Nas margens plácidas do Ipiranga: capela do Cristo Operário

Na Folha de São Paulo do dia 20, saiu um artigo sobre o reconhecimento de um painel na capela do Cristo Operário. A pintura parece ser de Yolanda Mohalyi, uma artista abstracionista que junto com outros artistas colaboraram com esculturas, painéis, mobiliários e jardins da capela. A revelação do painel que se destaca na chamada do artigo “O mistério da capela do Ipiranga”, indica um outro mistério: a própria capela. Esta, além de repleta de obras de Volpi, Burle Marx, Geraldo de Barros e outros, parece ter sua história pouco conhecida . O próprio repórter, ao comentar a presença de Volpi e Burle Marx, deixa claro que a capela tem freqüência bastante local e que nela foram celebrados apenas dois casamentos. No artigo também ficamos sabendo que a pequena casa de Deus é tombada e foi vizinha de uma fábrica de móveis dos anos 50, a Unilabor. Pra quem não sabe, a Unilabor foi fundada pelo frei dominicano João Batista Pereira dos Santos, vindo da França , com a colaboração de Geraldo de Barros e outros artistas que participavam do MAM e do MASP, quando ambos funcionavam na rua 7 de abril, centro novo da cidade. A idéia do frei João na época em que abriu a fábrica, era fazer um lugar de produção operária que funcionasse em regime de autogestão. O local escolhido para a execução deste projeto foi o Ipiranga onde também surgiu a capela. Esta nasceu totalmente associada a Unilabor. Os painéis de Volpi na capela, com Cristo bastante iluminado por luz natural, revelam ao fundo este viés social, operário com a presença de imagens relacionadas à fábrica e seus trabalhadores bem a contento de um determinado movimento cultural da época que vinculava muitos artistas a causas sociais e urbanas da cidade.

Esta relação dos artistas dos anos 50 com projetos sociais e lugares religiosos também pode ser apreciada em outros templos da cidade. Claro que com uma abordagem diversa, mas quem quiser pode dar uma passadinha na capela do Hospital das Clinicas que verá painéis de Pennachi e Brecheret, Igreja Perpétuo Socorro que tem a presença de Flexor ou ainda a Paróquia Nossa Senhora da Paz, onde há estátuas de Emendabilli, pinturas de Pennachi.

Eu particularmente, ao tomar conhecimento da capela do Cristo Operário e saber que o frei João era dominicano, achei que não era coincidência associar esta capela Cristo Operário com a que Matisse projetou em Vence para as Irmãs Dominicanas de Monteils entre os anos de 1947 a 1951. Assisti a história da construção desta capela francesa num documentário que passou na exposição de Matisse aqui na Pinacoteca de São Paulo. Matisse já doente vai para Vence e lá reencontra sua antiga amiga, que havia cuidado dele algum tempo antes, agora freira, atendendo pelo nome de Soeur Jacques. A freira pede a Matisse que ajude na construção da capela que as dominicanas querem erguer na cidade, e ele aceita. Entretanto, a construção da capela não foi nada tranqüila, a Madre Superiora de Vence relutou muito em acatar os vitrais, mobiliários e desenhos que Matisse projetou para o novo templo. Para ela, aquilo tudo era simples demais para uma capela. Apesar das intempéries da Madre Superiora e comentários maldosos sobre uma possível amizade mais intima de Matisse e sua amiga freira, o templo ficou pronta do jeito que ele quis. O documentário é meio longo, mas acho que valeu mais do que a exposição, porque além de contar a história desta capela de Matisse, acaba por mostrar a importância da luz, e das cores em sua obra, só que aqui, associado à fé.

Voltando à capela do Frei João aqui em São Paulo, na época em que foi inaugurada, anos 50, o bairro, cioso de uma igreja em homenagem a Santo Antonio, não achou muita graça na capela, apesar do frei João incluir em um dos painéis a imagem de Santo Antonio. Por outro lado, os artistas e arquitetos receberam a capela/fábrica como algo extremamente importante na vida cultural da cidade.

Depois de mais ou menos uma década fazendo móveis para a classe média, a fábrica da Unilabor fechou. Restou apenas o lado religioso deste projeto que originalmente uniu fé e classe laboriosa:a capela com o Cristo Operário de braços abertos, no bairro do Alto Ipiranga, permanece avessa a qualquer monumentalidade.

E não sei bem porque neste final de texto, cismei em colocar aquela música do Cazuza que ao falar das mazelas do Rio, desafia a cidade carioca a perceber seu símbolo máximo com olhos mais críticos: “estranho o teu Cristo Rio que olha tão longe, além, com os braços sempre abertos, mas sem proteger ninguém…”

Informações sobre o que foi tratado neste texto:

1.Pra quem quiser ir à Capela do Cristo Operário aqui vai o endereço:
Rua São Daniel, 119
tel: 38818823

2.O livro sobre a Unilabor é de Mauro Claro, editado pelo Senac/SP, 2004.

3.Este link mostra um pequeno trecho do documentário da exposição de Matisse :
http://culturageralsaibamais.wordpress.com/2009/09/28/henri-matisse-na-pinacoteca/

4.O artigo da Folha de São Paulo, “O mistério da capela do Ipiranga” é do dia 20/11/09 e esta na primeira página da Ilustrada.

5. Ver sobre a pintora Yolanda Mohalyi exposição na Pinocoteca de São Paulo, do dia 05 de dez a 21 de fev. Noticia saiu na Folha de SP do dia 05/12/09
d
6. A igreja Nossa Senhora da Paz fica na rua do Glicério, 225. Sobre as pinturas e esculturas, saiu artigo na Folha de São Paulo do dia 07/12/09
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3 respostas em “Nas margens plácidas do Ipiranga: capela do Cristo Operário

  1. Vejo em seu texto a construção de vários momentos da história numa linha do tempo bem traçada e percebo o anseio de compartilhá-la, e inserí-la como algo vivo e presente na vida da cidade. São Paulo parece mais rica, cada vez que inserimos nossas impressões. Gostaria de dizer aqui que vejo muitas imagens, as quais apresentam ação, principalmente ao descrever o processo da construção da Unilabor e na capela dominicana de Vence. É surpreendente a quantidade de informações que vão para um sentido conclusivo coerente. Parabéns Paula! Lívia

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  2. cara paula janovitch,gostei das comparações que vc fez com o cristo do rio e com a capela de matisse. e, em especial, quando vc disse que “a capela nasceu totalmente associada à unilabor”. é uma maneira bonita de contar o que aconteceu lá. obrigado pelo texto.mauro claro (autor do livro sobre a unilabor) / mc@mauroclaro.arq.br

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