Vila Itororó: uma história em três atos

capa livro

Coleção Canteiro Aberto Instituto Pedra e Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo.

 

Foi lançado em fevereiro de 2018 o segundo volume da coleção Canteiro Aberto, do Instituto Pedra em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo: Vila Itororó: uma história em três atos, das urbanistas e pesquisadoras de história da cidade de São Paulo, Sarah Feldman e Ana Castro. A publicação resgata a história da emblemática Vila paulistana, localizada na área central da cidade, entre os bairros da Liberdade e Bela Vista.

Por incorporar em sua construção materiais de demolição de um antigo teatro da cidade, o São José, e outras implantações inéditas e singulares para uma habitação do início do séc. XX como piscina, chafariz, bustos e esculturas, a Vila Itororó acabou chamando atenção de muitas gerações de urbanistas e pesquisadores do patrimônio histórico a partir dos anos 70 do século passado. Tornou-se de fato parte do debate das transformações dos critérios dos bens a serem qualificados como relevantes à memória da cidade de São Paulo.

 

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Considerada de arquitetura exuberante, surreal, o imóvel localizado numa encosta do Vale do rio Itororó ( atual avenida 23 de maio), acabou sendo foco de disputas e discussões sobre suas possíveis ocupações a partir do momento em que passou a ser protegido pelos orgãos de patrimônio histórico. Nomes como Benedito Lima de Toledo, Carlos Lemos, Claudio Tozzi, Décio Tozzi e Flávio Império fizeram parte destas primeiras discussões e formulações de projetos de novas qualificações que por anos nunca saíram do papel.

Eu mesma fui vítima do encantamento da Vila Itororó. Nos anos 1990, quando era    pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico, fizemos uma vistoria nas construções. Recordo a forte impressão que me causou entrar naquele casarão decadente que tinha logo a entrada dois leões, esculturas, varandas, longas escadas, pilares e uma piscina coberta ao fundo. Era difícil definir visualmente o que havia sido aquele conjunto de casas. Lembro de ter conhecido uma senhora muito pintada que diziam ser uma antiga atriz. Fui embora com aquela imagem dos leões da entrada, dos pilares e da velhinha com ruge nas bochechas, moradora solitária de um cômodo do antigo palacete.

 

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Lendo o livro sobre a Vila Itororó de Sarah Feldman e Ana de Castro, as formas arquitetônicas que por tantas décadas ocuparam o imaginário da Vila, saem do centro das atenções. Outras histórias revelam-se através de documentos públicos, recortes de jornal, depoimentos e fotografias que multiplicam a vida da casa colocando-a em diálogo com a história da construção e das formas de morar na cidade de São Paulo, especialmente na área central.

Somos convidados desde o primeiro ato a entrar em contato com a vida de Francisco de Castro, o primeiro proprietário e idealizador da Vila. Um filho de imigrantes portugueses, que como tantos outros estrangeiros, contribuíram para a formação da cidade de São Paulo. Acompanhamos a maneira como este investidor anônimo, integrava-se ao comércio da terras urbanas no início do séc. XX, momento em que a cidade transformava-se a olhos vistos.

A pesquisa tem o mérito de partir de um pequeno registro, o recorte de uma habitação central, para potencializar redes de conexões com o tecido urbano que ampliam os horizontes das relações e conexões destes possíveis franciscos de castro em diálogo com escritórios renomados como o de Ramos de Azevedo e as definições dos melhoramentos urbanos para a nascente capital do café. Percebemos neste cruzamento de diálogos, que a cidade não se expandia apenas pelas mãos de grandes loteadores, o solo urbano era negócio para todos.

Percorrendo a história da área central através da história da Vila Itororó, temos de fato um recorte urbano de São Paulo. Revelam-se personagens que passam a ter corpo, nome próprio, relações de amizade e parentesco. Projetos, desejos, sonhos e histórias que apontam conteúdos inéditos da formação social urbana. Tudo que se fala da Vila , não constitui-se como fato isolado do que a integra na cidade.

No segundo ato do livro entramos no universo mais íntimo da casa, dos moradores que habitaram a Vila Itororó. Num terreno de quase 6.000 metros quadrados, Francisco de Castro não construiu apenas seu sonho de morar, mas também um conjunto de casas de aluguel que lhe garantiriam um renda fixa. Algo extremamente comum à época, esta mistura de usos que poderiam muitas vezes ser compartilhados num mesmo lote, resultando em um dos investimentos mais seguros naquele momento. Como afirmam as autoras,  80% das famílias moravam em casas de aluguel em São Paulo nas primeiras décadas do 1900.

Francisco de Castro vem a falecer nos anos de 1930, repleto de dívidas e sem ver vários dos seus sonhos realizados. Os projetos urbanos que atravessariam sua propriedade valorizando seu lote, como a avenida Itororó (atual avenida 23 de maio), acabaram acontecendo décadas depois de sua morte, nos anos de 1960.

Nos anos de 1930, a Vila Itororó passa a ter novos proprietários, mas permanece como local de moradia de famílias que se caracterizavam por proximidades de parentesco e amizade. O palacete, morada de seu idealizador, neste segundo momento é dividido e ocupado para aluguel. A geografia da casa grande com a ocupação rentista, não deixa de refletir as hierarquias sociais do espaço urbano. Os mais abastados passam a morar nas áreas de acesso independente e próxima à rua. Os de menos posses, ocupam áreas da casa mais distantes da rua e com acessos compartilhados.

Porém, destacam as autoras, a sociabilidade dos moradores da Vila se mantém ao longo de  toda a sua existência como residência. Áreas comuns do terreno que incluíam a piscina e o pátio, entre o palacete e as casinhas de aluguel, revelam-se nas memórias dos antigos moradores como um rico espaço de convivência. Alguns lembram de um abacateiro, outros das festas e do clube Eden que incluía o uso da  piscina.

Outro aspecto fundamental que destaco neste segundo ato, refere-se a localização estratégica da Vila, entre o centro da cidade e a avenida Paulista. Como habitar entre espaços centrais da cidade, com instituições culturais e educacionais potentes, propiciou aos moradores da Vila condições de acesso à cultura e educação que caracterizam de forma singular a vida na área central da cidade.

Eis ai nos registros da história da cidade de São Paulo, um capítulo que precisa ser iluminado, batido e rebatido: a ótima coexistência entre habitação popular, cultura e serviços em regiões centrais.

 

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O terceiro ato talvez seja o momento que nos deixe mais pessimista em relação aos destinos da Vila e de seus morados. A partir dos anos de 1960, a presença da av. 23 de maio, projeto tão esperado por seu primeiro proprietário, tornou-se o início de um pesadelo para seus moradores. A área se valoriza muito e o imóvel a partir de então passa a fazer parte das várias disputas imobiliárias que ocorrem até hoje na área central da cidade. Nestes embates, inúmeros são os projetos de usos, desde a defesa legítima da permanência dos moradores, até aqueles que indicam, pelas características arquitetônicas do imóvel, um futuro centro cultural.

O livro se encerra em 2013, momento em que o Instituto Pedra assumiu o restauro e a coordenação das atividades   sobre o imóvel.  Num galpão adquirido na fase atual, criou-se um centro cultural temporário ao lado da Vila Itororó. Todas as atividades de reflexão e oficinas acontecem neste novo espaço cujo acesso se faz pela rua Pedroso, 238.

Como parte do processo de reflexão e investigação empreendido sobre a Vila Itororó desde 2013, esta publicação abre-se para os futuros possíveis do imóvel. O que só vem a reforçar a potência de materiais presentes no canteiro aberto pelo Instituto Pedra. O passado é material frágil e de fino trato, capaz de levantar questões e conteúdos importantes na reconstrução  da Vila Itororó. Vou mais longe, a história ao ser incluída no presente, é capaz  de  sugerir  novas formas de habitar a cidade.

O livro oferece muito mais histórias sobre a Vila Itororó. É uma pesquisa cuidadosa e bem escrita. Para aqueles que gostam desta emblemática Paulicéia, é leitura obrigatória.

Para saber mais:

O livro Vila Itororó: uma história em três atos pode ser adquirido na versão física e gratuita no próprio “Canteiro Aberto da Vila Itororó” . Para quem mora em São Paulo, basta acessar o site e olhar os dias e horários de visita. Para quem não mora em São Paulo, há uma versão digital do livro em pdf e vários depoimentos e registros daqueles que participaram desta história.

Vila Itororó página Facebook

Tel de contato Vila Itororó ( Centro Cultural Temporário/ Secretaria Municipal de Cultura): 32530187

 

1924 – Ano em que as torneiras viraram cabides.

bellezas

A Ronda, 27 de agosto de 1908

Afonso Schmidt, em uma de suas crônicas sobre a cidade de São Paulo, comenta que logo após a revolução de 1924 ocorreu uma grande seca na cidade em que os anunciantes de casas para alugar acrescentavam nas chamadas: “com água na torneira”. Porém, parece que isto não passava de uma piedosa mentira  pois “todos sabiam que as torneiras, tendo esquecido a primitiva função de verter água, tinham sido transformadas em cabides, ou mesmo enfeites das cozinhas.” (Schmidt, 92)

autor do post: paula janovitch

Para saber mais:

Afonso Schmidt, São Paulo de meus amores, “ Secas e inundações”. Editora Brasiliense. Este livro foi reeditado pela Editora Paz e Terra. RJ. 2003 e faz parte de uma coleção muito bacana voltada para assuntos relativos a história e literatura  da cidade de São Paulo.

Mapping Manhattan = Mapeando Manhattan

No meu mapa, um lugar só existe se há alguma emoção ligada a ele (Becky Cooper)

Em tempos de espaços virtuais, relacionamentos em redes sociais onde imagens-códigos como “curtir”, “compartilhar” encerram acenos de afetividades e vínculos entre as pessoas, a volta às ruas como lugar que pode ser preenchido com olhares, emoções e vínculos  parece algo muito próximo daquele movimento gastronômico  slow food. 
Foi isso que a escritora nova iorquina Becky Cooper fez. Pegou um monte de papéis em branco, cortou em pedacinhos compridos, bem próximo das dimensões  da ilha de Manhattan, e foi distribuindo as tais tiras em branco pela cidade.
O resultado surge agora em livro que contém 75 mapas de Nova York, nos quais as tiras em branco distribuídas pela escritora foram lindamente preenchidas por desenhos que mostram o percurso afetivo dos participantes por seus lugares na cidade: “Wall Street: pesar. Algum ponto a oeste do Central Park: um mendigo me perseguiu aos berros. Meatpacking District: demora para se apreciar.“(FSP, 01/10/13) .
Philippe Petit, aquele equilibrista maluco  que em 1974 se  pendurou nas extintas Torres Gêmeas e ficou zanzando de um lado pra outro entre elas nas alturas, tem o seu mapinha publicado no livro de Becky. A própria autora também desenhou o seu no final. O livro, como saiu publicado  ontem na Folha (01/10/2013), pode ser adquirido na Amazon.com por R$ 31,00. Assim como se pode apreciar melhor esta vivência de Becky pelas ruas de Nova York em seu site.

Neste site ainda podemos fazer nosso mapa da ilha de Manhattan através de um pedacinho de papel virtual que esta disponível. E isto de Amazon.com, Nova York e lugares físicos ou não, me lembrou algo bem engraçado que ocorreu comigo nos primeiros tempos em que o mundo virtual bateu à minha porta em forma de livros.
Amazon pra mim era uma livraria de NY como a Livraria Cultura é aqui no Edifício do Conjunto Nacional em SP e,  quando fui para lá, a primeira coisa que fiz foi procurar na lista telefônica onde ficava a tal livraria que tinha “todos os livros que eu procurava”. O resultado hoje em dia todo mundo já sabe:  não existia um lugar físico Amazon.com em todo o mapa dos  Estados Unidos, mas juro que  na hora que me dei conta disto,  fiquei sem chão!!!!

Para saber mais:

Livro Mapping Manhattan de Becky Cooper, editora Abrams. Amazon.com

Site: mapyourmemories.tumblr.com,  Becky Cooper

Autora reúne em livro mapas ‘sentimentais’ de Nova York, Folha de São Paulo, 01/10/13, Caderno Ilustrada pg. E5.

Mais memórias difíceis: o caso das Torres Gêmeas em Nova Iorque

Achei este pequeno texto que escrevi em 2007 na época em que li dois artigos interessantes publicados respectivamente no jornal Folha de S. Paulo e Estado de São Paulo. Falsa jornalista que sou,  acabei não publicando no calor da hora, mas agora com o 11 de setembro resolvi retirá-lo dos “rascunhos” e  publicá-lo na “atualização”  do Versão Paulo.

Este texto  que publico aqui continua uma discussão já iniciada no blog sobre as memórias difíceis: Memórias difíceis: espaços de reclusão na cidade  e O lugar da tragédia do avião da Tam já tem projeto de praça . Prolongando o assunto   e seus vários significados espaciais e imaginários seguem aqui encadeados os dois   artigos que sairam na imprensa em 2007. Um deles sobre livros,  saiu no caderno “Mais” da Folha de São Paulo do dia 07/10/07. O titulo do artigo era “Torres fêmeas”, uma paródia à tragédia do dia 11 de setembro  em NY. O livro em foco,  O sonho do terror de Susan Faludi, abordava a representação da tragédia através de uma série de reconstruções masculinas que chegavam a remontar o mito da conquista americana: o faroeste. Absurdo? Talvez, a primeira vista  podemos achar  que a autora procure pelo em ovo, afinal diante de uma tragédia destas pensar que a maior parte de suas representações teve um caráter masculino parece bastante estranho. Mas nada que o artigo/resenha aborda parece bobagem, muito pelo contrário. Nos poucos comentários do texto percebe-se que depois de 11 de setembro, apenas algumas vozes femininas se manifestaram. Como se a retomada da defesa do império norte-americano, de fato, ainda morasse “nos bravos homens que dominaram o oeste americano”. Faludi exemplica que este quase arquétipo masculino de retomado do império americano pode ser percebido no filme Guerra dos Mundos (2005) onde Tom Cruise, um pai divorciado e fracassado, reconquista a sua virilidade ao salvar sua filha. Na cena final  do filme Tom Cruise, ao carregar a filha no colo,  faz  eco ao final do clássico Rastros de Ódio (1956) de John Wayne.

Ainda nas palavras da autora, a forte representação da virilidade masculina pós 11 de setembro se enquadra em uma tradição de 300 anos de “ reengenharia cultural”. E Faludi vai mais longe ao visitar a exposição de fragmentos encontrados na tragédia de 11 de setembro na Historical Society. Observa ali a presença de objetos destituídos de textos que acabam sendo canalizados para construções mitológicas. O que também ocorre facilmente no terreno da linguagem. Caso exemplar disto, comenta ela, foi  como as pessoas que trabalharam no destroços do 11 de setembro  fizeram referência ao lugar da tragédia, “ the pile” ( a pilha), enquanto a mídia recorreu ao jargão militar de “ ponto zero”. Ponto zero foi a expressão oficial que de fato pegou e foi incorporada em todas as referências ao local da tragédia.

Guerra dos sexos

Um destroço das Torres Gêmeas encontrado e exposto na Historical Society

Porém a história das Torres Fêmeas não para por ai. Coincidência ou não, no Caderno de Cultura do jornal Estado de São Paulo do mesmo dia surge uma das vozes femininas presentes no caso das Torres Gêmeas . O artigo aborda entre outros temas ligados a ficção e escrita feminina, algumas notícias saídas na imprensa logo depois da tragédia de 11 de setembro que foram escritas por uma sobrevivente, Tânia Head,  que  teve  a veracidade de sua história questionada. Esta testemunha até então fazia parte dos 19 sobreviventes da parte mais alta de uma das Torres. Sua história se passa no dia 11 de setembro, ambientada no Word Trade Center. Gravemente queimada no ataque, Head sustentava a história  que  ao tentar sair da Torre, recebeu uma aliança de um homem moribundo que lhe pediu para entregá-la à família. Ao mesmo tempo,  “Enquanto ela descia do 78 andar da Torre Sul, era sustentada pela imagem mental do vestido branco que usaria no casamento com Dave, seu noivo, que, naquele exato momento, estava preso na outra torre.”

O relato de Head apareceu na imprensa e ela chegou a presidir  até pouco tempo  da publicação deste artigo (2007) uma associação de ajuda aos sobreviventes, além de levar  grupos de turistas ao local da tragédia e, in loco, contar sua versão da história. Hoje seu testemunho  é questionado. O noivo Dave não foi identificado. Seus parentes nunca ouviram falar de Head. Também não há nenhum registro sobre o homem que lhe deu a aliança.

Verdade ou ficção, Head ao tecer sua história, construiu um tipo de redenção em meio a destruição, algo  que a nação americana por um bom tempo adotou como a   história emocionante de uma sobrevivente. Tramada entre a ficção e a tragédia,  parece que fica uma versão feminina da história. Nem muito correta, quase nada verídica, porém que serviu como conforto para muita gente ao longo destes anos em que Head poderia ter sido facilmente desmascarada, mas não foi!

As mulheres  tem lá suas artimanhas e, sem  querer desapontar os céticos,   se as vozes femininas não estão presentes no “ponto zero”, parece que  a escrita feminina tem  imaginação suficiente para inventar um lugar e seus objetos. Tomara que mais vozes femininas mostrem seu poder de invenção, afinal nem tudo tem que acabar sempre  em bang- bang.

Mais sobre o assunto:

Este livro de Susan Faludi, “O sonho do terror” parece não ter publicação brasileira porém, de Faludi,  a ed. Rocco publicou “Domados: Como a cultura traiu o homem americano”, 2006.

Pra quem quiser pensar mais a questão do lugar na construção feminina recomendo a leitura de um clássico da relação entre a  mulher e a ficção,  “Um teto todo seu” de Virginia Woolf. ( link de PDF do livro)

São Paulo de uma letra só

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Carlos Drummond de Andrade

Tenho um apreço especial por dicionários, ao longo dos anos criei em casa uma prateleira só para eles. Ficam na altura do meu braço, bem próximo do ouvido esquerdo porque ao contrário do que se possa pensar, um dicionário não serve apenas para corrigirmos ou buscarmos termos desconhecidos ou duvidosos. A esta função primeira de buscar no dicionário a definição correta, o termo obscuro, inúmeras outras funções se combinam no encontro com as palavras : os sinônimos, a etimologia e finalmente a possibilidade de através do conteúdo que se encontra em um único verbete se criar uma sucessão de ideias que nos levem a outros tantos caminhos. Por isso fui acumulando dicionários dos mais variados assuntos: dos animais, dos símbolos, dos lugares imaginários, os analógicos, dos mitos literários, das gírias brasileiras, dos suicidas ilustres, das definições arquitetônicas e até tenho um de autoria familiar, o dicionário de homeopatia.

Gostaria de dividir com vocês um que tem especial significado para a cidade, o Diccionario do Município de São Paulo, do meu querido Affonso de Freitas (1868-1930), publicado em 1929 pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Este dicionário contém como vem definido na primeira página:

“a origem e a história do município e de suas povoações; descripção da climatologia regional; interpretação dos termos autochtones empregados na geographia e no vocabulário dialectal: nomenclatura das ruas e bairros da cidade e origem das respectivas denominações; elucidação de fatos históricos desenrolados na capital do estado, etc, etc.”

O volume que tenho é o primeiro e só contém palavras com a letra A. Comprei este exemplar sabendo da ausência das outras letras do alfabeto. Mas mesmo assim comprei porque o autor foi um renomado pesquisador da cidade que por algum motivo não conseguiu que os outros volumes vingassem. Era pegar ou largar. Ou o A da cidade de Freitas, ou nada.

Lendo os verbetes se percebe que estes futuros volumes (B – Z) deveriam existir ou estavam muito bem encaminhados pois em muitos há indicações para se buscar mais sobre o assunto tratado em outros termos como: Faculdade de Direito, Cidade-Jardim e etc…

Talvez no futuro um pesquisador encontre nos calabouços do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo os manuscritos perdidos de Freitas que devem dar conta das outras letras do alfabeto. Mas por hora temos que ficar com este de uma letra só.

Na maior parte das vezes um dicionário vale pelo universo completo que ele abarca. A ausência de uma letra, o sumiço de uma única página pode inutilizar um dos objetivos mais primários do dicionário; dar busca num universo de palavras ou termos que obedece a uma determinada ordem.

A falha na ordem gera no usuário a sensação de não completude deste universo, a consciência que sua busca em algum momento corre o risco de não ser bem-sucedida porque ali existe algo inacabado.

Pois bem, meu dicionário de termos relativos à São Paulo sofre desta falha numa forma talvez muito intensa, porque não falta nele uma das letras ou uma página apenas, esta ausente dele a maior parte do alfabeto, só tenho a letra A, ou seja a menor parte do todo.

Ao mesmo tempo, por ser um fragmento desta sequencia alfabética e por eu saber de antemão que ele só existe na letra A, tudo se modifica na forma de abordá-lo. Começando pelo fato que ele em si não abarca uma totalidade, apenas uma mínima parte deste todo. Por outro lado este fragmento que tenho perfaz uma unidade, pensando que vai do A do começo ao fim.

Talvez esteja querendo explicar pra vocês algo que também tem a ver com o trabalho do pesquisador de história. É exatamente assim que um buscador de tempos trabalha, com fragmentos. Porém como historiador e amante do tempo ele deseja a completude, a sequencia dos fatos, a sucessão dos acontecimentos, o encadeamento de algo que ele só pode participar pelo registro que se oferece como mensagem. Para um historiador, quanto mais fragmentos ele reunir melhor, quanto mais sequencias e encadeamentos de registros, mais viável será sua leitura critica dos outros tempos.

Por outro lado, o excesso de material ou a lógica cumulativa que se traduz em farta documentação e informação, pode levar o nosso historiador a uma área de conforto que seria o equivalente em ter diante de si um dicionário completo, um universo que bastaria apenas ordenar sua lógica para se obter uma visão privilegiado de um determinado assunto. E com este raciocínio, ao contrário de um texto reflexivo sobre determinado tempo-espaço, surge uma enorme enciclopédia de informações encadeadas em que a regra parece ser não abrir mão de quase nada do que foi encontrado. O resultado desta odisseia em reunir informações e encadeá-las é que muitas vezes o pesquisador perde a chance da seleção, da escolha e recorte do que seria mais representativo na abordagem de um determinado assunto.

Não é o documento encontrado e re-apresentado por mais raro que seja que tem a capacidade de se autoexplicar manifestando seu tempo redescoberto. O documento não é autoexplicativo, somos nós que criamos o caminho e a forma de representá-lo. Nossa encadeação de ideias é que aponta um lugar atualizado no presente para esta seleção de registros que escolhemos para dar liga a um determinado assunto. A nossa função é costurar uma nova trama que vai cerzindo presente e passado de uma maneira muito singular, porque passa por escolhas e apropriação de conhecimentos. Esta reflexão critica, seletiva e particular, é de fato o que faz com que cada registro mantenha um frescor inexplicável: colocamos perto o que estava longe, claro o que parecia obscuro, vivo o que estava inanimado.

O fato do dicionário só trazer a letra A parece ser um ótimo limitador natural deste universo que muitas vezes almejamos infinito e sedutor. Por isso ao contrário de muitos outros dicionários que tenho aqui na minha prateleira os quais consulto com as primeiras e segundas intenções, este eu faço diferente, abro pra ver a onde me leva. E através desta outra leitura proporcionada pelo acaso me divirto e me surpreendo com as propostas do autor.

(para retornar dos links abaixo clique seta superior voltar)

ACÚ ADOLESCENTE AMÔRES ALTITUDES AFFLICTOS ANALYSES DE POTABILIDADE

ANTROPOPHAGIA ANQUINHAS ANTIGA VIAÇÃO AUGUSTA ALEGRIA

AMARAL GURGEL AMENDOIM ANGÉLICA ANCHIETA AFILADOR ARAÇÁ

Através da letra A compreendo a forma como Freitas foi selecionando o que ele percebia de fundamental no século XX sobre a cidade de São Paulo. Quais os verbetes que ele escolheu para desenvolver assuntos referentes a cidade naquele momento.

E com este método acabo por fazer achados que muitas vezes são inéditos e totalmente estranhos e outros, buscas minhas também. Fico grata pelos estranhamentos e coincidências como a palavra Acú, dá língua tupi-guarani que é veneno, mas que também refere-se ao antigo nome da Av. São João bem no início dela, a Ladeira do Acú.

Acú também se estendia ao nome da ponte que atravessava e ligava os dois lados do Vale do Anhangabaú. A origem de Acú vem da redução de Iacuba (água que contém veneno). Iacuba ou Yacuba era denominado o rio que nascia no largo do Tanque do Zúniga e ia confluir com o Anhnagabaú. Até 1780 o Tanque do Zúniga tinha o nome primitivo de Iacuba. Passa a ser Zúniga a partir do momento em que o sargento-mor Manoel Caetano Zúniga se “investira da propriedade das nascentes do curso d´agua”, e impediu o povo de levar roupas no “seu” tanque. Em 1865, o Tanque já aterrado muda de nome e passa a homenagear à tomada da praça uruguaia de Paissandú, ficando conhecido pelo atual nome de largo do Paissandú.

Há vários verbetes de nomes próprios, a maioria conhecemos porque fazem parte da história da cidade ou de fatos históricos nacionais comemorativos, porém o primeiro apelo é associar o nome a uma rua da cidade, porque de fato temos uma enxurrada de ruas de nomes próprios vindos de uma época em que a rua não valia apenas pelo seu uso ou localização, a rua passa a ser um lugar de visibilidade, de elegia. Os nomes próprios migram para ruas no século XIX, como novas tatuagens que marcam o lugar.

Porém o nosso amigo Freitas não fica apenas esclarecendo quem foi quem na história nacional. Ele vai mais fundo e mais longe. Por exemplo, a Rua Amador Bueno do distrito de Santa Iphigenia, batizada assim em 1865 em homenagem “ a Amador Bueno da Ribeira, o acclamado rei de São Paulo”, antes se chamava Rua do Meio, denominação tirada de sua localização entre a rua antiga de São João e dos Bambus ( atual Av. Rio Branco).

Interessante ainda é pensar que as ruas antigas, especialmente aquelas ligadas ao uso, não se restringiam a um único lugar da cidade. Existia uma outra rua do Meio em São Paulo no que hoje é a rua Carlos Gomes, entre a rua de Cima, hoje Liberdade, e a de Baixo, que é o prolongamento da rua Carlos Gomes. Como se à época valesse mais a topografia do lugar do que a singularidade dos nomes.

Isto também me fez lembrar que algumas ruas que mudaram de nome no final do século XIX, permaneceram sendo reconhecidas pelas antigas referências de uso ainda por um longo tempo. Quem faz alusão a esta permanência de referências são os cronistas da cidade que não cansavam de chamar o novo pelo antigo, negando de certa forma a dissociação que se fazia na forma de viver e se deslocar na cidade que os nomes próprios traziam às conhecidas áreas de passagem.

E por mais que hoje já perdemos nas ruas as referências de uso que as tornavam mais compreensíveis a quem por elas caminhava, ainda acho que vale a pena o exercício de unir aquilo que era do outro tempo com o que ai está.

A Ladeira Porto Geral por exemplo, se mantém entre nós e ainda faz alusão a um passado que talvez poucos pessoas que perambulam por ela imaginem. A Ladeira foi caminho do porto, ali embaixo ainda se via o rio Tamanduateí e as embarcações que traziam alimentos e faziam grande parte do transporte da cidade chegavam e partiam deste porto.

Ali no alto da Ladeira bem merecia haver um telescópio em que as pessoas ao olharem por suas lentes vissem para além do formigueiro humano que passa pela rua 25 de março, a antiga ladeira de paralelepípedos, o rio e suas 7 voltas serpenteando lá embaixo e talvez o movimento das lavadeiras que se dirigiam as águas do Tamanduateí. E nada disso que estou descrevendo aqui seria impossível de acontecer, porque tudo faz parte de registros, imagens de ilustradores e fotógrafos que estão por ai distribuídas em álbuns, memórias e documentos prontos para se re-unirem a fim de contar uma história.

E agora, ao finalizar este texto, vejo que burlei o dicionário de Freitas e escapei sem querer da letra A para navegar por tantas outras letras e assuntos da cidade que ele disparou em mim com o poder de uma letra só.

Quem foi Affonso de Freitas:

Affonso de Freitas ocupou por muito tempo a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Foi um grande historiador dos assuntos paulistas e excelente cronista. Escreveu durante a vida toda e tem uma extensa lista de publicações dos mais variados assuntos. Dentre as obras publicadas e acessíveis, destaco o gracioso livro Tradições e Reminiscências Paulistanas que mostra a cuidadosa escrita de Freitas aliada a profunda erudição com a história de São Paulo, principalmente sua preocupação com termos indígenas e questões oriundas do português vernacular.

Referências bibliográficas:

Freitas, Affonso de. Diccionário do Municipio de São Paulo, Graphica Paulista – Editora: São Paulo, 1929.

Freitas, Affonso de. Tradições e Reminiscências Paulistanas, Governo do Estado de São Paulo (3.ed): São Paulo, 1978.

Paula Janovitch

Em busca das trilhas sonoras da cidade de São Paulo

Quem vê sem ouvir fica muito mais inquieto do que quem ouve sem ver (Walter Benjamin)

Existem critérios para os barulhos que escutamos no nosso dia-a-dia? Dentre as várias ondas de ruídos, quais seriam as mais dignas de lembrança?
A grande cidade deixou de ter um fundo silencioso faz muito tempo. O fenômeno excesso de barulho nas grandes cidades trouxe uma série de transtornos aos seus habitantes. O mais conhecido é o nível de ruídos suportável a audição humana, mais de 85 decibéis parece ser o limite de barulho que podemos agüentar sem prejuízos a audição. Aliás, este limite do quanto a gente agüenta de barulho vem sendo tema de artigos na imprensa , principalmente com as obras do metrô aqui em São Paulo e os walkmans, ipods, iphones diretamente conectados nos ouvidos da maior parte da juventude. Muito em breve, parece que teremos uma geração de adultos surdos. Mas a barulheira da grande cidade também revela um outro dado muito mais sutil e silencioso. O apagamento das lembranças auditivas no cotidiano de seus habitantes. Especialmente aqueles sons que um dia fizeram parte da nossa vida e que vão desaparecendo sem que tenhamos percepção de seu sumiço. É irônico constatar que perdemos os sons em silêncio. Talvez isto se dê pela confusão de barulhos que nos cercam, talvez pela desvalorização da memória auditiva , ou ainda por esta conjunção de faltas de estímulos que acabam por perpetuar esta ausência de percepção da importância dos sons nas nossas lembranças.

Estou ficando surdo de tanto escutar!

Nos critérios do que permanece por mais tempo como registro do passado, a memória visual ganha em disparado da memória sonora. O verbo ver é muito mais utilizado do que escutar. Apesar de termos perdido o silêncio há muito tempo, parece que hoje mais do que ontem, “ninguém escuta ninguém”. Então o excesso de barulho nos fez surdos aos chamados das lembranças sonoras. Guardamos filmes sem trilha sonora , no máximo imagens com escassas legendas.

Alguém já pensou nas suas lembranças sonoras particulares ao longo da vida? Lembro do assobio do meu pai ao chegar em casa, o barulho das pisadas seguras da minha mãe ao vir me tirar da cama de manhã, o som do amolador de faca, do homem da pamonha, do quebra-queixo e ai não lembro muito mais. Onde guardamos estes registros que não se repetem mais e nem são lembrados por nós a não ser por um grande esforço de memória? Como rever estes sons sem um registro deles?

Só para se ter uma idéia num outro dia assisti um documentário sobre demolições em São Paulo, História de morar e demolições, em que se entrevistavam algumas pessoas que iriam ter suas casas postas abaixo num curto espaço de tempo. A proposta do diretor do documentário foi registrar a casa destas pessoas antes da demolição. Para a execução do registro, o diretor deu para os depoentes uma máquina fotográfica para que os próprios selecionassem o que gostariam que fosse lembrado da suas casas no momento da filmagem. A maioria das pessoas repetiu algo semelhante e bastante singular, pediram para que fosse capturado lugares da casa que promoviam sons característicos e familiares: ranger de portas e janelas, campainhas, o barulho de um ventilador de teto e etc…. enfim os sons de lugares da casa que por si só provocavam lembranças. Eis aqui uma grande revelação da importância do registro sonoro: provocar de forma direta lembranças do lugar

Como ter critérios se não percebemos os sons que perdemos dia-a-dia, geração à geração?

Nossas trilhas sonoras têm uma história que vai do pessoal ao coletivo . E o que vem ocorrendo na grande cidade, é que vamos perdendo o nosso acervo de sons públicos e privados de forma galopante. Pensar formas de registrar as sonoridades urbanas parece ser tarefa fundamental não apenas para salvar as nossas lembranças mais distantes, mas para refinarmos os critérios dos sons que desejamos ou não tolerar na cidade em que vivemos.

Agora em novembro foi lançado um livro sobre a história das sonoridades da cidade de São Paulo na virada do século XIX para o XX. O livro Kaleidosfone é do historiador Nelson Aprobato Filho e busca revelar através de fontes diversas: memórias, ficções, legislatura da cidade e etc, os vários sons da cidade num momento de grandes transformações temporais e espaciais, a viradinha do século, como diria o poeta Juó Bananére.

A virada do século é um momento interessante para registrar hábitos e espaços que a cidade foi perdendo, e outros que começam a ser valorizados. Aquelas manifestações que não se desejam mais na vida urbana não desaparecem de imediato e o que é considerado moderno, não se fixa de forma tranqüila e nem imediata como pode-se imaginar numa olhada rápida para as imagens do passado. É nesta confusão de temporalidades, num espaço ainda bastante restrito, que se percebe com clareza a história da cidade. E, acredito eu que foi com esta perspectiva de cidade em transição, em dissonância, que Nelson Aprobato resgatou a história dos sons da cidade de São Paulo. Os antigos barulhos da cidade colonial como a saparia do Brás,o chiado dos carros de bois, os sinos das igrejas, convivendo com o barulho do trem, dos motores de carro, das fábricas e etc….

Estou no começo do livro, entre os sons das igrejas que anunciavam desde a morte de um habitante até os momentos das missas. Explica o autor que os sinos naquela época não serviam apenas para chamar os fiéis para a missa, sinalizavam muito do cotidiano dos habitantes da cidade. E assim as igrejas rodeavam a cidade de sinos, sons e hábitos. Imagine então a conjunção de sinos tocando em tempos diferentes numa cidade que vivia com um fundo silencioso quase que permanente?

É neste mesmo momento de paisagem silenciosa ao fundo da cidade que o chiado dos carros de bois adquire uma barulhenta história em São Paulo. Como nota Aprobato, a presença dos carros de boi entram a saem da cidade fazendo um barulhaço. O registro de vários viajantes que passaram por São Paulo é quase unânime em notar o barulho, rangido, chiado dos pesados carros de bois que passam lentamente pelas ruas de São Paulo levando lenha e depois material de construção. O barulho de chiados aumenta à medida que a cidade cresce, e sua presença começa a incomodar cada vez mais. Há registros do barulho insuportável deles ao chegarem e partirem da cidade, e como seu peso danificava as ruas centrais. Para conter os carros de boi, as autoridades municipais começam a buscar através de leis e regulamentos formas de proibir sua passagem na área central . A principio as novas regras não são acatadas e eles continuam indo e vindo pela cidade Outros sons juntam-se as antigas sonoridades da cidade. O apito de trem simbolicamente anuncia a presença dos barulhos mecânicos, surgem as chaminés e apitos das fábricas, o breque do bonde e com estes toda uma massa de trabalhadores que invade as ruas. Surgem os sons dos mascates , ambulantes de rua e dos entregadores de jornal.

Difícil não lembrar aqui  os registros de Jorge Americano em São Paulo daquele tempo (1895-1915), crônicas repletas de sonoridades. O capítulo  “Insônia” registra os barulho da noite, e parece que o fundo silencioso da cidade torna tudo mais claro,  o ruído das patas dos cavalos, , o bonde da Companhia Viação, o galo da nossa casa. O capítulo dos “Vendedores ambulantes” contempla os barulhos do dia: o badalo da madrinha de tropas, o assobio do amolador, o som metálico de colher batida contra caçarola do folheiro, ao longe escuta-se um pregão fanhoso que ao aproximar-se revela o empalhador, à tarde vem entre nuvens de içás, o anúncio de sorvete e por ai  cidade vai trocando de sons ao longo do dia.

 Em São Paulo daquele tempo os antigos barulhos da cidade  misturam-se aos novos barulhos dos veículos motorizados, do apito do trem , da chaminé da fábrica e dos mascates das ruas.  Mais um pouco, o chiado dos carros de boi desaparece de fato e os sinos não comandam mais o dia a dia da cidade. E surge, cada vez mais forte, este barulho indiscriminado , este ruído surdo misturado de pressa, buzina, breques de onibus, de construção e destruição que vai apagando sorrateiramente nossas lembranças sonoras.

O livro de Aprobato é  muito bem-vindo, não apenas porque nos conta de um passado sonoro que em sua maior parte  desconhecemos, os sons perdidos da cidade colonial e os novos sons da nascente metrópole,  mas porque, ao resgatar os registros sonoros do passado, os barulhos de São Paulo, proporciona a nós leitores,  elementos para  refinar e ter critérios de valor sobre os sons que desejamos ou não para a nossa vida na cidade.

Só para escutar:

Largo da Concordia/ São Paulo

Nivaldo – vendedor de quebra-queixo – Perdizes -São Paulo 2000

Para saber mais:

Aprobato Filho, Nelson, Kaleidosfone, São Paulo: Edusp/Fapesp, 2008

Americano, Jorge, São Paulo Naquele Tempo (1895-1915), São Paulo: Carrenho Editorial, Narrativa Um, Carbono 14, 2004.

RUMOS ITAÚ CULTURAL, Cinco sobre cinco: documentários, Histórias de morar e Demolições, André Costa, São Paulo, 2007. 54’

Paula Janovitch

Os ossos do mundo de Flavio de Carvalho

Flavio de Carvalho foi engenheiro, artistas plástico e vegetariano convicto. Mais conhecido por ter sido um transgressor de costumes por desfilar de saias no centro da cidade de São Paulo (Experiência 3)ou atravessar uma procissão de Corpus Christi em sentido contrário e sem tirar o chapéu (Experiência 2), seus atos não foram isolados.

Por estas atitudes e por tantas outras produções, pode-se afirmar que Flávio de Carvalho foi de fato um vanguardista. Um intelectual completo.
Leio seu livro de notas de viagens, Os ossos do mundo(1936). O livro reúne vários ensaios de Flavio sobre viagens e reflexões a respeito de estética, pontos de vista sobre espaço e impressões de viagens. O primeiro dos capítulos já deixa a gente meio desconcertado. Imagine, é sobre viagens de avião,“Voando sobre as Costas Brasileiras e Notas sobre a sensação do medo”. Assunto bem emblemático para quem mora em São Paulo e viveu o drama da queda do avião da TAM.
Flavio confessa seu medo de voar. Mas quando o avião decola, aliás um hidroavião, suas observações do que pode ser visto do alto e as dimensões deste observador humano, quase sobre-humano, mexem com os neurônios. Uma das pérolas de Flavio neste vôo sobre o litoral brasileiro, deixo aqui para os amadores de cidades. Vale a pena ler tudo, pois viajar com Flavio de Carvalho, é um passeio incomum por lugares extremamente comuns:
O homem em vôo sente-se superior porque enxerga a cidade e o mundo das coisas como se enxergasse através de um organismo transparente. Ao mesmo tempo que vejo um personagem carregando uma carroça de verduras, vejo um outro personagem que necessita e procura verduras, mas ambos os personagens nada sabem da existência um do outro – estão apenas conscientes da predisposição individual e por suposição sabem que deve existir perto o personagem com disposição contrária e pronto a recebê-lo. “
E mais adiante seguem suas reflexões sobre este homem que se aproxima de um vidente por conta do lugar que ocupa estando em vôo:
“A visão do homem em vôo adquire mais uma dimensão sobre a visão do habitante da superfície; ele é capaz de prever e calcular o destino do habitante da superfície, o seu ponto de vista percorre o presente, o passado e o futuro desse personagem, porque ele enxerga a predisposição para receber este ou aquele acontecimento, e ele caminha para um rumo conforme a sua receptividade, isto é, o seu comportamento neste dado futuro só pode ser alterado pela sua predisposição ou capacidade de receber coisas. “ 
E por ai vai…
Obras arquitetônicas modernistas de Flavio de Carvalho na mira da imprensa:
Na terça feira, dia 16/out/07, saiu na Folha de São Paulo o estado de algumas obras arquitetônicas modernistas de Flavio de Carvalho. A que teve maior destaque, foi o imóvel da Fazenda Capuava em Valinhos ainda pertencente a familia Carvalho. O imóvel foi tombado em 1982 pelo Condephaat . E, em 2002, devido ao estado de abandono que se encontrava foi feito um acordo entre o Condephaat , a Prefeitura e a família para o restauro. Cinco anos depois, pouca coisa mudou. A família alega que o IPTU do imóvel é muito caro. Já a prefeitura de Valinhos não isenta legalmente este imposto apesar de acenar com proposta de comodato ou doação.
Já a outra obra modernista de Flavio é uma vila de 1938 nos jardins, aqui na cidade de São Paulo. Passou por uma reforma no mês passado, porém afirma o jornal, não ganhou proteção de nenhum orgão de preservação do patrimônio (eu tenho quase certeza que é tombada ou esta com abertura de tombamento). A vila fica na Alameda Lorena, 1257 e tem um conjunto de 17 casas.
As casas foram feitas para aluguel. À época a publicidade das casas vinha com os seguintes dizeres: ” novos modelos para 1938 e 1939, casas frias no verão e quentes no inverno”. As casas demoraram por serem alugadas. Finalmente foram ocupadas por artistas e intelectuais e depois vendidas. Hoje a ocupação da vila é totalmente comercial. Porém não há uma placa ou qualquer referência que lance luz sobre este conjunto arquitetônico do emblemático arquiteto Flavio de Carvalho. Leia mais
Quem quiser saber mais sobre Flavio de Carvalho indico aqui dois livros :
Flavio de R. Carvalho, Os ossos do mundo, São Paulo: ed.Antiqua, 2005 ( notas de viagem)
J.Toledo, Flavio de Carvalho: o comedor de emoções, São Paulo: Unicamp/Brasiliense, 1994: livro biográfico encontrável em sebos.