A dinâmica dos nomes de ruas na cidade de São Paulo *

Ilustração

Ilustração “Minhocão” de Paula Gabbai. Jan/2009

Na rua sem resistir

                              me chamam

                                                     torno a existir (Paulo Leminski)

Resolvi escrever este post depois de ler um artigo no Estadão sobre a proposta do vereador Nabil Bonduki de mudança de nome do Elevado Costa e Silva aqui em São Paulo para como é mais conhecido, Minhocão.

Conforme o artigo, a mudança de nome busca fazer uma revisão do passado recente da história brasileira que acabou ficando cravado em muitas ruas da cidade. Para quem não sabe, Arthur Costa e Silva foi o segundo presidente militar do país, “era da chamada linha-dura do Exército e foi quem editou o Ato Institucional 5 (AI-5) em dezembro de 1968”.

Por sorte Costa e Silva morreu de um derrame logo no inicio de seu mandato, mas o nosso querido governador à época, Paulo Maluf, que estava inaugurando o Elevado (1971), resolveu como é de praxe até os dias de hoje, homenagear o presidente falecido colocando seu nome na nova via da cidade.

Por obra do destino, o Elevado que até hoje é motivo de tantos debates por “rasgar” a Av. São João de uma forma totalmente truculenta, com o correr dos anos passou a integrar e fazer parte da vida da cidade. Hoje, para os moradores dos edifícios da São João, foi conquistado o direito ao silêncio durante à noite quando este permanece fechado, assim como aos domingos e feriados a via dá acesso apenas aos pedestres e transforma-se em um lugar de lazer interessante para quem vive na área central.

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Mas o que mais me chamou atenção na proposta do Nabil em relação a mudança de nomes vai além dos fatos vinculados a ditadura e o justa expressão do desejo de apagar das ruas da cidade referências que tenham a ver com os anos de chumbo.

Alguém já se perguntou por que o Elevado Costa e Silva foi mais reconhecido por seu apelido de Minhocão do que por seu nome de batismo?

A resposta para alguns pode parecer óbvia, Minhocão tem a ver com a formato que a via toma ao passar sobre a São João: uma grande minhoca ou cobra que liga a zona leste à zona oeste de São Paulo. Mas talvez poucos pensaram qual o sentido que um apelido adquire quando de fato torna-se referência principal de um lugar ou pessoa. E é justamente isto que gostaria de destacar na proposta do vereador Nabil Bonduki.

Um apelido chama atenção por algo no caráter da pessoa/lugar que se destaca. Muitas pessoas detestam seus apelidos, outros até os incorporam e passam a pedir para serem chamadas por esta outra referência criada a partir de algo que nasce de uma expressão, forma ou caráter criado na maior parte das vezes pelo olhar de um outro.

Neste sentido, não é por mero acaso que na história do humor, muitos personagens ilustres que foram caricaturados acabaram por receber apelidos ligados em sua maioria a traços físicos ou expressões do seu caráter facilmente reconhecíveis à época.

Aqui segue um caso clássico de transformação caricatural criado por Philipon (1834). Em quatro ilustrações da cabeça do Rei Luis Filipe ele se transforma em uma pêra.

lespoires

O apelido de Minhocão para mim chega a abordar com certo afeto o que esta via concentrou ao longo de sua história. Começando por seu nascimento, pela mãos de um governador que pouco se importava com o impacto humano da obra e por quem tratou a cidade como prolongamento natural de suas propriedades.

De certa forma o Minhocão é mais uma alusão canhestra ao nossa tradição colonial onde os senhores decidiam como, onde e de que maneira trilhariam seus caminhos da casa para a roça e da roça para casa. O que no caso do Sr. Paulo Maluf poderia ser traduzido pela empresa da sua família, a Eucatex, que ficava bem no final do Elevado em sua direção oeste. Depois o crescimento engoliu tudo, inclusive este lembrança amarga da via traçada diretamente para a roça da família do governador. Paralelo a isto, o apelido de Minhocão “pegou” e permaneceu em uso até os dias de hoje, incorporando tudo de bom e de ruim que a via urbana adquiriu em sua história.

As ruas precisam com urgência voltar a ser só ruas!

Era comum nas cidades coloniais brasileiras, incluindo a nossa querida vila de São Paulo de Piratininga, que os nomes das ruas estivessem intimamente ligados ao seu uso (aspectos culturais) e a sua geografia (acidentes naturais). Hoje temos poucas ruas com nomes herdados deste longo período que vai da fundação da cidade à 1897. São ruas que de fato sobreviveram a enxurrada de homenagens e alusões presentes a partir do regime republicano.

De fato como afirma Nabil, precisamos fazer um levantamento dos nomes de ruas que lembram este passado nefasto dos anos de chumbo, onde temos generais, coronéis e presidentes elogiando algo que de forma alguma pode ser incorporado com orgulho à vida e nomenclatura das ruas da cidade. Porém, nossas ruas primariamente trilhadas à mão e no trote dos burros, vão perdendo seu sentido de uso, e parte disso esta na forma como os nomes são dados à elas a partir do final do século XIX.

Quase como monumentos, passaram de sua função de uso à locais de honrarias, expressão de pura abstração desvinculada de qualquer lógica espacial ou coerência histórica.

Os nomes das ruas

Coincidentemente no momento em que faço este post, chega pelo Facebook uma chamada que na Câmara alguém tenta passar a proposta para que o Viaduto do Chá tenha seu nome estendido para Viaduto do Chá Mário Covas. O que mostra que a cisão entre nomes e ruas é em si uma prática comum e totalmente desrespeitosa com até as mais tradicionais vias da cidade.

Tivemos há tempos atrás, uma rua Alegre que ficava próxima de outra que se chamava da Boa Morte, haviam também os caminhos, e um deles ia para a Forca e seu nome era Caminho da Forca, e ainda tivemos vários becos, largos, travessas e ladeiras que nada mais eram do que denominações dos contornos da topografia da região somados ao alinhamento das casas.

O Beco da Merda é exemplar de um fim de rua da cidade que carregava no emblemático nome sua função literal, porque de fato ali eram jogados dejetos humanos das casas dos arredores. Assim como podemos pensar que existia uma rua Alegre e outra da Esperança e, possivelmente uma Triste, e uma outra da Boa Morte quem sabe quando a tristeza, alegria, esperança e morte andavam juntas pela cidade.

Ainda permanecem na cidade algumas ruas que nos lembram destes outros tempos, onde ruas e nomes andavam juntos e de mãos dadas. A Ladeira Porto Geral lá na área central de São Paulo faz referência a um porto, o Porto Geral porque bem ali embaixo passa o rio Tamanduatei e havia de fato um porto nele. Nós não vemos mais o rio, mas ele permanece ali canalizado e, por muito tempo, pelo Porto Geral, um dos portos mais importantes da cidade, fez-se o transporte fluvial de mercadorias para os habitantes da cidade de São Paulo.

E poderia aqui citar outras tantas nomes de ruas presentes e ausentes da cidade que tinham como função principal dar sentido , localização e função para a vida de quem andava pela vila da acanhada Paulicéia. Até poderíamos pensar em ampliar a proposta do Nabil, e fazer um levantamento de quantos nomes de logradouros temos de homenageados ilustres que se concentram nas ruas de São Paulo e nada significam para a cidade.

E por que não ir mais para trás, visitar a seção de logradouros públicos do município de São Paulo e ver de fato quais os antigos nomes que várias destas ruas tinham antes de virarem pouso de generais, deputados e vereadores? E por que não recolocá-los em uso, um mundo em transição, até que o uso tome o lugar como um apelido se sobrepõe ao nome próprio.

Ruas de São Paulo homenageia empresários que apoiaram o golpe e a ditadura

Ruas e memória

Mais referências sobre este post:

1.* O titulo deste post faz alusão direta a um livro editado pela AnnaBlume que tem como assunto principal uma reflexão sobre os nomes dos logradouros da cidade de São Paulo entre 1554-1897. O pequeno e substancioso livro é de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick e foi publicado em 1997. O livro vira e revira estes nomes das ruas da cidade ligados aos acidentes naturais e culturais de São Paulo entre os “Quinhentos aos Oitocentos”, porque foi neste período de tempo , da fundação da vila em 1554 até a fixação destes topônimos, 1897, que eles de fato vincularam-se à vida da cidade de São Paulo, como os apelidos, exatamente como o Minhocão.

2. São Paulo de Outrora de Paulo Cursino de Moura trata das história das velhas ruas de São Paulo. Livraria Itatiaia Ed. Ltda, 1980.

3. Ruas e Tradições de São Paulo de Gabriel Marques é outro livro que conta “uma história em cada rua”. Editado pela Conselho Estadual de Cultura, 1966.

4. O trecho do documentário sobre o Minhocão Elevado 3.5 aborda um pouco desta alma da via maldita e bendita e vale a pena ser visto na integra.

5. a ilustração que abre este post é da arquiteta e artista gráfica Paula Gabbai e foi gentilmente cedida para esta matéria. (Muito obrigada Paulinha!)

6. As imagens do Minhocão em slideshow foram tiradas por mim num destes dias de domingo.

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