Amigo Tempo: um nicho do muro do Cemitério do Araçá

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Entre as inúmeras maneiras de nos percebermos integrantes do espaço público da cidade, talvez uma delas seja  reconhecermos no nosso percurso expressões que tornem-se parte do lugar. Lembro na minha infância de marcar no caminho que fazíamos  de casa para a escola um castelo da bruxa, uma mulher de bigodes e  um homem de rabo de cavalo que preenchiam sem eu saber meu mapa da cidade. O castelo da bruxa, que existe até hoje, ficava no jardim paulistano, uma destas casas de aparência inglesa, de tijolos vermelhos e telhados pontudos que saia diretamente das histórias de bruxa e se colocava na nossa rotina escolar. A mulher de bigode e o homem do rabo de cavalo eram então os  dois outros personagens que mostravam que a cidade não era feita nem de um rosto só e muito menos de um único tipo de rabo. Tudo isto poderia muito bem ser parte de uma história infantil mas era de fato a maneira que eu me integrava a cidade.

Com o tempo o percurso mudou. A mulher de bigode desapareceu. Vim a saber mais tarde que isto de bigodes em mulher era coisa de gente que vinha de Portugal. E também soube  que o homem de rabo de cavalo era um sujeito que se achava de fato um cavalo.  Não só para mim ele havia traçado um marco de referência na cidade,  outros haviam visto o  mesmo homem cavalo que batia os pés e abanava o rabo num boteco bem onde  é a Tok Stok do Butantã.

Hoje outros marcos, humanos ou não,  me chamam atenção no percurso que faço. O trânsito que flui cada vez menos ajuda a olhar cada vez mais e, talvez sem querer, refaço o diálogo que aprendi na infância. Foi assim que passei a ser amiga deste sujeito da foto do post. Soube pela texto da socióloga Fátima Antunes do  Departamento de Patrimônio Histórico que ele se chama oficialmente TEMPO. Foi implantado ali  na rua Major Natanael num nicho do Cemitério do Araçá em 1945 na gestão de Prestes Maia. O autor da escultura é o artista João Batista Ferri (1896-1978). E que em outros dois nichos ali existentes a idéia era implantar mais duas esculturas que fariam em composição com o cemitério uma reflexão sobre a “meditação dos homens sobre a transitoriedade dos seus dias.” (Correio da Manhã, 8/out/1945)

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Os dois outros nichos estão vazios até hoje como se dali tivessem sido arrancadas as companheiras do Tempo,  algo que de fato nunca aconteceu. Mas o meu amigo Tempo permanece ali firme e forte. Por vezes passo por lá e  esta limpinho como novo. Penso que devem ser os banhos que a Prefeitura dá. Outras, e estas são muitas mesmo, me divirto com a forma como outras pessoas interagem com ele. Já vi o Tempo, que eu chamo de Cronos, Amigão, Corujão e Moisés, vestido de mulher, com guarda-chuva, unhas pintadas de preto e até com as tradicionais flores e velas dos trabalhos de macumba.

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Talvez tenha gente  de opinião  que estas intervenções humanas  no monumento sejam simplesmente degradar mais ainda a paisagem visual da cidade. Porém, olhando os dias, o percurso das pessoas, penso que  isto é muito  relativo quando a tal  intervenção  cumpre esta função tão interessante e prazerosa de integrar a cidade na nossa vida e vice-versa.

Que a Prefeitura continue a cuidar de dar banho no Tempo e preservar sua pele natural. Porém é muito bom saber  que meu amigo não esta  só ali no único nicho ocupado, mas que outras tantas pessoas se sensibilizam das formas mais diversas com sua presença e continuam a acolhe-lo  como parte da história de cada um  pela cidade e porque não da transitoriedade dos nossos dias aqui na Terra.

Mais referências sobre o Tempo:

Fatima Antunes, Departamento de Patrimônio Histórico, texto sobre a obra Tempo, Março de 2009

https://www.google.com/maps/d/embed?mid=zV1whZhkhe4A.k2Eiize8BlfA“>Guia dos deslocamentos das estátuas de São Paulo: siga o seu monumento

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3 respostas em “Amigo Tempo: um nicho do muro do Cemitério do Araçá

  1. oi paula

    eu morava na rua angatuba e quase todo dia fazia o percurso de casa até um supermercado que ficava na consolação com alameda santos, chamado “sirva-se”.
    cansei de ver e de admirar essa estátua e, agora que sei que é o tempo e que tem uma corujinha, admiro-a mais ainda.
    jesus

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