Caminhamos pelas fotografias de Mauro Restiffe com a urbanista Raquel Rolnik!

Raquel

Raquel Rolnik / foto: Paula Janovitch

No dia 07 de junho à noite, uma quinta-feira, ocorreu a palestra de Raquel Rolnik na exposição de Mauro Restiffe no IMS . Cheguei atrasada e quando entrei na Galeria 2, onde seria a palestra, vi um aglomerado de gente no fundo da sala. Raquel estava mostrando uma imagem do fotógrafo Mauro Restiffe, no Campos Elíseos, e explicando o que havia ocorrido ali. Falava de Santa Efigênia, da rua que é o segundo PIB comercial da América Latina, porque o primeiro, explicava ela, é o da 25 de março. Tudo isto para enfatizar o absurdo que é a expressão revitalização em uma área que não esta desvitalizada. Disse: “esta palavra revitalização deve ser banida do nosso vocabulário, é uma mentira!!! O melhor seria usar reabilitação, acolhimento de novos usos, oferta de condições de moradia para quem esta nesta região.
”
Caminhamos mais uma pouco para outra imagem, um terreno desocupado, um estacionamento com o Teatro Oficina ao lado. Ela explica que o terreno é de Silvio Santos, que este queria fazer uma edifício-torre, já os moradores do Bexiga, desejam que ali seja o Parque do Bexiga. Em meio a esta disputa ela nos pergunta se sabemos em qual categoria de zoneamento este terreno se enquadra. Ninguém responde. Ela explica: zona especial, mais ou menos quer dizer zona que pode ser qualquer coisa. Depois nos dirigimos para uma fotografia pequena, do Templo de Salomão, no Brás. Ela diz que esta foto é muito interessante porque mostra uma imagem do Templo no tapume e, ao fundo, ele ainda no início de sua construção. Novamente vem a pergunta se sabemos em que tipo de zona se enquadrava este terreno onde foi construído o Templo. Alguém chuta zona especial também. Nada disso, outra categoria, era uma ZEIS ( zona  especial de interesse  social), a mesma da área do Campos Elíseos, lembra Raquel. Porém, neste caso, havia uma casinha no terreno, e o Templo de Salomão foi construído como reforma da tal casinha. Logo passou ao largo das burocracias e impedimentos das leis. Veja que uma casinha virou um Templo reconstruído à imagem e semelhança daquele que em Jerusalém esta em ruínas até hoje. Só tinhamos lembrança dele através da Bíblia, mas agora temos uma replica “perfeita” no Brás paulistano, onde uma casinha reformada se tornou o bíblico e literal Templo de Salomão.
Depois do  percurso  neste território fotográfico, sentamos e nos estendemos nas conversas sobre a cidade, mais especificamente estes locais de conflito. E foi ali sentados que a Raquel deu um conselho ótimo para quem quer participar das discussões e decisões sobre a cidade. Motivo pelo qual escrevo sobre a palestra e compartilho aqui. Então lá vai. Temos que entender da nossa cidade como as pessoas entendem de futebol. É assim que podemos entrar em campo, aprendendo no território, nas exposições e nos deslocamentos pela cidade. Ontem caminhamos pelas fotografias de Mauro Restiffe e conhecemos vários jogadores e muitas jogadas ensaiadas. A técnica de plantão é na realidade uma boleira histórica . Valeu Raquel !!! Paula Janovitch

Para saber mais:

Exposição São Paulo, fora de alcance – Mauro Restiffe A exposição do fotógrafo Mauro Restiffe  é um desdobramento de um registro inicial que começou em janeiro de  2012 a convide da Revista Zum.  Mauro fotografou a região da Luz logo  após a Polícia Militar expulsar dali traficantes e usuários de drogas. Nesse registro não estão apenas presentes o desmonte do espaço, mas a tragédia humana e o conflito. A idéia inicial acabou virando motivo para outros registros de conflitos, desmontes e paisagens arquitetônicas na cidade de São Paulo que compõe a mostra do fotógrafo no IMS. O catálogo da exposição também esta a venda na Livraria Travessa ( IMS) e para quem quer se deter por mais tempo sobre estas imagens fora de alcance, vale a pena adquirir.

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Vila Itororó: uma história em três atos

capa livro

Coleção Canteiro Aberto Instituto Pedra e Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo.

 

Foi lançado em fevereiro de 2018 o segundo volume da coleção Canteiro Aberto, do Instituto Pedra em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo: Vila Itororó: uma história em três atos, das urbanistas e pesquisadoras de história da cidade de São Paulo, Sarah Feldman e Ana Castro. A publicação resgata a história da emblemática Vila paulistana, localizada na área central da cidade, entre os bairros da Liberdade e Bela Vista.

Por incorporar em sua construção materiais de demolição de um antigo teatro da cidade, o São José, e outras implantações inéditas e singulares para uma habitação do início do séc. XX como piscina, chafariz, bustos e esculturas, a Vila Itororó acabou chamando atenção de muitas gerações de urbanistas e pesquisadores do patrimônio histórico a partir dos anos 70 do século passado. Tornou-se de fato parte do debate das transformações dos critérios dos bens a serem qualificados como relevantes à memória da cidade de São Paulo.

 

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Considerada de arquitetura exuberante, surreal, o imóvel localizado numa encosta do Vale do rio Itororó ( atual avenida 23 de maio), acabou sendo foco de disputas e discussões sobre suas possíveis ocupações a partir do momento em que passou a ser protegido pelos orgãos de patrimônio histórico. Nomes como Benedito Lima de Toledo, Carlos Lemos, Claudio Tozzi, Décio Tozzi e Flávio Império fizeram parte destas primeiras discussões e formulações de projetos de novas qualificações que por anos nunca saíram do papel.

Eu mesma fui vítima do encantamento da Vila Itororó. Nos anos 1990, quando era    pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico, fizemos uma vistoria nas construções. Recordo a forte impressão que me causou entrar naquele casarão decadente que tinha logo a entrada dois leões, esculturas, varandas, longas escadas, pilares e uma piscina coberta ao fundo. Era difícil definir visualmente o que havia sido aquele conjunto de casas. Lembro de ter conhecido uma senhora muito pintada que diziam ser uma antiga atriz. Fui embora com aquela imagem dos leões da entrada, dos pilares e da velhinha com ruge nas bochechas, moradora solitária de um cômodo do antigo palacete.

 

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Lendo o livro sobre a Vila Itororó de Sarah Feldman e Ana de Castro, as formas arquitetônicas que por tantas décadas ocuparam o imaginário da Vila, saem do centro das atenções. Outras histórias revelam-se através de documentos públicos, recortes de jornal, depoimentos e fotografias que multiplicam a vida da casa colocando-a em diálogo com a história da construção e das formas de morar na cidade de São Paulo, especialmente na área central.

Somos convidados desde o primeiro ato a entrar em contato com a vida de Francisco de Castro, o primeiro proprietário e idealizador da Vila. Um filho de imigrantes portugueses, que como tantos outros estrangeiros, contribuíram para a formação da cidade de São Paulo. Acompanhamos a maneira como este investidor anônimo, integrava-se ao comércio da terras urbanas no início do séc. XX, momento em que a cidade transformava-se a olhos vistos.

A pesquisa tem o mérito de partir de um pequeno registro, o recorte de uma habitação central, para potencializar redes de conexões com o tecido urbano que ampliam os horizontes das relações e conexões destes possíveis franciscos de castro em diálogo com escritórios renomados como o de Ramos de Azevedo e as definições dos melhoramentos urbanos para a nascente capital do café. Percebemos neste cruzamento de diálogos, que a cidade não se expandia apenas pelas mãos de grandes loteadores, o solo urbano era negócio para todos.

Percorrendo a história da área central através da história da Vila Itororó, temos de fato um recorte urbano de São Paulo. Revelam-se personagens que passam a ter corpo, nome próprio, relações de amizade e parentesco. Projetos, desejos, sonhos e histórias que apontam conteúdos inéditos da formação social urbana. Tudo que se fala da Vila , não constitui-se como fato isolado do que a integra na cidade.

No segundo ato do livro entramos no universo mais íntimo da casa, dos moradores que habitaram a Vila Itororó. Num terreno de quase 6.000 metros quadrados, Francisco de Castro não construiu apenas seu sonho de morar, mas também um conjunto de casas de aluguel que lhe garantiriam um renda fixa. Algo extremamente comum à época, esta mistura de usos que poderiam muitas vezes ser compartilhados num mesmo lote, resultando em um dos investimentos mais seguros naquele momento. Como afirmam as autoras,  80% das famílias moravam em casas de aluguel em São Paulo nas primeiras décadas do 1900.

Francisco de Castro vem a falecer nos anos de 1930, repleto de dívidas e sem ver vários dos seus sonhos realizados. Os projetos urbanos que atravessariam sua propriedade valorizando seu lote, como a avenida Itororó (atual avenida 23 de maio), acabaram acontecendo décadas depois de sua morte, nos anos de 1960.

Nos anos de 1930, a Vila Itororó passa a ter novos proprietários, mas permanece como local de moradia de famílias que se caracterizavam por proximidades de parentesco e amizade. O palacete, morada de seu idealizador, neste segundo momento é dividido e ocupado para aluguel. A geografia da casa grande com a ocupação rentista, não deixa de refletir as hierarquias sociais do espaço urbano. Os mais abastados passam a morar nas áreas de acesso independente e próxima à rua. Os de menos posses, ocupam áreas da casa mais distantes da rua e com acessos compartilhados.

Porém, destacam as autoras, a sociabilidade dos moradores da Vila se mantém ao longo de  toda a sua existência como residência. Áreas comuns do terreno que incluíam a piscina e o pátio, entre o palacete e as casinhas de aluguel, revelam-se nas memórias dos antigos moradores como um rico espaço de convivência. Alguns lembram de um abacateiro, outros das festas e do clube Eden que incluía o uso da  piscina.

Outro aspecto fundamental que destaco neste segundo ato, refere-se a localização estratégica da Vila, entre o centro da cidade e a avenida Paulista. Como habitar entre espaços centrais da cidade, com instituições culturais e educacionais potentes, propiciou aos moradores da Vila condições de acesso à cultura e educação que caracterizam de forma singular a vida na área central da cidade.

Eis ai nos registros da história da cidade de São Paulo, um capítulo que precisa ser iluminado, batido e rebatido: a ótima coexistência entre habitação popular, cultura e serviços em regiões centrais.

 

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O terceiro ato talvez seja o momento que nos deixe mais pessimista em relação aos destinos da Vila e de seus morados. A partir dos anos de 1960, a presença da av. 23 de maio, projeto tão esperado por seu primeiro proprietário, tornou-se o início de um pesadelo para seus moradores. A área se valoriza muito e o imóvel a partir de então passa a fazer parte das várias disputas imobiliárias que ocorrem até hoje na área central da cidade. Nestes embates, inúmeros são os projetos de usos, desde a defesa legítima da permanência dos moradores, até aqueles que indicam, pelas características arquitetônicas do imóvel, um futuro centro cultural.

O livro se encerra em 2013, momento em que o Instituto Pedra assumiu o restauro e a coordenação das atividades   sobre o imóvel.  Num galpão adquirido na fase atual, criou-se um centro cultural temporário ao lado da Vila Itororó. Todas as atividades de reflexão e oficinas acontecem neste novo espaço cujo acesso se faz pela rua Pedroso, 238.

Como parte do processo de reflexão e investigação empreendido sobre a Vila Itororó desde 2013, esta publicação abre-se para os futuros possíveis do imóvel. O que só vem a reforçar a potência de materiais presentes no canteiro aberto pelo Instituto Pedra. O passado é material frágil e de fino trato, capaz de levantar questões e conteúdos importantes na reconstrução  da Vila Itororó. Vou mais longe, a história ao ser incluída no presente, é capaz  de  sugerir  novas formas de habitar a cidade.

O livro oferece muito mais histórias sobre a Vila Itororó. É uma pesquisa cuidadosa e bem escrita. Para aqueles que gostam desta emblemática Paulicéia, é leitura obrigatória.

Para saber mais:

O livro Vila Itororó: uma história em três atos pode ser adquirido na versão física e gratuita no próprio “Canteiro Aberto da Vila Itororó” . Para quem mora em São Paulo, basta acessar o site e olhar os dias e horários de visita. Para quem não mora em São Paulo, há uma versão digital do livro em pdf e vários depoimentos e registros daqueles que participaram desta história.

Vila Itororó página Facebook

Tel de contato Vila Itororó ( Centro Cultural Temporário/ Secretaria Municipal de Cultura): 32530187

 

Delírios Psicodélicos : Cracolândia, Campos Elíseos e Higienópolis

Antiga Rodoviária da Luz. Acervo Biblioteca FAU/USP

A área da antiga rodoviária de São Paulo, no Campos Elíseos, por algumas décadas tornou-se um terreno vago. Ali, naquele vazio rodeado de casarões antigos, tendo a Estação de Trem Sorocabana a frente e a introvertida Sala São Paulo como vizinhas, a extensa área virou um terreno baldio. Para quem passava por ali, até meses atrás, havia um campo de futebol, onde também era frequente uma outra presença que tomou aquele território, a conhecida Cracolândia. Inúmeros projetos surgiram na imprensa anunciado novas ocupações para o terreno da antiga rodoviária desativada nos anos 80 e depois ocupada por um shopping. Se não me falha a memória, um dos projetos mais recentes seria um complexo cultural. Frequentes  foram as operações para higienizar a área “doente”. Vejam que nos últimos anos a imprensa se aliou ao Estado e reforçou a imagem do território “doente”. Nesta inversão de pegar a parte pelo todo, Campos Elíseos desapareceu das referencias do lugar, passamos a reconhecer o território como “cidade do crack”, exclusivamente Cracolândia, um lugar extremamente difícil e perigoso. Eliminar a doença, limpar o território, normatizar os espaços vagos é uma articulação frequente e bem sucedida desta histórica união do Estado com a especulação imobiliária e os meios de comunicação. Depois de anos, aquele terreno vazio, antigo local de partidas e chegadas, nosso sonho psicodélico, foi preenchido rapidamente por vários prédios sem identidade alguma que poderiam estar em qualquer lugar da cidade. Uma outra  população de moradores desta utópica “nova Campos Elíseos” vai ocupá-los em breve.

Edifícios localizados onde foi a antiga rodoviária de São Paulo. Terreno baldio foco de disputas. Abril 2018

A quadra 36, a qual estão sendo expulsas famílias que moram há décadas no bairro de Campos Elíseos, também parece revelar um outro traço bastante interessante desta normatização do lugar. Dentre muitas ações históricas do Estado para valorizar um território, a introdução de um equipamento hospitalar, no caso, o futuro Pérola Byington, é sem dúvida uma maneira de valorizar uma região e eliminar aquilo que sintomaticamente tomou o território como  representação da doença e a fragilidade de sua mobilidade errante, o “fluxo”.

Procissão Fórum Luz /Teatro do Faroeste. Abril 2018

Impossível não lembrar que no início da ocupação de Higienópolis, há mais de um século, se deu também  com equipamentos estratégicos de valorização de um território que   no final do séc. XIX era considerado  muito distante do centro da cidade. Dentre institutos educacionais como o Mackenzie e novos arruamentos dos loteadores,  a implantação da Santa Casa da Misericórdia foi fundamental neste plano “feliz de cidade saudável”. Sem a presença da Santa Casa, a distante região do Pacaembu, em tupi-guarani “terras alagadas”, nunca se tornaria a nobre cidade da higiene, a glamourosa Higienópolis.

Publicidade da Escola Americana/Mackenzie, Almanach 1888.

Boa Viagem a todos!!!

Paula Janovitch

Para saber mais:

Quem construiu a Rodoviária da Luz? por Abílio Guerra

Folha de São Paulo 05/06/18 Obra de hospital é paralisada e lança dúvida sobre nova cracolândia de SP.

Folha de São Paulo, 05/06/18 Plano gera conflito com vizinhos da Ceagesp.

São Paulo Antiga – Terminal Rodoviário da Luz – No site da São Paulo Antiga, um interessante post recupera imagens da antiga rodoviária da Luz. Neste texto ficamos sabendo que o projeto da Rodoviária num primeiro momento foi pensando para ser no Parque da Luz. Outro dado interessante  é que as pastilhas coloridas internas  da nossa rodoviária psicodélica da Luz, podem ser vistos ainda hoje na fachada do Jornal Folha de São Paulo. Otávio Frias  foi um dos construtores da  antiga rodoviária.

Descontruíndo a Luz – matéria publicada no Estado de São Paulo na época da demolição da rodoviária. O ensaio fotográfico da desconstrução é maravilhoso. Não poderia deixar de compartilhar com vocês.

Fórum Aberto Mundaréu Luz  em defesa da permanência dos moradores no Campos Elísios. O Fórum elaborou um projeto de habitação para o Campos Elíseos, assim como equipamentos para o entorno, onde permanecem os moradores e se preservam os imóveis antigos da região. Vale a pena conhecer melhor o Fórum. Foi ele o responsável pela procissão que começou no Teatro do Faroeste, em que os atores, vestidos de branco e com extintores, higienizavam em tom de paródia  toda a região em risco  com água perfumada.

Dois dias pelos caminhos do Ó

tempo reverso2 abertura

* Este post é resultado de duas caminhadas que fiz junto com Gilberto Tomé, Livia Gabbai, Paula Gabbai e Renato Hofer. Gilberto, artista gráfico, ganhou incentivo do Proac para fazer este lindo projeto de percursos e um livro de artista. Entendo que Tomé fez muito mais do que isso. Sensibilizou pessoas para olharem um caminho antigo ameaçado pelas radicais transformações que estão acontecendo ali. Colocou seus moradores diante da beleza da história da antiga estrada e do caminho de seus ancestrais. E, finalmente, abriu uma exposição no próprio Caminho do Ó, Praça das Porteiras ( Praça da Árvore). Segue um pequeno relato afetivo destas duas caminhadas.

 

 Ontem conversei com a Lívia, que já esta produzindo um filme das caminhadas que fizemos. Achei interessante a nossa conversa. De formas diversas cada um de nós vai desenvolvendo diálogos com o percurso, que também chamo de lugar. Um lugar para mim é algo habitado por gente, por traçados, por histórias e por quem percorre. O lugar se revela como Descobrimento no sentido próprio mesmo: um achamento. Reparei que a caminhada em si é uma ação deste achamento. E muito mais intenso se faz quando somos estimulados a ver, sentir e perceber o que permanece do passado no presente e aquilo que é radicalmente novo. Caminhar é uma troca de olhares que se aprimoram no  espaço e no cruzamento de vistas.

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 No meu primeiro percurso para a Freguesia do Ó desobedecemos o caminho principal, a avenida Santa Marina. Nos perdemos pelas pequenas travessas e pontilhões dos trilhos do trem armados de mapas antigos. Fizemos achados maravilhosos, um riacho escondido numa vila, uma grupo de ruas que é um poema de Paulo Bomfim, Tempo Reverso. E casas, residências pequenas, antigas ainda, mas com portões novos, com estruturas flutuantes  para acomodar um novo  morador, o carro. Com certeza é o antigo se adaptando ao novo, o tal puxadinho que virou garagem. 

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Na segunda caminhada, o Tomé trouxe várias folhas coloridas com impressões fotográficas antigas e distribuiu para o grupo. Começamos no início da Santa Marina, que é ali na Pompéia. A Dna. Neide ao andar pelo antigo Caminho do Ó ( Av. Santa Marina), conseguiu lembrar mais coisas dos seus percursos dos outros tempos por aquela avenida. O escadão e antes dele, a porteira do trem,” era muito mais fácil do que agora”, o local onde pegava o bonde, a relação com o rio Tietê, as distâncias, tudo era mais perto. 

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 Depois a moça da galeria de arte, a Luana, ouviu um barulho de rio, ali invisível, de dentro destes tampões da Sabesp, gravou. Ainda paramos no primeiro ponto de vista, na Praça das Porteiras ( antiga referência da Praça da Árvore) , antes da cancela do trem. E as pessoas maravilhadas conseguiram ver dali a Igreja da Freguesia do Ó, lá do outro lado do rio Tietê. Fez todo sentido. 

 Atravessar a linha do trem e passar para o outro lado da avenida é o segundo obstáculo para penetrar e refazer o antigo Caminho do Ó. 

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O Instituto Rogacionista é a primeira parada que atrai os olhares e o desejo de percorrer por dentro algo do passado. Na extensão da avenida e seus novos usos, aquele casarão antigo chama atenção. Seus jardins, as carpas, a tranquilidade, o que um casarão de chácara esta fazendo ali? Parece que o tempo deixou um marco de outros tempos, de outras histórias, ponto de reflexão numa avenida que passou rapidamente do campo para a produção fabril.  

No jardim uma moça desenhou um peixe.  Lembrei da Virginia Woolf no livro Um teto todo seu tentando agarrar um peixinho/idéia que passava naquela universidade imaginária, “Oxbridge” ( mistura de Oxford com Cambridge). Ela pescou uma carpa linda ali na antiga  Chácara/ Instituto  Rogacionista!!! 

peixes que nadam peixes que se inventam

Saindo de lá, a Vidraria Santa Marina domina a quadra do outro lado da rua, mas nos fins de semana é mais um dragão de boca fechada; dormem os fornos, as chaminés?  descansam os homens. 

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 O barulho vem do Clube Santa Marina, seu vizinho anexo. Criado e mantido por seus antigos funcionários. É o fiel Santa Marina Atlético Clube com uniforme que tem as cores da bandeira francesa. Ali se produzem outros sons: apitos do juiz , gritos de felicidade, o barulho da borracha de tênis  em atrito com o piso de cimento da quadra do futebol de salão. É gente pequena e grande que enche de vida o lugar. Andar pelo clube é percorrer histórias, monumentos e bustos misturados a pura convivência dos clubes de várzea nos fins de semana. Que não morra o Santa Marina Atlético Clube, fábrica de barulhos de felicidade da Avenida Santa Marinex!!!! 

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 Saímos do clube e o movimento do trânsito assume a trilha sonora do lugar. Nosso terceiro obstáculo é passar pela Av. Ermano Marchetti e chegar na última quadra da Santa Marina, do lado de cá do rio Tietê. Jogo duro para o pedestre. A longa travessia diz muito do lugar. Talvez seja por isso, e não por nostalgia dos velhos tempos, que Dna. Neide lembra que antigamente o Caminho do Ó era mais fácil para caminhar. Parece que nada ali é feito para os pés, mas somente para carros. Nada ali é de parar e olhar, e é por isso que estamos fazendo o Caminho do Ó. Queremos buscar ainda os fios rompidos pelo progresso. Queremos dar chance para o tempo lembrar do lugar através dos nossos pés. 

obstaculo ermano

Cruzamento da Av. Santa Marina com a Av. Ermano Marchetti.

 Ali do cruzamento da Ermano Marchetti, os olhos que nos mostraram ao longe a Igreja da Freguesia do Ó, apenas nos alertam para prestar atenção ao cruzar a avenida. Neste obstáculo não há chance alguma de ver nada além dos sinais e os jogos dos corpos humanos sincronizados com a velocidade dos carros. Atravessar a Ermano Marchetti é o que importa! E assim cruzamos o grande rio de concreto. Mas, ao virarmos antes da ultima travessa que chega na Marginal do Tietê, encontramos novamente a Igreja da Freguesia Ó, bem na cara da Marginal. Deste ponto alguém viu o nome de um rio que desemboca ali no Tietê. Outra pessoa falou que os rios não chegavam no Tietê antigamente. O Tomé mostrou outra imagem em papel colorido do lugar, uma canoa dos velhos tempos, e onde estávamos, bem na água, na várzea do rio. 

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Pegamos a calçada da Marginal à direita em direção a Ponte da Freguesia do Ó. Como é difícil andar ao lado da Marginal. O barulho dos carros, a velocidade deixa a gente com medo. Acho que vou dizer que a Marginal é nosso quarto obstáculo. 

Atravessamos uma alça para chegar na ponte. Do outro lado descobrimos um negócio de gás, com cheiro de gás. Na Ponte do Ó, a mocinha das carpas mostrou uma intervenção de um grafiteiro. O melhor de caminhar com os outros é que os olhos de um ensinam os olhos do outro. Atravessamos e teve gente com medo da ponte. Nela só tem um caminho estreito para os pedestres. De um lado o rio não se mostra muito convidativo, do outro, os carros passam como uma motosserra que corta árvores sem parar. A gente se sente muito frágil ao atravessar uma ponte tão “des-humana”. 

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 Lá de cima lembro da outra ponte, a antiga, aquela de madeira que juntava as duas partes da Avenida Santa Marina. Aquela era baixa, de madeira, própria para os animais e homens. Estranho ver uma rua que acaba no rio e começa novamente do outro lado. Fica faltando uma coisa que junte o caminho. Vamos desenhar, vamos ligar os pontos?! 

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Ponte da Av. Santa Marina ligando os dois lados, Caminho antigo do Ó. 1951

 Do outro lado, os canteiros minados de gás continuam no entorno da nova ponte da Freguesia que funciona 24 horas como motosserra cortando árvores. Dá medo ainda. Faz a gente pensar que não só os carros que passam deixam o pedestre meio perdido, mas estas granadas de postes amarelos espalhados a esmo no capim verde são impróprios para o caminhante. Talvez seja isso que Dna. Neide quis dizer ao falar que antigamente era mais fácil o caminho…

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É domingo e deste outro lado da Freguesia do Ó o comércio esta todo fechado. Aqui não dormem os homens, só seus afazeres. Então vamos subindo. Leio uma placa e ela indica que estamos numa travessa da rua da Balsa. Fico feliz de encontrar com a rua exatamente no lugar que margeava o rio. Abro um dos mapas do nossa coleção do Tempo Reverso e vejo a rua desenhadinha no final do século XIX. O rio Tietê serpenteando também esta lá, bem diferente do que é hoje, retinho. De repente dou risada sozinha. Percebo que a rua inventava curvas para dar com o rio e o rio flertava com ela também. Um rio brincalhão, sem limites ou margens fixas, desalinhado, e uma rua safada, pública, que queria a todo custo encostar no rio, só podia ser uma rua da Balsa!!! 

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 Agora vamos subir. A Igreja esta bem pertinho. Mas a ladeira é íngreme. No caminho ganhamos altura. Caixas de correspondência mostram que quanto mais pra cima, mais gente mora ali. E mais a gente consegue olhar o rio e ver da onde partimos. Ai é que surge um outro obstáculo, um monte de prédios, os tais paredões de concreto que se armam como empenas cegas diante dos nossos olhos. Tem lugar que não adianta ganhar altura, porque as paredes são maiores do que os homens, mais altas até do que a torre das antigas igrejas. Quem diria que chegaria um dia em que os olhos de Deus não poderiam mais enxergar a cidade e muito menos o caminho dos homens. 

cartas

 Chegamos na Igreja da Freguesia, bem no dia da entrega dos mastros. E sem querer eu vejo anjos de asas vermelhas e escuto cânticos. E percebo que nosso esforço de caminhantes não é solitário, o lugar nos recebe com seus antigos barulhos. A Freguesia é solidária com seu passado. Os anjos de asas vermelhas ainda querem ver o céu e tudo que a vista alcança entoando cânticos em ÓÓÓÓ!!!!!  

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 Mais sobre este post:

  • Para quem quiser conhecer o livro de arte produzido por Gilberto Tomé e as demais atividades vinculadas a exposição, veja o link com orientações detalhadas de como chegar no local, dias e horários: Ó: Caminho, Estrada, Avenida
  • O filme de Livia Gabbai produzido para este evento, Linhas e Passagens: traçados da av. Santa Marina avistam a matriz,  esta sendo exibido no local da exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.

 

Precisamos olhar para a Colômbia!

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Trecho da peça “Os Inocentados”. fonte: teatro mapa

Sabe aquela piadinha do japonês que fotografa tudo quando sai em viagem, ai volta pra casa e visita os lugares pelas imagens que tirou? Pois é, tô me sentindo assim. Fui para Medellin e Bogotá na Colômbia e só vi o que o guia de turismo deixa ver. Voltei pra casa e aqui em Sampa, encontrei outras coisas sobre a urbanização de Medellin e vida cultural de Bogotá.  As fissuras da violência contida sobre a topografia urbana das cidades. E ontem, por acaso e curiosidade , comprei ingresso no SESC Pinheiros para uma peça colombiana ma-ra-vi-lho-sa, do Mapa Teatro. Sim, eles fazem algo instigante e maravilhoso. Misturam encenação teatral, rádio, cinema, arquivos de documentos e transformam tudo isso num espetáculo instigante. Eu tive a honra de ver. Foram só três dias de apresentação, mas eles voltam, tenho certeza. O importante é o que deixaram aqui pra gente fazer. Muita coisa bacana. Se a política brasileira vai mal, detonando a cidade, nossas esperanças e a vidinha miúda, há vida nos palcos aqui ao lado. Salve Colômbia e seus “Incontados”.

Foram três palcos, um sobreposto ao outro que de forma ousada mostravam cada um uma festa celebrada na Colômbia. O primeiro cenário, numa sala familiar, parece uma fotografia que começa a se mexer com uma banda formada por crianças colombianas e uma mulher mais velha. A segunda festa, é um carnaval maluco que vai puxando serpentina e loucura para a silenciosa sala domiciliar da primeira casa. Depois vem o terceiro cenário, que acontece num jardim tropical colombiano, parece uma selva onde o narcotráfico faz uma celebração particular, com músicos e um discurso  meio ficcional de Pablo Escobar. Esse terceiro cenário  é chocante e vigoroso, faz  o plano de fundo dos outros dois e o efeito da mata verde, um cantor de hip hop semi- nú no meio do jardim tropical, é incrível.
Os três cenários se misturam e a catarse da cocaína chega na casa da pequena banda mirim, que aliás abandonou a cena nos primeiros momentos da peça, só deixando na sala uma menina colombiana que assiste a tudo até o final. Pesado né?  a criança fica vendo tudo.  Quando a banda volta é pra terminar a catarse. Bom gente, é coisa pra ver, não consigo expressar a potência do espetáculo em toda  sua grandeza. Nem máquina japonesa conseguiria registrar com precisão  o que vi e ouvi. O que posso fazer é deixar o site deles, o que já fizerem, o laboratório, a maneira de construção com o lugar. Enfim, as trilhas do Mapa da mina.

Segue aqui o link do site do Mapa Teatro:

http://www.mapateatro.org/es

VIDA LOKA: Canal Motoboy

canal-motoboy

Revista Zum # 10 Canal Motoboy Daigo Oliva

 O motoboy é quase um fenômeno paulistano. Faz parte integrante das ruas da cidade  há bastante tempo. E não passa despercebido na vida dos motoristas. Causam polêmica no trânsito. Inventam faixas entre os carros. Esbarram na lataria dos automóveis sem a menor cerimônia. Parte da rua é deles,  conquistaram na raça as faixas entre os carros sem pedir nada para ninguém . 

O paulistano ama odiar os motoboys

 Quem compartilha com  eles as ruas desta cidade que tem a pressa como caráter mais aparente de sua personalidade, fica tomado de ódio.  Basta um raspão no espelho retrovisor, uma olhada para dentro do carro na hora que emparelham nos semáforos, para se estabelecer entre motorista de carro e moto um  clima de animosidade que só  pode ser compreendido por aqueles que trafegam pelas ruas de São Paulo.

O motoboy surgiu dos congestionamentos da cidade. É quase um pirata das ruas porque rouba espaço e ganha tempo. Duas coisas que os veículos de quatro rodas, tão promissores e cobiçados no início do séc. XX , vão perdendo diariamente na cidade. 

Por conta deste clima de guerra nas ruas, especialmente nos horários de congestionamentos – irônico escrever isso já que em São Paulo o congestionamento parece não ter mais horários fixos –  parar para perceber como os motoboys  vivem e registram a crônica urbana é algo extremamente desafiador.  Foi isso que Antoni Abad, artista espanhol, propôs ao criar um canal na internet, o Megafone.net, que busca dar voz a grupos  socialmente discriminados em várias cidades do mundo. Em Nova Iorque e na Cidade do México, ele entregou aos taxistas as ferramentas digitais, já em Madri, foram  as prostitutas que passaram a registrar o seu dia a dia e, em outras cidades e países,  são os refugiados e  deficientes visuais que mostram seus percursos e maneiras de ver e viver na cidade.

 Na prática a  idéia de Abad é  colocar na mão  dos grupos escolhidos um celular e ferramentas de áudio e vídeo portáteis para que possam circular livremente pelas ruas da cidade. No caso dos motoboys,  a pauta é livre, o grupo discute e se expressa  como deseja. Alguns vídeos que assisti podem ser precursores do nosso santo salvador Waze, outros denunciam situações que ocorrem nas ruas quando estão trabalhando, e outros ainda mostram que todo motoboy tem um casa, uma esposa ou namorada,  sai de manhã como qualquer trabalhador e volta no final do dia. O pirata das ruas, tão odiado nos congestionamentos, tira a armadura  de metal e volta a ser gente como a gente, e  quem não veste uma fantasia   para  sair de casa de vez em quando ?

Bom Carnaval !

 Para saber mais:

 Revista Zum #10, Canal Motoboy :  O artigo que saiu na Revista Zum que inspirou este post, quem quiser acessar segue o pdf com o texto na integra.

E se ouvíssemos as estátuas de São Paulo?

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Coluna do jornal humorístico paulista O Queixoso (1915-1916)

Um Guia dos Monumentos Nômades de São Paulo.  Isso parece piada interna, mas não é. Pra quem diz que estátua sempre  fica parada. A história de São Paulo ensina que não é bem assim. Os monumentos  da cidade seguem o ritmo e a lógica das transformações radicais do espaço urbano.  Um dia vemos uma estátua num lugar, depois de alguns anos ela foi embora e nem deixou seu endereço pra contato. Os monumentos não sabem o quanto nos apegamos a eles ao longo dos nossos percursos pela cidade. Eu já fiz um post  no Versão Paulo sobre um amigo meu que até hoje me é fiel, continua ali ao lado do Cemitério do Araçá.  Oficialmente ele se chama Tempo, mas seus amigos costumam dar apelidos e vestí-lo conforme seus desejos. Pra mim ele é o Moisés, o Pensador e por ai afora. Outro dia meu filho me disse: “Mãe o seu amigo se mandou!!!”, mas foi pura distração. Ele é que olhou para o nicho errado do muro do cemitério, o que nunca foi habitado. Algo comum na nossa cidade também, lugares planejados para serem alguma coisa mas que  ficam vazios, como uma lacuna ou uma página em  branco perdida num capítulo de livro.  Meu Tempo continua no mesmo lugar. Por isso essa proposta que posto o link de acesso aqui me pareceu tão bacana.  Um guia/mapa que mostra os deslocamentos das esculturas pela cidade de São Paulo.

Vou mais longe nesta idéia que o Guia dos Monumentos propõe de acompanhar os passos das esculturas da cidade a fim de que não as percamos do nosso universo afetivo e das referências de memória,  pares fundamentais para o equilíbrio sócio-ambiental dos habitantes das cidades.

Como sempre faço no Versão Paulo, minhas reflexões costumam  partir de algo que pesco   no passado e coloco em diálogo com o presente.  No caso da proposta de  ouvirmos as estátuas da cidade, a coisa de fato aconteceu numa coluna temporário de um pequeno jornal humorístico de São Paulo do início do século XX, O Queixoso (1915-1916), cujo editor era nada mais nada menos que o  escritor Monteiro Lobato. São apenas umas seis colunas em que o “jornalista X.P.T.O”, provavelmente o próprio Monteiro Lobato, conversa com alguns bustos e esculturas de corpo inteiro de personagens ilustres da história nacional para saber como os monumentos estão se sentindo.   Temos lá uma entrevista com o Feijó e como consegue se  equilibrar nos dias de ventania, com o  busto do Garibaldi  que revela entre muitas coisas que sente  inveja do Feijó e do José Bonifácio porque foram representados de corpo inteiro, o busto de Alvares de Azevedo arrependido de ser Alvares de Azevedo, o  José Bonifácio, de pé,  decepcionado com a estudantada da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e ainda o Caetano de Campos, ilustre “paladino da instrução publica”, tão em voga no momento atual.

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Fiquei pensando que o o tal jornalista “X.P.T.O” lançou uma idéia que não se presta apenas  às animadas  enquetes jornalísticas, literárias e  humorísticas do 1900. Por que   não fazemos como O Queixoso fez há quase um século, animar uma conversa com os monumentos da cidade?  Que tal irmos as ruas para ouvirmos as estátuas da cidade a fim de escutar muito mais do que sua  história oficial revela ? Por que não  investigarmos a fundo a maneira como somos afetados pela presença dos monumentos e de que forma estes seres silenciosos interagem com os habitantes da cidade ?

Acredito que perceber  a maneira como nos apropriamos daquilo que constitui o imaginário urbano seria algo extremamente rico e revelador da crônica diária das pessoas no espaço público da cidade, morada de todos nós habitantes de São Paulo.

 

Janot

 

Para saber mais:

Seguem abaixo as seis colunas do Queixoso (1915-1916)   que inspiraram este post:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Passeio pelo Bom Retiro com audio-roteiro da Casa do Povo

caras do bom retiro 2Ontem fiz um passeio incrível de bicicleta e a pé. Fui até o Bom Retiro pela ciclovia sob o Minhocão. É uma delícia andar de bike por ali, principalmente nos dias quentes porque lá embaixo é bem fresquinho. De lá peguei outra ciclovia logo depois da Estação Marechal Deodoro e ai foi só felicidade. Barra Funda, Campos Elíseos e o pontilhão do trem anunciando a entrada no Bom Retiro. Sábado é dia agitado nesta região por conta do comércio. Mas se vc vai entrando mais para o miolo do bairro, a febre das compras diminui bem. Eu fui até a Casa do Povo na rua Três Rios para fazer o audio-roteiro do Bom Retiro. Na Casa do Povo tem lugar para parar as bicicletas. Deixei a minha lá, baixei o audio-roteiro no meu celular e sai andando pelo percurso proposto.
Adorei o passeio. Primeiro porque o audio é muito bem bolado. Dosa a fala coloquial com reflexões pontuais arquitetônicas e urbanísticas. Segundo, a grande sacada do audio é não ter um único narrador. Por exemplo, na primeira parada, uma mercearia coreana, somos convidados a conhecer o lugar e, através da fala de uma imigrante coreano, entramos um pouco na vida deles aqui. Os produtos importados, o que gostam de comer, e as adaptações locais. Não precisamos ficar buscando coisas específicas na mercearia para compreender a fala do imigrante, é uma conversa que agrada os ouvidos. Basta flanar pela mercearia sem grandes preocupações que o clima esta todo ali. É algo solto, quase um comentário num programa de rádio.
A outra coisa muito legal é que as explicações e direções são bem claras e voltadas para a situação de um pedestre em sua relação com a rua.
As conversas rolam no audio quase o tempo todo e, ao andarmos para o próximo ponto, vamos acompanhados da simpática narradora , ou de algum habitante do bairro, judeu, comerciante, boliviano ou coreana que esta falando com a gente. Me senti o tempo todo acompanhada pelas pessoas do bairro. Num único momento, acabei me perdendo um pouco. Ao chegar perto do restaurante grego e entrar numa vila operária. Acho que não achei a vila certa do percurso. Errei o caminho e ai desisti e fui para a próxima parada. Nesta parte, o roteiro sai do pedaço mais agitado do bairro e vai entrando num espaço que eu chamaria de mais intimo dos moradores do Bom Retiro, só quem conhece bem o bairro ou mora nele vai caminhar por esta área menos comercial. Temos ali uma feira, e esse é outro ponto singular do audio. Eu fui ontem, sábado, e a feira como a narração do audio comenta, foi feita numa quinta. Logo não vi feira alguma e nem os produtos que o imigrante disse que gosta de comprar – aliás esta parte eu não vou comentar porque vale a pena escutar a fala dele. O que me chamou atenção aqui, é que a ausência da feira no sábado, não desmerece em nada a apresentação e os comentários narrados . Escutamos o barulho da feira e os hábitos do imigrante boliviano quando vai as compras através de suas explicações. Neste momento estamos quase atrás do lugar que começamos o roteiro. E é ali que encontramos uma sinagoga bem pequena do bairro e ouvimos o simpático rabino nos apresentar o lugar. Um pouco mais pra cima, temos a Unibes e uma mercearia judaica bem tradicional. E nessa parte uma das pessoas que narra o passeio, faz comentários muito bons sobre a presença dos coreanos na vida do Bom Retiro no que há de mais rotineiro na vida de um bairro, o cabelereiro. Nesse ponto me deu fome e sede. E como o bairro é farto em pequenos e grandes restaurantes e quitandas. Comprei um saquinho de melancia em pedaços e fui comendo até a Buriquita que fica quase ao lado da Casa do Povo. Comi uma bureca de queijo deliciosa. Conversei com o David, meu amigo, e dono da Buriquita. Sem querer vi uma cena linda que talvez ficou mais bonita depois de escutar tantas histórias cruzadas que o audio-roteiro da Casa do Povo proporciona. Um casal de coreanos e sua filha entraram para comer um doce. Perguntei ao David se os novos habitantes do bairro gostam dos doces e salgados judaicos. E ele disse: adoram, sou eu que faço bolo de aniversário pra muitas famílias coreanas. E ai eu perguntei: e vc já comeu comida coreana? e ele falou: já, é gostoso mas um pouco apimentada. Enfim, foi esse o meu passeio pelo Bom Retiro de sábado. Pra quem quiser fazer o passeio, o audio-roteiro fica afixado na porta da Casa do Povo e demora mais ou menos uns 50 minutos. Basta chegar lá com o celular, um fone de ouvido e baixar o percurso. Eu adorei tudo que vi e escutei. Sai conhecendo melhor este bairro querido da minha cidade.

Fechar a torneira

O Diabo Coxo, 6 de out. 1865. Agostini

O Diabo Coxo, 6 de out. 1865. Agostini

Para quem acha que brasileiro não vive sem banho, a história mostra que nem sempre a nossa vida foi a de Zé Limpinho. Os banhos de banheira por exemplo, até o começo século XX, eram bem comedidos. A maior parte das pessoas não tinha o hábito de entrar com o corpo inteiro na água porque temia se afogar. Nossos antepassados também acreditavam que ao mergulhar o corpo todo na água poderiam adoecer. Diziam que este   liquido que anda escasseando na cidade de São Paulo “aguava a força vital”.

Com tanto temor aos malefícios da água quando em contato com corpo, uma cultura da limpeza à seco fez parte dos hábitos de higiene pessoal e doméstica na cidade de São Paulo. Os banhos eram pouco frequentes, aos finais de semana, em tinas com pouca água misturada ao vinagre ou “águas de rosa” e ervas. Uma roupa bem passada, valia mais do que um banho bem tomado.

O Cabrião. 07 de abril de 1867.  Agostini

O Cabrião. 07 de abril de 1867. Agostini

Para a higiene bucal, médicos e barbeiros recomendavam um pedaço de fumo esfregado na gengiva e nos dentes. A cachaça ganhava múltiplos usos, inclusive fazia as vezes dos antissépticos bucais atuais.

Para o asseio de casa, o uso de braseiros aqueciam os quartos e, ao mesmo tempo, purificavam o ar. Para a limpeza do chão e dos móveis também não se usavam baldes e mais baldes de água. Tudo era limpo com um pano umedecido e uma variedade grande de vassouras de ervas e piaçaba.

Óbvio que quem possuía em casa nascentes de água poderia se dar ao luxo de esbanjar na limpeza, mesmo assim, as pessoas não usavam tanto a água como hoje em dia.

Mas, o que me parece uma das dicas mais bacanas dos outros tempos, não tem muito a ver com as alternativas de limpeza à seco. A questão que me chamou mais atenção ao ler sobre o assunto, foi pensar como passamos a depender tanto da água ao longo do século XX.

Cartão postal. RJ. 1905

Cartão postal. RJ. 1905

Dentre muitas justificativas históricas que explicam como a água foi se tornando cada vez mais presente na limpeza do corpo e na vida doméstica, uma me parece bastante relevante para o nosso momento atual, passamos a depender mais da água a partir da introdução dos modernismos higiênicos lançados no início do séc. XX. Descargas automáticas das latrinas, banhos de chuveiro e torneiras instaladas em várias lugares da casa estimularam a mudança de usos da água ao longo do tempo e geraram o consumo intenso atual.

A água que antes fluía à olhos vistos pela cidade era usada com mais parcimônia do que quando, valorizada pelos preceitos higienistas, passou a desaparecer da paisagem urbana e chegar em casa encanada. Acho que só com esta última dica dá pra fechar a torneira.

Para saber mais:

Sant’Anna, Denise Bernuzzi de. Cidade das Águas: usos de rios, córregos, bicas e chafarizes em São Paulo ( 1822-19010). São Paulo: Senac. 2007: O capitulo que utilizei para fazer este post  foi “Asseio a seco”.

Vigarello, Georges, O Limpo e o Sujo: uma história da higiene corporal. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

1924 – Ano em que as torneiras viraram cabides.

bellezas

A Ronda, 27 de agosto de 1908

Afonso Schmidt, em uma de suas crônicas sobre a cidade de São Paulo, comenta que logo após a revolução de 1924 ocorreu uma grande seca na cidade em que os anunciantes de casas para alugar acrescentavam nas chamadas: “com água na torneira”. Porém, parece que isto não passava de uma piedosa mentira  pois “todos sabiam que as torneiras, tendo esquecido a primitiva função de verter água, tinham sido transformadas em cabides, ou mesmo enfeites das cozinhas.” (Schmidt, 92)

autor do post: paula janovitch

Para saber mais:

Afonso Schmidt, São Paulo de meus amores, “ Secas e inundações”. Editora Brasiliense. Este livro foi reeditado pela Editora Paz e Terra. RJ. 2003 e faz parte de uma coleção muito bacana voltada para assuntos relativos a história e literatura  da cidade de São Paulo.