Será possível que ainda chova? (Re ti será)

A partícula será no início de uma frase – na boca dos paulistas – toma um sentido todo especial e particular. Tem sua herança no português de Portugal, mas é indiscutível sua procedência tupi-guarani conforme afirma  Affonso A. de Freitas:

 “ é uma das quatro partículas que os nossos indígenas costumam empregar para distinguir uma interrogativa de uma afirmativa por desconhecerem a inflexão de voz como fazem os civilizados”.

 Assim, o será tupi-guarani tem a função de encerrar as sentenças como ainda é usado no norte do Brasil: chove, será (Re ti será). Porém, da  influência do português e do índio, o será paulista  se deslocou  para o inicio da frase. Aboliu-se  e afogou-se o enfático “Será possível?” dos portugueses e ficamos   sem sombra de dúvida e poucas previsões de chuva com o  “Será  possível que ainda chova?” que acabou assumindo o  titulo deste  post sobre alguns apontamentos  do abastecimento de água na cidade de São Paulo.

 Durante o século XIX, a cidade de São Paulo era servida de água através  de fontes, bicas, chafarizes, tanques e rios. Mas nem por isso a cidade deixou de ter problemas com o abastecimento de água. Inúmeras são as referências sobre fontes de água que secaram ou rios e tanques que tornaram-se poluídos por detritos jogados de forma aleatória nos afluentes da cidade.

 Diante da escassez de água, a alternativa do governo parecia ser sempre passiva, esperar  a volta das chuvas. Porém para a imprensa e a população reclamante, a volta das chuvas não passava de uma solução paliativa para o  um problema  que apontava para outras direções que não apenas as previsões meteorológicas.

“Estamos sem água”  era o grito que surgia impresso na coluna de reclamações do jornal Diário de S. Paulo no dia 28 de fevereiro de 1867. “A população sofre sede, e o que faz o governo?(…) Não temos água? Esperai, logo há de chover, e chover muito…”

Éh. éh. minha parente. Voce acredita n esse? É mentira: Moyssé não tirô agua de pedra non.

Éh. éh. minha parente. Voce acredita n esse? É mentira: Moyssé não tirô agua de pedra non.

 A charge acima é do Chafariz da Misericórdia em São Paulo, publicada no jornal humorístico  Diabo-Coxo de 1865. O titulo do desenho de Angelo Agostini, “Novos Moisés”, aconselhava os paulistas a baterem com varas no “chafariz” a fim de obterem água. Porém,  assim como na passagem bíblica, o milagre não ocorreu e São Paulo sofreu uma das maiores secas de que se tem registros durante o século XIX.

 O desenho de Agostini “Novos Moisés” foi publicado num momento em que os jornais faziam uma feroz crítica  a administração  do Presidente da Província de São Paulo Tavares Bastos. Este  ocupara-se com a organização dos batalhões que iriam  para a Guerra do Paraguai sem ter tempo e nem recursos de organizar setores básicos da cidade.

O que os paulistas faziam em meados do século XIX quando faltava água na cidade?

 Quanto faltava água nos chafarizes da cidade em meados do século XIX, uma das   alternativas dos paulistas era  utilizar-se  dos  rios próximos  mesmo sabendo que suas águas não eram potáveis, como o rio Tamanduateí. A  outra opção, muito comum também,  era comprar barris de água  dos  “atravessadores”, pessoas que pegavam água dos rios ou dos próprios chafarizes e ofereciam pelas ruas da cidade em barris (tonéis)  que custavam o valor exorbitante de 40 réis.

A 40 réis o barril dágua - 1865

A 40 réis o barril dágua – 1865

  Vida e morte do Chafariz da Misericórdia:

O Chafariz  de pedra do largo da  Misericórdia foi construído em 1792. Removido para o largo de S. Cecília em 1886 e recolhido ao depósito da Prefeitura. Seu construtor, conhecido  por Tebas, foi um mestre de obras, escravo liberto que à época assumiu várias obras importantes na cidade de São Paulo. A antiga Catedral da Sé (1755) talvez seja a que mais merece destaque pela grandiosidade, mas também porque durante a obra, seu senhor veio a falecer deixando Tebas alforriado com a condição  de que este finalizasse a reconstrução do prédio.

autor do post:  paula janovtich

Links associados a este post:

Folha de São Paulo, A lógica do poder e a sociedade, 10/07/2014

Catálogo on-line da exposição versão paulo – caricaturas sobre a falta d’agua em São Paulo

Para saber mais:

 Affonso A. de Freitas, Tradições e Reminiscências Paulistanas, Coleção Paulística Vol. IX, Governo do Estado de S. Paulo.  Este livro não se encontra nas livrarias. Para quem tiver interesse em adquiri-lo, indico os sebos virtuais ou os vários alfarrábios da cidade. Além de fragmentos do cotidiano da cidade de São Paulo ao longo do século XIX, a obra tem mapas das ruas, ilustrações e imagens fotográficas. Capitulo a parte é o que utilizei para este post : “Reminiscências das ruas”, nele temos  algumas cantigas como “Vaca amarela” e o “Será que ainda chova?”. Coisas que não estão mais na cidade mas que permanecem vivas  na linguagem do paulistano. Fonte da imagem “Barris de água”

 Byron Gaspar, Fontes e Chafarizes de São Paulo, Coleção História, Secretaria da Cultura Esportes e Turismo. Não se encontra nas livrarias. É necessário buscar nos alfarrábios ou sebos virtuais. O livro faz um apanhado de vários chafarizes, fontes e bicas da cidade. Os capítulos são separados por “Chafarizes utilitários” e  “Chafarizes Ornamentais”. A maioria vem com desenhos, esboços de como eles eram. Alguns como diz o autor, podem ainda ser vistos na cidade: o Chafariz do Largo da Memória, as fontes dos Túneis Nove de Julho porém acho que todos os que existem não são mais utilitários. Os que sobreviveram viraram monumentos.

 O Diabo Coxo (1864-1865), edição fac-similar, Edusp. 2005. Fonte da imagem “Novos Moisés”

São Paulo de uma letra só

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Carlos Drummond de Andrade

Tenho um apreço especial por dicionários, ao longo dos anos criei em casa uma prateleira só para eles. Ficam na altura do meu braço, bem próximo do ouvido esquerdo porque ao contrário do que se possa pensar, um dicionário não serve apenas para corrigirmos ou buscarmos termos desconhecidos ou duvidosos. A esta função primeira de buscar no dicionário a definição correta, o termo obscuro, inúmeras outras funções se combinam no encontro com as palavras : os sinônimos, a etimologia e finalmente a possibilidade de através do conteúdo que se encontra em um único verbete se criar uma sucessão de ideias que nos levem a outros tantos caminhos. Por isso fui acumulando dicionários dos mais variados assuntos: dos animais, dos símbolos, dos lugares imaginários, os analógicos, dos mitos literários, das gírias brasileiras, dos suicidas ilustres, das definições arquitetônicas e até tenho um de autoria familiar, o dicionário de homeopatia.

Gostaria de dividir com vocês um que tem especial significado para a cidade, o Diccionario do Município de São Paulo, do meu querido Affonso de Freitas (1868-1930), publicado em 1929 pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Este dicionário contém como vem definido na primeira página:

“a origem e a história do município e de suas povoações; descripção da climatologia regional; interpretação dos termos autochtones empregados na geographia e no vocabulário dialectal: nomenclatura das ruas e bairros da cidade e origem das respectivas denominações; elucidação de fatos históricos desenrolados na capital do estado, etc, etc.”

O volume que tenho é o primeiro e só contém palavras com a letra A. Comprei este exemplar sabendo da ausência das outras letras do alfabeto. Mas mesmo assim comprei porque o autor foi um renomado pesquisador da cidade que por algum motivo não conseguiu que os outros volumes vingassem. Era pegar ou largar. Ou o A da cidade de Freitas, ou nada.

Lendo os verbetes se percebe que estes futuros volumes (B – Z) deveriam existir ou estavam muito bem encaminhados pois em muitos há indicações para se buscar mais sobre o assunto tratado em outros termos como: Faculdade de Direito, Cidade-Jardim e etc…

Talvez no futuro um pesquisador encontre nos calabouços do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo os manuscritos perdidos de Freitas que devem dar conta das outras letras do alfabeto. Mas por hora temos que ficar com este de uma letra só.

Na maior parte das vezes um dicionário vale pelo universo completo que ele abarca. A ausência de uma letra, o sumiço de uma única página pode inutilizar um dos objetivos mais primários do dicionário; dar busca num universo de palavras ou termos que obedece a uma determinada ordem.

A falha na ordem gera no usuário a sensação de não completude deste universo, a consciência que sua busca em algum momento corre o risco de não ser bem-sucedida porque ali existe algo inacabado.

Pois bem, meu dicionário de termos relativos à São Paulo sofre desta falha numa forma talvez muito intensa, porque não falta nele uma das letras ou uma página apenas, esta ausente dele a maior parte do alfabeto, só tenho a letra A, ou seja a menor parte do todo.

Ao mesmo tempo, por ser um fragmento desta sequencia alfabética e por eu saber de antemão que ele só existe na letra A, tudo se modifica na forma de abordá-lo. Começando pelo fato que ele em si não abarca uma totalidade, apenas uma mínima parte deste todo. Por outro lado este fragmento que tenho perfaz uma unidade, pensando que vai do A do começo ao fim.

Talvez esteja querendo explicar pra vocês algo que também tem a ver com o trabalho do pesquisador de história. É exatamente assim que um buscador de tempos trabalha, com fragmentos. Porém como historiador e amante do tempo ele deseja a completude, a sequencia dos fatos, a sucessão dos acontecimentos, o encadeamento de algo que ele só pode participar pelo registro que se oferece como mensagem. Para um historiador, quanto mais fragmentos ele reunir melhor, quanto mais sequencias e encadeamentos de registros, mais viável será sua leitura critica dos outros tempos.

Por outro lado, o excesso de material ou a lógica cumulativa que se traduz em farta documentação e informação, pode levar o nosso historiador a uma área de conforto que seria o equivalente em ter diante de si um dicionário completo, um universo que bastaria apenas ordenar sua lógica para se obter uma visão privilegiado de um determinado assunto. E com este raciocínio, ao contrário de um texto reflexivo sobre determinado tempo-espaço, surge uma enorme enciclopédia de informações encadeadas em que a regra parece ser não abrir mão de quase nada do que foi encontrado. O resultado desta odisseia em reunir informações e encadeá-las é que muitas vezes o pesquisador perde a chance da seleção, da escolha e recorte do que seria mais representativo na abordagem de um determinado assunto.

Não é o documento encontrado e re-apresentado por mais raro que seja que tem a capacidade de se autoexplicar manifestando seu tempo redescoberto. O documento não é autoexplicativo, somos nós que criamos o caminho e a forma de representá-lo. Nossa encadeação de ideias é que aponta um lugar atualizado no presente para esta seleção de registros que escolhemos para dar liga a um determinado assunto. A nossa função é costurar uma nova trama que vai cerzindo presente e passado de uma maneira muito singular, porque passa por escolhas e apropriação de conhecimentos. Esta reflexão critica, seletiva e particular, é de fato o que faz com que cada registro mantenha um frescor inexplicável: colocamos perto o que estava longe, claro o que parecia obscuro, vivo o que estava inanimado.

O fato do dicionário só trazer a letra A parece ser um ótimo limitador natural deste universo que muitas vezes almejamos infinito e sedutor. Por isso ao contrário de muitos outros dicionários que tenho aqui na minha prateleira os quais consulto com as primeiras e segundas intenções, este eu faço diferente, abro pra ver a onde me leva. E através desta outra leitura proporcionada pelo acaso me divirto e me surpreendo com as propostas do autor.

(para retornar dos links abaixo clique seta superior voltar)

ACÚ ADOLESCENTE AMÔRES ALTITUDES AFFLICTOS ANALYSES DE POTABILIDADE

ANTROPOPHAGIA ANQUINHAS ANTIGA VIAÇÃO AUGUSTA ALEGRIA

AMARAL GURGEL AMENDOIM ANGÉLICA ANCHIETA AFILADOR ARAÇÁ

Através da letra A compreendo a forma como Freitas foi selecionando o que ele percebia de fundamental no século XX sobre a cidade de São Paulo. Quais os verbetes que ele escolheu para desenvolver assuntos referentes a cidade naquele momento.

E com este método acabo por fazer achados que muitas vezes são inéditos e totalmente estranhos e outros, buscas minhas também. Fico grata pelos estranhamentos e coincidências como a palavra Acú, dá língua tupi-guarani que é veneno, mas que também refere-se ao antigo nome da Av. São João bem no início dela, a Ladeira do Acú.

Acú também se estendia ao nome da ponte que atravessava e ligava os dois lados do Vale do Anhangabaú. A origem de Acú vem da redução de Iacuba (água que contém veneno). Iacuba ou Yacuba era denominado o rio que nascia no largo do Tanque do Zúniga e ia confluir com o Anhnagabaú. Até 1780 o Tanque do Zúniga tinha o nome primitivo de Iacuba. Passa a ser Zúniga a partir do momento em que o sargento-mor Manoel Caetano Zúniga se “investira da propriedade das nascentes do curso d´agua”, e impediu o povo de levar roupas no “seu” tanque. Em 1865, o Tanque já aterrado muda de nome e passa a homenagear à tomada da praça uruguaia de Paissandú, ficando conhecido pelo atual nome de largo do Paissandú.

Há vários verbetes de nomes próprios, a maioria conhecemos porque fazem parte da história da cidade ou de fatos históricos nacionais comemorativos, porém o primeiro apelo é associar o nome a uma rua da cidade, porque de fato temos uma enxurrada de ruas de nomes próprios vindos de uma época em que a rua não valia apenas pelo seu uso ou localização, a rua passa a ser um lugar de visibilidade, de elegia. Os nomes próprios migram para ruas no século XIX, como novas tatuagens que marcam o lugar.

Porém o nosso amigo Freitas não fica apenas esclarecendo quem foi quem na história nacional. Ele vai mais fundo e mais longe. Por exemplo, a Rua Amador Bueno do distrito de Santa Iphigenia, batizada assim em 1865 em homenagem “ a Amador Bueno da Ribeira, o acclamado rei de São Paulo”, antes se chamava Rua do Meio, denominação tirada de sua localização entre a rua antiga de São João e dos Bambus ( atual Av. Rio Branco).

Interessante ainda é pensar que as ruas antigas, especialmente aquelas ligadas ao uso, não se restringiam a um único lugar da cidade. Existia uma outra rua do Meio em São Paulo no que hoje é a rua Carlos Gomes, entre a rua de Cima, hoje Liberdade, e a de Baixo, que é o prolongamento da rua Carlos Gomes. Como se à época valesse mais a topografia do lugar do que a singularidade dos nomes.

Isto também me fez lembrar que algumas ruas que mudaram de nome no final do século XIX, permaneceram sendo reconhecidas pelas antigas referências de uso ainda por um longo tempo. Quem faz alusão a esta permanência de referências são os cronistas da cidade que não cansavam de chamar o novo pelo antigo, negando de certa forma a dissociação que se fazia na forma de viver e se deslocar na cidade que os nomes próprios traziam às conhecidas áreas de passagem.

E por mais que hoje já perdemos nas ruas as referências de uso que as tornavam mais compreensíveis a quem por elas caminhava, ainda acho que vale a pena o exercício de unir aquilo que era do outro tempo com o que ai está.

A Ladeira Porto Geral por exemplo, se mantém entre nós e ainda faz alusão a um passado que talvez poucos pessoas que perambulam por ela imaginem. A Ladeira foi caminho do porto, ali embaixo ainda se via o rio Tamanduateí e as embarcações que traziam alimentos e faziam grande parte do transporte da cidade chegavam e partiam deste porto.

Ali no alto da Ladeira bem merecia haver um telescópio em que as pessoas ao olharem por suas lentes vissem para além do formigueiro humano que passa pela rua 25 de março, a antiga ladeira de paralelepípedos, o rio e suas 7 voltas serpenteando lá embaixo e talvez o movimento das lavadeiras que se dirigiam as águas do Tamanduateí. E nada disso que estou descrevendo aqui seria impossível de acontecer, porque tudo faz parte de registros, imagens de ilustradores e fotógrafos que estão por ai distribuídas em álbuns, memórias e documentos prontos para se re-unirem a fim de contar uma história.

E agora, ao finalizar este texto, vejo que burlei o dicionário de Freitas e escapei sem querer da letra A para navegar por tantas outras letras e assuntos da cidade que ele disparou em mim com o poder de uma letra só.

Quem foi Affonso de Freitas:

Affonso de Freitas ocupou por muito tempo a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Foi um grande historiador dos assuntos paulistas e excelente cronista. Escreveu durante a vida toda e tem uma extensa lista de publicações dos mais variados assuntos. Dentre as obras publicadas e acessíveis, destaco o gracioso livro Tradições e Reminiscências Paulistanas que mostra a cuidadosa escrita de Freitas aliada a profunda erudição com a história de São Paulo, principalmente sua preocupação com termos indígenas e questões oriundas do português vernacular.

Referências bibliográficas:

Freitas, Affonso de. Diccionário do Municipio de São Paulo, Graphica Paulista – Editora: São Paulo, 1929.

Freitas, Affonso de. Tradições e Reminiscências Paulistanas, Governo do Estado de São Paulo (3.ed): São Paulo, 1978.

Paula Janovitch

Guia de terrenos baldios de São Paulo

 Por acaso ou força do hábito , fui no domingo à feira do Bexiga e lá encontrei um guia bastante singular: Guia de terrenos baldios de São Paulo or Guide to the wastelands of São Paulo. O simplório guia, todo em preto e branco e bilíngüe, chamou minha atenção. Terrenos baldios esta cidade tem de monte. Em regiões valorizadas, os tais terrenos tornam-se verdadeiros potes de ouro nas mãos da especulação imobiliária.
Folheando o simpático guia reencontrei o emblemático terreno onde foi o antigo colégio Des Oiseaux. E através dos comentários sobre este na rua Augusta com Caio Prado, revelaram-se mais curiosidades sobre aquela vasta área protegida de muros, motivo do meu último post no Versão Paulo, “Moça vestida de estudante pula muro e volta às aulas.”
O guia diz que o colégio cedeu a área para a prefeitura e em contrapartida esta deveria conservar as árvores e transformar 75% do terreno num parque público. Até agora o terreno continua lá, baldio, com as árvores, um estacionamento e um circo ótimo, Zanni, que faz uma temporada no local . Mas parque público, não parece que virou. Mais pra frente no texto, ainda há referência a uma sociedade que há 12 anos comprou o terreno, Sociedade Armando Conde Investimentos e, por ter sido contestada pelos vizinhos, elaborou um plano B chamado Projeto Parque dos Pássaros, homenagem mórbida ao oiseaux do antigo colégio. O shopping center teria 14.000 metros quadrados e, 10.000 metros seriam reservados a um parque que a benemérita “sociedade do mal” cederia a prefeitura desta cidade tão cheia de shoppings e tão carente de parques. Mas parece que a coisa sofreu nova contestação graças a deus, de uma outra Sociedade, esta do Bem, os Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César ( SAMORCC), que alegaram ser o terreno um dos poucos pulmões verdes do centro da cidade com vegetação de Mata Atlântica. Este grupo criou um comitê dos aliados do Parque, o qual reunia em 2006, 300 pessoas. Além de tentar segurar este projeto nefasto de shopping/gaiola com nome de pássaro, em 2006, momento em que este guia foi lançado, havia um processo na câmara dos vereadores em que foi pedido que a prefeitura comprasse o terreno e o conservasse como parque.
Agora fica-se na dúvida, se o antigo colégio (des Oiseaux) cedeu para a prefeitura o terreno há um tempão atrás e, naquela época, exigia que a prefeitura fizesse dos 75% do terreno um parque, como é que esta sociedade do mal compra o terreno e faz um projeto em que a maior parte da área é para shopping piu piu e apenas 10.000 ficam para a prefeitura fazer o que até agora ela não fez?
Bom gente, desculpe não ter dado uma explicação histórica daquelas com começo, meio e fim. Às vezes, a história apronta destas, acaba com uma dúzia de dúvidas contra meia de certezas….

Sobre o guia dos terrenos baldios de São Paulo:
A edição é de 2006 e foi feita por conta da 27 Bienal de São Paulo que tinha como tema “Como viver junto”. O projeto é de Lara Almarcegui (Espanha), artista que faz trabalhos fotográficos interessantíssimos com prédios abandonados e locais deteriorados. Foram impressos 27.750 cópias. Outros terrenos aparecem em várias regiões da cidade. As histórias são muito interessantes e, na apresentação do guia, há uma breve explicação geral sobre este fenômeno na cidade de São Paulo: a maior parte dos terrenos baldios esta ligada a realização de um projeto, são lugares onde tudo é possível porque a principio são todos filosoficamente vazios. Há terrenos com histórias fantásticas, outros relacionados a situações conflituosas, e ainda aqueles que são verdadeiros oásis na cidade. E este breve resumo prova por A + B que viver junto é difícil, mas sem dúvida, provoca um número enorme de histórias.
postado por Paula Janovitch

Achado e adquirido: Arquitetura Moderna Paulistana


Achei na feira do Bexiga o livro Arquitetura Moderna Paulistana, de Alberto Xavier, Carlos Lemos e Eduardo Corona, editora Pini, 1983.

A idéia do livro é fazer uma mostra/roteiro de vários exemplares de arquitetura moderna de São Paulo com os respectivos endereços. Ou seja, quem quiser, pode anotar o endereço e visitar . O único defeito do livro, que não é defeito mas pura preferência minha, é o fato da organização não ser por região, mas cronológica. Ficaria bem mais fácil e divertido se os autores apontassem percursos, mesmo que pequenos.

Voltando a ordem correta do livro. Tudo começa em 1927 com o primeiro projeto eleito como modernista, na Av. Angélica, 172. Um edifício de apartamentos do arquiteto Júlio de Abreu Junior. Aliás, todos os projetos do livro vem com um pequeno texto, uma fotografia ou duas e um croqui.

Logo na introdução os autores explicam de maneira sucinta o critério de seleção dos projetos considerados modernos e a dificuldade em definir o marco desta modernidade da arquitetura na cidade de São Paulo. E isto não é difícil apenas na arquitetura. Acho que todo mundo que trabalha com este período se depara com os mesmos pontos cegos do quando começamos a ser modernos, será que seria mesmo 1922?
Ai, ai, esta história de que nada de moderno existia antes da Semana de Arte Moderna já assassinou muitas produções interessantes da cidade de São Paulo. Na área da literatura por exemplo, escritores como Juó Bananére, Hilário Tácito, José Agudo e até o conhecido Monteiro Lobato que foram extremamente modernos, passaram ao largo dos participantes presentes na Semana de Arte de Moderna. Acabaram todos com o título duvidoso de pré-modernistas. Conceito totalmente equivocado. De fato foram modernos, ou para ser mais chique ainda como diz o professor Foot, foram antigos modernos. Isto de deixar fora da panela o tempero de época não foi apenas injusto com a produção cultural da cidade, mas de uma parcialidade que tem que ser revista e ampliada para podermos saborear o prato com todos os seus ingredientes.
Os autores deste livro de arquitetura, resolveram desenroscar este nó do primeiro exemplar moderno de arquitetura, definindo que a seleção dos projetos teria como parâmetro a arquitetura moderna racionalista e o domínio da tecnologia do concreto armado. No caso, o primeiro primeiríssimo exemplar de arquitetura moderna transpõe os muros de 1922 , escapa de São Paulo e segue direto para a estação de estrada de ferro de Mairinque (1907) onde Victor Dougbras utilizou pela primeira vez o concreto armado. Só depois de 20 anos é que São Paulo ganhou o seu primeiro edifício moderno, este que citei de Julio de Abreu Junior na Av. Angélica.
Bom, da minha parte, vou pegar o livro, abrir numa das páginas e ir para a rua fotografar aquilo que existe e o que já desapareceu da arquitetura moderna paulistana selecionada nesta obra. Aguardem futuras revelações…
por Paula Janovitch