008
Só acho que a proposta do passeio que é muito agradável e confortável, tem até música ao vivo e vinho branco, seria muito mais legal se no percurso víssemos um pouco da outra vida do rio. Meu pai nadou no Tietê. E quantos outros pais não devem ter nadado lá? Valeria a pena que nestas viagens fosse contada estas histórias que povoam a memória dos moradores mais antigos da cidade, dos historiadores que se debruçaram sobre os outros tempos do rio e dos clubes ex-náuticos que permanecem ali nas margens, escondidos pelo movimento do trânsito.Eu adoraria participar desta viagem no tempo pelo rio Tietê…

Vila Maria Zélia

foto Vila Maria Zélia, 2008/ Livia Gabbai

O grupo XIX, também faz um trabalho maravilhoso de ocupação geográfica na cidade. Estão firmes na zona leste, numa vila operária bárbara que foi tombada em 1992 e construída em 1917, a vila Maria Zélia. “Hygiene” , o primeiro espetáculo apresentado na vila, convidava o público a assistir a peça andando pelas ruelas e pelo tempo. Pois a história da peça tinha tudo a ver com a origem do lugar. Até mesmo a construção da vila operária que ao ser concebida teve forte influencia do pensamento higienista, o qual, no final do século XIX passou a organizar os espaços e corpos dos habitantes da cidade. Antes da “ Hygiene” ocupar esta vila, eu já conhecia o lugar. Fui lá na época em que era pesquisadora do DPH, achei um lugar interessante, mas, vivo mesmo, só depois que vi a ocupação do grupo XIX. E isto é que é tombamento bão, algo que não só preserva o lugar, mas retoma sua vida, incerta é claro, pois vida que é vida é feita de imprecisão, amém!

Subterrâneo do Viaduto do Chá
Em 2008 já tivemos novamente o Vertigem ocupando a extinta passagem subterrânea do Viaduto do Chá. Pois é, acredite se quiser, embaixo do conturbado movimento da rua Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá e adjacências existe uma silenciosa passagem subterrânea há muito tempo fechada ao antigo fluxo EXCLUSIVO de pedestres. Alguém já pensou na outra vida deste subterrâneo? Pois é, eu não fui nesta peça, mas sei que quando ali era uma passagem, existia um trânsito intenso de veículos na área central, e as passagens subterrâneas e as galerias do centro novo, eram lugares seguros para os pedestres desta cidade caminharem. Isto não merecia ser revelado? Um dia houve na cidade um lugar para os pedestres caminharem que não seria interrompido pelo fluxo dos automóveis. Pensava-se então nos habitantes que andam a pé pela cidade. foto:Viaduto do Chá/1942

 
 
Campos Elíseos: casarão na Alameda Cleveland

Num casarão da Alameda Cleveland a peça Labirinto Reencarnado do grupo Cia. Pessoal do Faroeste entra em cartaz. Mais uma casa ocupada. A peça faz parte de uma trilogia do grupo que se chama Trilogia degenerada: A História de São Paulo através de um casarão no Campos Elíseos. E ai o comentário do Estado de São Paulo diz que a peça tem muita eugenia, e que parte da Segunda Guerra Mundial. Temos poucos referências deste período na história da cidade de São Paulo. E um livrão que não pode faltar é o Guerra sem guerra do Roney Cytrynowicz, que foi uma das pessoas consultadas pelo grupo para montar esta peça. A estréia aconteceu no sabadão, dia 14 e para quem quiser conferir aqui vão as dicas:
Labirinto Reencarnado. 80 min.. 12 anos. Sede Faroeste. Al. Cleveland,677, tel 3362-8883. Sábado a segunda, 18 h. R$10. Até dia 28/7

Estação Pinacoteca/DOPS

Ontem, 13/06/08 vi no jornal o Estado de São Paulo uma coluna contando a história da recuperação de um lúgubre edifício na rua Mauá. Foi em 1999 que 30 atores e 40 espectadores começaram a mudar a história daquele lugar encenando uma peça no porão onde pessoas haviam sido torturadas e mortas durante a ditadura militar. “A idéia de recuperar o Dops vinha ao

encontro da necessidade de criar ‘âncoras’ culturais no centro. O edifício projetado como estação ferroviária por Ramos de Azevedo em 1914, também abrigou a Delegacia do consumidor, e, em 2004 transformou-se na Estação Pinacoteca, um museu com área de 8 mil metros quadrados.
Desta última ocupação há controvérsias. Já escutei inúmeros depoimentos de gente que não gosta do lugar, ops desculpe, da memória do lugar, e que não acha nada tranqüilo a transformação de um espaço de memórias recentes tão pesadas, vir a ser uma referência cultural da cidade.

Isto é um debate e tanto para quem pensa o que preservar e como fazê-lo.
Quanto aos artistas, fiquem a vontade para iluminar esta cidade cheia de espaços difíceis e fáceis, afinal, apesar da fama que São Paulo é uma senhora carrancuda e sem memória, basta um pouco de luz e boa vontade que a pecha se desfaz, a vida nesta cidade pode ser leve e extremamente profunda.
 
Atualização sobre o assunto abordado:
Relação com a cidade tem que ser menos anestesiada 02/ago/2010
Na Folha de São Paulo do dia 02 de ago de 2010 saiu um artigo sobre o nova peça do grupo Vertigem que será no Bom Retiro. Vale a pena ler o artigo e perceber como o grupo se apropia do espaço fisico urbano ao encenar suas peças. Segue o link pra quem é assinante da Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0208201022.htm, 02/ago/2010

postado por Paula Janovitch

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2 respostas em “Moça vestida de estudante pula muro de terreno baldio e volta às aulas.

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