E se ouvíssemos as estátuas de São Paulo?

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Coluna do jornal humorístico paulista O Queixoso (1915-1916)

Um “Guia dos Monumentos Nômades de São Paulo.  Isso parece piada interna, mas não é. Pra quem diz que estátua sempre  fica parada. A história de São Paulo ensina que não é bem assim. Os monumentos  da cidade seguem o ritmo e a lógica das transformações radicais do espaço urbano.  Um dia vemos uma estátua num lugar, depois de alguns anos ela foi embora e nem deixou seu endereço pra contato. Os monumentos não sabem o quanto nos apegamos a eles ao longo dos nossos percursos pela cidade. Eu já fiz um post  no Versão Paulo sobre um amigo meu que até hoje me é fiel, continua ali ao lado do Cemitério do Araçá.  Oficialmente ele se chama Tempo, mas seus amigos costumam dar apelidos e vestí-lo conforme seus desejos. Pra mim ele é o Moisés, o Pensador e por ai afora. Outro dia meu filho me disse: “Mãe o seu amigo se mandou!!!”, mas foi pura distração. Ele é que olhou para o nicho errado do muro do cemitério, o que nunca foi habitado. Algo comum na nossa cidade também, lugares planejados para serem alguma coisa mas que  ficam vazios, como uma lacuna ou uma página em  branco perdida num capítulo de livro.  Meu Tempo continua no mesmo lugar. Por isso essa proposta que posto o link de acesso aqui me pareceu tão bacana.  Um guia/mapa que mostra os deslocamentos das esculturas pela cidade de São Paulo.

Vou mais longe nesta idéia que o Guia dos Monumentos propõe de acompanhar os passos das esculturas da cidade a fim de que não as percamos do nosso universo afetivo e das referências de memória,  pares fundamentais para o equilíbrio sócio-ambiental dos habitantes das cidades.

Como sempre faço no Versão Paulo, minhas reflexões costumam  partir de algo que pesco   no passado e coloco em diálogo com o presente.  No caso da proposta de  ouvirmos as estátuas da cidade, a coisa de fato aconteceu numa coluna temporário de um pequeno jornal humorístico de São Paulo do início do século XX, O Queixoso (1915-1916), cujo editor era nada mais nada menos que o  escritor Monteiro Lobato. São apenas umas seis colunas em que o “jornalista X.P.T.O”, provavelmente o próprio Monteiro Lobato, conversa com alguns bustos e esculturas de corpo inteiro de personagens ilustres da história nacional para saber como os monumentos estão se sentindo.   Temos lá uma entrevista com o Feijó e como consegue se  equilibrar nos dias de ventania, com o  busto do Garibaldi  que revela entre muitas coisas que sente  inveja do Feijó e do José Bonifácio porque foram representados de corpo inteiro, o busto de Alvares de Azevedo arrependido de ser Alvares de Azevedo, o  José Bonifácio, de pé,  decepcionado com a estudantada da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e ainda o Caetano de Campos, ilustre “paladino da instrução publica”, tão em voga no momento atual.

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Fiquei pensando que o o tal jornalista “X.P.T.O” lançou uma idéia que não se presta apenas  às animadas  enquetes jornalísticas, literárias e  humorísticas do 1900. Por que   não fazemos como O Queixoso fez há quase um século, animar uma conversa com os monumentos da cidade?  Que tal irmos as ruas para ouvirmos as estátuas da cidade a fim de escutar muito mais do que sua  história oficial revela ? Por que não  investigarmos a fundo a maneira como somos afetados pela presença dos monumentos e de que forma estes seres silenciosos interagem com os habitantes da cidade ?

Acredito que perceber  a maneira como nos apropriamos daquilo que constitui o imaginário urbano seria algo extremamente rico e revelador da crônica diária das pessoas no espaço público da cidade, morada de todos nós habitantes de São Paulo.

Janot

Para saber mais:

Seguem abaixo as seis colunas do Queixoso (1915-1916)   que inspiraram este post:

 

A cidade dos humoristas: Plano diretor X A lógica do absurdo

Cópia de painel 1.5 a

A imagem deste post é de 16 de maio de 1922. Lá na rua São Bento, centro antigo da cidade de São Paulo, um homem olha para cima. Reparem que a rua é estreita para o tamanho do edifício que ele observa. Desproporcional a dimensão da  rua e a visão do homem.
São Paulo cresceu sem grandes regulamentações sobre escalas. Historicamente a especulação imobiliária orquestrou o sobe e desce. A valorização e desvalorização de algumas regiões da cidade em detrimento de outros.
Não quero entrar aqui no caráter dos edifícios novos. Eles falam de um gosto e de uma forma de morar que merece ser cuidadosamente estudada. Pode se começar pelos nomes dos edifícios, e talvez adentrarmos a estética, os esquemas de segurança e da forma destas construções se articularem com o lugar.
Hoje como nos últimos dias, na Folha de São Paulo, o assunto Plano Diretor ocupa o caderno “cotidiano” da cidade :”Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras”. Nunca um plano diretor de São Paulo foi tão debatido e conhecido por seus habitantes. As construtoras através do Secovi anunciam que para dentro dos bairros, onde os edifícios não vão poder obedecer mais a “lógica do absurdo”, os apartamentos vão encarecer. E afirma o presidente da Secovi:” Quem vai pagar não somos nós, se o comprador não puder pagar nós não vamos produzir.” Porém, mais adiante o mesmo afirma que as tabelas podem ser ajustadas.
Tenho certeza que as construtoras vão continuar a construir, talvez numa escala mais humana. Com um pouco mais de reflexão sobre o lugar e a forma morar, espero eu. A cidade merece.

Sobre o post:

Folha de São Paulo, , 5/07/14

Folha de São Paulo, “Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras. 4/07/14

Ilustração do post: Revista Vida Paulista, 16 /05/1922. Ilustrador: Belmonte.

Amigo Tempo: um nicho do muro do Cemitério do Araçá

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Entre as inúmeras maneiras de nos percebermos integrantes do espaço público da cidade, talvez uma delas seja  reconhecermos no nosso percurso expressões que tornem-se parte do lugar. Lembro na minha infância de marcar no caminho que fazíamos  de casa para a escola um castelo da bruxa, uma mulher de bigodes e  um homem de rabo de cavalo que preenchiam sem eu saber meu mapa da cidade. O castelo da bruxa, que existe até hoje, ficava no jardim paulistano, uma destas casas de aparência inglesa, de tijolos vermelhos e telhados pontudos que saia diretamente das histórias de bruxa e se colocava na nossa rotina escolar. A mulher de bigode e o homem do rabo de cavalo eram então os  dois outros personagens que mostravam que a cidade não era feita nem de um rosto só e muito menos de um único tipo de rabo. Tudo isto poderia muito bem ser parte de uma história infantil mas era de fato a maneira que eu me integrava a cidade.

Com o tempo o percurso mudou. A mulher de bigode desapareceu. Vim a saber mais tarde que isto de bigodes em mulher era coisa de gente que vinha de Portugal. E também soube  que o homem de rabo de cavalo era um sujeito que se achava de fato um cavalo.  Não só para mim ele havia traçado um marco de referência na cidade,  outros haviam visto o  mesmo homem cavalo que batia os pés e abanava o rabo num boteco bem onde  é a Tok Stok do Butantã.

Hoje outros marcos, humanos ou não,  me chamam atenção no percurso que faço. O trânsito que flui cada vez menos ajuda a olhar cada vez mais e, talvez sem querer, refaço o diálogo que aprendi na infância. Foi assim que passei a ser amiga deste sujeito da foto do post. Soube pela texto da socióloga Fátima Antunes do  Departamento de Patrimônio Histórico que ele se chama oficialmente TEMPO. Foi implantado ali  na rua Major Natanael num nicho do Cemitério do Araçá em 1945 na gestão de Prestes Maia. O autor da escultura é o artista João Batista Ferri (1896-1978). E que em outros dois nichos ali existentes a idéia era implantar mais duas esculturas que fariam em composição com o cemitério uma reflexão sobre a “meditação dos homens sobre a transitoriedade dos seus dias.” (Correio da Manhã, 8/out/1945)

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Os dois outros nichos estão vazios até hoje como se dali tivessem sido arrancadas as companheiras do Tempo,  algo que de fato nunca aconteceu. Mas o meu amigo Tempo permanece ali firme e forte. Por vezes passo por lá e  esta limpinho como novo. Penso que devem ser os banhos que a Prefeitura dá. Outras, e estas são muitas mesmo, me divirto com a forma como outras pessoas interagem com ele. Já vi o Tempo, que eu chamo de Cronos, Amigão, Corujão e Moisés, vestido de mulher, com guarda-chuva, unhas pintadas de preto e até com as tradicionais flores e velas dos trabalhos de macumba.

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Talvez tenha gente  de opinião  que estas intervenções humanas  no monumento sejam simplesmente degradar mais ainda a paisagem visual da cidade. Porém, olhando os dias, o percurso das pessoas, penso que  isto é muito  relativo quando a tal  intervenção  cumpre esta função tão interessante e prazerosa de integrar a cidade na nossa vida e vice-versa.

Que a Prefeitura continue a cuidar de dar banho no Tempo e preservar sua pele natural. Porém é muito bom saber  que meu amigo não esta  só ali no único nicho ocupado, mas que outras tantas pessoas se sensibilizam das formas mais diversas com sua presença e continuam a acolhe-lo  como parte da história de cada um  pela cidade e porque não da transitoriedade dos nossos dias aqui na Terra.

Mais referências sobre o Tempo:

Fatima Antunes, Departamento de Patrimônio Histórico, texto sobre a obra Tempo, Março de 2009

https://www.google.com/maps/d/embed?mid=zV1whZhkhe4A.k2Eiize8BlfA“>Guia dos deslocamentos das estátuas de São Paulo: siga o seu monumento

Mapping Manhattan = Mapeando Manhattan

No meu mapa, um lugar só existe se há alguma emoção ligada a ele (Becky Cooper)

Em tempos de espaços virtuais, relacionamentos em redes sociais onde imagens-códigos como “curtir”, “compartilhar” encerram acenos de afetividades e vínculos entre as pessoas, a volta às ruas como lugar que pode ser preenchido com olhares, emoções e vínculos  parece algo muito próximo daquele movimento gastronômico  slow food. 
Foi isso que a escritora nova iorquina Becky Cooper fez. Pegou um monte de papéis em branco, cortou em pedacinhos compridos, bem próximo das dimensões  da ilha de Manhattan, e foi distribuindo as tais tiras em branco pela cidade.
O resultado surge agora em livro que contém 75 mapas de Nova York, nos quais as tiras em branco distribuídas pela escritora foram lindamente preenchidas por desenhos que mostram o percurso afetivo dos participantes por seus lugares na cidade: “Wall Street: pesar. Algum ponto a oeste do Central Park: um mendigo me perseguiu aos berros. Meatpacking District: demora para se apreciar.“(FSP, 01/10/13) .
Philippe Petit, aquele equilibrista maluco  que em 1974 se  pendurou nas extintas Torres Gêmeas e ficou zanzando de um lado pra outro entre elas nas alturas, tem o seu mapinha publicado no livro de Becky. A própria autora também desenhou o seu no final. O livro, como saiu publicado  ontem na Folha (01/10/2013), pode ser adquirido na Amazon.com por R$ 31,00. Assim como se pode apreciar melhor esta vivência de Becky pelas ruas de Nova York em seu site.

Neste site ainda podemos fazer nosso mapa da ilha de Manhattan através de um pedacinho de papel virtual que esta disponível. E isto de Amazon.com, Nova York e lugares físicos ou não, me lembrou algo bem engraçado que ocorreu comigo nos primeiros tempos em que o mundo virtual bateu à minha porta em forma de livros.
Amazon pra mim era uma livraria de NY como a Livraria Cultura é aqui no Edifício do Conjunto Nacional em SP e,  quando fui para lá, a primeira coisa que fiz foi procurar na lista telefônica onde ficava a tal livraria que tinha “todos os livros que eu procurava”. O resultado hoje em dia todo mundo já sabe:  não existia um lugar físico Amazon.com em todo o mapa dos  Estados Unidos, mas juro que  na hora que me dei conta disto,  fiquei sem chão!!!!

Para saber mais:

Livro Mapping Manhattan de Becky Cooper, editora Abrams. Amazon.com

Site: mapyourmemories.tumblr.com,  Becky Cooper

Autora reúne em livro mapas ‘sentimentais’ de Nova York, Folha de São Paulo, 01/10/13, Caderno Ilustrada pg. E5.