Cinema de rua em extinção!

Os primeiros filmes que vi na vida foram nos cinemas de rua. Eu não sou tão velha assim para falar que isto foi há muito tempo atrás. O fim do Astor, onde fiquei tanto tempo na longa rampa em filas homéricas, abraçada no meu namorado, comendo pipoca até as portas enormes se abrirem e corrermos em busca de um lugar para ver o filme em cartaz . O Astor que me causou tanto medo, prazer e liberdade virou Livraria Cultura, com rampa estilizada e só, nada ali lembra mais o meu Cine Astor com sua sutil bilheteria no corredor da galeria do Conjunto Nacional.

Vizinho do antigo Cine Astor, também desapareceu o nome do Cinearte, talvez o parente mais próximo do Belas Artes por ser ele da família dos cineclubes, cinemas com filmes de quem foi mordido pelo amor ao cinema e com este criou laços profundos. Porém o Cinearte sobreviveu como sala e virou Cine Bombril.  Assim repaginado, inaugurou uma nova história de cinemas que mudam de nome conforme seu patrocinador.  No caso o Bombril já virou passado. Mudam os patrocinadores e também altera-se o nome do cinema , o Bombril, “aquele que limpa tudo” , agora deu lugar ao Cine Livraria Cultura .

Tenho boas memórias dos filmes que vi em determinados cinemas, associo o filme que vejo com o lugar, o nome da sala e com quem assisti.  Acho que não sou a única a fazer isto. Gosto do cheiro, da cor do carpete, das possíveis pulgas e das poltronas que nunca são iguais. Lembro da aventura que era ir ao Cineclube  Bixiga,  sempre telefonar e  marcar a poltrona, das semanas temáticas do Cineclube da Getulio Vargas, do filme O Incrível Exército de Brancaleone e como eu ri e chorei porque ao mesmo tempo em que via o filme, lamentava a morte do meu cachorro basset, o valente Totó.

Trailer O Incrível Exército de Brancaleone

No Metrópole, o grandioso cinema de espelhos já falecido há um tempo na Galeria Metrópole (Centro Novo), vi outro filme da minha vida, Olhos Negros. O grande ator Marcello Mastroianni , mocinho do filme, foi o nome que dei para o meu filho de tanto que gostava dele, ao mesmo tempo um homem lúdico e safado. As paisagens do filme e a trilha sonora ligavam-se a minhas raízes oníricas com a Rússia ,  lugar que nunca conheci mas que sempre esteve presente no sangue que corre por minhas veias. O filme viajava pela obra do escritor russo Tchekhov, inspirado no conto A Dama do Cachorrinho. Lembro que entrei de um jeito no cinema e sai de outro. Nunca mais esqueci o olhar triste da mocinha  na última cena do filme ao  lembrar-se   daquele homem sonhador interpretado por Mastroianni.

Olhos Negros

Depois fui muitas vezes ao Center 3, na verdade ao Bristol, até que o fogo pegou no prédio todo, e aquelas armaduras bregas dos valentes soldados da “távola-redonda” que faziam parte da decoração do cinema, provavelmente derreteram junto com o antigo cinema. Diziam que o Center 3 era um edifício maldito, catingado. Demorou um tempo e o Center 3 surgiu repaginado também.  Na mudança, sumiu a catinga do lugar e também a rampa da galeria, cheia de cacos de vidro com um nicho no meio onde se instalou por muito tempo uma loja de flores. No lugar da antiga rampa existe agora uma escada rolante e, onde foi o Cine Bristol, gerou-se uma série de mini bristols que só preservam do original o nome.

O fim do Belas Artes

Neste momento estamos diante de mais um fim de cinema de rua, o Belas Artes, cinema que esta na ativa desde os anos 70. O Belas Artes é da classe dos cinemas de arte, dos cineclubes, como outros que já não existem mais:  o Bixiga, o Oscarito, o Coral .  Ele ocupa um  lugar sacralizado ao cinema de arte na cidade  quase na esquina da  Av.Paulista  com a rua da Consolação. Desta região também  já desapareceu seu fiel vizinho de frente , o bar Riviera, antigo ponto de encontro de intelectuais. O próprio Belas Artes quase fechou as portas há algum tempo atrás, mas graças a reforma e o novo inquilino ressuscitou.

Fui lá outro dia ver Abutres, um filme pra quem tem sangue frio ou ama adrenalina pura, não vou contar o filme. Só digo que para encarar os Abutres, precisa ser muito macho.

Trailer de Abutres

O Belas Artes, se morrer, morre com qualidade de filmes e freqüência de várias estrelinhas e poucos cifrões no caixa. Os mais ortodoxos vão dizer que o som é ruim, nada comparável aos grandes cinemas de shopping e que já vai tarde.  Entretanto ele tem semanas temáticas, ingressos mais em conta e eu, particularmente, detesto o “ruído” que o shopping causa quando quero ir apenas ao sagrado cinema. Primeiro é o inferno do estacionamento, achar uma vaga, depois encaixar o carro na vaga que tem o tamanho de uma caixa de fósforos, depois de conseguir estacionar o carro na caixa de fósforos, memorizar o como e onde encontrá-lo novamente na volta. Ai temos que subir várias escadas rolantes, várias, porque o cinema obviamente esta no último andar. As escadas te fazem rodar de propósito por corredores e lojas, praça de alimentação e etc… até que finalmente você chega no último andar, no Olimpo, onde estão os cinemas e uma fila enorme de gente que chegou antes de você. Em suma, acho que o crime muitas vezes não compensa.

Prefiro a Alma Encantadora dos Cinemas de Rua

Sou a favor da rua, da qualidade democrática que esta oferece aos habitantes da cidade. Sou a favor que os cinemas não mudem de nome por conta de seus patrocinadores, e sou a favor de uma programação de qualidade que faça o cinema de rua continuar a ser um lugar de referência das nossas produções imaginárias e culturais. Lugar de afeto, de medo, de sono, de horror e de profundo amor. O tombamento no caso do Belas Artes parece que não vai resolver a questão , existe um proprietário que se nega a dar um passo em  favor do cinema mesmo com a possibilidade de tombamento. Pesa sobre o edifício a ser tombado o fato de ter sofrido uma grande reforma: suas características arquitetônicas originais se perderam, porém, sua qualidade de filmes é histórica e se mantém . Este espírito de cineclube que se conserva como tal até os dias de hoje resulta na produção de um lugar de referência na cidade voltado para uma determinada expressão cultural reconhecida de forma viva pela população paulistana , ou seja, um espaço público (pensando na área que o imóvel se insere) voltado para a exibição cinematográfica. Isto é algo bastante relevante e deve ser levado em conta na avaliação de um bem a ser tombado, o edifício permaneceu fiel ao seu caráter, afeta o lugar e é afetado por este.

Porém, resta saber como preservar e garantir que esta qualidade da arte/cultura aliada a um lugar seja assegurada na vida da cidade de maneira efetiva. Estamos diante de um grande impasse que revela o quanto as pessoas se mobilizam para defender aquilo que gostam e usam. Porém cabe ao poder público perceber que precisa ter mais formas de garantir à cidade e a população desta que estes lugares que pertencem a preservação ambiental de nossos espaços imaginários, culturais e coletivos sejam salvaguardados para além dos interesses imobiliários presentes de forma acintosa em São Paulo.

Para finalizar este texto, domingo dia 06/02, li no jornal o Estado de São Paulo um artigo sobre o cinema, as salas de exibição e uma mudança na forma de assistir aos filmes. O Belas Artes cabe nesta discussão que  também vem derrubando vários cinemas de rua, como mostrando que a alma coletiva das ruas anda por um fio. Como diz a reportagem, as pessoas preferem cada vez mais assistir filmes de forma individualizada. Porém acho que isto de individualismo, sem barulho de pipoca, pulga e evidências de outros interlocutores rindo ou roncando, torna a vida muito sem graça e a maior prova disto é o monte de depoimentos em defesa dos cinemas de rua que surgiram  com o possível fechamento do Belas Artes . Estes depoimentos  mostram também  que há um desejo de preservar o cinema de rua, pela  imprevisibilidade deste , pelo prazer que é o encontro apressado na porta do cinema, pela combinação que se dá há anos entre a pipoca estourada na calçado e o início de mais uma sessão, da diversidade tão interessante deste encontro das salas de cinema que só a rua proporciona.

Paula Janovitch

Para saber mais:

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/01/1400848-nabil-bonduki-cine-belas-artes-um-avanco-fundamental.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,salas-de-rua-sao-hoje-reservas-ecologicas-de-civilidade-,1080691,0.htm

http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/09/12/tombamento-do-cine-belas-artes-complexidade-do-tema-desafia-o-compresp/

Artigo de Nabil Bonduki:

http://sergyovitro.blogspot.com/2011/01/nao-deixe-o-cine-belas-artes-fechar.htm

Blog de André Barcinski – A última sessão de cinema

http://andrebarcinski.folha.blog.uol.com.br/arch2011-01-16_2011-01-22.html

Como leitura, indico aqui o livro do Inimá Simões sobre as salas de cinema de São Paulo, além do texto de quem conhece muito da história dos cinemas de São Paulo,  tem fotos interessantes das salas de exibição .

Inimá Simões, Salas de Cinema em São Paulo, ed. Sec. Municipal da Cultura de SP/ Secretaria de Estado de São Paulo.

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7 respostas em “Cinema de rua em extinção!

  1. Os da minha infância foram Itamaraty (na rua Barão de Tatuí) e Esmeralda (na General Olímpio da Silveira. O prédio do primeiro nem existe mais. O do segundo abriga uma loja de tecidos.

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    • Querido JPA, acho que este Esmeralda fica perto da minha casa. Quanto ao Itamaraty, não conhecia, mas acho legal emprestarmos nossas memórias dos lugares para a cidade, talvez assim eles levam a sério a importância delas para nossa vivência urbana. bj

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  2. Paula, super bonito seu texto! Gostaria de saber se vc encaixaria em sua argumentação a fragmentação das grandes salas em múltiplas, mantendo-se o cinema na rua mas criando-se salas 1, 2, 3… O Belas Artes mesmo, em algum momento de sua vida, fragmentou-se em salas – Aleijadinho, Carmen Miranda, etc. Vc não acha que essa divisão em salas menores já era um indício do fim dos cinemas de rua?

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    • Mauro, demorei um pouco pra responder porque eu estava pensando no que voce observou sobre o texto do Versão Paulo. Na verdade fui consultar os universtários e através deles de fato fica claro que a criação de salas menores surge nos anos 70, com a crise dos cinemas. Evasão das grandes platéias, surgimento da TV, a maioria das salas de cinema não tinha imóveis próprios e com a especulação imobiliária, principalmente no centro, estes proprietários acabam alugando estes espaços para estacionamentos, igrejas, lojas e etc…O Belas Artes que antes chamava-se Trianon, sobreviveu transformando-se em várias salinhas, talvez no formato que conhecemos hoje com o nome dos nossos artistas nacionais, Portinari, Villa Lobos, Mario de Andrade, Aleijadinho, Carmen Miranda. E assim o Belas Artes sobreviveu, transformando-se.
      beijo e obrigada pelo elogio ao meu texto. Paula

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  3. paula,

    não imaginava que o Belas Artes se chamara antes Trianon e olhe que eu o freqüentei muito na volta dos anos 1973 em diante, até os 1985-90. depois diminuiu minha freqüência a cinemas em geral – veja só, sigo a curva.

    bj e super obrigado pela gentil pesquisa!

    mauro

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