Será possível que ainda chova? (Re ti será)

A partícula será no início de uma frase – na boca dos paulistas – toma um sentido todo especial e particular. Tem sua herança no português de Portugal, mas é indiscutível sua procedência tupi-guarani conforme afirma  Affonso A. de Freitas:

 “ é uma das quatro partículas que os nossos indígenas costumam empregar para distinguir uma interrogativa de uma afirmativa por desconhecerem a inflexão de voz como fazem os civilizados”.

 Assim, o será tupi-guarani tem a função de encerrar as sentenças como ainda é usado no norte do Brasil: chove, será (Re ti será). Porém, da  influência do português e do índio, o será paulista  se deslocou  para o inicio da frase. Aboliu-se  e afogou-se o enfático “Será possível?” dos portugueses e ficamos   sem sombra de dúvida e poucas previsões de chuva com o  “Será  possível que ainda chova?” que acabou assumindo o  titulo deste  post sobre alguns apontamentos  do abastecimento de água na cidade de São Paulo.

 Durante o século XIX, a cidade de São Paulo era servida de água através  de fontes, bicas, chafarizes, tanques e rios. Mas nem por isso a cidade deixou de ter problemas com o abastecimento de água. Inúmeras são as referências sobre fontes de água que secaram ou rios e tanques que tornaram-se poluídos por detritos jogados de forma aleatória nos afluentes da cidade.

 Diante da escassez de água, a alternativa do governo parecia ser sempre passiva, esperar  a volta das chuvas. Porém para a imprensa e a população reclamante, a volta das chuvas não passava de uma solução paliativa para o  um problema  que apontava para outras direções que não apenas as previsões meteorológicas.

“Estamos sem água”  era o grito que surgia impresso na coluna de reclamações do jornal Diário de S. Paulo no dia 28 de fevereiro de 1867. “A população sofre sede, e o que faz o governo?(…) Não temos água? Esperai, logo há de chover, e chover muito…”

Éh. éh. minha parente. Voce acredita n esse? É mentira: Moyssé não tirô agua de pedra non.

Éh. éh. minha parente. Voce acredita n esse? É mentira: Moyssé não tirô agua de pedra non.

 A charge acima é do Chafariz da Misericórdia em São Paulo, publicada no jornal humorístico  Diabo-Coxo de 1865. O titulo do desenho de Angelo Agostini, “Novos Moisés”, aconselhava os paulistas a baterem com varas no “chafariz” a fim de obterem água. Porém,  assim como na passagem bíblica, o milagre não ocorreu e São Paulo sofreu uma das maiores secas de que se tem registros durante o século XIX.

 O desenho de Agostini “Novos Moisés” foi publicado num momento em que os jornais faziam uma feroz crítica  a administração  do Presidente da Província de São Paulo Tavares Bastos. Este  ocupara-se com a organização dos batalhões que iriam  para a Guerra do Paraguai sem ter tempo e nem recursos de organizar setores básicos da cidade.

O que os paulistas faziam em meados do século XIX quando faltava água na cidade?

 Quanto faltava água nos chafarizes da cidade em meados do século XIX, uma das   alternativas dos paulistas era  utilizar-se  dos  rios próximos  mesmo sabendo que suas águas não eram potáveis, como o rio Tamanduateí. A  outra opção, muito comum também,  era comprar barris de água  dos  “atravessadores”, pessoas que pegavam água dos rios ou dos próprios chafarizes e ofereciam pelas ruas da cidade em barris (tonéis)  que custavam o valor exorbitante de 40 réis.

A 40 réis o barril dágua - 1865

A 40 réis o barril dágua – 1865

  Vida e morte do Chafariz da Misericórdia:

O Chafariz  de pedra do largo da  Misericórdia foi construído em 1792. Removido para o largo de S. Cecília em 1886 e recolhido ao depósito da Prefeitura. Seu construtor, conhecido  por Tebas, foi um mestre de obras, escravo liberto que à época assumiu várias obras importantes na cidade de São Paulo. A antiga Catedral da Sé (1755) talvez seja a que mais merece destaque pela grandiosidade, mas também porque durante a obra, seu senhor veio a falecer deixando Tebas alforriado com a condição  de que este finalizasse a reconstrução do prédio.

autor do post:  paula janovtich

Links associados a este post:

Folha de São Paulo, A lógica do poder e a sociedade, 10/07/2014

Catálogo on-line da exposição versão paulo – caricaturas sobre a falta d’agua em São Paulo

Para saber mais:

 Affonso A. de Freitas, Tradições e Reminiscências Paulistanas, Coleção Paulística Vol. IX, Governo do Estado de S. Paulo.  Este livro não se encontra nas livrarias. Para quem tiver interesse em adquiri-lo, indico os sebos virtuais ou os vários alfarrábios da cidade. Além de fragmentos do cotidiano da cidade de São Paulo ao longo do século XIX, a obra tem mapas das ruas, ilustrações e imagens fotográficas. Capitulo a parte é o que utilizei para este post : “Reminiscências das ruas”, nele temos  algumas cantigas como “Vaca amarela” e o “Será que ainda chova?”. Coisas que não estão mais na cidade mas que permanecem vivas  na linguagem do paulistano. Fonte da imagem “Barris de água”

 Byron Gaspar, Fontes e Chafarizes de São Paulo, Coleção História, Secretaria da Cultura Esportes e Turismo. Não se encontra nas livrarias. É necessário buscar nos alfarrábios ou sebos virtuais. O livro faz um apanhado de vários chafarizes, fontes e bicas da cidade. Os capítulos são separados por “Chafarizes utilitários” e  “Chafarizes Ornamentais”. A maioria vem com desenhos, esboços de como eles eram. Alguns como diz o autor, podem ainda ser vistos na cidade: o Chafariz do Largo da Memória, as fontes dos Túneis Nove de Julho porém acho que todos os que existem não são mais utilitários. Os que sobreviveram viraram monumentos.

 O Diabo Coxo (1864-1865), edição fac-similar, Edusp. 2005. Fonte da imagem “Novos Moisés”

A cidade dos humoristas: Plano diretor X A lógica do absurdo

Cópia de painel 1.5 a

A imagem deste post é de 16 de maio de 1922. Lá na rua São Bento, centro antigo da cidade de São Paulo, um homem olha para cima. Reparem que a rua é estreita para o tamanho do edifício que ele observa. Desproporcional a dimensão da  rua e a visão do homem.
São Paulo cresceu sem grandes regulamentações sobre escalas. Historicamente a especulação imobiliária orquestrou o sobe e desce. A valorização e desvalorização de algumas regiões da cidade em detrimento de outros.
Não quero entrar aqui no caráter dos edifícios novos. Eles falam de um gosto e de uma forma de morar que merece ser cuidadosamente estudada. Pode se começar pelos nomes dos edifícios, e talvez adentrarmos a estética, os esquemas de segurança e da forma destas construções se articularem com o lugar.
Hoje como nos últimos dias, na Folha de São Paulo, o assunto Plano Diretor ocupa o caderno “cotidiano” da cidade :”Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras”. Nunca um plano diretor de São Paulo foi tão debatido e conhecido por seus habitantes. As construtoras através do Secovi anunciam que para dentro dos bairros, onde os edifícios não vão poder obedecer mais a “lógica do absurdo”, os apartamentos vão encarecer. E afirma o presidente da Secovi:” Quem vai pagar não somos nós, se o comprador não puder pagar nós não vamos produzir.” Porém, mais adiante o mesmo afirma que as tabelas podem ser ajustadas.
Tenho certeza que as construtoras vão continuar a construir, talvez numa escala mais humana. Com um pouco mais de reflexão sobre o lugar e a forma morar, espero eu. A cidade merece.

Sobre o post:

Folha de São Paulo, , 5/07/14

Folha de São Paulo, “Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras. 4/07/14

Ilustração do post: Revista Vida Paulista, 16 /05/1922. Ilustrador: Belmonte.

Mapping Manhattan = Mapeando Manhattan

No meu mapa, um lugar só existe se há alguma emoção ligada a ele (Becky Cooper)

Em tempos de espaços virtuais, relacionamentos em redes sociais onde imagens-códigos como “curtir”, “compartilhar” encerram acenos de afetividades e vínculos entre as pessoas, a volta às ruas como lugar que pode ser preenchido com olhares, emoções e vínculos  parece algo muito próximo daquele movimento gastronômico  slow food. 
Foi isso que a escritora nova iorquina Becky Cooper fez. Pegou um monte de papéis em branco, cortou em pedacinhos compridos, bem próximo das dimensões  da ilha de Manhattan, e foi distribuindo as tais tiras em branco pela cidade.
O resultado surge agora em livro que contém 75 mapas de Nova York, nos quais as tiras em branco distribuídas pela escritora foram lindamente preenchidas por desenhos que mostram o percurso afetivo dos participantes por seus lugares na cidade: “Wall Street: pesar. Algum ponto a oeste do Central Park: um mendigo me perseguiu aos berros. Meatpacking District: demora para se apreciar.“(FSP, 01/10/13) .
Philippe Petit, aquele equilibrista maluco  que em 1974 se  pendurou nas extintas Torres Gêmeas e ficou zanzando de um lado pra outro entre elas nas alturas, tem o seu mapinha publicado no livro de Becky. A própria autora também desenhou o seu no final. O livro, como saiu publicado  ontem na Folha (01/10/2013), pode ser adquirido na Amazon.com por R$ 31,00. Assim como se pode apreciar melhor esta vivência de Becky pelas ruas de Nova York em seu site.

Neste site ainda podemos fazer nosso mapa da ilha de Manhattan através de um pedacinho de papel virtual que esta disponível. E isto de Amazon.com, Nova York e lugares físicos ou não, me lembrou algo bem engraçado que ocorreu comigo nos primeiros tempos em que o mundo virtual bateu à minha porta em forma de livros.
Amazon pra mim era uma livraria de NY como a Livraria Cultura é aqui no Edifício do Conjunto Nacional em SP e,  quando fui para lá, a primeira coisa que fiz foi procurar na lista telefônica onde ficava a tal livraria que tinha “todos os livros que eu procurava”. O resultado hoje em dia todo mundo já sabe:  não existia um lugar físico Amazon.com em todo o mapa dos  Estados Unidos, mas juro que  na hora que me dei conta disto,  fiquei sem chão!!!!

Para saber mais:

Livro Mapping Manhattan de Becky Cooper, editora Abrams. Amazon.com

Site: mapyourmemories.tumblr.com,  Becky Cooper

Autora reúne em livro mapas ‘sentimentais’ de Nova York, Folha de São Paulo, 01/10/13, Caderno Ilustrada pg. E5.

A dinâmica dos nomes de ruas na cidade de São Paulo *

Ilustração

Ilustração “Minhocão” de Paula Gabbai. Jan/2009

Na rua sem resistir

                              me chamam

                                                     torno a existir (Paulo Leminski)

Resolvi escrever este post depois de ler um artigo no Estadão sobre a proposta do vereador Nabil Bonduki de mudança de nome do Elevado Costa e Silva aqui em São Paulo para como é mais conhecido, Minhocão.

Conforme o artigo, a mudança de nome busca fazer uma revisão do passado recente da história brasileira que acabou ficando cravado em muitas ruas da cidade. Para quem não sabe, Arthur Costa e Silva foi o segundo presidente militar do país, “era da chamada linha-dura do Exército e foi quem editou o Ato Institucional 5 (AI-5) em dezembro de 1968”.

Por sorte Costa e Silva morreu de um derrame logo no inicio de seu mandato, mas o nosso querido governador à época, Paulo Maluf, que estava inaugurando o Elevado (1971), resolveu como é de praxe até os dias de hoje, homenagear o presidente falecido colocando seu nome na nova via da cidade.

Por obra do destino, o Elevado que até hoje é motivo de tantos debates por “rasgar” a Av. São João de uma forma totalmente truculenta, com o correr dos anos passou a integrar e fazer parte da vida da cidade. Hoje, para os moradores dos edifícios da São João, foi conquistado o direito ao silêncio durante à noite quando este permanece fechado, assim como aos domingos e feriados a via dá acesso apenas aos pedestres e transforma-se em um lugar de lazer interessante para quem vive na área central.

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Mas o que mais me chamou atenção na proposta do Nabil em relação a mudança de nomes vai além dos fatos vinculados a ditadura e o justa expressão do desejo de apagar das ruas da cidade referências que tenham a ver com os anos de chumbo.

Alguém já se perguntou por que o Elevado Costa e Silva foi mais reconhecido por seu apelido de Minhocão do que por seu nome de batismo?

A resposta para alguns pode parecer óbvia, Minhocão tem a ver com a formato que a via toma ao passar sobre a São João: uma grande minhoca ou cobra que liga a zona leste à zona oeste de São Paulo. Mas talvez poucos pensaram qual o sentido que um apelido adquire quando de fato torna-se referência principal de um lugar ou pessoa. E é justamente isto que gostaria de destacar na proposta do vereador Nabil Bonduki.

Um apelido chama atenção por algo no caráter da pessoa/lugar que se destaca. Muitas pessoas detestam seus apelidos, outros até os incorporam e passam a pedir para serem chamadas por esta outra referência criada a partir de algo que nasce de uma expressão, forma ou caráter criado na maior parte das vezes pelo olhar de um outro.

Neste sentido, não é por mero acaso que na história do humor, muitos personagens ilustres que foram caricaturados acabaram por receber apelidos ligados em sua maioria a traços físicos ou expressões do seu caráter facilmente reconhecíveis à época.

Aqui segue um caso clássico de transformação caricatural criado por Philipon (1834). Em quatro ilustrações da cabeça do Rei Luis Filipe ele se transforma em uma pêra.

lespoires

O apelido de Minhocão para mim chega a abordar com certo afeto o que esta via concentrou ao longo de sua história. Começando por seu nascimento, pela mãos de um governador que pouco se importava com o impacto humano da obra e por quem tratou a cidade como prolongamento natural de suas propriedades.

De certa forma o Minhocão é mais uma alusão canhestra ao nossa tradição colonial onde os senhores decidiam como, onde e de que maneira trilhariam seus caminhos da casa para a roça e da roça para casa. O que no caso do Sr. Paulo Maluf poderia ser traduzido pela empresa da sua família, a Eucatex, que ficava bem no final do Elevado em sua direção oeste. Depois o crescimento engoliu tudo, inclusive este lembrança amarga da via traçada diretamente para a roça da família do governador. Paralelo a isto, o apelido de Minhocão “pegou” e permaneceu em uso até os dias de hoje, incorporando tudo de bom e de ruim que a via urbana adquiriu em sua história.

As ruas precisam com urgência voltar a ser só ruas!

Era comum nas cidades coloniais brasileiras, incluindo a nossa querida vila de São Paulo de Piratininga, que os nomes das ruas estivessem intimamente ligados ao seu uso (aspectos culturais) e a sua geografia (acidentes naturais). Hoje temos poucas ruas com nomes herdados deste longo período que vai da fundação da cidade à 1897. São ruas que de fato sobreviveram a enxurrada de homenagens e alusões presentes a partir do regime republicano.

De fato como afirma Nabil, precisamos fazer um levantamento dos nomes de ruas que lembram este passado nefasto dos anos de chumbo, onde temos generais, coronéis e presidentes elogiando algo que de forma alguma pode ser incorporado com orgulho à vida e nomenclatura das ruas da cidade. Porém, nossas ruas primariamente trilhadas à mão e no trote dos burros, vão perdendo seu sentido de uso, e parte disso esta na forma como os nomes são dados à elas a partir do final do século XIX.

Quase como monumentos, passaram de sua função de uso à locais de honrarias, expressão de pura abstração desvinculada de qualquer lógica espacial ou coerência histórica.

Os nomes das ruas

Coincidentemente no momento em que faço este post, chega pelo Facebook uma chamada que na Câmara alguém tenta passar a proposta para que o Viaduto do Chá tenha seu nome estendido para Viaduto do Chá Mário Covas. O que mostra que a cisão entre nomes e ruas é em si uma prática comum e totalmente desrespeitosa com até as mais tradicionais vias da cidade.

Tivemos há tempos atrás, uma rua Alegre que ficava próxima de outra que se chamava da Boa Morte, haviam também os caminhos, e um deles ia para a Forca e seu nome era Caminho da Forca, e ainda tivemos vários becos, largos, travessas e ladeiras que nada mais eram do que denominações dos contornos da topografia da região somados ao alinhamento das casas.

O Beco da Merda é exemplar de um fim de rua da cidade que carregava no emblemático nome sua função literal, porque de fato ali eram jogados dejetos humanos das casas dos arredores. Assim como podemos pensar que existia uma rua Alegre e outra da Esperança e, possivelmente uma Triste, e uma outra da Boa Morte quem sabe quando a tristeza, alegria, esperança e morte andavam juntas pela cidade.

Ainda permanecem na cidade algumas ruas que nos lembram destes outros tempos, onde ruas e nomes andavam juntos e de mãos dadas. A Ladeira Porto Geral lá na área central de São Paulo faz referência a um porto, o Porto Geral porque bem ali embaixo passa o rio Tamanduatei e havia de fato um porto nele. Nós não vemos mais o rio, mas ele permanece ali canalizado e, por muito tempo, pelo Porto Geral, um dos portos mais importantes da cidade, fez-se o transporte fluvial de mercadorias para os habitantes da cidade de São Paulo.

E poderia aqui citar outras tantas nomes de ruas presentes e ausentes da cidade que tinham como função principal dar sentido , localização e função para a vida de quem andava pela vila da acanhada Paulicéia. Até poderíamos pensar em ampliar a proposta do Nabil, e fazer um levantamento de quantos nomes de logradouros temos de homenageados ilustres que se concentram nas ruas de São Paulo e nada significam para a cidade.

E por que não ir mais para trás, visitar a seção de logradouros públicos do município de São Paulo e ver de fato quais os antigos nomes que várias destas ruas tinham antes de virarem pouso de generais, deputados e vereadores? E por que não recolocá-los em uso, um mundo em transição, até que o uso tome o lugar como um apelido se sobrepõe ao nome próprio.

Ruas de São Paulo homenageia empresários que apoiaram o golpe e a ditadura

Ruas e memória

Mais referências sobre este post:

1.* O titulo deste post faz alusão direta a um livro editado pela AnnaBlume que tem como assunto principal uma reflexão sobre os nomes dos logradouros da cidade de São Paulo entre 1554-1897. O pequeno e substancioso livro é de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick e foi publicado em 1997. O livro vira e revira estes nomes das ruas da cidade ligados aos acidentes naturais e culturais de São Paulo entre os “Quinhentos aos Oitocentos”, porque foi neste período de tempo , da fundação da vila em 1554 até a fixação destes topônimos, 1897, que eles de fato vincularam-se à vida da cidade de São Paulo, como os apelidos, exatamente como o Minhocão.

2. São Paulo de Outrora de Paulo Cursino de Moura trata das história das velhas ruas de São Paulo. Livraria Itatiaia Ed. Ltda, 1980.

3. Ruas e Tradições de São Paulo de Gabriel Marques é outro livro que conta “uma história em cada rua”. Editado pela Conselho Estadual de Cultura, 1966.

4. O trecho do documentário sobre o Minhocão Elevado 3.5 aborda um pouco desta alma da via maldita e bendita e vale a pena ser visto na integra.

5. a ilustração que abre este post é da arquiteta e artista gráfica Paula Gabbai e foi gentilmente cedida para esta matéria. (Muito obrigada Paulinha!)

6. As imagens do Minhocão em slideshow foram tiradas por mim num destes dias de domingo.

Mais memórias difíceis: o caso das Torres Gêmeas em Nova Iorque

Achei este pequeno texto que escrevi em 2007 na época em que li dois artigos interessantes publicados respectivamente no jornal Folha de S. Paulo e Estado de São Paulo. Falsa jornalista que sou,  acabei não publicando no calor da hora, mas agora com o 11 de setembro resolvi retirá-lo dos “rascunhos” e  publicá-lo na “atualização”  do Versão Paulo.

Este texto  que publico aqui continua uma discussão já iniciada no blog sobre as memórias difíceis: Memórias difíceis: espaços de reclusão na cidade  e O lugar da tragédia do avião da Tam já tem projeto de praça . Prolongando o assunto   e seus vários significados espaciais e imaginários seguem aqui encadeados os dois   artigos que sairam na imprensa em 2007. Um deles sobre livros,  saiu no caderno “Mais” da Folha de São Paulo do dia 07/10/07. O titulo do artigo era “Torres fêmeas”, uma paródia à tragédia do dia 11 de setembro  em NY. O livro em foco,  O sonho do terror de Susan Faludi, abordava a representação da tragédia através de uma série de reconstruções masculinas que chegavam a remontar o mito da conquista americana: o faroeste. Absurdo? Talvez, a primeira vista  podemos achar  que a autora procure pelo em ovo, afinal diante de uma tragédia destas pensar que a maior parte de suas representações teve um caráter masculino parece bastante estranho. Mas nada que o artigo/resenha aborda parece bobagem, muito pelo contrário. Nos poucos comentários do texto percebe-se que depois de 11 de setembro, apenas algumas vozes femininas se manifestaram. Como se a retomada da defesa do império norte-americano, de fato, ainda morasse “nos bravos homens que dominaram o oeste americano”. Faludi exemplica que este quase arquétipo masculino de retomado do império americano pode ser percebido no filme Guerra dos Mundos (2005) onde Tom Cruise, um pai divorciado e fracassado, reconquista a sua virilidade ao salvar sua filha. Na cena final  do filme Tom Cruise, ao carregar a filha no colo,  faz  eco ao final do clássico Rastros de Ódio (1956) de John Wayne.

Ainda nas palavras da autora, a forte representação da virilidade masculina pós 11 de setembro se enquadra em uma tradição de 300 anos de “ reengenharia cultural”. E Faludi vai mais longe ao visitar a exposição de fragmentos encontrados na tragédia de 11 de setembro na Historical Society. Observa ali a presença de objetos destituídos de textos que acabam sendo canalizados para construções mitológicas. O que também ocorre facilmente no terreno da linguagem. Caso exemplar disto, comenta ela, foi  como as pessoas que trabalharam no destroços do 11 de setembro  fizeram referência ao lugar da tragédia, “ the pile” ( a pilha), enquanto a mídia recorreu ao jargão militar de “ ponto zero”. Ponto zero foi a expressão oficial que de fato pegou e foi incorporada em todas as referências ao local da tragédia.

Guerra dos sexos

Um destroço das Torres Gêmeas encontrado e exposto na Historical Society

Porém a história das Torres Fêmeas não para por ai. Coincidência ou não, no Caderno de Cultura do jornal Estado de São Paulo do mesmo dia surge uma das vozes femininas presentes no caso das Torres Gêmeas . O artigo aborda entre outros temas ligados a ficção e escrita feminina, algumas notícias saídas na imprensa logo depois da tragédia de 11 de setembro que foram escritas por uma sobrevivente, Tânia Head,  que  teve  a veracidade de sua história questionada. Esta testemunha até então fazia parte dos 19 sobreviventes da parte mais alta de uma das Torres. Sua história se passa no dia 11 de setembro, ambientada no Word Trade Center. Gravemente queimada no ataque, Head sustentava a história  que  ao tentar sair da Torre, recebeu uma aliança de um homem moribundo que lhe pediu para entregá-la à família. Ao mesmo tempo,  “Enquanto ela descia do 78 andar da Torre Sul, era sustentada pela imagem mental do vestido branco que usaria no casamento com Dave, seu noivo, que, naquele exato momento, estava preso na outra torre.”

O relato de Head apareceu na imprensa e ela chegou a presidir  até pouco tempo  da publicação deste artigo (2007) uma associação de ajuda aos sobreviventes, além de levar  grupos de turistas ao local da tragédia e, in loco, contar sua versão da história. Hoje seu testemunho  é questionado. O noivo Dave não foi identificado. Seus parentes nunca ouviram falar de Head. Também não há nenhum registro sobre o homem que lhe deu a aliança.

Verdade ou ficção, Head ao tecer sua história, construiu um tipo de redenção em meio a destruição, algo  que a nação americana por um bom tempo adotou como a   história emocionante de uma sobrevivente. Tramada entre a ficção e a tragédia,  parece que fica uma versão feminina da história. Nem muito correta, quase nada verídica, porém que serviu como conforto para muita gente ao longo destes anos em que Head poderia ter sido facilmente desmascarada, mas não foi!

As mulheres  tem lá suas artimanhas e, sem  querer desapontar os céticos,   se as vozes femininas não estão presentes no “ponto zero”, parece que  a escrita feminina tem  imaginação suficiente para inventar um lugar e seus objetos. Tomara que mais vozes femininas mostrem seu poder de invenção, afinal nem tudo tem que acabar sempre  em bang- bang.

Mais sobre o assunto:

Este livro de Susan Faludi, “O sonho do terror” parece não ter publicação brasileira porém, de Faludi,  a ed. Rocco publicou “Domados: Como a cultura traiu o homem americano”, 2006.

Pra quem quiser pensar mais a questão do lugar na construção feminina recomendo a leitura de um clássico da relação entre a  mulher e a ficção,  “Um teto todo seu” de Virginia Woolf. ( link de PDF do livro)

São Paulo de uma letra só

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Carlos Drummond de Andrade

Tenho um apreço especial por dicionários, ao longo dos anos criei em casa uma prateleira só para eles. Ficam na altura do meu braço, bem próximo do ouvido esquerdo porque ao contrário do que se possa pensar, um dicionário não serve apenas para corrigirmos ou buscarmos termos desconhecidos ou duvidosos. A esta função primeira de buscar no dicionário a definição correta, o termo obscuro, inúmeras outras funções se combinam no encontro com as palavras : os sinônimos, a etimologia e finalmente a possibilidade de através do conteúdo que se encontra em um único verbete se criar uma sucessão de ideias que nos levem a outros tantos caminhos. Por isso fui acumulando dicionários dos mais variados assuntos: dos animais, dos símbolos, dos lugares imaginários, os analógicos, dos mitos literários, das gírias brasileiras, dos suicidas ilustres, das definições arquitetônicas e até tenho um de autoria familiar, o dicionário de homeopatia.

Gostaria de dividir com vocês um que tem especial significado para a cidade, o Diccionario do Município de São Paulo, do meu querido Affonso de Freitas (1868-1930), publicado em 1929 pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Este dicionário contém como vem definido na primeira página:

“a origem e a história do município e de suas povoações; descripção da climatologia regional; interpretação dos termos autochtones empregados na geographia e no vocabulário dialectal: nomenclatura das ruas e bairros da cidade e origem das respectivas denominações; elucidação de fatos históricos desenrolados na capital do estado, etc, etc.”

O volume que tenho é o primeiro e só contém palavras com a letra A. Comprei este exemplar sabendo da ausência das outras letras do alfabeto. Mas mesmo assim comprei porque o autor foi um renomado pesquisador da cidade que por algum motivo não conseguiu que os outros volumes vingassem. Era pegar ou largar. Ou o A da cidade de Freitas, ou nada.

Lendo os verbetes se percebe que estes futuros volumes (B – Z) deveriam existir ou estavam muito bem encaminhados pois em muitos há indicações para se buscar mais sobre o assunto tratado em outros termos como: Faculdade de Direito, Cidade-Jardim e etc…

Talvez no futuro um pesquisador encontre nos calabouços do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo os manuscritos perdidos de Freitas que devem dar conta das outras letras do alfabeto. Mas por hora temos que ficar com este de uma letra só.

Na maior parte das vezes um dicionário vale pelo universo completo que ele abarca. A ausência de uma letra, o sumiço de uma única página pode inutilizar um dos objetivos mais primários do dicionário; dar busca num universo de palavras ou termos que obedece a uma determinada ordem.

A falha na ordem gera no usuário a sensação de não completude deste universo, a consciência que sua busca em algum momento corre o risco de não ser bem-sucedida porque ali existe algo inacabado.

Pois bem, meu dicionário de termos relativos à São Paulo sofre desta falha numa forma talvez muito intensa, porque não falta nele uma das letras ou uma página apenas, esta ausente dele a maior parte do alfabeto, só tenho a letra A, ou seja a menor parte do todo.

Ao mesmo tempo, por ser um fragmento desta sequencia alfabética e por eu saber de antemão que ele só existe na letra A, tudo se modifica na forma de abordá-lo. Começando pelo fato que ele em si não abarca uma totalidade, apenas uma mínima parte deste todo. Por outro lado este fragmento que tenho perfaz uma unidade, pensando que vai do A do começo ao fim.

Talvez esteja querendo explicar pra vocês algo que também tem a ver com o trabalho do pesquisador de história. É exatamente assim que um buscador de tempos trabalha, com fragmentos. Porém como historiador e amante do tempo ele deseja a completude, a sequencia dos fatos, a sucessão dos acontecimentos, o encadeamento de algo que ele só pode participar pelo registro que se oferece como mensagem. Para um historiador, quanto mais fragmentos ele reunir melhor, quanto mais sequencias e encadeamentos de registros, mais viável será sua leitura critica dos outros tempos.

Por outro lado, o excesso de material ou a lógica cumulativa que se traduz em farta documentação e informação, pode levar o nosso historiador a uma área de conforto que seria o equivalente em ter diante de si um dicionário completo, um universo que bastaria apenas ordenar sua lógica para se obter uma visão privilegiado de um determinado assunto. E com este raciocínio, ao contrário de um texto reflexivo sobre determinado tempo-espaço, surge uma enorme enciclopédia de informações encadeadas em que a regra parece ser não abrir mão de quase nada do que foi encontrado. O resultado desta odisseia em reunir informações e encadeá-las é que muitas vezes o pesquisador perde a chance da seleção, da escolha e recorte do que seria mais representativo na abordagem de um determinado assunto.

Não é o documento encontrado e re-apresentado por mais raro que seja que tem a capacidade de se autoexplicar manifestando seu tempo redescoberto. O documento não é autoexplicativo, somos nós que criamos o caminho e a forma de representá-lo. Nossa encadeação de ideias é que aponta um lugar atualizado no presente para esta seleção de registros que escolhemos para dar liga a um determinado assunto. A nossa função é costurar uma nova trama que vai cerzindo presente e passado de uma maneira muito singular, porque passa por escolhas e apropriação de conhecimentos. Esta reflexão critica, seletiva e particular, é de fato o que faz com que cada registro mantenha um frescor inexplicável: colocamos perto o que estava longe, claro o que parecia obscuro, vivo o que estava inanimado.

O fato do dicionário só trazer a letra A parece ser um ótimo limitador natural deste universo que muitas vezes almejamos infinito e sedutor. Por isso ao contrário de muitos outros dicionários que tenho aqui na minha prateleira os quais consulto com as primeiras e segundas intenções, este eu faço diferente, abro pra ver a onde me leva. E através desta outra leitura proporcionada pelo acaso me divirto e me surpreendo com as propostas do autor.

(para retornar dos links abaixo clique seta superior voltar)

ACÚ ADOLESCENTE AMÔRES ALTITUDES AFFLICTOS ANALYSES DE POTABILIDADE

ANTROPOPHAGIA ANQUINHAS ANTIGA VIAÇÃO AUGUSTA ALEGRIA

AMARAL GURGEL AMENDOIM ANGÉLICA ANCHIETA AFILADOR ARAÇÁ

Através da letra A compreendo a forma como Freitas foi selecionando o que ele percebia de fundamental no século XX sobre a cidade de São Paulo. Quais os verbetes que ele escolheu para desenvolver assuntos referentes a cidade naquele momento.

E com este método acabo por fazer achados que muitas vezes são inéditos e totalmente estranhos e outros, buscas minhas também. Fico grata pelos estranhamentos e coincidências como a palavra Acú, dá língua tupi-guarani que é veneno, mas que também refere-se ao antigo nome da Av. São João bem no início dela, a Ladeira do Acú.

Acú também se estendia ao nome da ponte que atravessava e ligava os dois lados do Vale do Anhangabaú. A origem de Acú vem da redução de Iacuba (água que contém veneno). Iacuba ou Yacuba era denominado o rio que nascia no largo do Tanque do Zúniga e ia confluir com o Anhnagabaú. Até 1780 o Tanque do Zúniga tinha o nome primitivo de Iacuba. Passa a ser Zúniga a partir do momento em que o sargento-mor Manoel Caetano Zúniga se “investira da propriedade das nascentes do curso d´agua”, e impediu o povo de levar roupas no “seu” tanque. Em 1865, o Tanque já aterrado muda de nome e passa a homenagear à tomada da praça uruguaia de Paissandú, ficando conhecido pelo atual nome de largo do Paissandú.

Há vários verbetes de nomes próprios, a maioria conhecemos porque fazem parte da história da cidade ou de fatos históricos nacionais comemorativos, porém o primeiro apelo é associar o nome a uma rua da cidade, porque de fato temos uma enxurrada de ruas de nomes próprios vindos de uma época em que a rua não valia apenas pelo seu uso ou localização, a rua passa a ser um lugar de visibilidade, de elegia. Os nomes próprios migram para ruas no século XIX, como novas tatuagens que marcam o lugar.

Porém o nosso amigo Freitas não fica apenas esclarecendo quem foi quem na história nacional. Ele vai mais fundo e mais longe. Por exemplo, a Rua Amador Bueno do distrito de Santa Iphigenia, batizada assim em 1865 em homenagem “ a Amador Bueno da Ribeira, o acclamado rei de São Paulo”, antes se chamava Rua do Meio, denominação tirada de sua localização entre a rua antiga de São João e dos Bambus ( atual Av. Rio Branco).

Interessante ainda é pensar que as ruas antigas, especialmente aquelas ligadas ao uso, não se restringiam a um único lugar da cidade. Existia uma outra rua do Meio em São Paulo no que hoje é a rua Carlos Gomes, entre a rua de Cima, hoje Liberdade, e a de Baixo, que é o prolongamento da rua Carlos Gomes. Como se à época valesse mais a topografia do lugar do que a singularidade dos nomes.

Isto também me fez lembrar que algumas ruas que mudaram de nome no final do século XIX, permaneceram sendo reconhecidas pelas antigas referências de uso ainda por um longo tempo. Quem faz alusão a esta permanência de referências são os cronistas da cidade que não cansavam de chamar o novo pelo antigo, negando de certa forma a dissociação que se fazia na forma de viver e se deslocar na cidade que os nomes próprios traziam às conhecidas áreas de passagem.

E por mais que hoje já perdemos nas ruas as referências de uso que as tornavam mais compreensíveis a quem por elas caminhava, ainda acho que vale a pena o exercício de unir aquilo que era do outro tempo com o que ai está.

A Ladeira Porto Geral por exemplo, se mantém entre nós e ainda faz alusão a um passado que talvez poucos pessoas que perambulam por ela imaginem. A Ladeira foi caminho do porto, ali embaixo ainda se via o rio Tamanduateí e as embarcações que traziam alimentos e faziam grande parte do transporte da cidade chegavam e partiam deste porto.

Ali no alto da Ladeira bem merecia haver um telescópio em que as pessoas ao olharem por suas lentes vissem para além do formigueiro humano que passa pela rua 25 de março, a antiga ladeira de paralelepípedos, o rio e suas 7 voltas serpenteando lá embaixo e talvez o movimento das lavadeiras que se dirigiam as águas do Tamanduateí. E nada disso que estou descrevendo aqui seria impossível de acontecer, porque tudo faz parte de registros, imagens de ilustradores e fotógrafos que estão por ai distribuídas em álbuns, memórias e documentos prontos para se re-unirem a fim de contar uma história.

E agora, ao finalizar este texto, vejo que burlei o dicionário de Freitas e escapei sem querer da letra A para navegar por tantas outras letras e assuntos da cidade que ele disparou em mim com o poder de uma letra só.

Quem foi Affonso de Freitas:

Affonso de Freitas ocupou por muito tempo a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Foi um grande historiador dos assuntos paulistas e excelente cronista. Escreveu durante a vida toda e tem uma extensa lista de publicações dos mais variados assuntos. Dentre as obras publicadas e acessíveis, destaco o gracioso livro Tradições e Reminiscências Paulistanas que mostra a cuidadosa escrita de Freitas aliada a profunda erudição com a história de São Paulo, principalmente sua preocupação com termos indígenas e questões oriundas do português vernacular.

Referências bibliográficas:

Freitas, Affonso de. Diccionário do Municipio de São Paulo, Graphica Paulista – Editora: São Paulo, 1929.

Freitas, Affonso de. Tradições e Reminiscências Paulistanas, Governo do Estado de São Paulo (3.ed): São Paulo, 1978.

Paula Janovitch

ToKyo Ga

Acabo de assistir Tokyo Ga de Wim Wenders, filme que o diretor fez durante a produção de Paris, Texas (1984). Em duas semanas Wim Wenders vai ao Japão para buscar imagens, memórias de Tóquio construídas por Yasujiro Ozu: um dos diretores de cinema que Wim Wenders considera um tesouro sagrado do século XX. Seus filmes vão desde o cinema mudo no início do 1900 até os anos 60 quando vem a falecer. O filme Tokyo Ga é tocante a princípio porque trata de um registro totalmente pessoal de Tóquio. Um encontro de Wim Wenders com quase um século de imagens da cidade. Ao mesmo tempo, uma busca que parte da descoberta das pessoas que trabalharam com Ozu, sua técnica de fazer cinema , mas também com uma certa busca de Wim Wenders de identidade através da compreensão das radicais transformações do Japão, de Tóquio, dos elementos do passado que ainda se fazem presentes no ritmo caótico da grande cidade.

O filme de Wenders começa por fragmentos de um filme mudo de Ozu, “ Viagem a Tóquio”. Depois há um corte rápido e chegamos em Tóquio moderna pelo registro de Wim Wenders. Há cenas fantásticas, como os jogos de azar em porões em que o ganho é obtido através do acúmulo de bolinhas. As máquinas em sintonia com os homens mostram uma repetição de movimentos, nada mais do que os famosos passatempos modernos que habitam todas as grandes cidades do mundo. Vicio adquirido pelos moradores de Tóquio após a Segunda Guerra Mundial.
A prática do golf , coqueluche em Tóquio, mas com sutilezas emblemáticas e talvez extremamente vinculadas a tradição oriental japonesa é outro caso exemplar deste fenômeno. Em Tóquio, o golf não requer que o jogador acerte a bolinha no buraco. O foco do esporte esta na repetição e aprimoramento, no movimento do corpo em lançar a bolinha. Falta de espaço ou será mesmo uma forma particular de interpretar o jogo? As repetições também surgem na forma de Ozu dirigir os atores de seus filmes. Uma cultura da precisão de movimentos que se transforma radicalmente após a penetração das influências ocidentais. Há também nostalgia no filme, talvez a noção que esta tradição, a identidade de Toquio dos filmes de Ozu, vai se perdendo à entrada das influências ocidentais.
No fundo o filme trata da identidade e da memória de todos nós. Do desejo de estarmos em contato com algo verdadeiro, um tesouro encantado, por que não? Algo perdido nas nossas próprias memórias. Imagens queridas que se encontram embaralhadas em meio a tantas ofertas/imagens de prazeres rápidos, mas que permanecem presentes e silenciosas no espaço.
Achei por “puro acaso” numa caixa de papéis velhos da minha casa este postal dos anos 90 que ilustra o post, de uma Tóquio frenética, tecnológica e elétrica como diz o missivista da correspondência, mas ainda com a imagem de gueixa pronto para fazer um novo começo. Tokyo Ga é esta memória, de algo que vem de muito antes, mas que parte das duas semanas que Wim Wenders larga as filmagens de Paris,Texas, um filme de buscas, memória e identidade, e vai para Tóquio de Ozu ” apenas para observar, sem querer provar nada pra ninguém”. E ai toda uma outra história pode começar . Vale a pena assistir.
O filme Tokyo GA pode ser alugado em DVD na 2001.
Paula Janovitch

Eu fui a Lapa e não perdi a viagem!!!!

Pois é, o Rio de Janeiro continua lindo e totalmente musical. De uns tempos para cá a história da musicalidade da cidade anda em pauta . O que é totalmente correto e de bom gosto. Caso recente deste mapeamento e reinvenção bem sucedida de um espaço perdido e decadente, é a Lapa carioca. Um bairro que até bem pouco tempo fazia alusão a história de uma boêmia de outros tempos, de malandros e prostitutas que parecia totalmente em ruínas. Fui a Lapa há uns vinte anos atrás. Lembro que entrei numa daquelas vielinhas, talvez cenário do filme Madame Satã, e tomei sangria. Tudo era decadente na região e lembrava com tristeza os outros tempos dos grandes malandros e prostitutas.
Quem vai a Lapa hoje em dia como diz Caetano Veloso, não precisa tomar remédio, porque ela se transformou em saúde pública. Tem um monte de opções para beber, dançar, conversar ou mesmo assistir a um show no Circo Voador. Ainda existem os pequenos hotéis de pernoite e os pontos de travestis da região. Mas até isto vem mudando. Os travestis começam a montar lojas e diversificar seus negócios. Assim como os bares que se abrem na Lapa, são temáticos e aludem a este passado que por muitos anos esteve adormecido sobre a fuligem de uma malandragem mal tratada.
No dia que fui a Lapa, quase na viradinha do ano, escolhi o bar Rio Cenarium e dancei um monte lá. Quando sai, vi uma fila enorme na rua. Bem diferente de outros tempos em que visitar a Lapa era andar solitário por ruas silenciosas.
Para saber mais ver reportagem da Folha de São Paulo 06/01/07