VIDA LOKA: Canal Motoboy

canal-motoboy

Revista Zum # 10 Canal Motoboy Daigo Oliva

 O motoboy é quase um fenômeno paulistano. Faz parte integrante das ruas da cidade  há bastante tempo. E não passa despercebido na vida dos motoristas. Causam polêmica no trânsito. Inventam faixas entre os carros. Esbarram na lataria dos automóveis sem a menor cerimônia. Parte da rua é deles,  conquistaram na raça as faixas entre os carros sem pedir nada para ninguém . 

O paulistano ama odiar os motoboys

 Quem compartilha com  eles as ruas desta cidade que tem a pressa como caráter mais aparente de sua personalidade, fica tomado de ódio.  Basta um raspão no espelho retrovisor, uma olhada para dentro do carro na hora que emparelham nos semáforos, para se estabelecer entre motorista de carro e moto um  clima de animosidade que só  pode ser compreendido por aqueles que trafegam pelas ruas de São Paulo.

O motoboy surgiu dos congestionamentos da cidade. É quase um pirata das ruas porque rouba espaço e ganha tempo. Duas coisas que os veículos de quatro rodas, tão promissores e cobiçados no início do séc. XX , vão perdendo diariamente na cidade. 

Por conta deste clima de guerra nas ruas, especialmente nos horários de congestionamentos – irônico escrever isso já que em São Paulo o congestionamento parece não ter mais horários fixos –  parar para perceber como os motoboys  vivem e registram a crônica urbana é algo extremamente desafiador.  Foi isso que Antoni Abad, artista espanhol, propôs ao criar um canal na internet, o Megafone.net, que busca dar voz a grupos  socialmente discriminados em várias cidades do mundo. Em Nova Iorque e na Cidade do México, ele entregou aos taxistas as ferramentas digitais, já em Madri, foram  as prostitutas que passaram a registrar o seu dia a dia e, em outras cidades e países,  são os refugiados e  deficientes visuais que mostram seus percursos e maneiras de ver e viver na cidade.

 Na prática a  idéia de Abad é  colocar na mão  dos grupos escolhidos um celular e ferramentas de áudio e vídeo portáteis para que possam circular livremente pelas ruas da cidade. No caso dos motoboys,  a pauta é livre, o grupo discute e se expressa  como deseja. Alguns vídeos que assisti podem ser precursores do nosso santo salvador Waze, outros denunciam situações que ocorrem nas ruas quando estão trabalhando, e outros ainda mostram que todo motoboy tem um casa, uma esposa ou namorada,  sai de manhã como qualquer trabalhador e volta no final do dia. O pirata das ruas, tão odiado nos congestionamentos, tira a armadura  de metal e volta a ser gente como a gente, e  quem não veste uma fantasia   para  sair de casa de vez em quando ?

Bom Carnaval !

 Para saber mais:

 Revista Zum #10, Canal Motoboy :  O artigo que saiu na Revista Zum que inspirou este post, quem quiser acessar segue o pdf com o texto na integra.

Passeio pelo Bom Retiro com audio-roteiro da Casa do Povo

caras do bom retiro 2Ontem fiz um passeio incrível de bicicleta e a pé. Fui até o Bom Retiro pela ciclovia sob o Minhocão. É uma delícia andar de bike por ali, principalmente nos dias quentes porque lá embaixo é bem fresquinho. De lá peguei outra ciclovia logo depois da Estação Marechal Deodoro e ai foi só felicidade. Barra Funda, Campos Elíseos e o pontilhão do trem anunciando a entrada no Bom Retiro. Sábado é dia agitado nesta região por conta do comércio. Mas se vc vai entrando mais para o miolo do bairro, a febre das compras diminui bem. Eu fui até a Casa do Povo na rua Três Rios para fazer o audio-roteiro do Bom Retiro. Na Casa do Povo tem lugar para parar as bicicletas. Deixei a minha lá, baixei o audio-roteiro no meu celular e sai andando pelo percurso proposto.
Adorei o passeio. Primeiro porque o audio é muito bem bolado. Dosa a fala coloquial com reflexões pontuais arquitetônicas e urbanísticas. Segundo, a grande sacada do audio é não ter um único narrador. Por exemplo, na primeira parada, uma mercearia coreana, somos convidados a conhecer o lugar e, através da fala de uma imigrante coreano, entramos um pouco na vida deles aqui. Os produtos importados, o que gostam de comer, e as adaptações locais. Não precisamos ficar buscando coisas específicas na mercearia para compreender a fala do imigrante, é uma conversa que agrada os ouvidos. Basta flanar pela mercearia sem grandes preocupações que o clima esta todo ali. É algo solto, quase um comentário num programa de rádio.
A outra coisa muito legal é que as explicações e direções são bem claras e voltadas para a situação de um pedestre em sua relação com a rua.
As conversas rolam no audio quase o tempo todo e, ao andarmos para o próximo ponto, vamos acompanhados da simpática narradora , ou de algum habitante do bairro, judeu, comerciante, boliviano ou coreana que esta falando com a gente. Me senti o tempo todo acompanhada pelas pessoas do bairro. Num único momento, acabei me perdendo um pouco. Ao chegar perto do restaurante grego e entrar numa vila operária. Acho que não achei a vila certa do percurso. Errei o caminho e ai desisti e fui para a próxima parada. Nesta parte, o roteiro sai do pedaço mais agitado do bairro e vai entrando num espaço que eu chamaria de mais intimo dos moradores do Bom Retiro, só quem conhece bem o bairro ou mora nele vai caminhar por esta área menos comercial. Temos ali uma feira, e esse é outro ponto singular do audio. Eu fui ontem, sábado, e a feira como a narração do audio comenta, foi feita numa quinta. Logo não vi feira alguma e nem os produtos que o imigrante disse que gosta de comprar – aliás esta parte eu não vou comentar porque vale a pena escutar a fala dele. O que me chamou atenção aqui, é que a ausência da feira no sábado, não desmerece em nada a apresentação e os comentários narrados . Escutamos o barulho da feira e os hábitos do imigrante boliviano quando vai as compras através de suas explicações. Neste momento estamos quase atrás do lugar que começamos o roteiro. E é ali que encontramos uma sinagoga bem pequena do bairro e ouvimos o simpático rabino nos apresentar o lugar. Um pouco mais pra cima, temos a Unibes e uma mercearia judaica bem tradicional. E nessa parte uma das pessoas que narra o passeio, faz comentários muito bons sobre a presença dos coreanos na vida do Bom Retiro no que há de mais rotineiro na vida de um bairro, o cabelereiro. Nesse ponto me deu fome e sede. E como o bairro é farto em pequenos e grandes restaurantes e quitandas. Comprei um saquinho de melancia em pedaços e fui comendo até a Buriquita que fica quase ao lado da Casa do Povo. Comi uma bureca de queijo deliciosa. Conversei com o David, meu amigo, e dono da Buriquita. Sem querer vi uma cena linda que talvez ficou mais bonita depois de escutar tantas histórias cruzadas que o audio-roteiro da Casa do Povo proporciona. Um casal de coreanos e sua filha entraram para comer um doce. Perguntei ao David se os novos habitantes do bairro gostam dos doces e salgados judaicos. E ele disse: adoram, sou eu que faço bolo de aniversário pra muitas famílias coreanas. E ai eu perguntei: e vc já comeu comida coreana? e ele falou: já, é gostoso mas um pouco apimentada. Enfim, foi esse o meu passeio pelo Bom Retiro de sábado. Pra quem quiser fazer o passeio, o audio-roteiro fica afixado na porta da Casa do Povo e demora mais ou menos uns 50 minutos. Basta chegar lá com o celular, um fone de ouvido e baixar o percurso. Eu adorei tudo que vi e escutei. Sai conhecendo melhor este bairro querido da minha cidade.

O calçamento de São Paulo: buracos e etc…

Buraco, buracolância, buracópolis e outros sinônimos imperavam nos jornais do 1900 para falar dos problemas em relação ao calçamento da cidade. É irônico pensar que em 2006, os jornais voltaram ao tema da pavimentação da cidade. Na Folha de São Paulo do mês de dezembro a Avenida Paulista, senhora na “melhor idade”, completou 115 anos repleta de calçadas esburacadas e camelôs espalhados em seu passeio.

A newsletter do Viva o Centro, chama atenção para um mal que anda atacando as sofridas calçadas da área central. O apelido do malfeitor que produz uma cicatriz no calçamento das ruas não deixa de ser engraçado, bicho geográfico. Com a sutileza que o bicho tratado aqui foi contraído de uma companhia telefônica a GVT/Oi que anda instalando fibras óticas.
Na rua Augusta, a bicharada também anda solta, mas lá ao contrário do centro, é a operação piso novo da própria prefeitura que arma umas arapucas para o pedestre distraído. Mal o novo calçamento, semelhante a bolacha maisena, é inaugurado, o piso começa a murchar e os buracos brotam do chão feito toca de tatu.

Olhando para trás no tempo, o calçamento tem uma história de inadaptações que vem de meados do século XIX, quando a intendência publica da cidade, ainda provinciana, começava a interferir na fluidez e limpeza dos logradouros públicos. No jornal humorístico O Cabrião (1865), temos um diálogo bem interessante entre dois tipos de calçamento, o “dr.Pedregulho” e o “Macadame”, e o total desacerto da administração pública quanto a escolha daquele que seria ideal para as ruas de São Paulo. Alguns queriam o macadame e chegavam a defender publicamente o material, outros iam de pedregulho, mas ambos, ao serem fixados, misturados às ruas de terra da cidade formavam entre si uma lambança geral. Tudo só piorou ao avançar do século XX com a entrada em cena da Companhia Light and Power que passou a executar mudanças nas ruas. O caso da Light era colocar trilhos principalmente nas ruas centrais e, para isso, foi necessário levantar calçadas e cavocar valas nas ruas para fixar os memoráveis caminhos dos bondes elétricos.
A própria Light registrou o caos da cidade em vários álbuns . Porém, no início do século XX, as imagens destes álbuns eram mais para demonstrar a participação da empresa no progresso da cidade do que documentar o início do caos de São Paulo.

A confusão aumentou mais ainda quando de fato chegaram os bondes elétricos e os automóveis. Os pneus fininhos dos veículos importados estouravam a torto e a direito nas ruas desalinhadas e repletas de buracos. As curvas também não eram próprias para os automóveis e nem os diversos calçamentos. O choffeur queria pegar velocidade, e ao começar a descer as ladeiras da cidade o que pegava era buraco e gente.

A pressa e a inabilidade dos motorneiros, também foram algumas das principais causas de acidentes com os bondes elétricos. Não era difícil ver à época um bonde sair dos trilhos e avançar em calçadas e casas.

É desta época que começam a surgir altos índices de atropelamentos e trombadas.

Aliás estas duas palavras apesar de terem seu uso mais freqüente com o surgimento dos veículos motorizados, tem sua origem, lendária ou não, no mundo animal. Atropelamento vem de tropel que tem sua origem no ritmo da pata dos cavalos. E trombada, como reza a lenda paulista, surgiu num dia ensolarado do 1900 e batatinha, quando um elefante fugiu do circo e na corrida desabalada acabou se chocando com um bonde. Foi do encontro do bonde com o elefante que a trombada se fez presente entre nós. Se a história não for verdade verdadeira, não deixa de ter uma raiz etimológica bem interessante para o nosso anedotário local.

Enfim, é triste pensar que o “ buraco é mais embaixo” mas, como moral da história, melhor pensar onde é o buraco do que acabar em um como este que Patrícia Santos fotografou na rua Conselheiro Crispiniano, centro de São Paulo, publicado no Estado de São Paulo em 09 de dezembro de 2006.

Para saber mais:

Mapa dos buracos da cidade de São Paulo: a Veja criou um mapa colaborativo para compartilharmos os buracos da cidade. Se vc tem um buraco conhecido, novo, recuperado, crônico, mal amado, machucado e etc e tal… coloque aqui para sabermos mais da dimensão deste personagem que encontramos nas ruas da cidade com tanta freqüência.
Ajude a acabar com essa #buraqueira: 50 grafittes que foram feitos sobre buracos da cidade de São Paulo

– Os álbuns da Light apesar de esgotados encontram-se nos alfarrábios e nas feiras de antiguidade da cidade, assim como são perfeitamente consultáveis nas bibliotecas públicas e na própria Fundação do Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo. O que indico é o de título Registros, tem fotos bonitas e uma abordagem interessante das obras da Light na área central de São Paulo.

– O bicho geográfico que ataca São Paulo saiu na newsletter do Vivia o Centro no dia 29/11/06 com o titulo “ bicho geográfico ataca o centro”.
http://www.vivaocentro.org.br/noticias/

– Sobre a história do bonde em São Paulo vale a pena dar uma navegada pelo site do pesquisador Werner Vana. http://www.wvp.hpg.ig.com.br/

– Ainda sobre os bondes, Giselle Beiguelman, historiadora e artista multimídia, fez um artigo sobre os ritmos da cidade com a introdução dos bondes que dá o que pensar. O título é “ Rondó do tempo presente” e foi publicado na Revista Memória, São Paulo, jul./dez., 1995. Esta revista não esta a venda, seus títulos mais antigos encontram-se esgotadíssimos. Com alguma sorte ainda você acha números avulsos destas revistas nas feiras de antiguidade ou em alfarrábios. Para consulta, a coleção encontra-se disponível na Fundação do Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo e na biblioteca do Arquivo Municipal de São Paulo “ Washington Luís” .

– Existe um livro que só trata da história das calçadas em São Paulo, O mundo das calçadas, ed.Humanitas/Imprensa Oficial, 2000. O autor é Eduardo Yázigi, geógrafo da USP. A obra é de fôlego, aborda o tema calçadas desde o 1560 até 1988. O mundo das calçadas esta disponível nas livrarias da cidade.

– Para finalizar, indico um artigo muito legal do Chico Homem de Melo que saiu no portal virtual Vitruvius na seção “ Minha cidade” n.172, out/2006.
“ Crônica de um ícone paulista”, resgata a origem histórica de um calçamento padrão da cidade muitíssimo pisado pelos paulistanos, aquele inspirado nos limites geográficos do Estado de São Paulo. http://www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc172/.

Texto: Paula Janovitch