Fechar a torneira

O Diabo Coxo, 6 de out. 1865. Agostini

O Diabo Coxo, 6 de out. 1865. Agostini

Para quem acha que brasileiro não vive sem banho, a história mostra que nem sempre a nossa vida foi a de Zé Limpinho. Os banhos de banheira por exemplo, até o começo século XX, eram bem comedidos. A maior parte das pessoas não tinha o hábito de entrar com o corpo inteiro na água porque temia se afogar. Nossos antepassados também acreditavam que ao mergulhar o corpo todo na água poderiam adoecer. Diziam que este   liquido que anda escasseando na cidade de São Paulo “aguava a força vital”.

Com tanto temor aos malefícios da água quando em contato com corpo, uma cultura da limpeza à seco fez parte dos hábitos de higiene pessoal e doméstica na cidade de São Paulo. Os banhos eram pouco frequentes, aos finais de semana, em tinas com pouca água misturada ao vinagre ou “águas de rosa” e ervas. Uma roupa bem passada, valia mais do que um banho bem tomado.

O Cabrião. 07 de abril de 1867.  Agostini

O Cabrião. 07 de abril de 1867. Agostini

Para a higiene bucal, médicos e barbeiros recomendavam um pedaço de fumo esfregado na gengiva e nos dentes. A cachaça ganhava múltiplos usos, inclusive fazia as vezes dos antissépticos bucais atuais.

Para o asseio de casa, o uso de braseiros aqueciam os quartos e, ao mesmo tempo, purificavam o ar. Para a limpeza do chão e dos móveis também não se usavam baldes e mais baldes de água. Tudo era limpo com um pano umedecido e uma variedade grande de vassouras de ervas e piaçaba.

Óbvio que quem possuía em casa nascentes de água poderia se dar ao luxo de esbanjar na limpeza, mesmo assim, as pessoas não usavam tanto a água como hoje em dia.

Mas, o que me parece uma das dicas mais bacanas dos outros tempos, não tem muito a ver com as alternativas de limpeza à seco. A questão que me chamou mais atenção ao ler sobre o assunto, foi pensar como passamos a depender tanto da água ao longo do século XX.

Cartão postal. RJ. 1905

Cartão postal. RJ. 1905

Dentre muitas justificativas históricas que explicam como a água foi se tornando cada vez mais presente na limpeza do corpo e na vida doméstica, uma me parece bastante relevante para o nosso momento atual, passamos a depender mais da água a partir da introdução dos modernismos higiênicos lançados no início do séc. XX. Descargas automáticas das latrinas, banhos de chuveiro e torneiras instaladas em várias lugares da casa estimularam a mudança de usos da água ao longo do tempo e geraram o consumo intenso atual.

A água que antes fluía à olhos vistos pela cidade era usada com mais parcimônia do que quando, valorizada pelos preceitos higienistas, passou a desaparecer da paisagem urbana e chegar em casa encanada. Acho que só com esta última dica dá pra fechar a torneira.

Para saber mais:

Sant’Anna, Denise Bernuzzi de. Cidade das Águas: usos de rios, córregos, bicas e chafarizes em São Paulo ( 1822-19010). São Paulo: Senac. 2007: O capitulo que utilizei para fazer este post  foi “Asseio a seco”.

Vigarello, Georges, O Limpo e o Sujo: uma história da higiene corporal. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

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10 respostas em “Fechar a torneira

  1. Excelente artigo.
    Dom João VI mesmo, só passou a tomar banhos (de mar) por conta das diversas feridas causadas por parasitas!
    O fotógrafo carioca Militão Augusto de Azevedo tem uma foto do largo e da rua de de São Bento, essa em direção ao largo São Francisco. A Casa de Banhos Sereia Paulista aparece do lado direito. (Uma pena não poder publicar fotos nos comentários).

    Nesse link, da minha página no FB tem a foto https://www.facebook.com/SampaHistorica/photos/a.404096939644209.98761.288258461228058/401454716575098/?type=3&theater

    Um abraço!

    Curtir

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