Em busca das trilhas sonoras da cidade de São Paulo

Quem vê sem ouvir fica muito mais inquieto do que quem ouve sem ver (Walter Benjamin)

Existem critérios para os barulhos que escutamos no nosso dia-a-dia? Dentre as várias ondas de ruídos, quais seriam as mais dignas de lembrança?
A grande cidade deixou de ter um fundo silencioso faz muito tempo. O fenômeno excesso de barulho nas grandes cidades trouxe uma série de transtornos aos seus habitantes. O mais conhecido é o nível de ruídos suportável a audição humana, mais de 85 decibéis parece ser o limite de barulho que podemos agüentar sem prejuízos a audição. Aliás, este limite do quanto a gente agüenta de barulho vem sendo tema de artigos na imprensa , principalmente com as obras do metrô aqui em São Paulo e os walkmans, ipods, iphones diretamente conectados nos ouvidos da maior parte da juventude. Muito em breve, parece que teremos uma geração de adultos surdos. Mas a barulheira da grande cidade também revela um outro dado muito mais sutil e silencioso. O apagamento das lembranças auditivas no cotidiano de seus habitantes. Especialmente aqueles sons que um dia fizeram parte da nossa vida e que vão desaparecendo sem que tenhamos percepção de seu sumiço. É irônico constatar que perdemos os sons em silêncio. Talvez isto se dê pela confusão de barulhos que nos cercam, talvez pela desvalorização da memória auditiva , ou ainda por esta conjunção de faltas de estímulos que acabam por perpetuar esta ausência de percepção da importância dos sons nas nossas lembranças.

Estou ficando surdo de tanto escutar!

Nos critérios do que permanece por mais tempo como registro do passado, a memória visual ganha em disparado da memória sonora. O verbo ver é muito mais utilizado do que escutar. Apesar de termos perdido o silêncio há muito tempo, parece que hoje mais do que ontem, “ninguém escuta ninguém”. Então o excesso de barulho nos fez surdos aos chamados das lembranças sonoras. Guardamos filmes sem trilha sonora , no máximo imagens com escassas legendas.

Alguém já pensou nas suas lembranças sonoras particulares ao longo da vida? Lembro do assobio do meu pai ao chegar em casa, o barulho das pisadas seguras da minha mãe ao vir me tirar da cama de manhã, o som do amolador de faca, do homem da pamonha, do quebra-queixo e ai não lembro muito mais. Onde guardamos estes registros que não se repetem mais e nem são lembrados por nós a não ser por um grande esforço de memória? Como rever estes sons sem um registro deles?

Só para se ter uma idéia num outro dia assisti um documentário sobre demolições em São Paulo, História de morar e demolições, em que se entrevistavam algumas pessoas que iriam ter suas casas postas abaixo num curto espaço de tempo. A proposta do diretor do documentário foi registrar a casa destas pessoas antes da demolição. Para a execução do registro, o diretor deu para os depoentes uma máquina fotográfica para que os próprios selecionassem o que gostariam que fosse lembrado da suas casas no momento da filmagem. A maioria das pessoas repetiu algo semelhante e bastante singular, pediram para que fosse capturado lugares da casa que promoviam sons característicos e familiares: ranger de portas e janelas, campainhas, o barulho de um ventilador de teto e etc…. enfim os sons de lugares da casa que por si só provocavam lembranças. Eis aqui uma grande revelação da importância do registro sonoro: provocar de forma direta lembranças do lugar

Como ter critérios se não percebemos os sons que perdemos dia-a-dia, geração à geração?

Nossas trilhas sonoras têm uma história que vai do pessoal ao coletivo . E o que vem ocorrendo na grande cidade, é que vamos perdendo o nosso acervo de sons públicos e privados de forma galopante. Pensar formas de registrar as sonoridades urbanas parece ser tarefa fundamental não apenas para salvar as nossas lembranças mais distantes, mas para refinarmos os critérios dos sons que desejamos ou não tolerar na cidade em que vivemos.

Agora em novembro foi lançado um livro sobre a história das sonoridades da cidade de São Paulo na virada do século XIX para o XX. O livro Kaleidosfone é do historiador Nelson Aprobato Filho e busca revelar através de fontes diversas: memórias, ficções, legislatura da cidade e etc, os vários sons da cidade num momento de grandes transformações temporais e espaciais, a viradinha do século, como diria o poeta Juó Bananére.

A virada do século é um momento interessante para registrar hábitos e espaços que a cidade foi perdendo, e outros que começam a ser valorizados. Aquelas manifestações que não se desejam mais na vida urbana não desaparecem de imediato e o que é considerado moderno, não se fixa de forma tranqüila e nem imediata como pode-se imaginar numa olhada rápida para as imagens do passado. É nesta confusão de temporalidades, num espaço ainda bastante restrito, que se percebe com clareza a história da cidade. E, acredito eu que foi com esta perspectiva de cidade em transição, em dissonância, que Nelson Aprobato resgatou a história dos sons da cidade de São Paulo. Os antigos barulhos da cidade colonial como a saparia do Brás,o chiado dos carros de bois, os sinos das igrejas, convivendo com o barulho do trem, dos motores de carro, das fábricas e etc….

Estou no começo do livro, entre os sons das igrejas que anunciavam desde a morte de um habitante até os momentos das missas. Explica o autor que os sinos naquela época não serviam apenas para chamar os fiéis para a missa, sinalizavam muito do cotidiano dos habitantes da cidade. E assim as igrejas rodeavam a cidade de sinos, sons e hábitos. Imagine então a conjunção de sinos tocando em tempos diferentes numa cidade que vivia com um fundo silencioso quase que permanente?

É neste mesmo momento de paisagem silenciosa ao fundo da cidade que o chiado dos carros de bois adquire uma barulhenta história em São Paulo. Como nota Aprobato, a presença dos carros de boi entram a saem da cidade fazendo um barulhaço. O registro de vários viajantes que passaram por São Paulo é quase unânime em notar o barulho, rangido, chiado dos pesados carros de bois que passam lentamente pelas ruas de São Paulo levando lenha e depois material de construção. O barulho de chiados aumenta à medida que a cidade cresce, e sua presença começa a incomodar cada vez mais. Há registros do barulho insuportável deles ao chegarem e partirem da cidade, e como seu peso danificava as ruas centrais. Para conter os carros de boi, as autoridades municipais começam a buscar através de leis e regulamentos formas de proibir sua passagem na área central . A principio as novas regras não são acatadas e eles continuam indo e vindo pela cidade Outros sons juntam-se as antigas sonoridades da cidade. O apito de trem simbolicamente anuncia a presença dos barulhos mecânicos, surgem as chaminés e apitos das fábricas, o breque do bonde e com estes toda uma massa de trabalhadores que invade as ruas. Surgem os sons dos mascates , ambulantes de rua e dos entregadores de jornal.

Difícil não lembrar aqui  os registros de Jorge Americano em São Paulo daquele tempo (1895-1915), crônicas repletas de sonoridades. O capítulo  “Insônia” registra os barulho da noite, e parece que o fundo silencioso da cidade torna tudo mais claro,  o ruído das patas dos cavalos, , o bonde da Companhia Viação, o galo da nossa casa. O capítulo dos “Vendedores ambulantes” contempla os barulhos do dia: o badalo da madrinha de tropas, o assobio do amolador, o som metálico de colher batida contra caçarola do folheiro, ao longe escuta-se um pregão fanhoso que ao aproximar-se revela o empalhador, à tarde vem entre nuvens de içás, o anúncio de sorvete e por ai  cidade vai trocando de sons ao longo do dia.

 Em São Paulo daquele tempo os antigos barulhos da cidade  misturam-se aos novos barulhos dos veículos motorizados, do apito do trem , da chaminé da fábrica e dos mascates das ruas.  Mais um pouco, o chiado dos carros de boi desaparece de fato e os sinos não comandam mais o dia a dia da cidade. E surge, cada vez mais forte, este barulho indiscriminado , este ruído surdo misturado de pressa, buzina, breques de onibus, de construção e destruição que vai apagando sorrateiramente nossas lembranças sonoras.

O livro de Aprobato é  muito bem-vindo, não apenas porque nos conta de um passado sonoro que em sua maior parte  desconhecemos, os sons perdidos da cidade colonial e os novos sons da nascente metrópole,  mas porque, ao resgatar os registros sonoros do passado, os barulhos de São Paulo, proporciona a nós leitores,  elementos para  refinar e ter critérios de valor sobre os sons que desejamos ou não para a nossa vida na cidade.

Só para escutar:

Largo da Concordia/ São Paulo

Nivaldo – vendedor de quebra-queixo – Perdizes -São Paulo 2000

Para saber mais:

Aprobato Filho, Nelson, Kaleidosfone, São Paulo: Edusp/Fapesp, 2008

Americano, Jorge, São Paulo Naquele Tempo (1895-1915), São Paulo: Carrenho Editorial, Narrativa Um, Carbono 14, 2004.

RUMOS ITAÚ CULTURAL, Cinco sobre cinco: documentários, Histórias de morar e Demolições, André Costa, São Paulo, 2007. 54’

Paula Janovitch

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6 respostas em “Em busca das trilhas sonoras da cidade de São Paulo

  1. Acredito que a ausência de barulhos não é esquecimento, mas questão puramente técnica. Não havia como registrar de forma portátil, fiel e barata antes de meados do século passado. E mesmo os filmes super-8 sem trilha são resultado de preço. Digo de experiência própria: um super-8 sonoro exigia câmara e projetor três vezes mais caros.Depois disso, do barateamento, deve também ter ocorrido uma maior acuidade por parte de quem se interessa pelo assunto. Hoje, o historiador, como você, dispondo de meios técnicos, preocupa-se com o som cotidiano. Será que essa preocupação que você vê no passado não é projeção do presente?

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  2. Caro “anonimo”. De fato meu olhar esta no presente. Para o passado volto sempre, mas a busca sempre se faz neste vai e vem. Claro que no passado o cinema era mudo. Silencio que dizia tanta coisa não é mesmo? Mas o que quis dizer não tem a ver com falta de lembranças do passado e com elas as dificuldades técnicas de captura. Os sons do passado podem surgir através da ficção, das memórias e de tantas formas. Mas o passado, os sons do passado, me remeteram a uma dificuldade presente na cidade. E por isso escrevi este Versão Paulo que tem a ver com os sons e como eles disparam lembranças. Esquecemos os sons da cidade por uma série de motivos. E hoje, graças a deus temos recursos técnicos que podem ajudar e capturar estas sutilezas dos lugares e pessoas que moram na cidade. Porém, as dificuldades técnicas continuam. Eis eu aqui lutando para fazer um link do audio do vendedor do quebra-queixo e nada. Talvez apele para reza brava ou o recurso intuitivo, desliga, respira, e depois liga novamente. Um grande abraço, Paula

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  3. Lí e depois me transportei para lá através do sons. Quanta música que tem no largo. Ela chama muito a atenção nos seus sons. Na minha percepção, ligamos muito o som com o passado, o que difere da relação que temos com a imagem. Ao ouvirmos participamos mais e somos cocriadores destes espaços gravados e lembrados. O que não acontece tanto com uma imagem registrada. Delas nós queremos nos apossar. Um abraço,parabéns.

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  4. Cara Paula,Leio sempre com interesse suas sensíveis observações sobre a nossa Paulicéia. Curiosamente, seu artigo evocou-me lembranças…olfatórias! Tenho registro de alguns cheiros da minha infância paulistana, alguns agradáveis, outros nem tanto. A mercearia, o grupo de idosos conversando na esquina, a fumaça dos caminhões, deixaram marcas olfatórias em mim. O olfato é nosso sentido mais “animal”, bem menos valorizado do que a audição e a visão. A atual balbúrdia visual e auditiva certamente também se extende aos cheiros da metrópole. Algo a ser resgatado.

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  5. Paula, Paulila, Paulicéia, o seu olhar para a urbe em pânico, captando-lhe os signos mais singulares nos levam liricamente a pensar nos sons que se foram imprimindo em nós, e que se constituíram e se traduzem, hoje, como memória dos múltiplos instantâneos da existência. Da nossa existência e o de uma cidade que foi, como nós, singular em seus sons, até o momento em soou pela primeira vez o apito da primeira fábrica, comunicando que dali por diante uma nova vida começara a palpitar aos olhos e aos ouvidos dos cidadãos ali presentes. A despeito dessa nova realidade anunciada pelo apito da fábrica, vale lembrar o belíssimo e recente artigo assinado por Rosane Pavam na Revista CArtaCapital nº 528, Sons da Solidão, acerca de estudo sobre o ruído na cidade de São Paulo, desde o início do século XX. De Qualquer modo, seu olhar acerca dessas singularidades trazem de volta o desejo de compreensão de uma cidade sui generis, como qualquer metrópole, creio que movida também pelo desejo de desvelar como se processou essa metamorfose e de que modo isso interfere na vida dos cidadãos que habitam uma cidade cada vez mais carente do sublime. Um forte abraço. José Aparecido.

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  6. Ai Janot, como eu queria que um dia fizessemos um monte de projetos juntas. Eu adoro o que vc escreve, tenho muita afinidade com a forma que você olha (olha-vê-ouve-cheira, etc) a cidade, e traduz tudo de um jeito que dá muito prazer de ler. Não sou muito boa para escrever, mas o que posso dizer agora é que são muitas questões em comum, e sempre uma vontade enorme em sair por aí, andando, desenhando, após ler um texto seu. Espero que você escreva ainda muitos e muitos livros.Um beijo grandão da sua sempre admiradoraPaulinha

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