No caminho tinha uma pedra: passeio geoturístico pelo Centro de São Paulo

 

Dia de céu de brigadeiro, um avião cruza o céu e deixa uma linha de fumaça. Penso que ele desenha o risco branco  de propósito, mas meu amigo me diz que não, é o clima que deixa a linha  ali. Começamos o passeio pelo Pateo do Colégio, no mesmo ponto do outro sábado em que fiz o roteiro do #monumentonenhum. Mantivemos o mesmo início histórico, a partir da conquista portuguesa, da escolha do colonizador no ponto estratégico do sítio,  o local mais alto, entre rios. Com muita rapidez saímos das referências  históricas para observar as rochas. Gosto destes passeios que você entra pela cidade através de outras veredas.
Olhamos para o chão, um piso de pedra Itaquera, olhamos para o Monumento à memória ali no centro do Pateo, Itaquera na base, Itupeva na coluna. Rodamos pela Pateo e vamos às fachadas dos edifícios da Agricultura, da Justiça. As mesmas pedras, alguns detalhes de mármore de Carrara no chão pra dar o chique da entrada. A guia/geóloga pergunta se já conseguimos identificar algumas das pedras. Sim, já conseguimos!!!!

Beco do Pinto. Casa da Marquesa de Santos. Exposição Monumento Nenhum

Então vamos para a Casa da Marquesa de Santos, ali nos deparamos com as pedras empilhadas dos monumentos da exposição # monumentonenhum, fica difícil saber quais os tipos. As pessoas tocam nas pedras, sentem as diferenças, tentam falar os nomes das que acabamos de aprender. Descobrimos variações das mesmas quando são lapidadas. Entendemos o desgaste quando maltratas por agentes químicos de limpeza. Alguém recorda o velho ditado:” água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. 

Patéo do Colégio. Pedras rústicas estilo anos 40, 50.

Voltamos para o Pateo, bem nos rodapés das paredes de um dos seus muros um casal diz, parece da minha casa, anos 40 ou 50. Sim, a geóloga diz, começaram a usar pedras rústicas assim para decoração, e ai vemos a jovialidade do Pateo, integrador de várias épocas, fake para uns, mudança de estratégia da igreja católica para outros. Ela pede para gente ir até o  sino do Pateo, e lá na base mostra o granito Ubatuba. Diz que a pedreira em Ubatuba fechou, não produz mais rochas. Perguntamos como a gente faz para lembrar os nomes das rochas, ela diz que é muito fácil, a maior parte das pedreiras fica ao redor da cidade, vejam que os nomes  tem a ver com o local de extração: Ubatuba, Piracaia, Capão Bonito, Azul Bahia, Itaquera, Itupeva e ai podemos até viajar pra fora  do Brasil que os nomes continuam a referenciar seus lugares de extração:  Carrara, Travertino.
Saímos da Fundação da cidade para adentrar o Centro Velho, o antigo mercado financeiro de São Paulo. Nestas fachadas vamos encontrar uma variedade grande de rochas. Vemos o granito preto Piracaia. A guia se esforça pra gente entender a diferença deste para o Ubatuba, aquele da base do sino, meio verde. Paramos no antigo Banco do Brasil, hoje Centro Cultural, o granito ai é meio rosado, Itupeva em alguns pilares, Itaquera em outros. Vamos seguindo até o Martinelli, um integrante  do grupo não se contem e busca uma foto no celular do  que existia ali antes de ser o edifício Martinelli, explica que era uma hospedaria, mostra que cavaram o Vale do Anhangabaú e que a ladeira de São João não era tão íngreme como agora.

 

Vamos caminhando para o Mosteiro de São Bento e dali partimos em direção ao largo do Payssandú pelo Vd. Santa Ephigênia. Ela explica que a maior parte dos edifícios da cidade usam pedras de pedreiras próximas por conta do preço e do transporte, quanto mais próximo, menor o custo. Então chegamos num edifício do INSS que fica bem ali no Vd. Santa Ephigênia, todo de Travertino. As viagens para a Europa que até agora eram de entalhes pequenos nos prédios  e pisos, ganham grandiosidade neste edifício.  

Edifício do Tribunal da Justiça do Estado de São Paulo. Entalhes com rochas importadas no piso de entrada. Pateo do Colégio.

Para mim a  beleza da pedra se desfaz com a dureza da  realidade  histórica. Não deixa de me doer ver o prédio do INSS todo de pedra importada. Alguns tentam identificar a época, anos 40. Nem os bancos, muito menos o edifício da Justiça importou pedra como o INSS, luxo da previdência já na década de 40 do século passado. Cara de pau dos economistas de passarem a conta desta festa imodesta que já vem de longa data. Fico com raiva da fachada do INSS, vou no google para ler como esta instituição se define: “Autarquia que garante proteção aos cidadãos por meio do reconhecimento de direitos, com o objetivo de promover…” Chega de ler! Quero voltar para as pedras, as fissuras e artes do tempo na sua constituição. A geóloga olha sua cola na prancheta e caminha para um outra parada.

Monumento a Mãe Preta. Largo do Payssandú

Chegamos no largo do Payssandu, Mãe Preta lá no alto. Mas a nossa   guia  esta atenta   à  base, olha  para tentar identificar o tipo de pedra, não consegue. Mostra o lado onde as pessoas colocam velas. Explica que a fumaça  deixa a pedra daquele jeito, toda escura.  Eu  amo a Mãe Preta e cada vez que encontro com ela tento fotografá-la de um ângulo diferente. Ela deixa os prédios e o céu do largo do Payssandu mais bonitos, tem uma força incrível, faz contrastes múltiplos com o lugar. A Mãe Preta sai bem na foto de qualquer ângulo, é isso.

Piso de calcário com colônia de fósseis na Galeria Olido

Seguimos nosso passeio para dentro da Galeria Olido. Trabalhei naquele prédio um tempão e não sabia que ali no piso existem colônias de fósseis no  piso de calcário, quem quiser ir comigo, já sou capaz de  identificar os fósseis da Galeria Olido. 

Dante. Praça Dom José Gaspar

Dali partimos para a Praça Dom José Gaspar  para ver os bustos dos pensadores que rodeiam a Biblioteca Mário de Andrade. Dante é Travertino rústico como o INSS, a diferença que o último é lapidado ( não vou conseguir esquecer o INSS, inferno!!!). A Biblioteca tem bastante Itaquera na fachada, estou ficando craque!
Já estávamos com duas horas de percurso e ainda haviam  pedras para  serem vistas na Av. São Luis, a guia se perde nas localizações, meu estômago já estava na boca, mas vou com o grupo numa última  identificação de  rocha, a que a geóloga disse ser a mais rara de todas, o granito azul bahia!!!

Hotel Boulevard. Granito azul Bahía com a bandeira americana infiltrada.

Nunca dei nada por aquela fachada do Hotel Boulevard, quase  esquina da São Luis com a Consolação. E estava lá o tal granito azul Bahia de raridade incrível.  Quando o grupo saiu, o  porteiro do prédio disse que aquela pedra não era raridade da Bahia, mas de Israel, e que haviam dois tipos diferentes dela na fachada do prédio, uma mais clarinha e outro de segunda, a  escura. Mais à frente falei para a nossa geóloga das teorias do porteiro. Ela, como boa cientista,  disse que a afirmação dele era totalmente incorreta. Mas o que eu quis dizer é que para além das características geológicas, haviam as lendas, a forma de se apropriar daquilo com o que nos deparamos, e por falta de outros pontos de vista, a construção da imaginação ganha suas narrativas próprias como  esta do  porteiro. Quando as narrativas se encontram assim na rua, acho de uma riqueza incrível, surge  um granito azul Bahia de Israel.
 Por estas camadas de rochas  que se cruzam no nosso caminho e pelos usos que fazemos  delas ao termos mais possibilidades de construirmos outras narrativas, é que  um percurso destes torna-se fundamental. Fazer a Universidade andar na cidade e a cidade tornar-se  prática dos cientistas me parece uma aproximação  interessante e desafiadora  para ambos. 
Este percurso dos geólogos da USP foi de graça e lotou. Haviam 120 pessoas que se dividiram em 4 grupos, cada um com um especialista. Não precisa ser guia formado, não precisa saber tudo de história da cidade, basta compartilhar um pouco destas pesquisas tão interessantes que são feitas nas universidades. Todo mundo ganha com estas pedras  no meio do  caminho.
Parabéns à  professora geóloga  Eliana Aparecida Del Lama e a sua equipe que tornou este projeto possível. Muito obrigada!
Paula Janovitch

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