Delírios Psicodélicos : Cracolândia, Campos Elíseos e Higienópolis

Antiga Rodoviária da Luz. Acervo Biblioteca FAU/USP

A área da antiga rodoviária de São Paulo, no Campos Elíseos, por algumas décadas tornou-se um terreno vago. Ali, naquele vazio rodeado de casarões antigos, tendo a Estação de Trem Sorocabana a frente e a introvertida Sala São Paulo como vizinhas, a extensa área virou um terreno baldio. Para quem passava por ali, até meses atrás, havia um campo de futebol, onde também era frequente uma outra presença que tomou aquele território, a conhecida Cracolândia. Inúmeros projetos surgiram na imprensa anunciado novas ocupações para o terreno da antiga rodoviária desativada nos anos 80 e depois ocupada por um shopping. Se não me falha a memória, um dos projetos mais recentes seria um complexo cultural. Frequentes  foram as operações para higienizar a área “doente”. Vejam que nos últimos anos a imprensa se aliou ao Estado e reforçou a imagem do território “doente”. Nesta inversão de pegar a parte pelo todo, Campos Elíseos desapareceu das referencias do lugar, passamos a reconhecer o território como “cidade do crack”, exclusivamente Cracolândia, um lugar extremamente difícil e perigoso. Eliminar a doença, limpar o território, normatizar os espaços vagos é uma articulação frequente e bem sucedida desta histórica união do Estado com a especulação imobiliária e os meios de comunicação. Depois de anos, aquele terreno vazio, antigo local de partidas e chegadas, nosso sonho psicodélico, foi preenchido rapidamente por vários prédios sem identidade alguma que poderiam estar em qualquer lugar da cidade. Uma outra  população de moradores desta utópica “nova Campos Elíseos” vai ocupá-los em breve.

Edifícios localizados onde foi a antiga rodoviária de São Paulo. Terreno baldio foco de disputas. Abril 2018

A quadra 36, a qual estão sendo expulsas famílias que moram há décadas no bairro de Campos Elíseos, também parece revelar um outro traço bastante interessante desta normatização do lugar. Dentre muitas ações históricas do Estado para valorizar um território, a introdução de um equipamento hospitalar, no caso, o futuro Pérola Byington, é sem dúvida uma maneira de valorizar uma região e eliminar aquilo que sintomaticamente tomou o território como  representação da doença e a fragilidade de sua mobilidade errante, o “fluxo”.

Procissão Fórum Luz /Teatro do Faroeste. Abril 2018

Impossível não lembrar que no início da ocupação de Higienópolis, há mais de um século, se deu também  com equipamentos estratégicos de valorização de um território que   no final do séc. XIX era considerado  muito distante do centro da cidade. Dentre institutos educacionais como o Mackenzie e novos arruamentos dos loteadores,  a implantação da Santa Casa da Misericórdia foi fundamental neste plano “feliz de cidade saudável”. Sem a presença da Santa Casa, a distante região do Pacaembu, em tupi-guarani “terras alagadas”, nunca se tornaria a nobre cidade da higiene, a glamourosa Higienópolis.

Publicidade da Escola Americana/Mackenzie, Almanach 1888.

Boa Viagem a todos!!!

Paula Janovitch

Para saber mais:

Quem construiu a Rodoviária da Luz? por Abílio Guerra

Folha de São Paulo 05/06/18 Obra de hospital é paralisada e lança dúvida sobre nova cracolândia de SP.

Folha de São Paulo, 05/06/18 Plano gera conflito com vizinhos da Ceagesp.

São Paulo Antiga – Terminal Rodoviário da Luz – No site da São Paulo Antiga, um interessante post recupera imagens da antiga rodoviária da Luz. Neste texto ficamos sabendo que o projeto da Rodoviária num primeiro momento foi pensando para ser no Parque da Luz. Outro dado interessante  é que as pastilhas coloridas internas  da nossa rodoviária psicodélica da Luz, podem ser vistos ainda hoje na fachada do Jornal Folha de São Paulo. Otávio Frias  foi um dos construtores da  antiga rodoviária.

Descontruíndo a Luz – matéria publicada no Estado de São Paulo na época da demolição da rodoviária. O ensaio fotográfico da desconstrução é maravilhoso. Não poderia deixar de compartilhar com vocês.

Fórum Aberto Mundaréu Luz  em defesa da permanência dos moradores no Campos Elísios. O Fórum elaborou um projeto de habitação para o Campos Elíseos, assim como equipamentos para o entorno, onde permanecem os moradores e se preservam os imóveis antigos da região. Vale a pena conhecer melhor o Fórum. Foi ele o responsável pela procissão que começou no Teatro do Faroeste, em que os atores, vestidos de branco e com extintores, higienizavam em tom de paródia  toda a região em risco  com água perfumada.

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2 respostas em “Delírios Psicodélicos : Cracolândia, Campos Elíseos e Higienópolis

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