Prostituição e confinamento na cidade de São Paulo: um percurso pela antiga zona do meretrício do Bom Retiro( 1940-1953

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Rua Césare Lombroso. Fotografia de  Matheus Cripa Rocha/2019

Quem passa pela movimentada rua José Paulino, dificilmente pode imaginar que em duas acanhadas ruas paralelas que se fecham no paredão dos trilhos dos trens  que dividem os bairros de Campos Elíseos e Bom Retiro, houve durante treze anos uma área de confinamento de prostitutas na cidade de São Paulo. A zona do meretrício do Bom Retiro localizava-se bem ali, entre as ruas Aimorés e Césare Lombroso. Nas palavras do escritor João Antônio era o U do Bom Retiro.

Toda esta história aconteceu no Estado Novo, período em que São Paulo foi governada pelo interventor Dr. Adhemar de Barros. Justificava-se à época que a prostituição havia se espalhado pela área central da cidade perturbando a vida das famílias e do comércio fino. Era necessário “limpar” o centro.  A ideia  foi escolher um lugar numa outra região da cidade nem tão longe e nem tão próxima da convivência com as famílias e o comércio. Nos anos 40, acreditava-se que os homens tinham necessidades sexuais diversas das femininas e estas  deveriam ser toleradas. Aliás é do sentido de tolerância que o Estado conferiu aos antigos  bordeis o termo “casas de tolerância.”

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Rua Aimorés. Uma das paradas do grupo para mostrar imagens da rua nos anos 40. Fotografia de Matheus Cripa Rocha/2019

O confinamento das prostitutas num lugar determinado da cidade, também significou que pela primeira vez o Estado  regulamentou um espaço de controle, vigilância sanitária e policial sobre a vida e o corpo destas mulheres.

Há muitas discussões sobre os motivos que levaram o Dr. Adhemar de Barros em  escolher o Bom Retiro como local  mais apropriado para instalar a zona de confinamento de prostitutas da cidade. Alguns interpretam que a eleição do bairro foi uma maneira de controlar melhor os estrangeiros  ali presentes colocando  um elemento desarticulador entre os “alienígenas”.

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De fato, a presença da “zona” na região do Bom Retiro durante os treze anos que permaneceu paralela a vida comercial da José Paulino, revelou-se em  inúmeros registros de época: nas memórias dos moradores e comerciantes, na ficção literária dos escritores boêmios,  na crônica diária dos jornais e nos relatórios das  assistentes sociais. Cada um traçou das formas  mais diversas a vida das duas animadas ruas do bairro, a Aimorés e a Itaboca. Era este o nome da  antiga rua Césare Lombroso.

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Registro oficial do grupo da manhã. Fotografia Robson  Brito/2019

Saiba mais:

Para quem não sabe esta história se transformou num percurso que eu mesma guio. Não é turístico, é PESQUISA EM ANDAMENTO mesmo. E por ser pesquisa, ele acaba mudando à cada vez que percorro estas ruas. Seja porque entram novos conteúdos, seja porque os grupos que participam sempre apontam questões às mais diversas. Se num primeiro momento, apenas levava comigo um único material de época, agora carrego memórias, entrevistas, novos achados da imprensa de época e muita conversa com quem participa. Este ano fiz duas vezes o percurso da “Zona”na Jornada do Patrimônio Histórico. Foi incrível.

As imagens do post são destes últimos dois percursos da Jornada  em agosto de 2019. Espero continuar esta experiência de levar pra rua a história do lugar e fazer da rua lugar de conversas e debates sobre a identidade de todos nós.

A cidade dos humoristas: Plano diretor X A lógica do absurdo

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A imagem deste post é de 16 de maio de 1922. Lá na rua São Bento, centro antigo da cidade de São Paulo, um homem olha para cima. Reparem que a rua é estreita para o tamanho do edifício que ele observa. Desproporcional a dimensão da  rua e a visão do homem.
São Paulo cresceu sem grandes regulamentações sobre escalas. Historicamente a especulação imobiliária orquestrou o sobe e desce. A valorização e desvalorização de algumas regiões da cidade em detrimento de outros.
Não quero entrar aqui no caráter dos edifícios novos. Eles falam de um gosto e de uma forma de morar que merece ser cuidadosamente estudada. Pode se começar pelos nomes dos edifícios, e talvez adentrarmos a estética, os esquemas de segurança e da forma destas construções se articularem com o lugar.
Hoje como nos últimos dias, na Folha de São Paulo, o assunto Plano Diretor ocupa o caderno “cotidiano” da cidade :”Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras”. Nunca um plano diretor de São Paulo foi tão debatido e conhecido por seus habitantes. As construtoras através do Secovi anunciam que para dentro dos bairros, onde os edifícios não vão poder obedecer mais a “lógica do absurdo”, os apartamentos vão encarecer. E afirma o presidente da Secovi:” Quem vai pagar não somos nós, se o comprador não puder pagar nós não vamos produzir.” Porém, mais adiante o mesmo afirma que as tabelas podem ser ajustadas.
Tenho certeza que as construtoras vão continuar a construir, talvez numa escala mais humana. Com um pouco mais de reflexão sobre o lugar e a forma morar, espero eu. A cidade merece.

Sobre o post:

Folha de São Paulo, , 5/07/14

Folha de São Paulo, “Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras. 4/07/14

Ilustração do post: Revista Vida Paulista, 16 /05/1922. Ilustrador: Belmonte.

A dinâmica dos nomes de ruas na cidade de São Paulo *

Ilustração

Ilustração “Minhocão” de Paula Gabbai. Jan/2009

Na rua sem resistir

                              me chamam

                                                     torno a existir (Paulo Leminski)

Resolvi escrever este post depois de ler um artigo no Estadão sobre a proposta do vereador Nabil Bonduki de mudança de nome do Elevado Costa e Silva aqui em São Paulo para como é mais conhecido, Minhocão.

Conforme o artigo, a mudança de nome busca fazer uma revisão do passado recente da história brasileira que acabou ficando cravado em muitas ruas da cidade. Para quem não sabe, Arthur Costa e Silva foi o segundo presidente militar do país, “era da chamada linha-dura do Exército e foi quem editou o Ato Institucional 5 (AI-5) em dezembro de 1968”.

Por sorte Costa e Silva morreu de um derrame logo no inicio de seu mandato, mas o nosso querido governador à época, Paulo Maluf, que estava inaugurando o Elevado (1971), resolveu como é de praxe até os dias de hoje, homenagear o presidente falecido colocando seu nome na nova via da cidade.

Por obra do destino, o Elevado que até hoje é motivo de tantos debates por “rasgar” a Av. São João de uma forma totalmente truculenta, com o correr dos anos passou a integrar e fazer parte da vida da cidade. Hoje, para os moradores dos edifícios da São João, foi conquistado o direito ao silêncio durante à noite quando este permanece fechado, assim como aos domingos e feriados a via dá acesso apenas aos pedestres e transforma-se em um lugar de lazer interessante para quem vive na área central.

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Mas o que mais me chamou atenção na proposta do Nabil em relação a mudança de nomes vai além dos fatos vinculados a ditadura e o justa expressão do desejo de apagar das ruas da cidade referências que tenham a ver com os anos de chumbo.

Alguém já se perguntou por que o Elevado Costa e Silva foi mais reconhecido por seu apelido de Minhocão do que por seu nome de batismo?

A resposta para alguns pode parecer óbvia, Minhocão tem a ver com a formato que a via toma ao passar sobre a São João: uma grande minhoca ou cobra que liga a zona leste à zona oeste de São Paulo. Mas talvez poucos pensaram qual o sentido que um apelido adquire quando de fato torna-se referência principal de um lugar ou pessoa. E é justamente isto que gostaria de destacar na proposta do vereador Nabil Bonduki.

Um apelido chama atenção por algo no caráter da pessoa/lugar que se destaca. Muitas pessoas detestam seus apelidos, outros até os incorporam e passam a pedir para serem chamadas por esta outra referência criada a partir de algo que nasce de uma expressão, forma ou caráter criado na maior parte das vezes pelo olhar de um outro.

Neste sentido, não é por mero acaso que na história do humor, muitos personagens ilustres que foram caricaturados acabaram por receber apelidos ligados em sua maioria a traços físicos ou expressões do seu caráter facilmente reconhecíveis à época.

Aqui segue um caso clássico de transformação caricatural criado por Philipon (1834). Em quatro ilustrações da cabeça do Rei Luis Filipe ele se transforma em uma pêra.

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O apelido de Minhocão para mim chega a abordar com certo afeto o que esta via concentrou ao longo de sua história. Começando por seu nascimento, pela mãos de um governador que pouco se importava com o impacto humano da obra e por quem tratou a cidade como prolongamento natural de suas propriedades.

De certa forma o Minhocão é mais uma alusão canhestra ao nossa tradição colonial onde os senhores decidiam como, onde e de que maneira trilhariam seus caminhos da casa para a roça e da roça para casa. O que no caso do Sr. Paulo Maluf poderia ser traduzido pela empresa da sua família, a Eucatex, que ficava bem no final do Elevado em sua direção oeste. Depois o crescimento engoliu tudo, inclusive este lembrança amarga da via traçada diretamente para a roça da família do governador. Paralelo a isto, o apelido de Minhocão “pegou” e permaneceu em uso até os dias de hoje, incorporando tudo de bom e de ruim que a via urbana adquiriu em sua história.

As ruas precisam com urgência voltar a ser só ruas!

Era comum nas cidades coloniais brasileiras, incluindo a nossa querida vila de São Paulo de Piratininga, que os nomes das ruas estivessem intimamente ligados ao seu uso (aspectos culturais) e a sua geografia (acidentes naturais). Hoje temos poucas ruas com nomes herdados deste longo período que vai da fundação da cidade à 1897. São ruas que de fato sobreviveram a enxurrada de homenagens e alusões presentes a partir do regime republicano.

De fato como afirma Nabil, precisamos fazer um levantamento dos nomes de ruas que lembram este passado nefasto dos anos de chumbo, onde temos generais, coronéis e presidentes elogiando algo que de forma alguma pode ser incorporado com orgulho à vida e nomenclatura das ruas da cidade. Porém, nossas ruas primariamente trilhadas à mão e no trote dos burros, vão perdendo seu sentido de uso, e parte disso esta na forma como os nomes são dados à elas a partir do final do século XIX.

Quase como monumentos, passaram de sua função de uso à locais de honrarias, expressão de pura abstração desvinculada de qualquer lógica espacial ou coerência histórica.

Os nomes das ruas

Coincidentemente no momento em que faço este post, chega pelo Facebook uma chamada que na Câmara alguém tenta passar a proposta para que o Viaduto do Chá tenha seu nome estendido para Viaduto do Chá Mário Covas. O que mostra que a cisão entre nomes e ruas é em si uma prática comum e totalmente desrespeitosa com até as mais tradicionais vias da cidade.

Tivemos há tempos atrás, uma rua Alegre que ficava próxima de outra que se chamava da Boa Morte, haviam também os caminhos, e um deles ia para a Forca e seu nome era Caminho da Forca, e ainda tivemos vários becos, largos, travessas e ladeiras que nada mais eram do que denominações dos contornos da topografia da região somados ao alinhamento das casas.

O Beco da Merda é exemplar de um fim de rua da cidade que carregava no emblemático nome sua função literal, porque de fato ali eram jogados dejetos humanos das casas dos arredores. Assim como podemos pensar que existia uma rua Alegre e outra da Esperança e, possivelmente uma Triste, e uma outra da Boa Morte quem sabe quando a tristeza, alegria, esperança e morte andavam juntas pela cidade.

Ainda permanecem na cidade algumas ruas que nos lembram destes outros tempos, onde ruas e nomes andavam juntos e de mãos dadas. A Ladeira Porto Geral lá na área central de São Paulo faz referência a um porto, o Porto Geral porque bem ali embaixo passa o rio Tamanduatei e havia de fato um porto nele. Nós não vemos mais o rio, mas ele permanece ali canalizado e, por muito tempo, pelo Porto Geral, um dos portos mais importantes da cidade, fez-se o transporte fluvial de mercadorias para os habitantes da cidade de São Paulo.

E poderia aqui citar outras tantas nomes de ruas presentes e ausentes da cidade que tinham como função principal dar sentido , localização e função para a vida de quem andava pela vila da acanhada Paulicéia. Até poderíamos pensar em ampliar a proposta do Nabil, e fazer um levantamento de quantos nomes de logradouros temos de homenageados ilustres que se concentram nas ruas de São Paulo e nada significam para a cidade.

E por que não ir mais para trás, visitar a seção de logradouros públicos do município de São Paulo e ver de fato quais os antigos nomes que várias destas ruas tinham antes de virarem pouso de generais, deputados e vereadores? E por que não recolocá-los em uso, um mundo em transição, até que o uso tome o lugar como um apelido se sobrepõe ao nome próprio.

Ruas de São Paulo homenageia empresários que apoiaram o golpe e a ditadura

Ruas e memória

Mais referências sobre este post:

1.* O titulo deste post faz alusão direta a um livro editado pela AnnaBlume que tem como assunto principal uma reflexão sobre os nomes dos logradouros da cidade de São Paulo entre 1554-1897. O pequeno e substancioso livro é de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick e foi publicado em 1997. O livro vira e revira estes nomes das ruas da cidade ligados aos acidentes naturais e culturais de São Paulo entre os “Quinhentos aos Oitocentos”, porque foi neste período de tempo , da fundação da vila em 1554 até a fixação destes topônimos, 1897, que eles de fato vincularam-se à vida da cidade de São Paulo, como os apelidos, exatamente como o Minhocão.

2. São Paulo de Outrora de Paulo Cursino de Moura trata das história das velhas ruas de São Paulo. Livraria Itatiaia Ed. Ltda, 1980.

3. Ruas e Tradições de São Paulo de Gabriel Marques é outro livro que conta “uma história em cada rua”. Editado pela Conselho Estadual de Cultura, 1966.

4. O trecho do documentário sobre o Minhocão Elevado 3.5 aborda um pouco desta alma da via maldita e bendita e vale a pena ser visto na integra.

5. a ilustração que abre este post é da arquiteta e artista gráfica Paula Gabbai e foi gentilmente cedida para esta matéria. (Muito obrigada Paulinha!)

6. As imagens do Minhocão em slideshow foram tiradas por mim num destes dias de domingo.

São Paulo de uma letra só

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Carlos Drummond de Andrade

Tenho um apreço especial por dicionários, ao longo dos anos criei em casa uma prateleira só para eles. Ficam na altura do meu braço, bem próximo do ouvido esquerdo porque ao contrário do que se possa pensar, um dicionário não serve apenas para corrigirmos ou buscarmos termos desconhecidos ou duvidosos. A esta função primeira de buscar no dicionário a definição correta, o termo obscuro, inúmeras outras funções se combinam no encontro com as palavras : os sinônimos, a etimologia e finalmente a possibilidade de através do conteúdo que se encontra em um único verbete se criar uma sucessão de ideias que nos levem a outros tantos caminhos. Por isso fui acumulando dicionários dos mais variados assuntos: dos animais, dos símbolos, dos lugares imaginários, os analógicos, dos mitos literários, das gírias brasileiras, dos suicidas ilustres, das definições arquitetônicas e até tenho um de autoria familiar, o dicionário de homeopatia.

Gostaria de dividir com vocês um que tem especial significado para a cidade, o Diccionario do Município de São Paulo, do meu querido Affonso de Freitas (1868-1930), publicado em 1929 pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Este dicionário contém como vem definido na primeira página:

“a origem e a história do município e de suas povoações; descripção da climatologia regional; interpretação dos termos autochtones empregados na geographia e no vocabulário dialectal: nomenclatura das ruas e bairros da cidade e origem das respectivas denominações; elucidação de fatos históricos desenrolados na capital do estado, etc, etc.”

O volume que tenho é o primeiro e só contém palavras com a letra A. Comprei este exemplar sabendo da ausência das outras letras do alfabeto. Mas mesmo assim comprei porque o autor foi um renomado pesquisador da cidade que por algum motivo não conseguiu que os outros volumes vingassem. Era pegar ou largar. Ou o A da cidade de Freitas, ou nada.

Lendo os verbetes se percebe que estes futuros volumes (B – Z) deveriam existir ou estavam muito bem encaminhados pois em muitos há indicações para se buscar mais sobre o assunto tratado em outros termos como: Faculdade de Direito, Cidade-Jardim e etc…

Talvez no futuro um pesquisador encontre nos calabouços do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo os manuscritos perdidos de Freitas que devem dar conta das outras letras do alfabeto. Mas por hora temos que ficar com este de uma letra só.

Na maior parte das vezes um dicionário vale pelo universo completo que ele abarca. A ausência de uma letra, o sumiço de uma única página pode inutilizar um dos objetivos mais primários do dicionário; dar busca num universo de palavras ou termos que obedece a uma determinada ordem.

A falha na ordem gera no usuário a sensação de não completude deste universo, a consciência que sua busca em algum momento corre o risco de não ser bem-sucedida porque ali existe algo inacabado.

Pois bem, meu dicionário de termos relativos à São Paulo sofre desta falha numa forma talvez muito intensa, porque não falta nele uma das letras ou uma página apenas, esta ausente dele a maior parte do alfabeto, só tenho a letra A, ou seja a menor parte do todo.

Ao mesmo tempo, por ser um fragmento desta sequencia alfabética e por eu saber de antemão que ele só existe na letra A, tudo se modifica na forma de abordá-lo. Começando pelo fato que ele em si não abarca uma totalidade, apenas uma mínima parte deste todo. Por outro lado este fragmento que tenho perfaz uma unidade, pensando que vai do A do começo ao fim.

Talvez esteja querendo explicar pra vocês algo que também tem a ver com o trabalho do pesquisador de história. É exatamente assim que um buscador de tempos trabalha, com fragmentos. Porém como historiador e amante do tempo ele deseja a completude, a sequencia dos fatos, a sucessão dos acontecimentos, o encadeamento de algo que ele só pode participar pelo registro que se oferece como mensagem. Para um historiador, quanto mais fragmentos ele reunir melhor, quanto mais sequencias e encadeamentos de registros, mais viável será sua leitura critica dos outros tempos.

Por outro lado, o excesso de material ou a lógica cumulativa que se traduz em farta documentação e informação, pode levar o nosso historiador a uma área de conforto que seria o equivalente em ter diante de si um dicionário completo, um universo que bastaria apenas ordenar sua lógica para se obter uma visão privilegiado de um determinado assunto. E com este raciocínio, ao contrário de um texto reflexivo sobre determinado tempo-espaço, surge uma enorme enciclopédia de informações encadeadas em que a regra parece ser não abrir mão de quase nada do que foi encontrado. O resultado desta odisseia em reunir informações e encadeá-las é que muitas vezes o pesquisador perde a chance da seleção, da escolha e recorte do que seria mais representativo na abordagem de um determinado assunto.

Não é o documento encontrado e re-apresentado por mais raro que seja que tem a capacidade de se autoexplicar manifestando seu tempo redescoberto. O documento não é autoexplicativo, somos nós que criamos o caminho e a forma de representá-lo. Nossa encadeação de ideias é que aponta um lugar atualizado no presente para esta seleção de registros que escolhemos para dar liga a um determinado assunto. A nossa função é costurar uma nova trama que vai cerzindo presente e passado de uma maneira muito singular, porque passa por escolhas e apropriação de conhecimentos. Esta reflexão critica, seletiva e particular, é de fato o que faz com que cada registro mantenha um frescor inexplicável: colocamos perto o que estava longe, claro o que parecia obscuro, vivo o que estava inanimado.

O fato do dicionário só trazer a letra A parece ser um ótimo limitador natural deste universo que muitas vezes almejamos infinito e sedutor. Por isso ao contrário de muitos outros dicionários que tenho aqui na minha prateleira os quais consulto com as primeiras e segundas intenções, este eu faço diferente, abro pra ver a onde me leva. E através desta outra leitura proporcionada pelo acaso me divirto e me surpreendo com as propostas do autor.

(para retornar dos links abaixo clique seta superior voltar)

ACÚ ADOLESCENTE AMÔRES ALTITUDES AFFLICTOS ANALYSES DE POTABILIDADE

ANTROPOPHAGIA ANQUINHAS ANTIGA VIAÇÃO AUGUSTA ALEGRIA

AMARAL GURGEL AMENDOIM ANGÉLICA ANCHIETA AFILADOR ARAÇÁ

Através da letra A compreendo a forma como Freitas foi selecionando o que ele percebia de fundamental no século XX sobre a cidade de São Paulo. Quais os verbetes que ele escolheu para desenvolver assuntos referentes a cidade naquele momento.

E com este método acabo por fazer achados que muitas vezes são inéditos e totalmente estranhos e outros, buscas minhas também. Fico grata pelos estranhamentos e coincidências como a palavra Acú, dá língua tupi-guarani que é veneno, mas que também refere-se ao antigo nome da Av. São João bem no início dela, a Ladeira do Acú.

Acú também se estendia ao nome da ponte que atravessava e ligava os dois lados do Vale do Anhangabaú. A origem de Acú vem da redução de Iacuba (água que contém veneno). Iacuba ou Yacuba era denominado o rio que nascia no largo do Tanque do Zúniga e ia confluir com o Anhnagabaú. Até 1780 o Tanque do Zúniga tinha o nome primitivo de Iacuba. Passa a ser Zúniga a partir do momento em que o sargento-mor Manoel Caetano Zúniga se “investira da propriedade das nascentes do curso d´agua”, e impediu o povo de levar roupas no “seu” tanque. Em 1865, o Tanque já aterrado muda de nome e passa a homenagear à tomada da praça uruguaia de Paissandú, ficando conhecido pelo atual nome de largo do Paissandú.

Há vários verbetes de nomes próprios, a maioria conhecemos porque fazem parte da história da cidade ou de fatos históricos nacionais comemorativos, porém o primeiro apelo é associar o nome a uma rua da cidade, porque de fato temos uma enxurrada de ruas de nomes próprios vindos de uma época em que a rua não valia apenas pelo seu uso ou localização, a rua passa a ser um lugar de visibilidade, de elegia. Os nomes próprios migram para ruas no século XIX, como novas tatuagens que marcam o lugar.

Porém o nosso amigo Freitas não fica apenas esclarecendo quem foi quem na história nacional. Ele vai mais fundo e mais longe. Por exemplo, a Rua Amador Bueno do distrito de Santa Iphigenia, batizada assim em 1865 em homenagem “ a Amador Bueno da Ribeira, o acclamado rei de São Paulo”, antes se chamava Rua do Meio, denominação tirada de sua localização entre a rua antiga de São João e dos Bambus ( atual Av. Rio Branco).

Interessante ainda é pensar que as ruas antigas, especialmente aquelas ligadas ao uso, não se restringiam a um único lugar da cidade. Existia uma outra rua do Meio em São Paulo no que hoje é a rua Carlos Gomes, entre a rua de Cima, hoje Liberdade, e a de Baixo, que é o prolongamento da rua Carlos Gomes. Como se à época valesse mais a topografia do lugar do que a singularidade dos nomes.

Isto também me fez lembrar que algumas ruas que mudaram de nome no final do século XIX, permaneceram sendo reconhecidas pelas antigas referências de uso ainda por um longo tempo. Quem faz alusão a esta permanência de referências são os cronistas da cidade que não cansavam de chamar o novo pelo antigo, negando de certa forma a dissociação que se fazia na forma de viver e se deslocar na cidade que os nomes próprios traziam às conhecidas áreas de passagem.

E por mais que hoje já perdemos nas ruas as referências de uso que as tornavam mais compreensíveis a quem por elas caminhava, ainda acho que vale a pena o exercício de unir aquilo que era do outro tempo com o que ai está.

A Ladeira Porto Geral por exemplo, se mantém entre nós e ainda faz alusão a um passado que talvez poucos pessoas que perambulam por ela imaginem. A Ladeira foi caminho do porto, ali embaixo ainda se via o rio Tamanduateí e as embarcações que traziam alimentos e faziam grande parte do transporte da cidade chegavam e partiam deste porto.

Ali no alto da Ladeira bem merecia haver um telescópio em que as pessoas ao olharem por suas lentes vissem para além do formigueiro humano que passa pela rua 25 de março, a antiga ladeira de paralelepípedos, o rio e suas 7 voltas serpenteando lá embaixo e talvez o movimento das lavadeiras que se dirigiam as águas do Tamanduateí. E nada disso que estou descrevendo aqui seria impossível de acontecer, porque tudo faz parte de registros, imagens de ilustradores e fotógrafos que estão por ai distribuídas em álbuns, memórias e documentos prontos para se re-unirem a fim de contar uma história.

E agora, ao finalizar este texto, vejo que burlei o dicionário de Freitas e escapei sem querer da letra A para navegar por tantas outras letras e assuntos da cidade que ele disparou em mim com o poder de uma letra só.

Quem foi Affonso de Freitas:

Affonso de Freitas ocupou por muito tempo a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Foi um grande historiador dos assuntos paulistas e excelente cronista. Escreveu durante a vida toda e tem uma extensa lista de publicações dos mais variados assuntos. Dentre as obras publicadas e acessíveis, destaco o gracioso livro Tradições e Reminiscências Paulistanas que mostra a cuidadosa escrita de Freitas aliada a profunda erudição com a história de São Paulo, principalmente sua preocupação com termos indígenas e questões oriundas do português vernacular.

Referências bibliográficas:

Freitas, Affonso de. Diccionário do Municipio de São Paulo, Graphica Paulista – Editora: São Paulo, 1929.

Freitas, Affonso de. Tradições e Reminiscências Paulistanas, Governo do Estado de São Paulo (3.ed): São Paulo, 1978.

Paula Janovitch

Peleja de Tom Zé com dois grandes de São Paulo: Hilton Hotel X Edificío Itália

Uma pérola de Tom Zé do LP de mesmo nome  revela um diálogo entre duas grandes personalidades do centro novo de São Paulo, o Hotel Hilton e o Edificio Itália. Segue aqui a letra e um áudio postado no youtube.

Cinema de rua em extinção!

Os primeiros filmes que vi na vida foram nos cinemas de rua. Eu não sou tão velha assim para falar que isto foi há muito tempo atrás. O fim do Astor, onde fiquei tanto tempo na longa rampa em filas homéricas, abraçada no meu namorado, comendo pipoca até as portas enormes se abrirem e corrermos em busca de um lugar para ver o filme em cartaz . O Astor que me causou tanto medo, prazer e liberdade virou Livraria Cultura, com rampa estilizada e só, nada ali lembra mais o meu Cine Astor com sua sutil bilheteria no corredor da galeria do Conjunto Nacional.

Vizinho do antigo Cine Astor, também desapareceu o nome do Cinearte, talvez o parente mais próximo do Belas Artes por ser ele da família dos cineclubes, cinemas com filmes de quem foi mordido pelo amor ao cinema e com este criou laços profundos. Porém o Cinearte sobreviveu como sala e virou Cine Bombril.  Assim repaginado, inaugurou uma nova história de cinemas que mudam de nome conforme seu patrocinador.  No caso o Bombril já virou passado. Mudam os patrocinadores e também altera-se o nome do cinema , o Bombril, “aquele que limpa tudo” , agora deu lugar ao Cine Livraria Cultura .

Tenho boas memórias dos filmes que vi em determinados cinemas, associo o filme que vejo com o lugar, o nome da sala e com quem assisti.  Acho que não sou a única a fazer isto. Gosto do cheiro, da cor do carpete, das possíveis pulgas e das poltronas que nunca são iguais. Lembro da aventura que era ir ao Cineclube  Bixiga,  sempre telefonar e  marcar a poltrona, das semanas temáticas do Cineclube da Getulio Vargas, do filme O Incrível Exército de Brancaleone e como eu ri e chorei porque ao mesmo tempo em que via o filme, lamentava a morte do meu cachorro basset, o valente Totó.

Trailer O Incrível Exército de Brancaleone

No Metrópole, o grandioso cinema de espelhos já falecido há um tempo na Galeria Metrópole (Centro Novo), vi outro filme da minha vida, Olhos Negros. O grande ator Marcello Mastroianni , mocinho do filme, foi o nome que dei para o meu filho de tanto que gostava dele, ao mesmo tempo um homem lúdico e safado. As paisagens do filme e a trilha sonora ligavam-se a minhas raízes oníricas com a Rússia ,  lugar que nunca conheci mas que sempre esteve presente no sangue que corre por minhas veias. O filme viajava pela obra do escritor russo Tchekhov, inspirado no conto A Dama do Cachorrinho. Lembro que entrei de um jeito no cinema e sai de outro. Nunca mais esqueci o olhar triste da mocinha  na última cena do filme ao  lembrar-se   daquele homem sonhador interpretado por Mastroianni.

Olhos Negros

Depois fui muitas vezes ao Center 3, na verdade ao Bristol, até que o fogo pegou no prédio todo, e aquelas armaduras bregas dos valentes soldados da “távola-redonda” que faziam parte da decoração do cinema, provavelmente derreteram junto com o antigo cinema. Diziam que o Center 3 era um edifício maldito, catingado. Demorou um tempo e o Center 3 surgiu repaginado também.  Na mudança, sumiu a catinga do lugar e também a rampa da galeria, cheia de cacos de vidro com um nicho no meio onde se instalou por muito tempo uma loja de flores. No lugar da antiga rampa existe agora uma escada rolante e, onde foi o Cine Bristol, gerou-se uma série de mini bristols que só preservam do original o nome.

O fim do Belas Artes

Neste momento estamos diante de mais um fim de cinema de rua, o Belas Artes, cinema que esta na ativa desde os anos 70. O Belas Artes é da classe dos cinemas de arte, dos cineclubes, como outros que já não existem mais:  o Bixiga, o Oscarito, o Coral .  Ele ocupa um  lugar sacralizado ao cinema de arte na cidade  quase na esquina da  Av.Paulista  com a rua da Consolação. Desta região também  já desapareceu seu fiel vizinho de frente , o bar Riviera, antigo ponto de encontro de intelectuais. O próprio Belas Artes quase fechou as portas há algum tempo atrás, mas graças a reforma e o novo inquilino ressuscitou.

Fui lá outro dia ver Abutres, um filme pra quem tem sangue frio ou ama adrenalina pura, não vou contar o filme. Só digo que para encarar os Abutres, precisa ser muito macho.

Trailer de Abutres

O Belas Artes, se morrer, morre com qualidade de filmes e freqüência de várias estrelinhas e poucos cifrões no caixa. Os mais ortodoxos vão dizer que o som é ruim, nada comparável aos grandes cinemas de shopping e que já vai tarde.  Entretanto ele tem semanas temáticas, ingressos mais em conta e eu, particularmente, detesto o “ruído” que o shopping causa quando quero ir apenas ao sagrado cinema. Primeiro é o inferno do estacionamento, achar uma vaga, depois encaixar o carro na vaga que tem o tamanho de uma caixa de fósforos, depois de conseguir estacionar o carro na caixa de fósforos, memorizar o como e onde encontrá-lo novamente na volta. Ai temos que subir várias escadas rolantes, várias, porque o cinema obviamente esta no último andar. As escadas te fazem rodar de propósito por corredores e lojas, praça de alimentação e etc… até que finalmente você chega no último andar, no Olimpo, onde estão os cinemas e uma fila enorme de gente que chegou antes de você. Em suma, acho que o crime muitas vezes não compensa.

Prefiro a Alma Encantadora dos Cinemas de Rua

Sou a favor da rua, da qualidade democrática que esta oferece aos habitantes da cidade. Sou a favor que os cinemas não mudem de nome por conta de seus patrocinadores, e sou a favor de uma programação de qualidade que faça o cinema de rua continuar a ser um lugar de referência das nossas produções imaginárias e culturais. Lugar de afeto, de medo, de sono, de horror e de profundo amor. O tombamento no caso do Belas Artes parece que não vai resolver a questão , existe um proprietário que se nega a dar um passo em  favor do cinema mesmo com a possibilidade de tombamento. Pesa sobre o edifício a ser tombado o fato de ter sofrido uma grande reforma: suas características arquitetônicas originais se perderam, porém, sua qualidade de filmes é histórica e se mantém . Este espírito de cineclube que se conserva como tal até os dias de hoje resulta na produção de um lugar de referência na cidade voltado para uma determinada expressão cultural reconhecida de forma viva pela população paulistana , ou seja, um espaço público (pensando na área que o imóvel se insere) voltado para a exibição cinematográfica. Isto é algo bastante relevante e deve ser levado em conta na avaliação de um bem a ser tombado, o edifício permaneceu fiel ao seu caráter, afeta o lugar e é afetado por este.

Porém, resta saber como preservar e garantir que esta qualidade da arte/cultura aliada a um lugar seja assegurada na vida da cidade de maneira efetiva. Estamos diante de um grande impasse que revela o quanto as pessoas se mobilizam para defender aquilo que gostam e usam. Porém cabe ao poder público perceber que precisa ter mais formas de garantir à cidade e a população desta que estes lugares que pertencem a preservação ambiental de nossos espaços imaginários, culturais e coletivos sejam salvaguardados para além dos interesses imobiliários presentes de forma acintosa em São Paulo.

Para finalizar este texto, domingo dia 06/02, li no jornal o Estado de São Paulo um artigo sobre o cinema, as salas de exibição e uma mudança na forma de assistir aos filmes. O Belas Artes cabe nesta discussão que  também vem derrubando vários cinemas de rua, como mostrando que a alma coletiva das ruas anda por um fio. Como diz a reportagem, as pessoas preferem cada vez mais assistir filmes de forma individualizada. Porém acho que isto de individualismo, sem barulho de pipoca, pulga e evidências de outros interlocutores rindo ou roncando, torna a vida muito sem graça e a maior prova disto é o monte de depoimentos em defesa dos cinemas de rua que surgiram  com o possível fechamento do Belas Artes . Estes depoimentos  mostram também  que há um desejo de preservar o cinema de rua, pela  imprevisibilidade deste , pelo prazer que é o encontro apressado na porta do cinema, pela combinação que se dá há anos entre a pipoca estourada na calçado e o início de mais uma sessão, da diversidade tão interessante deste encontro das salas de cinema que só a rua proporciona.

Paula Janovitch

Para saber mais:

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/01/1400848-nabil-bonduki-cine-belas-artes-um-avanco-fundamental.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,salas-de-rua-sao-hoje-reservas-ecologicas-de-civilidade-,1080691,0.htm

http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/09/12/tombamento-do-cine-belas-artes-complexidade-do-tema-desafia-o-compresp/

Artigo de Nabil Bonduki:

http://sergyovitro.blogspot.com/2011/01/nao-deixe-o-cine-belas-artes-fechar.htm

Blog de André Barcinski – A última sessão de cinema

http://andrebarcinski.folha.blog.uol.com.br/arch2011-01-16_2011-01-22.html

Como leitura, indico aqui o livro do Inimá Simões sobre as salas de cinema de São Paulo, além do texto de quem conhece muito da história dos cinemas de São Paulo,  tem fotos interessantes das salas de exibição .

Inimá Simões, Salas de Cinema em São Paulo, ed. Sec. Municipal da Cultura de SP/ Secretaria de Estado de São Paulo.

Nas margens plácidas do Ipiranga: capela do Cristo Operário

Na Folha de São Paulo do dia 20, saiu um artigo sobre o reconhecimento de um painel na capela do Cristo Operário. A pintura parece ser de Yolanda Mohalyi, uma artista abstracionista que junto com outros artistas colaboraram com esculturas, painéis, mobiliários e jardins da capela. A revelação do painel que se destaca na chamada do artigo “O mistério da capela do Ipiranga”, indica um outro mistério: a própria capela. Esta, além de repleta de obras de Volpi, Burle Marx, Geraldo de Barros e outros, parece ter sua história pouco conhecida . O próprio repórter, ao comentar a presença de Volpi e Burle Marx, deixa claro que a capela tem freqüência bastante local e que nela foram celebrados apenas dois casamentos. No artigo também ficamos sabendo que a pequena casa de Deus é tombada e foi vizinha de uma fábrica de móveis dos anos 50, a Unilabor. Pra quem não sabe, a Unilabor foi fundada pelo frei dominicano João Batista Pereira dos Santos, vindo da França , com a colaboração de Geraldo de Barros e outros artistas que participavam do MAM e do MASP, quando ambos funcionavam na rua 7 de abril, centro novo da cidade. A idéia do frei João na época em que abriu a fábrica, era fazer um lugar de produção operária que funcionasse em regime de autogestão. O local escolhido para a execução deste projeto foi o Ipiranga onde também surgiu a capela. Esta nasceu totalmente associada a Unilabor. Os painéis de Volpi na capela, com Cristo bastante iluminado por luz natural, revelam ao fundo este viés social, operário com a presença de imagens relacionadas à fábrica e seus trabalhadores bem a contento de um determinado movimento cultural da época que vinculava muitos artistas a causas sociais e urbanas da cidade.

Esta relação dos artistas dos anos 50 com projetos sociais e lugares religiosos também pode ser apreciada em outros templos da cidade. Claro que com uma abordagem diversa, mas quem quiser pode dar uma passadinha na capela do Hospital das Clinicas que verá painéis de Pennachi e Brecheret, Igreja Perpétuo Socorro que tem a presença de Flexor ou ainda a Paróquia Nossa Senhora da Paz, onde há estátuas de Emendabilli, pinturas de Pennachi.

Eu particularmente, ao tomar conhecimento da capela do Cristo Operário e saber que o frei João era dominicano, achei que não era coincidência associar esta capela Cristo Operário com a que Matisse projetou em Vence para as Irmãs Dominicanas de Monteils entre os anos de 1947 a 1951. Assisti a história da construção desta capela francesa num documentário que passou na exposição de Matisse aqui na Pinacoteca de São Paulo. Matisse já doente vai para Vence e lá reencontra sua antiga amiga, que havia cuidado dele algum tempo antes, agora freira, atendendo pelo nome de Soeur Jacques. A freira pede a Matisse que ajude na construção da capela que as dominicanas querem erguer na cidade, e ele aceita. Entretanto, a construção da capela não foi nada tranqüila, a Madre Superiora de Vence relutou muito em acatar os vitrais, mobiliários e desenhos que Matisse projetou para o novo templo. Para ela, aquilo tudo era simples demais para uma capela. Apesar das intempéries da Madre Superiora e comentários maldosos sobre uma possível amizade mais intima de Matisse e sua amiga freira, o templo ficou pronta do jeito que ele quis. O documentário é meio longo, mas acho que valeu mais do que a exposição, porque além de contar a história desta capela de Matisse, acaba por mostrar a importância da luz, e das cores em sua obra, só que aqui, associado à fé.

Voltando à capela do Frei João aqui em São Paulo, na época em que foi inaugurada, anos 50, o bairro, cioso de uma igreja em homenagem a Santo Antonio, não achou muita graça na capela, apesar do frei João incluir em um dos painéis a imagem de Santo Antonio. Por outro lado, os artistas e arquitetos receberam a capela/fábrica como algo extremamente importante na vida cultural da cidade.

Depois de mais ou menos uma década fazendo móveis para a classe média, a fábrica da Unilabor fechou. Restou apenas o lado religioso deste projeto que originalmente uniu fé e classe laboriosa:a capela com o Cristo Operário de braços abertos, no bairro do Alto Ipiranga, permanece avessa a qualquer monumentalidade.

E não sei bem porque neste final de texto, cismei em colocar aquela música do Cazuza que ao falar das mazelas do Rio, desafia a cidade carioca a perceber seu símbolo máximo com olhos mais críticos: “estranho o teu Cristo Rio que olha tão longe, além, com os braços sempre abertos, mas sem proteger ninguém…”

Informações sobre o que foi tratado neste texto:

1.Pra quem quiser ir à Capela do Cristo Operário aqui vai o endereço:
Rua São Daniel, 119
tel: 38818823

2.O livro sobre a Unilabor é de Mauro Claro, editado pelo Senac/SP, 2004.

3.Este link mostra um pequeno trecho do documentário da exposição de Matisse :
http://culturageralsaibamais.wordpress.com/2009/09/28/henri-matisse-na-pinacoteca/

4.O artigo da Folha de São Paulo, “O mistério da capela do Ipiranga” é do dia 20/11/09 e esta na primeira página da Ilustrada.

5. Ver sobre a pintora Yolanda Mohalyi exposição na Pinocoteca de São Paulo, do dia 05 de dez a 21 de fev. Noticia saiu na Folha de SP do dia 05/12/09
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6. A igreja Nossa Senhora da Paz fica na rua do Glicério, 225. Sobre as pinturas e esculturas, saiu artigo na Folha de São Paulo do dia 07/12/09

Em busca das trilhas sonoras da cidade de São Paulo

Quem vê sem ouvir fica muito mais inquieto do que quem ouve sem ver (Walter Benjamin)

Existem critérios para os barulhos que escutamos no nosso dia-a-dia? Dentre as várias ondas de ruídos, quais seriam as mais dignas de lembrança?
A grande cidade deixou de ter um fundo silencioso faz muito tempo. O fenômeno excesso de barulho nas grandes cidades trouxe uma série de transtornos aos seus habitantes. O mais conhecido é o nível de ruídos suportável a audição humana, mais de 85 decibéis parece ser o limite de barulho que podemos agüentar sem prejuízos a audição. Aliás, este limite do quanto a gente agüenta de barulho vem sendo tema de artigos na imprensa , principalmente com as obras do metrô aqui em São Paulo e os walkmans, ipods, iphones diretamente conectados nos ouvidos da maior parte da juventude. Muito em breve, parece que teremos uma geração de adultos surdos. Mas a barulheira da grande cidade também revela um outro dado muito mais sutil e silencioso. O apagamento das lembranças auditivas no cotidiano de seus habitantes. Especialmente aqueles sons que um dia fizeram parte da nossa vida e que vão desaparecendo sem que tenhamos percepção de seu sumiço. É irônico constatar que perdemos os sons em silêncio. Talvez isto se dê pela confusão de barulhos que nos cercam, talvez pela desvalorização da memória auditiva , ou ainda por esta conjunção de faltas de estímulos que acabam por perpetuar esta ausência de percepção da importância dos sons nas nossas lembranças.

Estou ficando surdo de tanto escutar!

Nos critérios do que permanece por mais tempo como registro do passado, a memória visual ganha em disparado da memória sonora. O verbo ver é muito mais utilizado do que escutar. Apesar de termos perdido o silêncio há muito tempo, parece que hoje mais do que ontem, “ninguém escuta ninguém”. Então o excesso de barulho nos fez surdos aos chamados das lembranças sonoras. Guardamos filmes sem trilha sonora , no máximo imagens com escassas legendas.

Alguém já pensou nas suas lembranças sonoras particulares ao longo da vida? Lembro do assobio do meu pai ao chegar em casa, o barulho das pisadas seguras da minha mãe ao vir me tirar da cama de manhã, o som do amolador de faca, do homem da pamonha, do quebra-queixo e ai não lembro muito mais. Onde guardamos estes registros que não se repetem mais e nem são lembrados por nós a não ser por um grande esforço de memória? Como rever estes sons sem um registro deles?

Só para se ter uma idéia num outro dia assisti um documentário sobre demolições em São Paulo, História de morar e demolições, em que se entrevistavam algumas pessoas que iriam ter suas casas postas abaixo num curto espaço de tempo. A proposta do diretor do documentário foi registrar a casa destas pessoas antes da demolição. Para a execução do registro, o diretor deu para os depoentes uma máquina fotográfica para que os próprios selecionassem o que gostariam que fosse lembrado da suas casas no momento da filmagem. A maioria das pessoas repetiu algo semelhante e bastante singular, pediram para que fosse capturado lugares da casa que promoviam sons característicos e familiares: ranger de portas e janelas, campainhas, o barulho de um ventilador de teto e etc…. enfim os sons de lugares da casa que por si só provocavam lembranças. Eis aqui uma grande revelação da importância do registro sonoro: provocar de forma direta lembranças do lugar

Como ter critérios se não percebemos os sons que perdemos dia-a-dia, geração à geração?

Nossas trilhas sonoras têm uma história que vai do pessoal ao coletivo . E o que vem ocorrendo na grande cidade, é que vamos perdendo o nosso acervo de sons públicos e privados de forma galopante. Pensar formas de registrar as sonoridades urbanas parece ser tarefa fundamental não apenas para salvar as nossas lembranças mais distantes, mas para refinarmos os critérios dos sons que desejamos ou não tolerar na cidade em que vivemos.

Agora em novembro foi lançado um livro sobre a história das sonoridades da cidade de São Paulo na virada do século XIX para o XX. O livro Kaleidosfone é do historiador Nelson Aprobato Filho e busca revelar através de fontes diversas: memórias, ficções, legislatura da cidade e etc, os vários sons da cidade num momento de grandes transformações temporais e espaciais, a viradinha do século, como diria o poeta Juó Bananére.

A virada do século é um momento interessante para registrar hábitos e espaços que a cidade foi perdendo, e outros que começam a ser valorizados. Aquelas manifestações que não se desejam mais na vida urbana não desaparecem de imediato e o que é considerado moderno, não se fixa de forma tranqüila e nem imediata como pode-se imaginar numa olhada rápida para as imagens do passado. É nesta confusão de temporalidades, num espaço ainda bastante restrito, que se percebe com clareza a história da cidade. E, acredito eu que foi com esta perspectiva de cidade em transição, em dissonância, que Nelson Aprobato resgatou a história dos sons da cidade de São Paulo. Os antigos barulhos da cidade colonial como a saparia do Brás,o chiado dos carros de bois, os sinos das igrejas, convivendo com o barulho do trem, dos motores de carro, das fábricas e etc….

Estou no começo do livro, entre os sons das igrejas que anunciavam desde a morte de um habitante até os momentos das missas. Explica o autor que os sinos naquela época não serviam apenas para chamar os fiéis para a missa, sinalizavam muito do cotidiano dos habitantes da cidade. E assim as igrejas rodeavam a cidade de sinos, sons e hábitos. Imagine então a conjunção de sinos tocando em tempos diferentes numa cidade que vivia com um fundo silencioso quase que permanente?

É neste mesmo momento de paisagem silenciosa ao fundo da cidade que o chiado dos carros de bois adquire uma barulhenta história em São Paulo. Como nota Aprobato, a presença dos carros de boi entram a saem da cidade fazendo um barulhaço. O registro de vários viajantes que passaram por São Paulo é quase unânime em notar o barulho, rangido, chiado dos pesados carros de bois que passam lentamente pelas ruas de São Paulo levando lenha e depois material de construção. O barulho de chiados aumenta à medida que a cidade cresce, e sua presença começa a incomodar cada vez mais. Há registros do barulho insuportável deles ao chegarem e partirem da cidade, e como seu peso danificava as ruas centrais. Para conter os carros de boi, as autoridades municipais começam a buscar através de leis e regulamentos formas de proibir sua passagem na área central . A principio as novas regras não são acatadas e eles continuam indo e vindo pela cidade Outros sons juntam-se as antigas sonoridades da cidade. O apito de trem simbolicamente anuncia a presença dos barulhos mecânicos, surgem as chaminés e apitos das fábricas, o breque do bonde e com estes toda uma massa de trabalhadores que invade as ruas. Surgem os sons dos mascates , ambulantes de rua e dos entregadores de jornal.

Difícil não lembrar aqui  os registros de Jorge Americano em São Paulo daquele tempo (1895-1915), crônicas repletas de sonoridades. O capítulo  “Insônia” registra os barulho da noite, e parece que o fundo silencioso da cidade torna tudo mais claro,  o ruído das patas dos cavalos, , o bonde da Companhia Viação, o galo da nossa casa. O capítulo dos “Vendedores ambulantes” contempla os barulhos do dia: o badalo da madrinha de tropas, o assobio do amolador, o som metálico de colher batida contra caçarola do folheiro, ao longe escuta-se um pregão fanhoso que ao aproximar-se revela o empalhador, à tarde vem entre nuvens de içás, o anúncio de sorvete e por ai  cidade vai trocando de sons ao longo do dia.

 Em São Paulo daquele tempo os antigos barulhos da cidade  misturam-se aos novos barulhos dos veículos motorizados, do apito do trem , da chaminé da fábrica e dos mascates das ruas.  Mais um pouco, o chiado dos carros de boi desaparece de fato e os sinos não comandam mais o dia a dia da cidade. E surge, cada vez mais forte, este barulho indiscriminado , este ruído surdo misturado de pressa, buzina, breques de onibus, de construção e destruição que vai apagando sorrateiramente nossas lembranças sonoras.

O livro de Aprobato é  muito bem-vindo, não apenas porque nos conta de um passado sonoro que em sua maior parte  desconhecemos, os sons perdidos da cidade colonial e os novos sons da nascente metrópole,  mas porque, ao resgatar os registros sonoros do passado, os barulhos de São Paulo, proporciona a nós leitores,  elementos para  refinar e ter critérios de valor sobre os sons que desejamos ou não para a nossa vida na cidade.

Só para escutar:

Largo da Concordia/ São Paulo

Nivaldo – vendedor de quebra-queixo – Perdizes -São Paulo 2000

Para saber mais:

Aprobato Filho, Nelson, Kaleidosfone, São Paulo: Edusp/Fapesp, 2008

Americano, Jorge, São Paulo Naquele Tempo (1895-1915), São Paulo: Carrenho Editorial, Narrativa Um, Carbono 14, 2004.

RUMOS ITAÚ CULTURAL, Cinco sobre cinco: documentários, Histórias de morar e Demolições, André Costa, São Paulo, 2007. 54’

Paula Janovitch

Guia de terrenos baldios de São Paulo

 Por acaso ou força do hábito , fui no domingo à feira do Bexiga e lá encontrei um guia bastante singular: Guia de terrenos baldios de São Paulo or Guide to the wastelands of São Paulo. O simplório guia, todo em preto e branco e bilíngüe, chamou minha atenção. Terrenos baldios esta cidade tem de monte. Em regiões valorizadas, os tais terrenos tornam-se verdadeiros potes de ouro nas mãos da especulação imobiliária.
Folheando o simpático guia reencontrei o emblemático terreno onde foi o antigo colégio Des Oiseaux. E através dos comentários sobre este na rua Augusta com Caio Prado, revelaram-se mais curiosidades sobre aquela vasta área protegida de muros, motivo do meu último post no Versão Paulo, “Moça vestida de estudante pula muro e volta às aulas.”
O guia diz que o colégio cedeu a área para a prefeitura e em contrapartida esta deveria conservar as árvores e transformar 75% do terreno num parque público. Até agora o terreno continua lá, baldio, com as árvores, um estacionamento e um circo ótimo, Zanni, que faz uma temporada no local . Mas parque público, não parece que virou. Mais pra frente no texto, ainda há referência a uma sociedade que há 12 anos comprou o terreno, Sociedade Armando Conde Investimentos e, por ter sido contestada pelos vizinhos, elaborou um plano B chamado Projeto Parque dos Pássaros, homenagem mórbida ao oiseaux do antigo colégio. O shopping center teria 14.000 metros quadrados e, 10.000 metros seriam reservados a um parque que a benemérita “sociedade do mal” cederia a prefeitura desta cidade tão cheia de shoppings e tão carente de parques. Mas parece que a coisa sofreu nova contestação graças a deus, de uma outra Sociedade, esta do Bem, os Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César ( SAMORCC), que alegaram ser o terreno um dos poucos pulmões verdes do centro da cidade com vegetação de Mata Atlântica. Este grupo criou um comitê dos aliados do Parque, o qual reunia em 2006, 300 pessoas. Além de tentar segurar este projeto nefasto de shopping/gaiola com nome de pássaro, em 2006, momento em que este guia foi lançado, havia um processo na câmara dos vereadores em que foi pedido que a prefeitura comprasse o terreno e o conservasse como parque.
Agora fica-se na dúvida, se o antigo colégio (des Oiseaux) cedeu para a prefeitura o terreno há um tempão atrás e, naquela época, exigia que a prefeitura fizesse dos 75% do terreno um parque, como é que esta sociedade do mal compra o terreno e faz um projeto em que a maior parte da área é para shopping piu piu e apenas 10.000 ficam para a prefeitura fazer o que até agora ela não fez?
Bom gente, desculpe não ter dado uma explicação histórica daquelas com começo, meio e fim. Às vezes, a história apronta destas, acaba com uma dúzia de dúvidas contra meia de certezas….

Sobre o guia dos terrenos baldios de São Paulo:
A edição é de 2006 e foi feita por conta da 27 Bienal de São Paulo que tinha como tema “Como viver junto”. O projeto é de Lara Almarcegui (Espanha), artista que faz trabalhos fotográficos interessantíssimos com prédios abandonados e locais deteriorados. Foram impressos 27.750 cópias. Outros terrenos aparecem em várias regiões da cidade. As histórias são muito interessantes e, na apresentação do guia, há uma breve explicação geral sobre este fenômeno na cidade de São Paulo: a maior parte dos terrenos baldios esta ligada a realização de um projeto, são lugares onde tudo é possível porque a principio são todos filosoficamente vazios. Há terrenos com histórias fantásticas, outros relacionados a situações conflituosas, e ainda aqueles que são verdadeiros oásis na cidade. E este breve resumo prova por A + B que viver junto é difícil, mas sem dúvida, provoca um número enorme de histórias.
postado por Paula Janovitch

Moça vestida de estudante pula muro de terreno baldio e volta às aulas.

foto do Colégio des Oiseaux

Quinta-feira à noite, dia dos namorados, a cidade estava com um congestionamento de casais e mais casais a caminho de, ou indo ao encontro das/dos. Nestas condições resolvi sair de casa para ver um pequeno espetáculo de música + teatro na Praça Roosevelt, “Opera Crua”, com os atores Gero Camilo, Rubi e Luiz Gayotto. Mas para chegar lá, fomos capturados pelos amores lícitos e ilícitos da Augusta street, que hoje mistura o antigo trottoir das mariposas da noite, com a moçada das novas boates e barzinhos da região. O trânsito parou de fato na altura do terreno baldio do extinto Colégio des Oiseaux, travessa da rua Caio Prado, demolido nos anos 70 . De repente, do outro lado da Augusta, onde fica o restaurante Piolin, sai uma moça com roupas de estudante dos tempos idos – saia plissada, meia ¾ , gravatinha e camisa branca – atravessa a rua e pula o muro da escola que ocupava a área de 24.000 metros quadrados. Minha amiga antes do pulo da “estudante” deu um grito do carro, “tá tudo bem com você?” e a moça meio sem jeito falou, “tá, isto é uma peça de teatro”.

Tietê


foto do rio Tietê, 2008
São Paulo nos últimos anos vem tendo várias das suas áreas ocupadas por peças de teatro que andam utilizando a geografia e o mobiliário urbana como espaços cenográficos. Podemos lembrar o corajoso grupo de teatro Vertigem que em uma de suas muitas apresentações, resolveu em 2005 encenar num barco dentro do rio Tietê a peça “ BR-3” (1). A duração da peça foi de mais ou menos 2 h 40 minutos. Atores e espectadores tiveram que incorporar à apresentação, o cheiro do rio e as imundices que pelas suas águas passam. Se não estou enganada, depois que o barco do Vertigem passou pelo rio, ano passado houve em suas margens plácidas um desfile tipo fashion week e vingou um passeio turístico de barco que leva amantes da cidade para navegar por um dos seus trechos. Eu já fui num destes passeios e fiquei impressionada com a sujeira e a quantidade de bichos, aves principalmente, que moram nas cercanias.

 
(1) “BR3 – A Peça” virou documentário
foto de pássaro sobrevoando o rio Tietê, 2008
Só acho que a proposta do passeio que é muito agradável e confortável, tem até música ao vivo e vinho branco, seria muito mais legal se no percurso víssemos um pouco da outra vida do rio. Meu pai nadou no Tietê. E quantos outros pais não devem ter nadado lá? Valeria a pena que nestas viagens fosse contada estas histórias que povoam a memória dos moradores mais antigos da cidade, dos historiadores que se debruçaram sobre os outros tempos do rio e dos clubes ex-náuticos que permanecem ali nas margens, escondidos pelo movimento do trânsito.Eu adoraria participar desta viagem no tempo pelo rio Tietê…

Vila Maria Zélia

foto Vila Maria Zélia, 2008/ Livia Gabbai

O grupo XIX, também faz um trabalho maravilhoso de ocupação geográfica na cidade. Estão firmes na zona leste, numa vila operária bárbara que foi tombada em 1992 e construída em 1917, a vila Maria Zélia. “Hygiene” , o primeiro espetáculo apresentado na vila, convidava o público a assistir a peça andando pelas ruelas e pelo tempo. Pois a história da peça tinha tudo a ver com a origem do lugar. Até mesmo a construção da vila operária que ao ser concebida teve forte influencia do pensamento higienista, o qual, no final do século XIX passou a organizar os espaços e corpos dos habitantes da cidade. Antes da “ Hygiene” ocupar esta vila, eu já conhecia o lugar. Fui lá na época em que era pesquisadora do DPH, achei um lugar interessante, mas, vivo mesmo, só depois que vi a ocupação do grupo XIX. E isto é que é tombamento bão, algo que não só preserva o lugar, mas retoma sua vida, incerta é claro, pois vida que é vida é feita de imprecisão, amém!

Subterrâneo do Viaduto do Chá
Em 2008 já tivemos novamente o Vertigem ocupando a extinta passagem subterrânea do Viaduto do Chá. Pois é, acredite se quiser, embaixo do conturbado movimento da rua Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá e adjacências existe uma silenciosa passagem subterrânea há muito tempo fechada ao antigo fluxo EXCLUSIVO de pedestres. Alguém já pensou na outra vida deste subterrâneo? Pois é, eu não fui nesta peça, mas sei que quando ali era uma passagem, existia um trânsito intenso de veículos na área central, e as passagens subterrâneas e as galerias do centro novo, eram lugares seguros para os pedestres desta cidade caminharem. Isto não merecia ser revelado? Um dia houve na cidade um lugar para os pedestres caminharem que não seria interrompido pelo fluxo dos automóveis. Pensava-se então nos habitantes que andam a pé pela cidade. foto:Viaduto do Chá/1942

 
 
Campos Elíseos: casarão na Alameda Cleveland

Num casarão da Alameda Cleveland a peça Labirinto Reencarnado do grupo Cia. Pessoal do Faroeste entra em cartaz. Mais uma casa ocupada. A peça faz parte de uma trilogia do grupo que se chama Trilogia degenerada: A História de São Paulo através de um casarão no Campos Elíseos. E ai o comentário do Estado de São Paulo diz que a peça tem muita eugenia, e que parte da Segunda Guerra Mundial. Temos poucos referências deste período na história da cidade de São Paulo. E um livrão que não pode faltar é o Guerra sem guerra do Roney Cytrynowicz, que foi uma das pessoas consultadas pelo grupo para montar esta peça. A estréia aconteceu no sabadão, dia 14 e para quem quiser conferir aqui vão as dicas:
Labirinto Reencarnado. 80 min.. 12 anos. Sede Faroeste. Al. Cleveland,677, tel 3362-8883. Sábado a segunda, 18 h. R$10. Até dia 28/7

Estação Pinacoteca/DOPS

Ontem, 13/06/08 vi no jornal o Estado de São Paulo uma coluna contando a história da recuperação de um lúgubre edifício na rua Mauá. Foi em 1999 que 30 atores e 40 espectadores começaram a mudar a história daquele lugar encenando uma peça no porão onde pessoas haviam sido torturadas e mortas durante a ditadura militar. “A idéia de recuperar o Dops vinha ao

encontro da necessidade de criar ‘âncoras’ culturais no centro. O edifício projetado como estação ferroviária por Ramos de Azevedo em 1914, também abrigou a Delegacia do consumidor, e, em 2004 transformou-se na Estação Pinacoteca, um museu com área de 8 mil metros quadrados.
Desta última ocupação há controvérsias. Já escutei inúmeros depoimentos de gente que não gosta do lugar, ops desculpe, da memória do lugar, e que não acha nada tranqüilo a transformação de um espaço de memórias recentes tão pesadas, vir a ser uma referência cultural da cidade.

Isto é um debate e tanto para quem pensa o que preservar e como fazê-lo.
Quanto aos artistas, fiquem a vontade para iluminar esta cidade cheia de espaços difíceis e fáceis, afinal, apesar da fama que São Paulo é uma senhora carrancuda e sem memória, basta um pouco de luz e boa vontade que a pecha se desfaz, a vida nesta cidade pode ser leve e extremamente profunda.
 
Atualização sobre o assunto abordado:
Relação com a cidade tem que ser menos anestesiada 02/ago/2010
Na Folha de São Paulo do dia 02 de ago de 2010 saiu um artigo sobre o nova peça do grupo Vertigem que será no Bom Retiro. Vale a pena ler o artigo e perceber como o grupo se apropia do espaço fisico urbano ao encenar suas peças. Segue o link pra quem é assinante da Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0208201022.htm, 02/ago/2010

postado por Paula Janovitch