Sobre paula janovitch

Sou mestre em antropologia (PUC/SP) e doutora em historia cultural (USP). Há algum tempo trabalho com assuntos ligados a cultura e história da cidade assim como o humor na imprensa. Sou autora do livro Preso por Trocadilho: a imprensa irreverente paulistana (1900-1911) Editora Alameda.

Finados na cidade

Capa do livro de Fernanda C. Marquetti

“Bendito sejas, Viaduto Paulista! Sem tu não  poderia passar desta para melhor, embalado pela brisa que te circunda. Adeus! Até para a eternidade és o passadiço de útil eficiência!”

A citação acima nada mais é do que um bilhete  achado no bolso de um suicida que , segundo Paulo Cursino de Moura, pulara do nosso querido Viaduto do Chá. O caso seria só  folclórico se o assunto morresse aí. Porém, através do livro  de Fernanda Cristina Marquetti, O suicídio como espetáculo na Metrópole, fica-se sabendo que o ato de dar cabo a própria vida,  quando cometido   num lugar público, adquire nuances diversas de espetáculo. Um dos palcos históricos mais procurados na cidade de São Paulo para esta representação final da vida foi  por muito tempo o tradicional Viaduto do Chá.

O suicídio em si já gera uma enorme polêmica. Haja vista o caso recente do co-piloto que se trancou na cabine do avião e fez seu gran finale levando consigo todos os passageiros. Inúmeras explicações podem ser dadas para o que leva um sujeito a fazer isto e, neste caso, levar com ele tanta gente. 

O livro da Fernanda de fato não está muito preocupado em compreender e sugerir profilaxias sociais para os suicídios. O que interessa para a autora, e isso que eu achei muito original,  é perceber como o suicídio ao tomar o espaço público nos desloca  do universo privado, onde historicamente tornou-se o lugar  de expressarmos  nossas emoções e sentimentos, para ocupar de forma radical e espetacular o espaço público. 

Não é por mero acaso que a autora faz referência ao livro de Richard Sennett, O declínio do homem público, ao comentar sobre este caminho do homem urbano para dentro de si.  A  intimidade , os amigos nem tão próximos, passam a ser o ambiente mínimo de referência dos indivíduos. É na intimidade que se colocam todas as fichas para que o homem cumpra esta difícil tarefa de se estruturar e sentir-se parte da coletividade numa grande cidade. Porém, este investimento na vida íntima também demonstra que algo se esvaziou no espaço público, lugar que até então dava estrutura ao homem urbano. 

Comenta a autora: o espaço público não está mais disponível para sustentar as manifestações de dor ou prazer. Das vivências de sociabilidade como o lazer, práticas políticas, consumo, religião à experiência da morte há uma tendência para tudo voltar-se para o domínio do privado.”( Marquetti,2011, 56)

A opção de pensar o suicídio num lugar  público da cidade levou a pesquisadora a cercar a questão através de diversas estratégias de abordagem. Uma das mais relevantes foi selecionar as instituições que  lidam com a morte por suicídio na cidade e partir para entrevistas com seus representantes.

O metrô, por exemplo, é um dos lugares mais utilizados para as pessoas cometerem suicídios “eficientes”. Porém, apesar de taxas elevadas, não há divulgação alguma sobre o número de óbitos que ocorrem nos subterrâneos da cidade pois a empresa de transportes acredita que isto atrairia outros suicidas ao local. Por outro lado, existe um dispositivo para evitar os suicídios assim como toda uma organização para minimizar a questão quando ocorre. E isto também parece muito emblemático. Que tipo de sociedade nos tornamos que precisamos eliminar e deixar distante do nosso convívio uma condição que faz parte da existência de qualquer ser vivo? Será que não viveríamos melhor se a condição da morte convivesse de forma mais próxima no nosso cotidiano?

Acredito  que foram estas questões  que  Fernanda Marquetti  tenta responder neste seu livro. Através do levantamento de informações e mapeamento de lugares onde se deram  estas mortes por suicídio, a autora pôde perceber as tais nuances extremamente interessantes para compreendermos melhor como se vive e como se morre na cidade de São Paulo ao  levar para o espaço público um assunto tão controverso, o ato de dar cabo da própria vida!! That is  the question!

Para saber mais:

Fernanda Cristina Marquetti, O Suicídio como Espetáculo na Metrópole. Ed FAP- Unesp. 2011

Richard Sennett, O Declínio do Homem Público, . Ed. Record. 2014

Cada tempo tem seus guias!!!

Um  novo guia da cidade acaba de sair do forno aqui em São Paulo. O Guia dos Lugares Difíceis de São Paulo nasce de um longo processo de construção e compreensão da exploração do território urbano e da possibilidade de problematiza-lo de maneira profunda para fora do ambiente acadêmico. É indiscutível seu pertencimento às novas abordagens sobre a cidade. Como  explica Renato Cymbalista: “este é um guia  que apresenta o território como um conjunto de problemas em aberto, que busca escavar a superfície para revelar feridas ou reabrir cicatrizes”. 

São 143 verbetes de lugares da cidade que foram escritos e devidamente problematizados por um coletivo de autores. Pra quem lê o título do  guia, lugares difíceis,  logo pensa,  pra que vou querer saber de lugares difíceis da cidade? Mas aí vem a curiosidade desta proposta desbravadora de olhar aspectos dissonantes  da cidade que até hoje não integraram guia algum. Você provavelmente vai abrir o livro pra conferir se os lugares difíceis são fáceis ou difíceis mesmo. Talvez se surpreenda com a foto da capa, o Monumento às Bandeiras. Ele  é um dos verbetes que esta na categoria dos “difíceis lugares fáceis”, basta ver a mancha vermelha que cobre o monumento que alguns vão entender que de fácil ele não tem nada mesmo. Se você quiser continuar na categoria dos que parecem fáceis e conhecidos, porém são bem difíceis, pode se aventurar pelo Pátio do Colégio, o Vão Livre do MASP ou ir lá para a Avenida Faria Lima. 

O que te digo caro leitor, é que você vai se surpreender com aqueles que você nunca imaginou serem difíceis, os considerados cartões postais da cidade, à aqueles que você nem poderia imaginar possuírem tamanha complexidade. E, para além disso, vai conhecer a cidade de São Paulo por suas entranhas mais profundas. 

As dificuldades dos lugares foram organizadas por categorias; Segregações, Resistências, Invisibilidades, Morte, Moradia, Urbanos difíceis, Violências de Estado, os Difíceis Lugares Fáceis e  Outros Lugares Difíceis. O guia também trás um mapa que se divide em duas páginas inteiras, onde todos os 143 verbetes estão marcados para facilitar sua localização espacial. 

Quer conhecer São Paulo de verdade? Então está convidadíssimo para o lançamento do Guia dos Lugares Difíceis de São Paulo que será no dia 09 de novembro de 2019, na Casa do Povo, a partir das 16 horas. Espero você lá. 

Guia dos Lugares Difíceis de São Paulo(Coordenação Geral) Renato Cymbalista, ed. Annablume. 2019 Casa do Povo:  rua Três Rios, 252 – Bom Retiro

Para saber mais:

Recomendo o post do Versão Paulo sobre o início destas conversas sobe Lugares Difíceis aqui em São Paulo em 2006: Memórias Difíceis: espaços de reclusão na cidade.

É tarde, mas ainda temos tempo: exposição de Ana Teixeira no Maria Antonia

Dia 29/08, uma quinta-feira,  fui num bate-papo com a artista Ana Teixeira. Ela esta com uma exposição no Centro Universitário Maria Antonia, “É tarde, mas ainda tempos tempo”. A imagem que segue aqui vem com uma integração minha à exposição da artista, a toalha de mesa de chitão de casa. Exatamente um movimento dela na forma como cria seus trabalhos. O outro é sempre parte central de seus projetos. E o espaço público seu foco de ações. 

A exposição mostra vários projetos de Ana ao longo de 20 anos com estes outros e outras sem X. 

Conforme segue nota do texto de abertura da curadora Galciani Neves: “optou-se por abandonar o uso do ‘X’ como linguagem supostamente neutra para flexão de gênero, pois é impronunciável, e, portanto, inaplicável à linguagem falada. Na tentativa de escrever de maneira não sexista, a redação do texto adere ao uso do ‘e’. “ 


Sim, a exposição lida com questões de gênero também. Tem um enorme painel sobre uma das últimas ações de Ana ali mesmo na rua Dona Maria Antônia em que foram representadas 40 mulheres com frases curtas instigadas pela pergunta “o que você não quer mais calar?”. E vieram muitas respostas que estão ali expostas em placas levantadas por mulheres.

 As frases fazem pensar por serem corriqueiras, tão justas, desnecessárias talvez, mas estão ali se repetindo e se repetindo como em qualquer processo de transformação e conquista de novos territórios. Um dia talvez a artista volte pra rua e elas se tornem raras de tão óbvias ou ainda Ana nem faça mais esta pergunta. 

Há ainda os projetos:  Empresto meus olhos, Identidades trocadas e uma captura infindável de grafites com frases das ruas que acompanham a vida da artista. Disse ela: “chega a ser perturbador porque tenho que ler tudo na rua, até uma frase que dizia, ’burro é assim mesmo, tudo que vê lê!’ “

De fato a rua fala com a artista que tem a palavra, a voz do outro, como seu principal protagonista. As trocas entre a artista com estes outros se revelam através destes  infindáveis projetos de instigar a presença das pessoas a conversarem com ela e fazerem trocas de identidades, de palavras, de gêneros e paisagens. Não é por nada que o desenho de frases numa linha sutil acompanhe toda a exposição. A palavra para Ana é corrente. 

foto da exposição “É tarde, mas ainda temos tempo”.


Ainda há um manual bárbaro de ações ou instruções para que estas ações com os “outres” aconteçam:

 1. Coleta de espécies locais

 2.Outra identidade

 3. Escuto histórias de amor

 4. Escute!

5. Troco sonho

O kit de folhetos que forma o pequeno manual  para ações está disponível  para o público levar. Da minha parte  vou colocar o meu manual em uso rapidinho. 


“É tarde, mas ainda temos tempo”. Corre lá no Centro Universitário Maria Antonia que a exposição fica em cartaz até 29 de outubro de 2019. 
http://www.mariantonia.prceu.usp.br/…/e-tarde-mas-ainda-te…/

Prostituição e confinamento na cidade de São Paulo: um percurso pela antiga zona do meretrício do Bom Retiro( 1940-1953

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Rua Césare Lombroso. Fotografia de  Matheus Cripa Rocha/2019

Quem passa pela movimentada rua José Paulino, dificilmente pode imaginar que em duas acanhadas ruas paralelas que se fecham no paredão dos trilhos dos trens  que dividem os bairros de Campos Elíseos e Bom Retiro, houve durante treze anos uma área de confinamento de prostitutas na cidade de São Paulo. A zona do meretrício do Bom Retiro localizava-se bem ali, entre as ruas Aimorés e Césare Lombroso. Nas palavras do escritor João Antônio era o U do Bom Retiro.

Toda esta história aconteceu no Estado Novo, período em que São Paulo foi governada pelo interventor Dr. Adhemar de Barros. Justificava-se à época que a prostituição havia se espalhado pela área central da cidade perturbando a vida das famílias e do comércio fino. Era necessário “limpar” o centro.  A ideia  foi escolher um lugar numa outra região da cidade nem tão longe e nem tão próxima da convivência com as famílias e o comércio. Nos anos 40, acreditava-se que os homens tinham necessidades sexuais diversas das femininas e estas  deveriam ser toleradas. Aliás é do sentido de tolerância que o Estado conferiu aos antigos  bordeis o termo “casas de tolerância.”

era aqui o posto da injeção

Rua Aimorés. Uma das paradas do grupo para mostrar imagens da rua nos anos 40. Fotografia de Matheus Cripa Rocha/2019

O confinamento das prostitutas num lugar determinado da cidade, também significou que pela primeira vez o Estado  regulamentou um espaço de controle, vigilância sanitária e policial sobre a vida e o corpo destas mulheres.

Há muitas discussões sobre os motivos que levaram o Dr. Adhemar de Barros em  escolher o Bom Retiro como local  mais apropriado para instalar a zona de confinamento de prostitutas da cidade. Alguns interpretam que a eleição do bairro foi uma maneira de controlar melhor os estrangeiros  ali presentes colocando  um elemento desarticulador entre os “alienígenas”.

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De fato, a presença da “zona” na região do Bom Retiro durante os treze anos que permaneceu paralela a vida comercial da José Paulino, revelou-se em  inúmeros registros de época: nas memórias dos moradores e comerciantes, na ficção literária dos escritores boêmios,  na crônica diária dos jornais e nos relatórios das  assistentes sociais. Cada um traçou das formas  mais diversas a vida das duas animadas ruas do bairro, a Aimorés e a Itaboca. Era este o nome da  antiga rua Césare Lombroso.

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Registro oficial do grupo da manhã. Fotografia Robson  Brito/2019

Saiba mais:

Para quem não sabe esta história se transformou num percurso que eu mesma guio. Não é turístico, é PESQUISA EM ANDAMENTO mesmo. E por ser pesquisa, ele acaba mudando à cada vez que percorro estas ruas. Seja porque entram novos conteúdos, seja porque os grupos que participam sempre apontam questões às mais diversas. Se num primeiro momento, apenas levava comigo um único material de época, agora carrego memórias, entrevistas, novos achados da imprensa de época e muita conversa com quem participa. Este ano fiz duas vezes o percurso da “Zona”na Jornada do Patrimônio Histórico. Foi incrível.

As imagens do post são destes últimos dois percursos da Jornada  em agosto de 2019. Espero continuar esta experiência de levar pra rua a história do lugar e fazer da rua lugar de conversas e debates sobre a identidade de todos nós.

Tuca Vieira e o exercício do percurso: a viagem do extremo oriente

Tuca Vieira é um fotógrafo com formação em letras que acaba de defender sua dissertação de mestrado na FAU/USP. Foi fotojornalista por muitos anos e,  em seus trabalhos pessoais,  sempre coloca desafios fotográficos que nada mais são do que experiências e exercícios de  aprofundar-se na essência das cidades,  sua expansão, escalas e diversidade.

Em sua palestra na Escola da Cidade no final de maio, havia acabado de voltar de uma jornada pelo extremo oriente em que a regra estabelecida pelo fotógrafo foi registrar cidades com mais de 10 milhões de habitantes. Em cada cidade Tuca Vieira permaneceu 7 dias. E foi mais ou menos como nas etapas da criação bíblica  que o fotógrafo descreveu sua chegada nas cidades até o momento dos registros fotográficos: fui sistemático nisso, no primeiro dia  fazia a parte burocrática de escolher hotel, trocar dinheiro e ai levava uns 3 dias percorrendo a cidade sem fotografar absolutamente nada. Primeiro reconhecia o quarteirão do hotel, depois o centro da cidade e aí começava a me aventurar pelas bordas e periferias desta área mais central, os locais que mais me interessam.

Estas franjas da cidade, onde o seu cartão postal desaparece, são os pontos de inflexão do fotógrafo. Porém, diz ele, diferente dos registros em São Paulo como o  projeto paulistano, “Atlas da cidade”, chegar nas franjas das hipercidades do extremo oriente, diante do desconhecimento total  do território e dos seus códigos, foi muito mais desafiador. Afinal era um estrangeiro em todas as cidades que percorreu com uma semana para chegar onde suas fachadas oficiais cedem lugar ao que ele define como essência das cidades.

Como explicou o fotógrafo, a máquina fotográfica é mero veículo para satisfazer sua curiosidade e desejo de aventurar-se e descobrir a essência da urbs. O que vale nisso tudo é a busca por chegar naquilo que não é mais o monumental, ou seja,  o que a cidade  deseja mostrar   para os outros. O deslocamento que nos retira do centro “vale ouro”, não podemos nunca desprezar esta experiência dos dias. E citou como fonte de inspiração destes percursos na criação de seus mundos, o livro do cineasta Werner Herzog, Conquista do Inútil. Um diário que Herzog escreveu durante a produção do filme Fitzcarraldo: o preço de um sonho.

Perguntado sobre como são as hipercidades do extremo oriente, Tuca afirmou, são estranhas e assustadoras em escala. De fato, seus registros fotográficos mostram uma China construindo e destruindo cidades e mais cidades, edifícios altíssimos, mesmo que estes não estejam habitados ainda, não importa, a indústria da construção permanece em moto-contínuo.

Mesmo assim o fotógrafo conseguiu perceber semelhanças em cidades como Jacarta, bem  latino-americana. Porém as diferenças como a Tóquio hightech, talvez sejam o  legado mais importante deste projeto.  Nos 6 meses em que se deslocou pelas cidades do extremo oriente, Tuca  sentiu  tocar o século 21 e foi categórico em garantir que  o futuro  é  bem diferente das antigas cidades europeias onde repousa nosso nostálgico bem-estar.

Para saber mais:

Artigos que Tuca Vieira escreveu para a Folha de São Paulo ao longo de sua jornada:  https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2018/hipercidades/

Link no site de Tuca Vieira sobre suas fotos nas Hipercidades: https://www.tucavieira.com.br/Hipercidades-em-progresso

Werner Herzog, Conquista do inútil, ed. Martins Fontes, 2013.

Paula Janovitch

No caminho tinha uma pedra: passeio geoturístico pelo Centro de São Paulo

 

Dia de céu de brigadeiro, um avião cruza o céu e deixa uma linha de fumaça. Penso que ele desenha o risco branco  de propósito, mas meu amigo me diz que não, é o clima que deixa a linha  ali. Começamos o passeio pelo Pateo do Colégio, no mesmo ponto do outro sábado em que fiz o roteiro do #monumentonenhum. Mantivemos o mesmo início histórico, a partir da conquista portuguesa, da escolha do colonizador no ponto estratégico do sítio,  o local mais alto, entre rios. Com muita rapidez saímos das referências  históricas para observar as rochas. Gosto destes passeios que você entra pela cidade através de outras veredas.

Olhamos para o chão, um piso de pedra Itaquera, olhamos para o Monumento à memória ali no centro do Pateo, Itaquera na base, Itupeva na coluna. Rodamos pela Pateo e vamos às fachadas dos edifícios da Agricultura, da Justiça. As mesmas pedras, alguns detalhes de mármore de Carrara no chão pra dar o chique da entrada. A guia/geóloga pergunta se já conseguimos identificar algumas das pedras. Sim, já conseguimos!!!!

Beco do Pinto. Casa da Marquesa de Santos. Exposição Monumento Nenhum

Então vamos para a Casa da Marquesa de Santos, ali nos deparamos com as pedras empilhadas dos monumentos da exposição # monumentonenhum, fica difícil saber quais os tipos. As pessoas tocam nas pedras, sentem as diferenças, tentam falar os nomes das que acabamos de aprender. Descobrimos variações das mesmas quando são lapidadas. Entendemos o desgaste quando maltratas por agentes químicos de limpeza. Alguém recorda o velho ditado:” água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. 

Patéo do Colégio. Pedras rústicas estilo anos 40, 50.

Voltamos para o Pateo, bem nos rodapés das paredes de um dos seus muros um casal diz, parece da minha casa, anos 40 ou 50. Sim, a geóloga diz, começaram a usar pedras rústicas assim para decoração, e ai vemos a jovialidade do Pateo, integrador de várias épocas, fake para uns, mudança de estratégia da igreja católica para outros. Ela pede para gente ir até o  sino do Pateo, e lá na base mostra o granito Ubatuba. Diz que a pedreira em Ubatuba fechou, não produz mais rochas. Perguntamos como a gente faz para lembrar os nomes das rochas, ela diz que é muito fácil, a maior parte das pedreiras fica ao redor da cidade, vejam que os nomes  tem a ver com o local de extração: Ubatuba, Piracaia, Capão Bonito, Azul Bahia, Itaquera, Itupeva e ai podemos até viajar pra fora  do Brasil que os nomes continuam a referenciar seus lugares de extração:  Carrara, Travertino.

Saímos da Fundação da cidade para adentrar o Centro Velho, o antigo mercado financeiro de São Paulo. Nestas fachadas vamos encontrar uma variedade grande de rochas. Vemos o granito preto Piracaia. A guia se esforça pra gente entender a diferença deste para o Ubatuba, aquele da base do sino, meio verde. Paramos no antigo Banco do Brasil, hoje Centro Cultural, o granito ai é meio rosado, Itupeva em alguns pilares, Itaquera em outros. Vamos seguindo até o Martinelli, um integrante  do grupo não se contem e busca uma foto no celular do  que existia ali antes de ser o edifício Martinelli, explica que era uma hospedaria, mostra que cavaram o Vale do Anhangabaú e que a ladeira de São João não era tão íngreme como agora.

 

Vamos caminhando para o Mosteiro de São Bento e dali partimos em direção ao largo do Payssandú pelo Vd. Santa Ephigênia. Ela explica que a maior parte dos edifícios da cidade usam pedras de pedreiras próximas por conta do preço e do transporte, quanto mais próximo, menor o custo. Então chegamos num edifício do INSS que fica bem ali no Vd. Santa Ephigênia, todo de Travertino. As viagens para a Europa que até agora eram de entalhes pequenos nos prédios  e pisos, ganham grandiosidade neste edifício.  

Edifício do Tribunal da Justiça do Estado de São Paulo. Entalhes com rochas importadas no piso de entrada. Pateo do Colégio.

Para mim a  beleza da pedra se desfaz com a dureza da  realidade  histórica. Não deixa de me doer ver o prédio do INSS todo de pedra importada. Alguns tentam identificar a época, anos 40. Nem os bancos, muito menos o edifício da Justiça importou pedra como o INSS, luxo da previdência já na década de 40 do século passado. Cara de pau dos economistas de passarem a conta desta festa imodesta que já vem de longa data. Fico com raiva da fachada do INSS, vou no google para ler como esta instituição se define: “Autarquia que garante proteção aos cidadãos por meio do reconhecimento de direitos, com o objetivo de promover…” Chega de ler! Quero voltar para as pedras, as fissuras e artes do tempo na sua constituição. A geóloga olha sua cola na prancheta e caminha para um outra parada.

Monumento a Mãe Preta. Largo do Payssandú

Chegamos no largo do Payssandu, Mãe Preta lá no alto. Mas a nossa   guia  esta atenta   à  base, olha  para tentar identificar o tipo de pedra, não consegue. Mostra o lado onde as pessoas colocam velas. Explica que a fumaça  deixa a pedra daquele jeito, toda escura.  Eu  amo a Mãe Preta e cada vez que encontro com ela tento fotografá-la de um ângulo diferente. Ela deixa os prédios e o céu do largo do Payssandu mais bonitos, tem uma força incrível, faz contrastes múltiplos com o lugar. A Mãe Preta sai bem na foto de qualquer ângulo, é isso.

Piso de calcário com colônia de fósseis na Galeria Olido

Seguimos nosso passeio para dentro da Galeria Olido. Trabalhei naquele prédio um tempão e não sabia que ali no piso existem colônias de fósseis no  piso de calcário, quem quiser ir comigo, já sou capaz de  identificar os fósseis da Galeria Olido. 

Dante. Praça Dom José Gaspar

Dali partimos para a Praça Dom José Gaspar  para ver os bustos dos pensadores que rodeiam a Biblioteca Mário de Andrade. Dante é Travertino rústico como o INSS, a diferença que o último é lapidado ( não vou conseguir esquecer o INSS, inferno!!!). A Biblioteca tem bastante Itaquera na fachada, estou ficando craque!
Já estávamos com duas horas de percurso e ainda haviam  pedras para  serem vistas na Av. São Luis, a guia se perde nas localizações, meu estômago já estava na boca, mas vou com o grupo numa última  identificação de  rocha, a que a geóloga disse ser a mais rara de todas, o granito azul bahia!!!

Hotel Boulevard. Granito azul Bahía com a bandeira americana infiltrada.

Nunca dei nada por aquela fachada do Hotel Boulevard, quase  esquina da São Luis com a Consolação. E estava lá o tal granito azul Bahia de raridade incrível.  Quando o grupo saiu, o  porteiro do prédio disse que aquela pedra não era raridade da Bahia, mas de Israel, e que haviam dois tipos diferentes dela na fachada do prédio, uma mais clarinha e outro de segunda, a  escura. Mais à frente falei para a nossa geóloga das teorias do porteiro. Ela, como boa cientista,  disse que a afirmação dele era totalmente incorreta. Mas o que eu quis dizer é que para além das características geológicas, haviam as lendas, a forma de se apropriar daquilo com o que nos deparamos, e por falta de outros pontos de vista, a construção da imaginação ganha suas narrativas próprias como  esta do  porteiro. Quando as narrativas se encontram assim na rua, acho de uma riqueza incrível, surge  um granito azul Bahia de Israel.
 Por estas camadas de rochas  que se cruzam no nosso caminho e pelos usos que fazemos  delas ao termos mais possibilidades de construirmos outras narrativas, é que  um percurso destes torna-se fundamental. Fazer a Universidade andar na cidade e a cidade tornar-se  prática dos cientistas me parece uma aproximação  interessante e desafiadora  para ambos. 
Este percurso dos geólogos da USP foi de graça e lotou. Haviam 120 pessoas que se dividiram em 4 grupos, cada um com um especialista. Não precisa ser guia formado, não precisa saber tudo de história da cidade, basta compartilhar um pouco destas pesquisas tão interessantes que são feitas nas universidades. Todo mundo ganha com estas pedras  no meio do  caminho.
Parabéns à  professora geóloga  Eliana Aparecida Del Lama e a sua equipe que tornou este projeto possível. Muito obrigada!
Paula Janovitch

Saiba mais:

O rio que não era doce e a ponte que não partiu !!!

ladeira do acu debret 1822

Imagem: Ladeira do Acu – Debret 1822

Ladeira do Acu/ Rua de São João

Quem desce a ladeira de São João no centro da cidade talvez nem imagine que aquele pedacinho de rua tem uma história tão bonita.

Antes de ser conhecida pelo nome do santo fogueteiro, quando a cidade ainda era bem colonial, chamou-se Ladeira do Acu. Neste pequeno mundo, cercada  por santos e igrejas foi onde a acanhada ladeira  permaneceu por muito tempo. No século XIX era uma trilha e ligava as duas partes da cidade separadas pelo rio Anhangabaú. Com o tempo, a trilha passou a ser caminho, que logo foi se alargando e sendo povoada de casebres humildes cobertos de tabatinguera ( palha). O povo passou logo a chamá-la de Descida do Acu. Do Acu  era a ladeira, a ponte, o rio e a zona toda.

“Yacuba” quer dizer água em tupi-guarani. “Acu” quer dizer veneno. Dai o rio Anhangabau que permanece   ainda subterrâneo por baixo no Vale do Anhangabaú   ter sido por tanto tempo conhecido  por suas “águas venenosas”.

Diante de tão arriscado caminho o povo passou a cantarolar o perigo das águas do Anhangabau ao passar  sobre a ponte do Acu:

“Eu fui passar na ponte,
E a ponte estremeceu…
Água tem veneno, morena,
Quem bebeu, morreu!”

Quando o desespero do povo cresceu ao máximo e na cidade só se falava em dar cabo daquela água maléfica, foi que surgiu um homem de apelido João-Nhá-Mãe que teve uma idéia de como acabar com o misterioso veneno da água.
A idéia foi pegar a santa imagem de São João Batista e levá-la  para ser “batizada” nas águas venenosas do Anhangabaú.

Na madrugada gelada do dia 24 de junho o povo saiu em procissão com São João nos braços para batizá-lo ali na altura da ponte do Acu, onde se dizia que as águas eram mais venenosas.

João-Nhá-Mãe  retirou as vestes de São João, entrou com ele nas águas do Anhangabaú envolvido pela cantoria do povo. E foi limpando o santo e a água foi ficando cristalina!

Já como rua das mais agitadas da cidade, honrou o nome de São João que limpou as águas venenosas do Anhangabaú.
Ladeira de São João passou a ser o começo da rua que ligava a cidade de cá com a cidade de lá, a vida noturna, os divertimentos, o comércio e a descida desabalada dos moleques de bicicleta.

P.S: Só para esclarecer uma passagem da música das “águas venenosas”. A ponte  do Acu balançava sim, mas nunca caiu com ninguém, assim como o rio que tinha uma água ferrosa, calcária, pelo que consta, parece que nunca derrubou um ser humano. Saudades dos velhos tempos que a gente cantarolava que a ponte estremeceu só pra rimar com quem bebeu morreu, longe  da amargura e dor de uma Vale com nome de  Rio Doce mas promotora  de  assassinatos em série.

Para saber mais:

– Afonso A. de Freitas  em seu livro Tradições e Reminiscências Paulistanas, editado pelo Governo do Estado de São Paulo ,( Coleção Paulística Vol IX)  trás um monte destas histórias das ruas da cidade nas suas “reminiscências das ruas”, vale a pena!!

São Paulo Paisagens sonoras ( 1830-1880) – CD  que faz um percurso sonoro pelo século XIX  paulistano, tá lá a composição deste post. Para quem quiser escutar, o Spotify disponibiliza a trilha sonora São Paulo Paisagens sonoras.

O Brasil é o Museu do Índio

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Aldeia indígena do povo Guarani Mbya, Parelheiros Foto: Pedro Robles. Julho/18

A sacada humorística de Millôr que dá título a este post a cada dia faz mais sentido para mim. Sou antropóloga de formação, mas  nunca estudei grupos indígenas, pesquiso cultura urbana desde sempre. Porém, em maio deste ano, quando tive a oportunidade de participar de um evento no Departamento de Psicanálise do Sedes, “Deslocamentos”, na primeira mesa, “Novas Histórias”, a questão indígena surgiu com a participação do Tiago Honório dos Santos Karai , liderança do povo Guarani Mbya, localizada em Parelheiros . O Tiago chegou no Sedes com sua companheira e  filho. No lanche, um pouco  antes da abertura do seminário,  quando falavam entre si, usavam o tupi-guarani, quando falavam comigo, era o português. De certa forma  sentia-me recepcionando  estrangeiros em sua própria terra.

Até o começo do século XVIII, a proporção entre as duas línguas faladas na colônia era mais ou menos de três pra um, do tupi para o português.(…) O tupi era a língua dominante, a língua da colônia, todos a falavam ou a compreendiam, parecia mesmo haver certa predileção por ela. ( Teodoro Sampaio)

Explicaram-me que sua primeira língua, aquela em que são alfabetizados,  é o tupi-guarani. A segunda é o português.  Para mim a recuperação do tupi como primeira língua é  uma grande conquista, usar sua língua materna  e transmitir para as futuras gerações as sonoridades, a cultura e a forma de ver o mundo que vem junto com a liberdade  de se expressar, resgata o direito de qualquer grupo humano de  ir e vir.

 Isso me levou a uma outra questão que anda tomando meus percursos pela cidade de forma recorrente.  A grande quantidade de palavras indígenas que nomeiam ruas, bairros e acidentes geográficos. Meu bairro por exemplo é uma aldeia completa de nomes em tupi pendurada nos relevos montanhosos que habito: Aimberê, Turyassú, Apinajés, Itapicuru, Traipu. Há meses atrás, ao  fazer uma pesquisa sobre Higienópolis, me dei conta que Pacaembú de Cima e de Baixo, correspondia a toda a região que envolve a Santa Cecília, Vila Buarque, Higienópolis e Perdizes. Todo o território de baixo e de cima  estava assim nomeado pela presença do rio Pacaembú que hoje em dia passa  calado embaixo da avenida de mesmo nome.

O seminário “Deslocamentos”, no Sedes, também  aconteceu exatamente nesta “aldeia de nomes indígenas” que toma  o bairro de Perdizes. Inevitável ao final da fala do Tiago interroga-lo sobre a quantidade de nomes e monumentos indígenas espalhados na cidade e nas várias regiões do Brasil. Como afinal os grupos indígenas  que foram dizimados desde a conquista portuguesa pareciam  marcar os acidentes geográficos, as ruas, os monumentos e tomar Perdizes  como uma tribo de plaquinhas azuis penduradas  em mastros cinzas? Qual  seria o motivo destas  “demarcações” no território do conquistador?

Ele respondeu com uma frase enxuta que aquilo era um engano. E alguém na plateia completou que estas referências  presentes nas ruas e relevos do território nacional  eram na verdade  uma descorporificação dos sujeitos.

 

 

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Num fim de semana chuvoso uns dois meses depois do  evento “Deslocamentos”, o nosso coletivo  “Escutando a cidade” foi  conhecer a aldeia do Tiago. Neste segundo encontro,  ele nos convidou para conversar na “Casa de Reza”. Sentados em volta de uma fogueira, Tiago  foi  nos contando muitas coisas sobre a luta dos grupos indígenas de Parelheiros  e a trágica história da  demarcação de suas  terras. Como foi difícil para eles entenderam o significado de demarcar seu território. A princípio apontaram apenas a aldeia, o lugar das casas. Porém,  depois de muitos  enganos e incompreensões,  entenderam que este lugar da casa não incluía  o lugar do caminho.  No lugar da casa estavam excluídos  deslocamentos, o ir e vir para outras aldeias de mesma língua, as trilhas sagradas, a possibilidade de se refazerem e de  deixarem a terra  mãe respirar a fim de permanecerem interagindo com a natureza.

O lugar do caminho como forma de estar no mundo me fez voltar para  a questão lançada no seminário “Deslocamentos”: qual o sentido desta quantidade de nomes indígenas espalhados pelas ruas de Perdizes e do Brasil afora ? Como se deu esta “descorporificação”, este engano ?

Eduardo Viveiros de Castro veio em meu auxílio no seu livro  Metafísicas Canibais ao apontar uma “outra” proposta para o tradicional registro etnográfico dos grupos indígenas. Os antropólogos teriam que fazer uma mudança radical de paradigmas para irem além do acúmulo de conteúdos sobre o  “outro” fixados  através dos nossos  parâmetros eurocêntricos e civilizados.  Trocando em miúdos,  nós antropólogos registramos muitas coisas importantes sobre hábitos, cultura, língua e etc…, porém não conseguíamos ler ou ver o que registramos sem pensar em olhar para os nossos próprios espelhos. A  dica de Eduardo Viveiros de Castro foi  que precisávamos  “aceitar a oportunidade e a relevância de pensar outramente, com outra mente,  pensar com outras mentes…” como  um anti- Narciso,  o “padroeiro ou demônio da antropologia”.

Relendo o  livro de Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional, depois de percorrer outros territórios e buscar “corporificar” a terra e a vida de uma aldeia pra lá do bairro de Parelheiros, consegui compreender que os portugueses, os primeiros colonizadores que aqui chegaram, assim como os jesuítas e bandeirantes, tiveram a perspicácia de compreender que os povos que habitavam a maior parte do litoral brasileiro poderiam leva-los ao interior do Brasil com muito mais facilidade do que  uma aventura por conta própria, estava integrada  na cultura indígena o nomadismo, os caminhos e  deslocamentos.

Fazia-se a conquista, tendo por veículo a própria língua dos vencidos, que era a língua da multidão.(…)  Recebiam, então, um nome tupi as regiões que se iam descobrindo e o conservavam pelo tempo adiante, ainda que nelas jamais tivesse habitado uma tribo de raça tupi. ( Teodoro Sampaio)

A  língua geral  transformou-se  numa moeda de troca, num meio de mediar os caminhos do conquistador. “Descorporificou”  os vários grupos indígenas ao marcar o percurso dos conquistadores pela língua daqueles  que tinham o caminho como lugar de morada também. E assim, ao percorremos  as cidades brasileiras ou adentrarmos o país, temos este atrito do desejo de conquista dos colonizadores assentados na língua geral dos índios do litoral. O conquistador nomeou nos lugares desbravados  o caminho e fez do  território percorrido uma nação de porteiras fechadas. “O Brasil é o Museu do Índio”  que pega fogo à menor labareda.

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Caminhamos pelas fotografias de Mauro Restiffe com a urbanista Raquel Rolnik!

Raquel

Raquel Rolnik / foto: Paula Janovitch

No dia 07 de junho à noite, uma quinta-feira, ocorreu a palestra de Raquel Rolnik na exposição de Mauro Restiffe no IMS . Cheguei atrasada e quando entrei na Galeria 2, onde seria a palestra, vi um aglomerado de gente no fundo da sala. Raquel estava mostrando uma imagem do fotógrafo Mauro Restiffe, no Campos Elíseos, e explicando o que havia ocorrido ali. Falava de Santa Efigênia, da rua que é o segundo PIB comercial da América Latina, porque o primeiro, explicava ela, é o da 25 de março. Tudo isto para enfatizar o absurdo que é a expressão revitalização em uma área que não esta desvitalizada. Disse: “esta palavra revitalização deve ser banida do nosso vocabulário, é uma mentira!!! O melhor seria usar reabilitação, acolhimento de novos usos, oferta de condições de moradia para quem esta nesta região.
”
Caminhamos mais uma pouco para outra imagem, um terreno desocupado, um estacionamento com o Teatro Oficina ao lado. Ela explica que o terreno é de Silvio Santos, que este queria fazer uma edifício-torre, já os moradores do Bexiga, desejam que ali seja o Parque do Bexiga. Em meio a esta disputa ela nos pergunta se sabemos em qual categoria de zoneamento este terreno se enquadra. Ninguém responde. Ela explica: zona especial, mais ou menos quer dizer zona que pode ser qualquer coisa. Depois nos dirigimos para uma fotografia pequena, do Templo de Salomão, no Brás. Ela diz que esta foto é muito interessante porque mostra uma imagem do Templo no tapume e, ao fundo, ele ainda no início de sua construção. Novamente vem a pergunta se sabemos em que tipo de zona se enquadrava este terreno onde foi construído o Templo. Alguém chuta zona especial também. Nada disso, outra categoria, era uma ZEIS ( zona  especial de interesse  social), a mesma da área do Campos Elíseos, lembra Raquel. Porém, neste caso, havia uma casinha no terreno, e o Templo de Salomão foi construído como reforma da tal casinha. Logo passou ao largo das burocracias e impedimentos das leis. Veja que uma casinha virou um Templo reconstruído à imagem e semelhança daquele que em Jerusalém esta em ruínas até hoje. Só tinhamos lembrança dele através da Bíblia, mas agora temos uma replica “perfeita” no Brás paulistano, onde uma casinha reformada se tornou o bíblico e literal Templo de Salomão.
Depois do  percurso  neste território fotográfico, sentamos e nos estendemos nas conversas sobre a cidade, mais especificamente estes locais de conflito. E foi ali sentados que a Raquel deu um conselho ótimo para quem quer participar das discussões e decisões sobre a cidade. Motivo pelo qual escrevo sobre a palestra e compartilho aqui. Então lá vai. Temos que entender da nossa cidade como as pessoas entendem de futebol. É assim que podemos entrar em campo, aprendendo no território, nas exposições e nos deslocamentos pela cidade. Ontem caminhamos pelas fotografias de Mauro Restiffe e conhecemos vários jogadores e muitas jogadas ensaiadas. A técnica de plantão é na realidade uma boleira histórica . Valeu Raquel !!! Paula Janovitch

Para saber mais:

Exposição São Paulo, fora de alcance – Mauro Restiffe A exposição do fotógrafo Mauro Restiffe  é um desdobramento de um registro inicial que começou em janeiro de  2012 a convide da Revista Zum.  Mauro fotografou a região da Luz logo  após a Polícia Militar expulsar dali traficantes e usuários de drogas. Nesse registro não estão apenas presentes o desmonte do espaço, mas a tragédia humana e o conflito. A idéia inicial acabou virando motivo para outros registros de conflitos, desmontes e paisagens arquitetônicas na cidade de São Paulo que compõe a mostra do fotógrafo no IMS. O catálogo da exposição também esta a venda na Livraria Travessa ( IMS) e para quem quer se deter por mais tempo sobre estas imagens fora de alcance, vale a pena adquirir.

Vila Itororó: uma história em três atos

capa livro

Coleção Canteiro Aberto Instituto Pedra e Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo.

 

Foi lançado em fevereiro de 2018 o segundo volume da coleção Canteiro Aberto, do Instituto Pedra em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo: Vila Itororó: uma história em três atos, das urbanistas e pesquisadoras de história da cidade de São Paulo, Sarah Feldman e Ana Castro. A publicação resgata a história da emblemática Vila paulistana, localizada na área central da cidade, entre os bairros da Liberdade e Bela Vista.

Por incorporar em sua construção materiais de demolição de um antigo teatro da cidade, o São José, e outras implantações inéditas e singulares para uma habitação do início do séc. XX como piscina, chafariz, bustos e esculturas, a Vila Itororó acabou chamando atenção de muitas gerações de urbanistas e pesquisadores do patrimônio histórico a partir dos anos 70 do século passado. Tornou-se de fato parte do debate das transformações dos critérios dos bens a serem qualificados como relevantes à memória da cidade de São Paulo.

 

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Considerada de arquitetura exuberante, surreal, o imóvel localizado numa encosta do Vale do rio Itororó ( atual avenida 23 de maio), acabou sendo foco de disputas e discussões sobre suas possíveis ocupações a partir do momento em que passou a ser protegido pelos orgãos de patrimônio histórico. Nomes como Benedito Lima de Toledo, Carlos Lemos, Claudio Tozzi, Décio Tozzi e Flávio Império fizeram parte destas primeiras discussões e formulações de projetos de novas qualificações que por anos nunca saíram do papel.

Eu mesma fui vítima do encantamento da Vila Itororó. Nos anos 1990, quando era    pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico, fizemos uma vistoria nas construções. Recordo a forte impressão que me causou entrar naquele casarão decadente que tinha logo a entrada dois leões, esculturas, varandas, longas escadas, pilares e uma piscina coberta ao fundo. Era difícil definir visualmente o que havia sido aquele conjunto de casas. Lembro de ter conhecido uma senhora muito pintada que diziam ser uma antiga atriz. Fui embora com aquela imagem dos leões da entrada, dos pilares e da velhinha com ruge nas bochechas, moradora solitária de um cômodo do antigo palacete.

 

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Lendo o livro sobre a Vila Itororó de Sarah Feldman e Ana de Castro, as formas arquitetônicas que por tantas décadas ocuparam o imaginário da Vila, saem do centro das atenções. Outras histórias revelam-se através de documentos públicos, recortes de jornal, depoimentos e fotografias que multiplicam a vida da casa colocando-a em diálogo com a história da construção e das formas de morar na cidade de São Paulo, especialmente na área central.

Somos convidados desde o primeiro ato a entrar em contato com a vida de Francisco de Castro, o primeiro proprietário e idealizador da Vila. Um filho de imigrantes portugueses, que como tantos outros estrangeiros, contribuíram para a formação da cidade de São Paulo. Acompanhamos a maneira como este investidor anônimo, integrava-se ao comércio da terras urbanas no início do séc. XX, momento em que a cidade transformava-se a olhos vistos.

A pesquisa tem o mérito de partir de um pequeno registro, o recorte de uma habitação central, para potencializar redes de conexões com o tecido urbano que ampliam os horizontes das relações e conexões destes possíveis franciscos de castro em diálogo com escritórios renomados como o de Ramos de Azevedo e as definições dos melhoramentos urbanos para a nascente capital do café. Percebemos neste cruzamento de diálogos, que a cidade não se expandia apenas pelas mãos de grandes loteadores, o solo urbano era negócio para todos.

Percorrendo a história da área central através da história da Vila Itororó, temos de fato um recorte urbano de São Paulo. Revelam-se personagens que passam a ter corpo, nome próprio, relações de amizade e parentesco. Projetos, desejos, sonhos e histórias que apontam conteúdos inéditos da formação social urbana. Tudo que se fala da Vila , não constitui-se como fato isolado do que a integra na cidade.

No segundo ato do livro entramos no universo mais íntimo da casa, dos moradores que habitaram a Vila Itororó. Num terreno de quase 6.000 metros quadrados, Francisco de Castro não construiu apenas seu sonho de morar, mas também um conjunto de casas de aluguel que lhe garantiriam um renda fixa. Algo extremamente comum à época, esta mistura de usos que poderiam muitas vezes ser compartilhados num mesmo lote, resultando em um dos investimentos mais seguros naquele momento. Como afirmam as autoras,  80% das famílias moravam em casas de aluguel em São Paulo nas primeiras décadas do 1900.

Francisco de Castro vem a falecer nos anos de 1930, repleto de dívidas e sem ver vários dos seus sonhos realizados. Os projetos urbanos que atravessariam sua propriedade valorizando seu lote, como a avenida Itororó (atual avenida 23 de maio), acabaram acontecendo décadas depois de sua morte, nos anos de 1960.

Nos anos de 1930, a Vila Itororó passa a ter novos proprietários, mas permanece como local de moradia de famílias que se caracterizavam por proximidades de parentesco e amizade. O palacete, morada de seu idealizador, neste segundo momento é dividido e ocupado para aluguel. A geografia da casa grande com a ocupação rentista, não deixa de refletir as hierarquias sociais do espaço urbano. Os mais abastados passam a morar nas áreas de acesso independente e próxima à rua. Os de menos posses, ocupam áreas da casa mais distantes da rua e com acessos compartilhados.

Porém, destacam as autoras, a sociabilidade dos moradores da Vila se mantém ao longo de  toda a sua existência como residência. Áreas comuns do terreno que incluíam a piscina e o pátio, entre o palacete e as casinhas de aluguel, revelam-se nas memórias dos antigos moradores como um rico espaço de convivência. Alguns lembram de um abacateiro, outros das festas e do clube Eden que incluía o uso da  piscina.

Outro aspecto fundamental que destaco neste segundo ato, refere-se a localização estratégica da Vila, entre o centro da cidade e a avenida Paulista. Como habitar entre espaços centrais da cidade, com instituições culturais e educacionais potentes, propiciou aos moradores da Vila condições de acesso à cultura e educação que caracterizam de forma singular a vida na área central da cidade.

Eis ai nos registros da história da cidade de São Paulo, um capítulo que precisa ser iluminado, batido e rebatido: a ótima coexistência entre habitação popular, cultura e serviços em regiões centrais.

 

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O terceiro ato talvez seja o momento que nos deixe mais pessimista em relação aos destinos da Vila e de seus morados. A partir dos anos de 1960, a presença da av. 23 de maio, projeto tão esperado por seu primeiro proprietário, tornou-se o início de um pesadelo para seus moradores. A área se valoriza muito e o imóvel a partir de então passa a fazer parte das várias disputas imobiliárias que ocorrem até hoje na área central da cidade. Nestes embates, inúmeros são os projetos de usos, desde a defesa legítima da permanência dos moradores, até aqueles que indicam, pelas características arquitetônicas do imóvel, um futuro centro cultural.

O livro se encerra em 2013, momento em que o Instituto Pedra assumiu o restauro e a coordenação das atividades   sobre o imóvel.  Num galpão adquirido na fase atual, criou-se um centro cultural temporário ao lado da Vila Itororó. Todas as atividades de reflexão e oficinas acontecem neste novo espaço cujo acesso se faz pela rua Pedroso, 238.

Como parte do processo de reflexão e investigação empreendido sobre a Vila Itororó desde 2013, esta publicação abre-se para os futuros possíveis do imóvel. O que só vem a reforçar a potência de materiais presentes no canteiro aberto pelo Instituto Pedra. O passado é material frágil e de fino trato, capaz de levantar questões e conteúdos importantes na reconstrução  da Vila Itororó. Vou mais longe, a história ao ser incluída no presente, é capaz  de  sugerir  novas formas de habitar a cidade.

O livro oferece muito mais histórias sobre a Vila Itororó. É uma pesquisa cuidadosa e bem escrita. Para aqueles que gostam desta emblemática Paulicéia, é leitura obrigatória.

Para saber mais:

O livro Vila Itororó: uma história em três atos pode ser adquirido na versão física e gratuita no próprio “Canteiro Aberto da Vila Itororó” . Para quem mora em São Paulo, basta acessar o site e olhar os dias e horários de visita. Para quem não mora em São Paulo, há uma versão digital do livro em pdf e vários depoimentos e registros daqueles que participaram desta história.

Vila Itororó página Facebook

Tel de contato Vila Itororó ( Centro Cultural Temporário/ Secretaria Municipal de Cultura): 32530187