Além Muros…

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Ilustração do Cabrião. Sec. XIX. Agostini

…Criar, preservar e destruir, do equilíbrio das três condições é do que depende o sucesso de toda empreitada humana. Quando criar, quando preservar e quando destruir são equações que os sábios fazem constantemente. ( Pensamento da coluna “Astral” do dia 18 de setembro de 1994, ESP)

Na mesma folha surgia forte, contundente como sempre, a crônica de Caio Fernando Abreu  “A úlitma carta para além muros”, quando Caio se declarou publicamente HIV positivo e passou a cultivar seu jardim, ceifar ervas daninhas, lutar contra a morte, gerar vida, criar e preservar como habilmente só “os sábios fazem constantemente”.

Desta “carta-crônica” Caio transpôs as janelas-hospitalares, curadoria do “corpo-frágil”, da doença e da saúde, e nos deu a dimensão exata daqueles longos muros caiados de branco que ocupam um grande espaço na vida da cidade paulistana – o cemitério.

“Certas manhãs chorei, olhando através da janela os muros brancos do cemitério do outro lado da rua. Mas à noite, quando os neons acendiam, de certo ângulo a Dr. Arnaldo parecia o Boulevard Voltaire, em Paris, onde vive um anjo sufista que vela por mim. Tudo parecia em ordem, então. Sem rancor nem revolta, só aquela imensa pena de Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram só um dia depois do casulo…”

De um outro ângulo, o poeta José Paulo Paes numa brincadeira para distrair seus sobrinhos cria, em 1984 “É isso ali”. Declara o poeta numa entrevista à Revista da Folha sob o título “O alquimista e o jabuti”:

“Passava diante de um muro branco de cemitério e dizia: – Você sabe o que tem ai dentro? Plantação de defunto…”

O cemitério se fez presente na vida da cidade. Da verdade árida do poeta que vê a morte através das janelas do Hospital Emilio Ribas, mas também transpõe a rua e percebe que esta cidade-cemitério além muro, sitiada dentro da cidade dos vivos, possibilita um intervalo espacial, escuro, silencioso, panorâmico no qual a cidade grande vibra através dos neons, até a presença do cemitério-brincante de Paes onde o espaço da morte torna-se “caixinha de surpresas”, “plantação de defunto” no coração da cidade.

Com as transformações urbanísticas que se acentuaram no século XIX, a cidade passa por grandes reformulações que vão desde hábitos novos até mudanças espaciais. Estas mudanças surgem vinculadas a uma idéia de cidade, de vida urbana baseada na saúde pública, na salubridade e insalubridade do viver urbano onde os vínculos religiosos em relação à morte serão profundamente revistos.

Os cemitérios como os concebemos hoje, surgiram nas cidades modernas para ocuparem seus limites periféricos. Buscavam-se lugares altos, distantes afim de que fosse evitado o risco de contaminações e doenças provocadas pela insalubridade dos corpos em putrefação. A idéia em linhas gerais era isolar a cidade dos mortos da cidade dos vivos. Isto obviamente na cabeça dos planejadores, urbanistas, médicos e engenheiros que procuravam ordenar o espaço urbano de forma mais higiênico.

O povo, de opinião contrária, acostumado com a convivência com seus mortos, não aceitou o fato de que teria de enterrá-los longe das igrejas, longe dos vivos e, mais ainda, longe do “dedo de deus”. Até então, os enterramentos eram feitos ao redor das igrejas ou mesmo para os religiosos e os “homens de bem”, sob seu teto sagrado. Acreditava-se que quanto mais o morto estivesse próximo da igreja mais perto de deus estaria. A “boa morte” ocupava o solo sagrado.

Ao longo do século XIX foram surgindo leis proibitivas quanto às práticas de enterramentos dentro das igrejas, em covas rasas, sob o chão onde os vivos congregavam, alegando-se o perigo de contaminação pelos “miasmas” que exalavam dos corpos em putrefação.

Mas as leis proibitivas  não ficaram apenas dentro da igreja, o espaço urbano organizado a partir do modelo higienista exigia regras também quanto ao hábito das procissões e cortejos que anunciavam e acompanhavam os mortos nas ruas do vilarejo.

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Relata Ernani da Silva Bruno em História e Tradições da Cidade de São Paulo que a cidade, no século XIX, cultivava o hábito de “repicar os sinos” inúmeras vezes sempre que alguém  morria em uma das paróquias da vila, assim como levar seus mortos em cortejos e sepultamentos que muitas vezes eram acompanhados por cantigas profanas e, dependendo da posição social da família do morto, com grande abundância de cera para as velas que acompanhavam o cortejo fúnebre.

Por vezes os enterramentos nas igrejas ou nos cemitérios ao redor das paróquias aconteciam à noite deixando os morados vizinhos aterrados com as cantorias e socamentos dos negros “que à medida que jogavam terra sobre o cadáver e socavam com a mão de pilão, cantavam assim:

” Zi boca que tanto fala. Zi boca que tanto zi comeu e zi bebeu. Zi corpo que tanto trabaiou. Zi perna que tanto andô. Zi pé que tanto pisou.”(Bruno, 759)

A cantiga ainda soava mais triste quando o corpo cansado dos próprios negros, escravos e indigentes, seguia envolvido em redes pela entrada da cidade até o fim da rua da Glória onde “jazia o cemitério dos Aflitos, com seus quatro muros de taipa, hirtos e desnudos. O campanário gemia lúgubre a cada enterro de escravo. A cova, outros negros a abriam, repetindo a cantilena fúnebre…”( Azevedo, 51) Ali, a céu aberto, em valas comuns, realizavam-se os enterros dos “anônimos”, daqueles que não tinham direito a sepultamento digno no “solo sagrado” das paróquias.

A partir de meados do século XIX, a Câmara Pública se vê às voltas com a procura de local para implantar um cemitério isolado e afastado do núcleo populacional. Forma-se uma Comissão. Primeiro se cogitou  o Largo de Guaianazes ( Campo Redondo), mas foi rejeitado por ser muito povoado. Finalmente, escolheram uma das saídas da cidade, “estrada para Sorocaba”, na Consolação, onde não havia moradores. ( Loureiro,63)

Em 1854, o Cemitério público da Consolação saía do papel. A construção estava sob a direção da Câmara Municipal que era composta por vereadores e instância da “parte civilizada da população” interessada em acabar com os “perniciosos costumes de se fazer enterramentos dentro das igrejas.”( Martins, 1-7)

Dois anos depois surgia o primeiro Regulamento para os Cemitérios da Cidade de São Paulo onde se estabelecia toda a legislação que regeria o funcionamento da “cidade dos mortos”, o traçado interno em forma de quadrilongos, a obrigatoriedade de muros, ruas arborizadas, a profundidade das covas, o tipo de sepulturas e a distância entre elas.

A luta foi longa para que o cemitério, como cidade dos mortos, passasse a ser considerado lugar para enterramentos de todos os habitantes, principalmente dos religiosos e dos “homens de bem”, que deveriam ser transladados das igrejas para o novo local.

O Regulamento que dispunha sobre os cemitérios também ordenava como e por quem os sepultamentos  deveriam ser conduzidos. Assim, aqueles cortejos repletos de velas, as “assustadoras” cantilenas dos escravos africanos ao socarem a terra iriam desaparecer para dar lugar aos caixões higiênicamente vedados, aos transportes mecânicos de vários tipos, conforme o poder aquisitivo de cada um.

Com o surgimento do novo Cemitério Público também desapareciam as valas comuns do antigo Cemitério dos Aflitos (1774), só restanto como lembrança a Igreja dos Aflitos que permanece solitária na antiga Chácara dos Ingleses, entre a primitiva rua dos Estudantes e rua da Glória.

A cidade foi crescendo e se expandindo. O cemitério a céu aberto vai tornando-se cada vez mais parte integrante da cidade. A saída da cidade, o ” fim de mundo” estava, neste outro momento, às vista de outro poeta, Àlvares de Azevedo que chamava seu Satã em Macário para tomar o burgo paulistano

” – Daqui cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Hás de vê-la desenhando no céu torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como uma eça de enterro.”

Nessa noite tão escura, ” como eça de enterro”, o grupo de Àlvares de Azevedo, responsável pelos famosos ritos byronianos e pela poética noturna da sonolenta paulicéia do século XIX, transpõe os muros do cemitério da Consolação. Aliado a Satã, acometido dos princípios de Byron, o grupo toma a cidade dos mortos de assalto. Rompendo o isolamento proclamado pela saúde pública, o grupo profana os túmulos, elege sua ” Rainha dos Mortos” e desperta a morte para além muros. ( Cavalheiro, 1,2,3).

A aliança entre vivos e mortos se refaz novamente. As cidades se confundem, uma torna a outra eloquente. ( Ariès, 17-64). Dentro do cemitério, tumbas são profanadas. lápides são lidas e histórias da cidade, dos amores, dos encontros e desencontros, das epidemias, vão formando um acúmulo de escritas, palimpsestos que vão sendo sobrepostos à medida em que a cidade vai crescendo e se transformando.

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Na virada do século XIX para o XX, o cemitério da Consolação e o Araçá, implantado posteriormente, 1897, são englobados pela cidade. No Relatório da Intendência Municipal de São Paulo para o ano de 1893 já encontramos preocupantes referências quanto ao aumento de moradores na região do Cemitério da Consolação. No trecho em que o Relatório salienta a necessidade de ampliação da área atual deste cemitério destaca-se a advertência da total impossibilidade disto ocorrer “por se achar o referido Cemitério encravado na cidade, rodeado de casas que vão se multiplicando continuamente.”(grifo meu)

Mapa do Cemitério do  Araçá e seus arredores no muro do cemitério Av. Dr. Arnaldo

Mapa do Cemitério do Araçá e seus arredores no muro do cemitério Av. Dr. Arnaldo

A partir destas transformações que englobam o cemitério à cidade, o espaço cemiterial a céu aberto adquire movimento e, de local distante,”fim do mundo”, saída da cidade, passa cada vez mais a ser parte integrante da vida urbana paulistana.

Os muros que isolam os vivos dos mortos transformam-se em acervos da cidade. O cemitério à céu aberto, onde as valas profundas e os caixões isolam a morte da saúde dos habitantes urbanos assume também função de registro da cidade, memória da história de seus moradores.

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Para além das valas, dos caixões e dos muros surgem as construções funerárias que individualizam a morte e recriam num movimento para o céu a vida do morador urbano. As lápides, mausoléus e capelas compõem o desenho final desta cidade dos mortos, onde o “silêncio”da “última morada” é também intervalo panorâmico, espaço de reflexão para os vivos pensarem mais sabiamente sobre suas formas de habitar a cidade.

Para nós moradores fica a difícil equação inicial: “Quando criar, quando preservar e quando destruir…”. A encruzilhada está dada, resta sabermos como equilibrar este sensível espaço construído nas tramas da cidade.

Paula Janovitch

Este artigo, “Além Muros”, saiu originalmente  na revista Cidade N. 4, Revista do Departamento do Patrimônio Histórico/Secretaria Municipal de Cultura, SP, 1996. pp. 126-129

Para saber mais:

Paula Janovitch, ver também a pesquisa História da formação do cemitério particular israelita de São Paulo.

Philipe Ariès, História da morte no ocidente: da Idade Média aos nossos dias, ed. Francisco Alves, RJ. 1977

Maria Amélia Salgado Loureiro, Origem Histórica dos Cemitérios, ed. Secretaria de Serviços e Obras do Município de São Paulo. 1977

Vicente Azevedo, O noivo da morte ( Alvares Azevedo), s. e, 1970.

Ernani da Silva Bruno, História e Tradições da Cidade de São Paulo, vol I, II, III, ed José Olimpio, RJ, 1953.

Edgard  Cavalheiro, Fagundes Varella, ed. Martins, SP, s.d

Relatório da Intendência Municipal de São Paulo, 1893 ( Cesário Ramalho da Silva)

Antonio Egydio Martins, São Paulo Antigo, ( 1554 a 1910), Typographia do “Diário Oficial”, SP, 1912.

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