Prostituição e confinamento na cidade de São Paulo: um percurso pela antiga zona do meretrício do Bom Retiro( 1940-1953

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Rua Césare Lombroso. Fotografia de  Matheus Cripa Rocha/2019

Quem passa pela movimentada rua José Paulino, dificilmente pode imaginar que em duas acanhadas ruas paralelas que se fecham no paredão dos trilhos dos trens  que dividem os bairros de Campos Elíseos e Bom Retiro, houve durante treze anos uma área de confinamento de prostitutas na cidade de São Paulo. A zona do meretrício do Bom Retiro localizava-se bem ali, entre as ruas Aimorés e Césare Lombroso. Nas palavras do escritor João Antônio era o U do Bom Retiro.

Toda esta história aconteceu no Estado Novo, período em que São Paulo foi governada pelo interventor Dr. Adhemar de Barros. Justificava-se à época que a prostituição havia se espalhado pela área central da cidade perturbando a vida das famílias e do comércio fino. Era necessário “limpar” o centro.  A ideia  foi escolher um lugar numa outra região da cidade nem tão longe e nem tão próxima da convivência com as famílias e o comércio. Nos anos 40, acreditava-se que os homens tinham necessidades sexuais diversas das femininas e estas  deveriam ser toleradas. Aliás é do sentido de tolerância que o Estado conferiu aos antigos  bordeis o termo “casas de tolerância.”

era aqui o posto da injeção

Rua Aimorés. Uma das paradas do grupo para mostrar imagens da rua nos anos 40. Fotografia de Matheus Cripa Rocha/2019

O confinamento das prostitutas num lugar determinado da cidade, também significou que pela primeira vez o Estado  regulamentou um espaço de controle, vigilância sanitária e policial sobre a vida e o corpo destas mulheres.

Há muitas discussões sobre os motivos que levaram o Dr. Adhemar de Barros em  escolher o Bom Retiro como local  mais apropriado para instalar a zona de confinamento de prostitutas da cidade. Alguns interpretam que a eleição do bairro foi uma maneira de controlar melhor os estrangeiros  ali presentes colocando  um elemento desarticulador entre os “alienígenas”.

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De fato, a presença da “zona” na região do Bom Retiro durante os treze anos que permaneceu paralela a vida comercial da José Paulino, revelou-se em  inúmeros registros de época: nas memórias dos moradores e comerciantes, na ficção literária dos escritores boêmios,  na crônica diária dos jornais e nos relatórios das  assistentes sociais. Cada um traçou das formas  mais diversas a vida das duas animadas ruas do bairro, a Aimorés e a Itaboca. Era este o nome da  antiga rua Césare Lombroso.

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Registro oficial do grupo da manhã. Fotografia Robson  Brito/2019

Saiba mais:

Para quem não sabe esta história se transformou num percurso que eu mesma guio. Não é turístico, é PESQUISA EM ANDAMENTO mesmo. E por ser pesquisa, ele acaba mudando à cada vez que percorro estas ruas. Seja porque entram novos conteúdos, seja porque os grupos que participam sempre apontam questões às mais diversas. Se num primeiro momento, apenas levava comigo um único material de época, agora carrego memórias, entrevistas, novos achados da imprensa de época e muita conversa com quem participa. Este ano fiz duas vezes o percurso da “Zona”na Jornada do Patrimônio Histórico. Foi incrível.

As imagens do post são destes últimos dois percursos da Jornada  em agosto de 2019. Espero continuar esta experiência de levar pra rua a história do lugar e fazer da rua lugar de conversas e debates sobre a identidade de todos nós.

No caminho tinha uma pedra: passeio geoturístico pelo Centro de São Paulo

 

Dia de céu de brigadeiro, um avião cruza o céu e deixa uma linha de fumaça. Penso que ele desenha o risco branco  de propósito, mas meu amigo me diz que não, é o clima que deixa a linha  ali. Começamos o passeio pelo Pateo do Colégio, no mesmo ponto do outro sábado em que fiz o roteiro do #monumentonenhum. Mantivemos o mesmo início histórico, a partir da conquista portuguesa, da escolha do colonizador no ponto estratégico do sítio,  o local mais alto, entre rios. Com muita rapidez saímos das referências  históricas para observar as rochas. Gosto destes passeios que você entra pela cidade através de outras veredas.
Olhamos para o chão, um piso de pedra Itaquera, olhamos para o Monumento à memória ali no centro do Pateo, Itaquera na base, Itupeva na coluna. Rodamos pela Pateo e vamos às fachadas dos edifícios da Agricultura, da Justiça. As mesmas pedras, alguns detalhes de mármore de Carrara no chão pra dar o chique da entrada. A guia/geóloga pergunta se já conseguimos identificar algumas das pedras. Sim, já conseguimos!!!!

Beco do Pinto. Casa da Marquesa de Santos. Exposição Monumento Nenhum

Então vamos para a Casa da Marquesa de Santos, ali nos deparamos com as pedras empilhadas dos monumentos da exposição # monumentonenhum, fica difícil saber quais os tipos. As pessoas tocam nas pedras, sentem as diferenças, tentam falar os nomes das que acabamos de aprender. Descobrimos variações das mesmas quando são lapidadas. Entendemos o desgaste quando maltratas por agentes químicos de limpeza. Alguém recorda o velho ditado:” água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. 

Patéo do Colégio. Pedras rústicas estilo anos 40, 50.

Voltamos para o Pateo, bem nos rodapés das paredes de um dos seus muros um casal diz, parece da minha casa, anos 40 ou 50. Sim, a geóloga diz, começaram a usar pedras rústicas assim para decoração, e ai vemos a jovialidade do Pateo, integrador de várias épocas, fake para uns, mudança de estratégia da igreja católica para outros. Ela pede para gente ir até o  sino do Pateo, e lá na base mostra o granito Ubatuba. Diz que a pedreira em Ubatuba fechou, não produz mais rochas. Perguntamos como a gente faz para lembrar os nomes das rochas, ela diz que é muito fácil, a maior parte das pedreiras fica ao redor da cidade, vejam que os nomes  tem a ver com o local de extração: Ubatuba, Piracaia, Capão Bonito, Azul Bahia, Itaquera, Itupeva e ai podemos até viajar pra fora  do Brasil que os nomes continuam a referenciar seus lugares de extração:  Carrara, Travertino.
Saímos da Fundação da cidade para adentrar o Centro Velho, o antigo mercado financeiro de São Paulo. Nestas fachadas vamos encontrar uma variedade grande de rochas. Vemos o granito preto Piracaia. A guia se esforça pra gente entender a diferença deste para o Ubatuba, aquele da base do sino, meio verde. Paramos no antigo Banco do Brasil, hoje Centro Cultural, o granito ai é meio rosado, Itupeva em alguns pilares, Itaquera em outros. Vamos seguindo até o Martinelli, um integrante  do grupo não se contem e busca uma foto no celular do  que existia ali antes de ser o edifício Martinelli, explica que era uma hospedaria, mostra que cavaram o Vale do Anhangabaú e que a ladeira de São João não era tão íngreme como agora.

 

Vamos caminhando para o Mosteiro de São Bento e dali partimos em direção ao largo do Payssandú pelo Vd. Santa Ephigênia. Ela explica que a maior parte dos edifícios da cidade usam pedras de pedreiras próximas por conta do preço e do transporte, quanto mais próximo, menor o custo. Então chegamos num edifício do INSS que fica bem ali no Vd. Santa Ephigênia, todo de Travertino. As viagens para a Europa que até agora eram de entalhes pequenos nos prédios  e pisos, ganham grandiosidade neste edifício.  

Edifício do Tribunal da Justiça do Estado de São Paulo. Entalhes com rochas importadas no piso de entrada. Pateo do Colégio.

Para mim a  beleza da pedra se desfaz com a dureza da  realidade  histórica. Não deixa de me doer ver o prédio do INSS todo de pedra importada. Alguns tentam identificar a época, anos 40. Nem os bancos, muito menos o edifício da Justiça importou pedra como o INSS, luxo da previdência já na década de 40 do século passado. Cara de pau dos economistas de passarem a conta desta festa imodesta que já vem de longa data. Fico com raiva da fachada do INSS, vou no google para ler como esta instituição se define: “Autarquia que garante proteção aos cidadãos por meio do reconhecimento de direitos, com o objetivo de promover…” Chega de ler! Quero voltar para as pedras, as fissuras e artes do tempo na sua constituição. A geóloga olha sua cola na prancheta e caminha para um outra parada.

Monumento a Mãe Preta. Largo do Payssandú

Chegamos no largo do Payssandu, Mãe Preta lá no alto. Mas a nossa   guia  esta atenta   à  base, olha  para tentar identificar o tipo de pedra, não consegue. Mostra o lado onde as pessoas colocam velas. Explica que a fumaça  deixa a pedra daquele jeito, toda escura.  Eu  amo a Mãe Preta e cada vez que encontro com ela tento fotografá-la de um ângulo diferente. Ela deixa os prédios e o céu do largo do Payssandu mais bonitos, tem uma força incrível, faz contrastes múltiplos com o lugar. A Mãe Preta sai bem na foto de qualquer ângulo, é isso.

Piso de calcário com colônia de fósseis na Galeria Olido

Seguimos nosso passeio para dentro da Galeria Olido. Trabalhei naquele prédio um tempão e não sabia que ali no piso existem colônias de fósseis no  piso de calcário, quem quiser ir comigo, já sou capaz de  identificar os fósseis da Galeria Olido. 

Dante. Praça Dom José Gaspar

Dali partimos para a Praça Dom José Gaspar  para ver os bustos dos pensadores que rodeiam a Biblioteca Mário de Andrade. Dante é Travertino rústico como o INSS, a diferença que o último é lapidado ( não vou conseguir esquecer o INSS, inferno!!!). A Biblioteca tem bastante Itaquera na fachada, estou ficando craque!
Já estávamos com duas horas de percurso e ainda haviam  pedras para  serem vistas na Av. São Luis, a guia se perde nas localizações, meu estômago já estava na boca, mas vou com o grupo numa última  identificação de  rocha, a que a geóloga disse ser a mais rara de todas, o granito azul bahia!!!

Hotel Boulevard. Granito azul Bahía com a bandeira americana infiltrada.

Nunca dei nada por aquela fachada do Hotel Boulevard, quase  esquina da São Luis com a Consolação. E estava lá o tal granito azul Bahia de raridade incrível.  Quando o grupo saiu, o  porteiro do prédio disse que aquela pedra não era raridade da Bahia, mas de Israel, e que haviam dois tipos diferentes dela na fachada do prédio, uma mais clarinha e outro de segunda, a  escura. Mais à frente falei para a nossa geóloga das teorias do porteiro. Ela, como boa cientista,  disse que a afirmação dele era totalmente incorreta. Mas o que eu quis dizer é que para além das características geológicas, haviam as lendas, a forma de se apropriar daquilo com o que nos deparamos, e por falta de outros pontos de vista, a construção da imaginação ganha suas narrativas próprias como  esta do  porteiro. Quando as narrativas se encontram assim na rua, acho de uma riqueza incrível, surge  um granito azul Bahia de Israel.
 Por estas camadas de rochas  que se cruzam no nosso caminho e pelos usos que fazemos  delas ao termos mais possibilidades de construirmos outras narrativas, é que  um percurso destes torna-se fundamental. Fazer a Universidade andar na cidade e a cidade tornar-se  prática dos cientistas me parece uma aproximação  interessante e desafiadora  para ambos. 
Este percurso dos geólogos da USP foi de graça e lotou. Haviam 120 pessoas que se dividiram em 4 grupos, cada um com um especialista. Não precisa ser guia formado, não precisa saber tudo de história da cidade, basta compartilhar um pouco destas pesquisas tão interessantes que são feitas nas universidades. Todo mundo ganha com estas pedras  no meio do  caminho.
Parabéns à  professora geóloga  Eliana Aparecida Del Lama e a sua equipe que tornou este projeto possível. Muito obrigada!
Paula Janovitch

Saiba mais:

Dois dias pelos caminhos do Ó

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* Este post é resultado de duas caminhadas que fiz junto com Gilberto Tomé, Livia Gabbai, Paula Gabbai e Renato Hofer. Gilberto, artista gráfico, ganhou incentivo do Proac para fazer este lindo projeto de percursos e um livro de artista. Entendo que Tomé fez muito mais do que isso. Sensibilizou pessoas para olharem um caminho antigo ameaçado pelas radicais transformações que estão acontecendo ali. Colocou seus moradores diante da beleza da história da antiga estrada e do caminho de seus ancestrais. E, finalmente, abriu uma exposição no próprio Caminho do Ó, Praça das Porteiras ( Praça da Árvore). Segue um pequeno relato afetivo destas duas caminhadas.

 

 Ontem conversei com a Lívia, que já esta produzindo um filme das caminhadas que fizemos. Achei interessante a nossa conversa. De formas diversas cada um de nós vai desenvolvendo diálogos com o percurso, que também chamo de lugar. Um lugar para mim é algo habitado por gente, por traçados, por histórias e por quem percorre. O lugar se revela como Descobrimento no sentido próprio mesmo: um achamento. Reparei que a caminhada em si é uma ação deste achamento. E muito mais intenso se faz quando somos estimulados a ver, sentir e perceber o que permanece do passado no presente e aquilo que é radicalmente novo. Caminhar é uma troca de olhares que se aprimoram no  espaço e no cruzamento de vistas.

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 No meu primeiro percurso para a Freguesia do Ó desobedecemos o caminho principal, a avenida Santa Marina. Nos perdemos pelas pequenas travessas e pontilhões dos trilhos do trem armados de mapas antigos. Fizemos achados maravilhosos, um riacho escondido numa vila, uma grupo de ruas que é um poema de Paulo Bomfim, Tempo Reverso. E casas, residências pequenas, antigas ainda, mas com portões novos, com estruturas flutuantes  para acomodar um novo  morador, o carro. Com certeza é o antigo se adaptando ao novo, o tal puxadinho que virou garagem. 

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Na segunda caminhada, o Tomé trouxe várias folhas coloridas com impressões fotográficas antigas e distribuiu para o grupo. Começamos no início da Santa Marina, que é ali na Pompéia. A Dna. Neide ao andar pelo antigo Caminho do Ó ( Av. Santa Marina), conseguiu lembrar mais coisas dos seus percursos dos outros tempos por aquela avenida. O escadão e antes dele, a porteira do trem,” era muito mais fácil do que agora”, o local onde pegava o bonde, a relação com o rio Tietê, as distâncias, tudo era mais perto. 

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 Depois a moça da galeria de arte, a Luana, ouviu um barulho de rio, ali invisível, de dentro destes tampões da Sabesp, gravou. Ainda paramos no primeiro ponto de vista, na Praça das Porteiras ( antiga referência da Praça da Árvore) , antes da cancela do trem. E as pessoas maravilhadas conseguiram ver dali a Igreja da Freguesia do Ó, lá do outro lado do rio Tietê. Fez todo sentido. 

 Atravessar a linha do trem e passar para o outro lado da avenida é o segundo obstáculo para penetrar e refazer o antigo Caminho do Ó. 

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O Instituto Rogacionista é a primeira parada que atrai os olhares e o desejo de percorrer por dentro algo do passado. Na extensão da avenida e seus novos usos, aquele casarão antigo chama atenção. Seus jardins, as carpas, a tranquilidade, o que um casarão de chácara esta fazendo ali? Parece que o tempo deixou um marco de outros tempos, de outras histórias, ponto de reflexão numa avenida que passou rapidamente do campo para a produção fabril.  

No jardim uma moça desenhou um peixe.  Lembrei da Virginia Woolf no livro Um teto todo seu tentando agarrar um peixinho/idéia que passava naquela universidade imaginária, “Oxbridge” ( mistura de Oxford com Cambridge). Ela pescou uma carpa linda ali na antiga  Chácara/ Instituto  Rogacionista!!! 

peixes que nadam peixes que se inventam

Saindo de lá, a Vidraria Santa Marina domina a quadra do outro lado da rua, mas nos fins de semana é mais um dragão de boca fechada; dormem os fornos, as chaminés?  descansam os homens. 

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 O barulho vem do Clube Santa Marina, seu vizinho anexo. Criado e mantido por seus antigos funcionários. É o fiel Santa Marina Atlético Clube com uniforme que tem as cores da bandeira francesa. Ali se produzem outros sons: apitos do juiz , gritos de felicidade, o barulho da borracha de tênis  em atrito com o piso de cimento da quadra do futebol de salão. É gente pequena e grande que enche de vida o lugar. Andar pelo clube é percorrer histórias, monumentos e bustos misturados a pura convivência dos clubes de várzea nos fins de semana. Que não morra o Santa Marina Atlético Clube, fábrica de barulhos de felicidade da Avenida Santa Marinex!!!! 

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 Saímos do clube e o movimento do trânsito assume a trilha sonora do lugar. Nosso terceiro obstáculo é passar pela Av. Ermano Marchetti e chegar na última quadra da Santa Marina, do lado de cá do rio Tietê. Jogo duro para o pedestre. A longa travessia diz muito do lugar. Talvez seja por isso, e não por nostalgia dos velhos tempos, que Dna. Neide lembra que antigamente o Caminho do Ó era mais fácil para caminhar. Parece que nada ali é feito para os pés, mas somente para carros. Nada ali é de parar e olhar, e é por isso que estamos fazendo o Caminho do Ó. Queremos buscar ainda os fios rompidos pelo progresso. Queremos dar chance para o tempo lembrar do lugar através dos nossos pés. 

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Cruzamento da Av. Santa Marina com a Av. Ermano Marchetti.

 Ali do cruzamento da Ermano Marchetti, os olhos que nos mostraram ao longe a Igreja da Freguesia do Ó, apenas nos alertam para prestar atenção ao cruzar a avenida. Neste obstáculo não há chance alguma de ver nada além dos sinais e os jogos dos corpos humanos sincronizados com a velocidade dos carros. Atravessar a Ermano Marchetti é o que importa! E assim cruzamos o grande rio de concreto. Mas, ao virarmos antes da ultima travessa que chega na Marginal do Tietê, encontramos novamente a Igreja da Freguesia Ó, bem na cara da Marginal. Deste ponto alguém viu o nome de um rio que desemboca ali no Tietê. Outra pessoa falou que os rios não chegavam no Tietê antigamente. O Tomé mostrou outra imagem em papel colorido do lugar, uma canoa dos velhos tempos, e onde estávamos, bem na água, na várzea do rio. 

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Pegamos a calçada da Marginal à direita em direção a Ponte da Freguesia do Ó. Como é difícil andar ao lado da Marginal. O barulho dos carros, a velocidade deixa a gente com medo. Acho que vou dizer que a Marginal é nosso quarto obstáculo. 

Atravessamos uma alça para chegar na ponte. Do outro lado descobrimos um negócio de gás, com cheiro de gás. Na Ponte do Ó, a mocinha das carpas mostrou uma intervenção de um grafiteiro. O melhor de caminhar com os outros é que os olhos de um ensinam os olhos do outro. Atravessamos e teve gente com medo da ponte. Nela só tem um caminho estreito para os pedestres. De um lado o rio não se mostra muito convidativo, do outro, os carros passam como uma motosserra que corta árvores sem parar. A gente se sente muito frágil ao atravessar uma ponte tão “des-humana”. 

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 Lá de cima lembro da outra ponte, a antiga, aquela de madeira que juntava as duas partes da Avenida Santa Marina. Aquela era baixa, de madeira, própria para os animais e homens. Estranho ver uma rua que acaba no rio e começa novamente do outro lado. Fica faltando uma coisa que junte o caminho. Vamos desenhar, vamos ligar os pontos?! 

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Ponte da Av. Santa Marina ligando os dois lados, Caminho antigo do Ó. 1951

 Do outro lado, os canteiros minados de gás continuam no entorno da nova ponte da Freguesia que funciona 24 horas como motosserra cortando árvores. Dá medo ainda. Faz a gente pensar que não só os carros que passam deixam o pedestre meio perdido, mas estas granadas de postes amarelos espalhados a esmo no capim verde são impróprios para o caminhante. Talvez seja isso que Dna. Neide quis dizer ao falar que antigamente era mais fácil o caminho…

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É domingo e deste outro lado da Freguesia do Ó o comércio esta todo fechado. Aqui não dormem os homens, só seus afazeres. Então vamos subindo. Leio uma placa e ela indica que estamos numa travessa da rua da Balsa. Fico feliz de encontrar com a rua exatamente no lugar que margeava o rio. Abro um dos mapas do nossa coleção do Tempo Reverso e vejo a rua desenhadinha no final do século XIX. O rio Tietê serpenteando também esta lá, bem diferente do que é hoje, retinho. De repente dou risada sozinha. Percebo que a rua inventava curvas para dar com o rio e o rio flertava com ela também. Um rio brincalhão, sem limites ou margens fixas, desalinhado, e uma rua safada, pública, que queria a todo custo encostar no rio, só podia ser uma rua da Balsa!!! 

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 Agora vamos subir. A Igreja esta bem pertinho. Mas a ladeira é íngreme. No caminho ganhamos altura. Caixas de correspondência mostram que quanto mais pra cima, mais gente mora ali. E mais a gente consegue olhar o rio e ver da onde partimos. Ai é que surge um outro obstáculo, um monte de prédios, os tais paredões de concreto que se armam como empenas cegas diante dos nossos olhos. Tem lugar que não adianta ganhar altura, porque as paredes são maiores do que os homens, mais altas até do que a torre das antigas igrejas. Quem diria que chegaria um dia em que os olhos de Deus não poderiam mais enxergar a cidade e muito menos o caminho dos homens. 

cartas

 Chegamos na Igreja da Freguesia, bem no dia da entrega dos mastros. E sem querer eu vejo anjos de asas vermelhas e escuto cânticos. E percebo que nosso esforço de caminhantes não é solitário, o lugar nos recebe com seus antigos barulhos. A Freguesia é solidária com seu passado. Os anjos de asas vermelhas ainda querem ver o céu e tudo que a vista alcança entoando cânticos em ÓÓÓÓ!!!!!  

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 Mais sobre este post:

  • Para quem quiser conhecer o livro de arte produzido por Gilberto Tomé e as demais atividades vinculadas a exposição, veja o link com orientações detalhadas de como chegar no local, dias e horários: Ó: Caminho, Estrada, Avenida
  • O filme de Livia Gabbai produzido para este evento, Linhas e Passagens: traçados da av. Santa Marina avistam a matriz,  esta sendo exibido no local da exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.