VIDA LOKA: Canal Motoboy

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Revista Zum # 10 Canal Motoboy Daigo Oliva

 O motoboy é quase um fenômeno paulistano. Faz parte integrante das ruas da cidade  há bastante tempo. E não passa despercebido na vida dos motoristas. Causam polêmica no trânsito. Inventam faixas entre os carros. Esbarram na lataria dos automóveis sem a menor cerimônia. Parte da rua é deles,  conquistaram na raça as faixas entre os carros sem pedir nada para ninguém . 

O paulistano ama odiar os motoboys

 Quem compartilha com  eles as ruas desta cidade que tem a pressa como caráter mais aparente de sua personalidade, fica tomado de ódio.  Basta um raspão no espelho retrovisor, uma olhada para dentro do carro na hora que emparelham nos semáforos, para se estabelecer entre motorista de carro e moto um  clima de animosidade que só  pode ser compreendido por aqueles que trafegam pelas ruas de São Paulo.

O motoboy surgiu dos congestionamentos da cidade. É quase um pirata das ruas porque rouba espaço e ganha tempo. Duas coisas que os veículos de quatro rodas, tão promissores e cobiçados no início do séc. XX , vão perdendo diariamente na cidade. 

Por conta deste clima de guerra nas ruas, especialmente nos horários de congestionamentos – irônico escrever isso já que em São Paulo o congestionamento parece não ter mais horários fixos –  parar para perceber como os motoboys  vivem e registram a crônica urbana é algo extremamente desafiador.  Foi isso que Antoni Abad, artista espanhol, propôs ao criar um canal na internet, o Megafone.net, que busca dar voz a grupos  socialmente discriminados em várias cidades do mundo. Em Nova Iorque e na Cidade do México, ele entregou aos taxistas as ferramentas digitais, já em Madri, foram  as prostitutas que passaram a registrar o seu dia a dia e, em outras cidades e países,  são os refugiados e  deficientes visuais que mostram seus percursos e maneiras de ver e viver na cidade.

 Na prática a  idéia de Abad é  colocar na mão  dos grupos escolhidos um celular e ferramentas de áudio e vídeo portáteis para que possam circular livremente pelas ruas da cidade. No caso dos motoboys,  a pauta é livre, o grupo discute e se expressa  como deseja. Alguns vídeos que assisti podem ser precursores do nosso santo salvador Waze, outros denunciam situações que ocorrem nas ruas quando estão trabalhando, e outros ainda mostram que todo motoboy tem um casa, uma esposa ou namorada,  sai de manhã como qualquer trabalhador e volta no final do dia. O pirata das ruas, tão odiado nos congestionamentos, tira a armadura  de metal e volta a ser gente como a gente, e  quem não veste uma fantasia   para  sair de casa de vez em quando ?

Bom Carnaval !

 Para saber mais:

 Revista Zum #10, Canal Motoboy :  O artigo que saiu na Revista Zum que inspirou este post, quem quiser acessar segue o pdf com o texto na integra.

E se ouvíssemos as estátuas de São Paulo?

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Coluna do jornal humorístico paulista O Queixoso (1915-1916)

Um Guia dos Monumentos Nômades de São Paulo.  Isso parece piada interna, mas não é. Pra quem diz que estátua sempre  fica parada. A história de São Paulo ensina que não é bem assim. Os monumentos  da cidade seguem o ritmo e a lógica das transformações radicais do espaço urbano.  Um dia vemos uma estátua num lugar, depois de alguns anos ela foi embora e nem deixou seu endereço pra contato. Os monumentos não sabem o quanto nos apegamos a eles ao longo dos nossos percursos pela cidade. Eu já fiz um post  no Versão Paulo sobre um amigo meu que até hoje me é fiel, continua ali ao lado do Cemitério do Araçá.  Oficialmente ele se chama Tempo, mas seus amigos costumam dar apelidos e vestí-lo conforme seus desejos. Pra mim ele é o Moisés, o Pensador e por ai afora. Outro dia meu filho me disse: “Mãe o seu amigo se mandou!!!”, mas foi pura distração. Ele é que olhou para o nicho errado do muro do cemitério, o que nunca foi habitado. Algo comum na nossa cidade também, lugares planejados para serem alguma coisa mas que  ficam vazios, como uma lacuna ou uma página em  branco perdida num capítulo de livro.  Meu Tempo continua no mesmo lugar. Por isso essa proposta que posto o link de acesso aqui me pareceu tão bacana.  Um guia/mapa que mostra os deslocamentos das esculturas pela cidade de São Paulo.

Vou mais longe nesta idéia que o Guia dos Monumentos propõe de acompanhar os passos das esculturas da cidade a fim de que não as percamos do nosso universo afetivo e das referências de memória,  pares fundamentais para o equilíbrio sócio-ambiental dos habitantes das cidades.

Como sempre faço no Versão Paulo, minhas reflexões costumam  partir de algo que pesco   no passado e coloco em diálogo com o presente.  No caso da proposta de  ouvirmos as estátuas da cidade, a coisa de fato aconteceu numa coluna temporário de um pequeno jornal humorístico de São Paulo do início do século XX, O Queixoso (1915-1916), cujo editor era nada mais nada menos que o  escritor Monteiro Lobato. São apenas umas seis colunas em que o “jornalista X.P.T.O”, provavelmente o próprio Monteiro Lobato, conversa com alguns bustos e esculturas de corpo inteiro de personagens ilustres da história nacional para saber como os monumentos estão se sentindo.   Temos lá uma entrevista com o Feijó e como consegue se  equilibrar nos dias de ventania, com o  busto do Garibaldi  que revela entre muitas coisas que sente  inveja do Feijó e do José Bonifácio porque foram representados de corpo inteiro, o busto de Alvares de Azevedo arrependido de ser Alvares de Azevedo, o  José Bonifácio, de pé,  decepcionado com a estudantada da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e ainda o Caetano de Campos, ilustre “paladino da instrução publica”, tão em voga no momento atual.

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Fiquei pensando que o o tal jornalista “X.P.T.O” lançou uma idéia que não se presta apenas  às animadas  enquetes jornalísticas, literárias e  humorísticas do 1900. Por que   não fazemos como O Queixoso fez há quase um século, animar uma conversa com os monumentos da cidade?  Que tal irmos as ruas para ouvirmos as estátuas da cidade a fim de escutar muito mais do que sua  história oficial revela ? Por que não  investigarmos a fundo a maneira como somos afetados pela presença dos monumentos e de que forma estes seres silenciosos interagem com os habitantes da cidade ?

Acredito que perceber  a maneira como nos apropriamos daquilo que constitui o imaginário urbano seria algo extremamente rico e revelador da crônica diária das pessoas no espaço público da cidade, morada de todos nós habitantes de São Paulo.

 

Janot

 

Para saber mais:

Seguem abaixo as seis colunas do Queixoso (1915-1916)   que inspiraram este post:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Passeio pelo Bom Retiro com audio-roteiro da Casa do Povo

caras do bom retiro 2Ontem fiz um passeio incrível de bicicleta e a pé. Fui até o Bom Retiro pela ciclovia sob o Minhocão. É uma delícia andar de bike por ali, principalmente nos dias quentes porque lá embaixo é bem fresquinho. De lá peguei outra ciclovia logo depois da Estação Marechal Deodoro e ai foi só felicidade. Barra Funda, Campos Elíseos e o pontilhão do trem anunciando a entrada no Bom Retiro. Sábado é dia agitado nesta região por conta do comércio. Mas se vc vai entrando mais para o miolo do bairro, a febre das compras diminui bem. Eu fui até a Casa do Povo na rua Três Rios para fazer o audio-roteiro do Bom Retiro. Na Casa do Povo tem lugar para parar as bicicletas. Deixei a minha lá, baixei o audio-roteiro no meu celular e sai andando pelo percurso proposto.
Adorei o passeio. Primeiro porque o audio é muito bem bolado. Dosa a fala coloquial com reflexões pontuais arquitetônicas e urbanísticas. Segundo, a grande sacada do audio é não ter um único narrador. Por exemplo, na primeira parada, uma mercearia coreana, somos convidados a conhecer o lugar e, através da fala de uma imigrante coreano, entramos um pouco na vida deles aqui. Os produtos importados, o que gostam de comer, e as adaptações locais. Não precisamos ficar buscando coisas específicas na mercearia para compreender a fala do imigrante, é uma conversa que agrada os ouvidos. Basta flanar pela mercearia sem grandes preocupações que o clima esta todo ali. É algo solto, quase um comentário num programa de rádio.
A outra coisa muito legal é que as explicações e direções são bem claras e voltadas para a situação de um pedestre em sua relação com a rua.
As conversas rolam no audio quase o tempo todo e, ao andarmos para o próximo ponto, vamos acompanhados da simpática narradora , ou de algum habitante do bairro, judeu, comerciante, boliviano ou coreana que esta falando com a gente. Me senti o tempo todo acompanhada pelas pessoas do bairro. Num único momento, acabei me perdendo um pouco. Ao chegar perto do restaurante grego e entrar numa vila operária. Acho que não achei a vila certa do percurso. Errei o caminho e ai desisti e fui para a próxima parada. Nesta parte, o roteiro sai do pedaço mais agitado do bairro e vai entrando num espaço que eu chamaria de mais intimo dos moradores do Bom Retiro, só quem conhece bem o bairro ou mora nele vai caminhar por esta área menos comercial. Temos ali uma feira, e esse é outro ponto singular do audio. Eu fui ontem, sábado, e a feira como a narração do audio comenta, foi feita numa quinta. Logo não vi feira alguma e nem os produtos que o imigrante disse que gosta de comprar – aliás esta parte eu não vou comentar porque vale a pena escutar a fala dele. O que me chamou atenção aqui, é que a ausência da feira no sábado, não desmerece em nada a apresentação e os comentários narrados . Escutamos o barulho da feira e os hábitos do imigrante boliviano quando vai as compras através de suas explicações. Neste momento estamos quase atrás do lugar que começamos o roteiro. E é ali que encontramos uma sinagoga bem pequena do bairro e ouvimos o simpático rabino nos apresentar o lugar. Um pouco mais pra cima, temos a Unibes e uma mercearia judaica bem tradicional. E nessa parte uma das pessoas que narra o passeio, faz comentários muito bons sobre a presença dos coreanos na vida do Bom Retiro no que há de mais rotineiro na vida de um bairro, o cabelereiro. Nesse ponto me deu fome e sede. E como o bairro é farto em pequenos e grandes restaurantes e quitandas. Comprei um saquinho de melancia em pedaços e fui comendo até a Buriquita que fica quase ao lado da Casa do Povo. Comi uma bureca de queijo deliciosa. Conversei com o David, meu amigo, e dono da Buriquita. Sem querer vi uma cena linda que talvez ficou mais bonita depois de escutar tantas histórias cruzadas que o audio-roteiro da Casa do Povo proporciona. Um casal de coreanos e sua filha entraram para comer um doce. Perguntei ao David se os novos habitantes do bairro gostam dos doces e salgados judaicos. E ele disse: adoram, sou eu que faço bolo de aniversário pra muitas famílias coreanas. E ai eu perguntei: e vc já comeu comida coreana? e ele falou: já, é gostoso mas um pouco apimentada. Enfim, foi esse o meu passeio pelo Bom Retiro de sábado. Pra quem quiser fazer o passeio, o audio-roteiro fica afixado na porta da Casa do Povo e demora mais ou menos uns 50 minutos. Basta chegar lá com o celular, um fone de ouvido e baixar o percurso. Eu adorei tudo que vi e escutei. Sai conhecendo melhor este bairro querido da minha cidade.

Fechar a torneira

O Diabo Coxo, 6 de out. 1865. Agostini

O Diabo Coxo, 6 de out. 1865. Agostini

Para quem acha que brasileiro não vive sem banho, a história mostra que nem sempre a nossa vida foi a de Zé Limpinho. Os banhos de banheira por exemplo, até o começo século XX, eram bem comedidos. A maior parte das pessoas não tinha o hábito de entrar com o corpo inteiro na água porque temia se afogar. Nossos antepassados também acreditavam que ao mergulhar o corpo todo na água poderiam adoecer. Diziam que este   liquido que anda escasseando na cidade de São Paulo “aguava a força vital”.

Com tanto temor aos malefícios da água quando em contato com corpo, uma cultura da limpeza à seco fez parte dos hábitos de higiene pessoal e doméstica na cidade de São Paulo. Os banhos eram pouco frequentes, aos finais de semana, em tinas com pouca água misturada ao vinagre ou “águas de rosa” e ervas. Uma roupa bem passada, valia mais do que um banho bem tomado.

O Cabrião. 07 de abril de 1867.  Agostini

O Cabrião. 07 de abril de 1867. Agostini

Para a higiene bucal, médicos e barbeiros recomendavam um pedaço de fumo esfregado na gengiva e nos dentes. A cachaça ganhava múltiplos usos, inclusive fazia as vezes dos antissépticos bucais atuais.

Para o asseio de casa, o uso de braseiros aqueciam os quartos e, ao mesmo tempo, purificavam o ar. Para a limpeza do chão e dos móveis também não se usavam baldes e mais baldes de água. Tudo era limpo com um pano umedecido e uma variedade grande de vassouras de ervas e piaçaba.

Óbvio que quem possuía em casa nascentes de água poderia se dar ao luxo de esbanjar na limpeza, mesmo assim, as pessoas não usavam tanto a água como hoje em dia.

Mas, o que me parece uma das dicas mais bacanas dos outros tempos, não tem muito a ver com as alternativas de limpeza à seco. A questão que me chamou mais atenção ao ler sobre o assunto, foi pensar como passamos a depender tanto da água ao longo do século XX.

Cartão postal. RJ. 1905

Cartão postal. RJ. 1905

Dentre muitas justificativas históricas que explicam como a água foi se tornando cada vez mais presente na limpeza do corpo e na vida doméstica, uma me parece bastante relevante para o nosso momento atual, passamos a depender mais da água a partir da introdução dos modernismos higiênicos lançados no início do séc. XX. Descargas automáticas das latrinas, banhos de chuveiro e torneiras instaladas em várias lugares da casa estimularam a mudança de usos da água ao longo do tempo e geraram o consumo intenso atual.

A água que antes fluía à olhos vistos pela cidade era usada com mais parcimônia do que quando, valorizada pelos preceitos higienistas, passou a desaparecer da paisagem urbana e chegar em casa encanada. Acho que só com esta última dica dá pra fechar a torneira.

Para saber mais:

Sant’Anna, Denise Bernuzzi de. Cidade das Águas: usos de rios, córregos, bicas e chafarizes em São Paulo ( 1822-19010). São Paulo: Senac. 2007: O capitulo que utilizei para fazer este post  foi “Asseio a seco”.

Vigarello, Georges, O Limpo e o Sujo: uma história da higiene corporal. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

1924 – Ano em que as torneiras viraram cabides.

bellezas

A Ronda, 27 de agosto de 1908

Afonso Schmidt, em uma de suas crônicas sobre a cidade de São Paulo, comenta que logo após a revolução de 1924 ocorreu uma grande seca na cidade em que os anunciantes de casas para alugar acrescentavam nas chamadas: “com água na torneira”. Porém, parece que isto não passava de uma piedosa mentira  pois “todos sabiam que as torneiras, tendo esquecido a primitiva função de verter água, tinham sido transformadas em cabides, ou mesmo enfeites das cozinhas.” (Schmidt, 92)

autor do post: paula janovitch

Para saber mais:

Afonso Schmidt, São Paulo de meus amores, “ Secas e inundações”. Editora Brasiliense. Este livro foi reeditado pela Editora Paz e Terra. RJ. 2003 e faz parte de uma coleção muito bacana voltada para assuntos relativos a história e literatura  da cidade de São Paulo.

Entramos pelo cano!

A agua de SPaulo

Dando continuidade ao post anterior sobre o abastecimento da cidade de São Paulo antes da água encanada, passo agora ao momento em que finalmente a cidade começa a receber água através do Sistema Cantareira de águas e esgotos.

Depois de inúmeras questões com a dificuldade de abastecimento da cidade através dos chafarizes, rios, tanques e fontes finalmente a população da cidade começava a nutrir esperanças com um sistema de abastecimento que levaria água potável e encanada até suas casas.

Em 1864, a serra da Cantareira foi o local eleito pelo engenheiro civil James Brunlees e seus colegas depois de feito um levantamento topográfico de S. Paulo onde demarcaram seus recursos hídricos e mananciais.

A partir de 1877 a Companhia Cantareira , à época uma empresa privada, comprometia-se com o abastecimento da cidade de São Paulo por 70 anos. Porém a empreitada de partida não foi aquela maravilha. A população crescia desproporcionalmente à implantação do sistema de encanamentos da cidade. Em 1888, a Cantareira levava água encanada para 5.000 edifícios através do seu primeiro reservatório implantado na Consolação. Mas isso não era suficiente para abastecer toda a cidade. Por falta de planejamento da empresa, rapidamente o sistema de abastecimento tornou-se falho e restrito a determinadas regiões.

Planta da cidade de Sao Paulo 1881

A população desiludida pegou seu baldes usados até então no ir e vir dos chafarizes, tanques e rios e retomou a busca de água como há décadas fazia. Para aqueles mais abastados, também mantinha-se o comércio de água via atravessadores, porém o preço dos barris que já eram caros antes da água encanada, com o sistema Cantareira, ficaram exorbitantes conforme afirma a historiadora Denise Sant´Anna em seu livro A cidade das águas: “ A venda da água tornou-se mais cara do que havia sido até então: $030 por um barril de vinte litros.” (Sant´Anna, 2007, 168)

Assim, num primeiro momento, além da falta de planejamento da empresa em relação as dimensões que a cidade ia tomando rapidamente no final do século XIX, a forma como se deu a implantação do sistema de abastecimento da cidade não deixava muitas opções à população. Se antes do sistema Cantareira faltava água nos chafarizes, fontes e tanques, com a presença da empresa muitos destas antigas fontes foram desativadas deixando a população quase refém da água encanada.

A cidade da água potável e encanada aliava-se aos preceitos higienistas para desenhar todo um mapa subterrâneo de rios, águas próprias e impróprias para o consumo humano. O resultado, como nós sabemos aqui do futuro, foi que os rios que corriam pela cidade a céu aberto desapareceram das nossas vistas, assim como todas as bicas, fontes e chafarizes que não eram controlados pelo novo sistema de abastecimento da cidade foram desativadas progressivamente.

Não foi de forma silenciosa que a população da cidade aceitou o fim dos antigos hábitos de buscar água. Mesmo porque, além dos rios, a captação da água nestas fontes não envolvia custo algum. Com a Companhia Cantareira, a água encanada e potável, deixava de ser gratuita e passava a ser medida e cobrada.

Em 1893, a retirada do Chafariz do Largo do Rosário, por exemplo, que desde o dia de sua inauguração, em 7 de abril de 1874, havia servido de referência cultural e simbólica para os moradores daquela região central, provocou manifestação popular e intervenção da força pública.” ( Sant´Anna, 2007, 172)

Grande parte da população não poderia pagar pela água encanada. Mas com o tempo, o fim das fontes públicas e os rios cada vez mais impróprios, não restou outra opção para quem morava em São Paulo; ou água encanada e paga da Companhia Cantareira, ou água imprópria dos rios que banhavam a cidade.

No final do século XIX, as reclamações contra a ineficiência dos serviços da Companhia Cantareira  se somaram a questionamentos sobre a qualidade das águas. Haviam suspeitas que a água da Cantareira poderia ser responsável por doenças que grassavam na cidade como a febre amarela .

Por conta da insatisfação popular e a falta de eficácia da empresa na administração e abastecimento da cidade de São Paulo, em 1893 o Estado assume a Cantareira criando a Repartição de Águas e Esgotos ( RAE) sob a direção técnica do engenheiro José Pereira Rebouças. Porém, a água além de continuar a ser cobrada por um preço bastante elevado, continuou a faltar nas torneiras de vários bairros da cidade de São Paulo: uma hora eram os canos que não se encaixavam de forma correta, outra eram os entupimentos constantes que impediam o fluxo das águas pelas tubulações subterrâneas.
Entramos de fato pelo cano!

autor do post: paula janovitch

Para saber mais:

Denise Bernuzzi Sant’ Anna , Cidade das águas: usos de rios, córregos e chafarizes em São Paulo (1822-1901). Editora Senac.SP. 2007

Segue aqui uma dica de ” teatro de revista”  cujo tema foi a Cantareira em 1899. Quem mandou por email foi meu amigo, Zé Geraldo, historiador. A peça é ” O Boato”, de Arlindo Leal (libreto) e Manuel Passos ( música)

Coro dos Zés,

Tu, Cantareira, flauteas

Debochas o povo todo

Pedem-te água – dás areias,

Pedem-te água – pingas todo!

(bis)

 

E o povo clama

E o povo berra

(bis)

E da torneira jorra lama,

E a gente lava-se…com terra

 

Anda p’ra frente, damnada,

Que nos encheste de mágua!

Na City já não já nada

Por causa da falta d’água!

(…)

Água, queremos água!

 

(recitativo)

 

1º Zé

Já não tens força.

 

2º Zé

O registro não funciona.

 

3º Zé

Já não pinga, é só lodo.

 

Água, queremos água!

 

 

Coplas da Cantareira

As chuvas falharam

C’o sol tyranno

As fontes seccaram,

E rachou-se o cano…

 

A chuva é a culpada

De todo este horror

De eu não dar mais nada,

Nem por um favor!

 

 

 

Será possível que ainda chova? (Re ti será)

A partícula será no início de uma frase – na boca dos paulistas – toma um sentido todo especial e particular. Tem sua herança no português de Portugal, mas é indiscutível sua procedência tupi-guarani conforme afirma  Affonso A. de Freitas:

 “ é uma das quatro partículas que os nossos indígenas costumam empregar para distinguir uma interrogativa de uma afirmativa por desconhecerem a inflexão de voz como fazem os civilizados”.

 Assim, o será tupi-guarani tem a função de encerrar as sentenças como ainda é usado no norte do Brasil: chove, será (Re ti será). Porém, da  influência do português e do índio, o será paulista  se deslocou  para o inicio da frase. Aboliu-se  e afogou-se o enfático “Será possível?” dos portugueses e ficamos   sem sombra de dúvida e poucas previsões de chuva com o  “Será  possível que ainda chova?” que acabou assumindo o  titulo deste  post sobre alguns apontamentos  do abastecimento de água na cidade de São Paulo.

 Durante o século XIX, a cidade de São Paulo era servida de água através  de fontes, bicas, chafarizes, tanques e rios. Mas nem por isso a cidade deixou de ter problemas com o abastecimento de água. Inúmeras são as referências sobre fontes de água que secaram ou rios e tanques que tornaram-se poluídos por detritos jogados de forma aleatória nos afluentes da cidade.

 Diante da escassez de água, a alternativa do governo parecia ser sempre passiva, esperar  a volta das chuvas. Porém para a imprensa e a população reclamante, a volta das chuvas não passava de uma solução paliativa para o  um problema  que apontava para outras direções que não apenas as previsões meteorológicas.

“Estamos sem água”  era o grito que surgia impresso na coluna de reclamações do jornal Diário de S. Paulo no dia 28 de fevereiro de 1867. “A população sofre sede, e o que faz o governo?(…) Não temos água? Esperai, logo há de chover, e chover muito…”

Éh. éh. minha parente. Voce acredita n esse? É mentira: Moyssé não tirô agua de pedra non.

Éh. éh. minha parente. Voce acredita n esse? É mentira: Moyssé não tirô agua de pedra non.

 A charge acima é do Chafariz da Misericórdia em São Paulo, publicada no jornal humorístico  Diabo-Coxo de 1865. O titulo do desenho de Angelo Agostini, “Novos Moisés”, aconselhava os paulistas a baterem com varas no “chafariz” a fim de obterem água. Porém,  assim como na passagem bíblica, o milagre não ocorreu e São Paulo sofreu uma das maiores secas de que se tem registros durante o século XIX.

 O desenho de Agostini “Novos Moisés” foi publicado num momento em que os jornais faziam uma feroz crítica  a administração  do Presidente da Província de São Paulo Tavares Bastos. Este  ocupara-se com a organização dos batalhões que iriam  para a Guerra do Paraguai sem ter tempo e nem recursos de organizar setores básicos da cidade.

O que os paulistas faziam em meados do século XIX quando faltava água na cidade?

 Quanto faltava água nos chafarizes da cidade em meados do século XIX, uma das   alternativas dos paulistas era  utilizar-se  dos  rios próximos  mesmo sabendo que suas águas não eram potáveis, como o rio Tamanduateí. A  outra opção, muito comum também,  era comprar barris de água  dos  “atravessadores”, pessoas que pegavam água dos rios ou dos próprios chafarizes e ofereciam pelas ruas da cidade em barris (tonéis)  que custavam o valor exorbitante de 40 réis.

A 40 réis o barril dágua - 1865

A 40 réis o barril dágua – 1865

  Vida e morte do Chafariz da Misericórdia:

O Chafariz  de pedra do largo da  Misericórdia foi construído em 1792. Removido para o largo de S. Cecília em 1886 e recolhido ao depósito da Prefeitura. Seu construtor, conhecido  por Tebas, foi um mestre de obras, escravo liberto que à época assumiu várias obras importantes na cidade de São Paulo. A antiga Catedral da Sé (1755) talvez seja a que mais merece destaque pela grandiosidade, mas também porque durante a obra, seu senhor veio a falecer deixando Tebas alforriado com a condição  de que este finalizasse a reconstrução do prédio.

autor do post:  paula janovtich

Links associados a este post:

Folha de São Paulo, A lógica do poder e a sociedade, 10/07/2014

Catálogo on-line da exposição versão paulo – caricaturas sobre a falta d’agua em São Paulo

Para saber mais:

 Affonso A. de Freitas, Tradições e Reminiscências Paulistanas, Coleção Paulística Vol. IX, Governo do Estado de S. Paulo.  Este livro não se encontra nas livrarias. Para quem tiver interesse em adquiri-lo, indico os sebos virtuais ou os vários alfarrábios da cidade. Além de fragmentos do cotidiano da cidade de São Paulo ao longo do século XIX, a obra tem mapas das ruas, ilustrações e imagens fotográficas. Capitulo a parte é o que utilizei para este post : “Reminiscências das ruas”, nele temos  algumas cantigas como “Vaca amarela” e o “Será que ainda chova?”. Coisas que não estão mais na cidade mas que permanecem vivas  na linguagem do paulistano. Fonte da imagem “Barris de água”

 Byron Gaspar, Fontes e Chafarizes de São Paulo, Coleção História, Secretaria da Cultura Esportes e Turismo. Não se encontra nas livrarias. É necessário buscar nos alfarrábios ou sebos virtuais. O livro faz um apanhado de vários chafarizes, fontes e bicas da cidade. Os capítulos são separados por “Chafarizes utilitários” e  “Chafarizes Ornamentais”. A maioria vem com desenhos, esboços de como eles eram. Alguns como diz o autor, podem ainda ser vistos na cidade: o Chafariz do Largo da Memória, as fontes dos Túneis Nove de Julho porém acho que todos os que existem não são mais utilitários. Os que sobreviveram viraram monumentos.

 O Diabo Coxo (1864-1865), edição fac-similar, Edusp. 2005. Fonte da imagem “Novos Moisés”

A cidade dos humoristas: Plano diretor X A lógica do absurdo

Cópia de painel 1.5 a

A imagem deste post é de 16 de maio de 1922. Lá na rua São Bento, centro antigo da cidade de São Paulo, um homem olha para cima. Reparem que a rua é estreita para o tamanho do edifício que ele observa. Desproporcional a dimensão da  rua e a visão do homem.
São Paulo cresceu sem grandes regulamentações sobre escalas. Historicamente a especulação imobiliária orquestrou o sobe e desce. A valorização e desvalorização de algumas regiões da cidade em detrimento de outros.
Não quero entrar aqui no caráter dos edifícios novos. Eles falam de um gosto e de uma forma de morar que merece ser cuidadosamente estudada. Pode se começar pelos nomes dos edifícios, e talvez adentrarmos a estética, os esquemas de segurança e da forma destas construções se articularem com o lugar.
Hoje como nos últimos dias, na Folha de São Paulo, o assunto Plano Diretor ocupa o caderno “cotidiano” da cidade :”Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras”. Nunca um plano diretor de São Paulo foi tão debatido e conhecido por seus habitantes. As construtoras através do Secovi anunciam que para dentro dos bairros, onde os edifícios não vão poder obedecer mais a “lógica do absurdo”, os apartamentos vão encarecer. E afirma o presidente da Secovi:” Quem vai pagar não somos nós, se o comprador não puder pagar nós não vamos produzir.” Porém, mais adiante o mesmo afirma que as tabelas podem ser ajustadas.
Tenho certeza que as construtoras vão continuar a construir, talvez numa escala mais humana. Com um pouco mais de reflexão sobre o lugar e a forma morar, espero eu. A cidade merece.

Sobre o post:

Folha de São Paulo, , 5/07/14

Folha de São Paulo, “Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras. 4/07/14

Ilustração do post: Revista Vida Paulista, 16 /05/1922. Ilustrador: Belmonte.

Amigo Tempo: um nicho do muro do Cemitério do Araçá

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Entre as inúmeras maneiras de nos percebermos integrantes do espaço público da cidade, talvez uma delas seja  reconhecermos no nosso percurso expressões que tornem-se parte do lugar. Lembro na minha infância de marcar no caminho que fazíamos  de casa para a escola um castelo da bruxa, uma mulher de bigodes e  um homem de rabo de cavalo que preenchiam sem eu saber meu mapa da cidade. O castelo da bruxa, que existe até hoje, ficava no jardim paulistano, uma destas casas de aparência inglesa, de tijolos vermelhos e telhados pontudos que saia diretamente das histórias de bruxa e se colocava na nossa rotina escolar. A mulher de bigode e o homem do rabo de cavalo eram então os  dois outros personagens que mostravam que a cidade não era feita nem de um rosto só e muito menos de um único tipo de rabo. Tudo isto poderia muito bem ser parte de uma história infantil mas era de fato a maneira que eu me integrava a cidade.

Com o tempo o percurso mudou. A mulher de bigode desapareceu. Vim a saber mais tarde que isto de bigodes em mulher era coisa de gente que vinha de Portugal. E também soube  que o homem de rabo de cavalo era um sujeito que se achava de fato um cavalo.  Não só para mim ele havia traçado um marco de referência na cidade,  outros haviam visto o  mesmo homem cavalo que batia os pés e abanava o rabo num boteco bem onde  é a Tok Stok do Butantã.

Hoje outros marcos, humanos ou não,  me chamam atenção no percurso que faço. O trânsito que flui cada vez menos ajuda a olhar cada vez mais e, talvez sem querer, refaço o diálogo que aprendi na infância. Foi assim que passei a ser amiga deste sujeito da foto do post. Soube pela texto da socióloga Fátima Antunes do  Departamento de Patrimônio Histórico que ele se chama oficialmente TEMPO. Foi implantado ali  na rua Major Natanael num nicho do Cemitério do Araçá em 1945 na gestão de Prestes Maia. O autor da escultura é o artista João Batista Ferri (1896-1978). E que em outros dois nichos ali existentes a idéia era implantar mais duas esculturas que fariam em composição com o cemitério uma reflexão sobre a “meditação dos homens sobre a transitoriedade dos seus dias.” (Correio da Manhã, 8/out/1945)

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Os dois outros nichos estão vazios até hoje como se dali tivessem sido arrancadas as companheiras do Tempo,  algo que de fato nunca aconteceu. Mas o meu amigo Tempo permanece ali firme e forte. Por vezes passo por lá e  esta limpinho como novo. Penso que devem ser os banhos que a Prefeitura dá. Outras, e estas são muitas mesmo, me divirto com a forma como outras pessoas interagem com ele. Já vi o Tempo, que eu chamo de Cronos, Amigão, Corujão e Moisés, vestido de mulher, com guarda-chuva, unhas pintadas de preto e até com as tradicionais flores e velas dos trabalhos de macumba.

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Talvez tenha gente  de opinião  que estas intervenções humanas  no monumento sejam simplesmente degradar mais ainda a paisagem visual da cidade. Porém, olhando os dias, o percurso das pessoas, penso que  isto é muito  relativo quando a tal  intervenção  cumpre esta função tão interessante e prazerosa de integrar a cidade na nossa vida e vice-versa.

Que a Prefeitura continue a cuidar de dar banho no Tempo e preservar sua pele natural. Porém é muito bom saber  que meu amigo não esta  só ali no único nicho ocupado, mas que outras tantas pessoas se sensibilizam das formas mais diversas com sua presença e continuam a acolhe-lo  como parte da história de cada um  pela cidade e porque não da transitoriedade dos nossos dias aqui na Terra.

Mais referências sobre o Tempo:

Fatima Antunes, Departamento de Patrimônio Histórico, texto sobre a obra Tempo, Março de 2009

https://www.google.com/maps/d/embed?mid=zV1whZhkhe4A.k2Eiize8BlfA“>Guia dos deslocamentos das estátuas de São Paulo: siga o seu monumento

Além Muros…

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Ilustração do Cabrião. Sec. XIX. Agostini

…Criar, preservar e destruir, do equilíbrio das três condições é do que depende o sucesso de toda empreitada humana. Quando criar, quando preservar e quando destruir são equações que os sábios fazem constantemente. ( Pensamento da coluna “Astral” do dia 18 de setembro de 1994, ESP)

Na mesma folha surgia forte, contundente como sempre, a crônica de Caio Fernando Abreu  “A úlitma carta para além muros”, quando Caio se declarou publicamente HIV positivo e passou a cultivar seu jardim, ceifar ervas daninhas, lutar contra a morte, gerar vida, criar e preservar como habilmente só “os sábios fazem constantemente”.

Desta “carta-crônica” Caio transpôs as janelas-hospitalares, curadoria do “corpo-frágil”, da doença e da saúde, e nos deu a dimensão exata daqueles longos muros caiados de branco que ocupam um grande espaço na vida da cidade paulistana – o cemitério.

“Certas manhãs chorei, olhando através da janela os muros brancos do cemitério do outro lado da rua. Mas à noite, quando os neons acendiam, de certo ângulo a Dr. Arnaldo parecia o Boulevard Voltaire, em Paris, onde vive um anjo sufista que vela por mim. Tudo parecia em ordem, então. Sem rancor nem revolta, só aquela imensa pena de Coisa Vida dentro e fora das janelas, bela e fugaz feito as borboletas que duram só um dia depois do casulo…”

De um outro ângulo, o poeta José Paulo Paes numa brincadeira para distrair seus sobrinhos cria, em 1984 “É isso ali”. Declara o poeta numa entrevista à Revista da Folha sob o título “O alquimista e o jabuti”:

“Passava diante de um muro branco de cemitério e dizia: – Você sabe o que tem ai dentro? Plantação de defunto…”

O cemitério se fez presente na vida da cidade. Da verdade árida do poeta que vê a morte através das janelas do Hospital Emilio Ribas, mas também transpõe a rua e percebe que esta cidade-cemitério além muro, sitiada dentro da cidade dos vivos, possibilita um intervalo espacial, escuro, silencioso, panorâmico no qual a cidade grande vibra através dos neons, até a presença do cemitério-brincante de Paes onde o espaço da morte torna-se “caixinha de surpresas”, “plantação de defunto” no coração da cidade.

Com as transformações urbanísticas que se acentuaram no século XIX, a cidade passa por grandes reformulações que vão desde hábitos novos até mudanças espaciais. Estas mudanças surgem vinculadas a uma idéia de cidade, de vida urbana baseada na saúde pública, na salubridade e insalubridade do viver urbano onde os vínculos religiosos em relação à morte serão profundamente revistos.

Os cemitérios como os concebemos hoje, surgiram nas cidades modernas para ocuparem seus limites periféricos. Buscavam-se lugares altos, distantes afim de que fosse evitado o risco de contaminações e doenças provocadas pela insalubridade dos corpos em putrefação. A idéia em linhas gerais era isolar a cidade dos mortos da cidade dos vivos. Isto obviamente na cabeça dos planejadores, urbanistas, médicos e engenheiros que procuravam ordenar o espaço urbano de forma mais higiênico.

O povo, de opinião contrária, acostumado com a convivência com seus mortos, não aceitou o fato de que teria de enterrá-los longe das igrejas, longe dos vivos e, mais ainda, longe do “dedo de deus”. Até então, os enterramentos eram feitos ao redor das igrejas ou mesmo para os religiosos e os “homens de bem”, sob seu teto sagrado. Acreditava-se que quanto mais o morto estivesse próximo da igreja mais perto de deus estaria. A “boa morte” ocupava o solo sagrado.

Ao longo do século XIX foram surgindo leis proibitivas quanto às práticas de enterramentos dentro das igrejas, em covas rasas, sob o chão onde os vivos congregavam, alegando-se o perigo de contaminação pelos “miasmas” que exalavam dos corpos em putrefação.

Mas as leis proibitivas  não ficaram apenas dentro da igreja, o espaço urbano organizado a partir do modelo higienista exigia regras também quanto ao hábito das procissões e cortejos que anunciavam e acompanhavam os mortos nas ruas do vilarejo.

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Relata Ernani da Silva Bruno em História e Tradições da Cidade de São Paulo que a cidade, no século XIX, cultivava o hábito de “repicar os sinos” inúmeras vezes sempre que alguém  morria em uma das paróquias da vila, assim como levar seus mortos em cortejos e sepultamentos que muitas vezes eram acompanhados por cantigas profanas e, dependendo da posição social da família do morto, com grande abundância de cera para as velas que acompanhavam o cortejo fúnebre.

Por vezes os enterramentos nas igrejas ou nos cemitérios ao redor das paróquias aconteciam à noite deixando os morados vizinhos aterrados com as cantorias e socamentos dos negros “que à medida que jogavam terra sobre o cadáver e socavam com a mão de pilão, cantavam assim:

” Zi boca que tanto fala. Zi boca que tanto zi comeu e zi bebeu. Zi corpo que tanto trabaiou. Zi perna que tanto andô. Zi pé que tanto pisou.”(Bruno, 759)

A cantiga ainda soava mais triste quando o corpo cansado dos próprios negros, escravos e indigentes, seguia envolvido em redes pela entrada da cidade até o fim da rua da Glória onde “jazia o cemitério dos Aflitos, com seus quatro muros de taipa, hirtos e desnudos. O campanário gemia lúgubre a cada enterro de escravo. A cova, outros negros a abriam, repetindo a cantilena fúnebre…”( Azevedo, 51) Ali, a céu aberto, em valas comuns, realizavam-se os enterros dos “anônimos”, daqueles que não tinham direito a sepultamento digno no “solo sagrado” das paróquias.

A partir de meados do século XIX, a Câmara Pública se vê às voltas com a procura de local para implantar um cemitério isolado e afastado do núcleo populacional. Forma-se uma Comissão. Primeiro se cogitou  o Largo de Guaianazes ( Campo Redondo), mas foi rejeitado por ser muito povoado. Finalmente, escolheram uma das saídas da cidade, “estrada para Sorocaba”, na Consolação, onde não havia moradores. ( Loureiro,63)

Em 1854, o Cemitério público da Consolação saía do papel. A construção estava sob a direção da Câmara Municipal que era composta por vereadores e instância da “parte civilizada da população” interessada em acabar com os “perniciosos costumes de se fazer enterramentos dentro das igrejas.”( Martins, 1-7)

Dois anos depois surgia o primeiro Regulamento para os Cemitérios da Cidade de São Paulo onde se estabelecia toda a legislação que regeria o funcionamento da “cidade dos mortos”, o traçado interno em forma de quadrilongos, a obrigatoriedade de muros, ruas arborizadas, a profundidade das covas, o tipo de sepulturas e a distância entre elas.

A luta foi longa para que o cemitério, como cidade dos mortos, passasse a ser considerado lugar para enterramentos de todos os habitantes, principalmente dos religiosos e dos “homens de bem”, que deveriam ser transladados das igrejas para o novo local.

O Regulamento que dispunha sobre os cemitérios também ordenava como e por quem os sepultamentos  deveriam ser conduzidos. Assim, aqueles cortejos repletos de velas, as “assustadoras” cantilenas dos escravos africanos ao socarem a terra iriam desaparecer para dar lugar aos caixões higiênicamente vedados, aos transportes mecânicos de vários tipos, conforme o poder aquisitivo de cada um.

Com o surgimento do novo Cemitério Público também desapareciam as valas comuns do antigo Cemitério dos Aflitos (1774), só restanto como lembrança a Igreja dos Aflitos que permanece solitária na antiga Chácara dos Ingleses, entre a primitiva rua dos Estudantes e rua da Glória.

A cidade foi crescendo e se expandindo. O cemitério a céu aberto vai tornando-se cada vez mais parte integrante da cidade. A saída da cidade, o ” fim de mundo” estava, neste outro momento, às vista de outro poeta, Àlvares de Azevedo que chamava seu Satã em Macário para tomar o burgo paulistano

” – Daqui cinco minutos podemos estar à vista da cidade. Hás de vê-la desenhando no céu torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como uma eça de enterro.”

Nessa noite tão escura, ” como eça de enterro”, o grupo de Àlvares de Azevedo, responsável pelos famosos ritos byronianos e pela poética noturna da sonolenta paulicéia do século XIX, transpõe os muros do cemitério da Consolação. Aliado a Satã, acometido dos princípios de Byron, o grupo toma a cidade dos mortos de assalto. Rompendo o isolamento proclamado pela saúde pública, o grupo profana os túmulos, elege sua ” Rainha dos Mortos” e desperta a morte para além muros. ( Cavalheiro, 1,2,3).

A aliança entre vivos e mortos se refaz novamente. As cidades se confundem, uma torna a outra eloquente. ( Ariès, 17-64). Dentro do cemitério, tumbas são profanadas. lápides são lidas e histórias da cidade, dos amores, dos encontros e desencontros, das epidemias, vão formando um acúmulo de escritas, palimpsestos que vão sendo sobrepostos à medida em que a cidade vai crescendo e se transformando.

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Na virada do século XIX para o XX, o cemitério da Consolação e o Araçá, implantado posteriormente, 1897, são englobados pela cidade. No Relatório da Intendência Municipal de São Paulo para o ano de 1893 já encontramos preocupantes referências quanto ao aumento de moradores na região do Cemitério da Consolação. No trecho em que o Relatório salienta a necessidade de ampliação da área atual deste cemitério destaca-se a advertência da total impossibilidade disto ocorrer “por se achar o referido Cemitério encravado na cidade, rodeado de casas que vão se multiplicando continuamente.”(grifo meu)

Mapa do Cemitério do  Araçá e seus arredores no muro do cemitério Av. Dr. Arnaldo

Mapa do Cemitério do Araçá e seus arredores no muro do cemitério Av. Dr. Arnaldo

A partir destas transformações que englobam o cemitério à cidade, o espaço cemiterial a céu aberto adquire movimento e, de local distante,”fim do mundo”, saída da cidade, passa cada vez mais a ser parte integrante da vida urbana paulistana.

Os muros que isolam os vivos dos mortos transformam-se em acervos da cidade. O cemitério à céu aberto, onde as valas profundas e os caixões isolam a morte da saúde dos habitantes urbanos assume também função de registro da cidade, memória da história de seus moradores.

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Para além das valas, dos caixões e dos muros surgem as construções funerárias que individualizam a morte e recriam num movimento para o céu a vida do morador urbano. As lápides, mausoléus e capelas compõem o desenho final desta cidade dos mortos, onde o “silêncio”da “última morada” é também intervalo panorâmico, espaço de reflexão para os vivos pensarem mais sabiamente sobre suas formas de habitar a cidade.

Para nós moradores fica a difícil equação inicial: “Quando criar, quando preservar e quando destruir…”. A encruzilhada está dada, resta sabermos como equilibrar este sensível espaço construído nas tramas da cidade.

Paula Janovitch

Este artigo, “Além Muros”, saiu originalmente  na revista Cidade N. 4, Revista do Departamento do Patrimônio Histórico/Secretaria Municipal de Cultura, SP, 1996. pp. 126-129

Para saber mais:

Paula Janovitch, ver também a pesquisa História da formação do cemitério particular israelita de São Paulo.

Philipe Ariès, História da morte no ocidente: da Idade Média aos nossos dias, ed. Francisco Alves, RJ. 1977

Maria Amélia Salgado Loureiro, Origem Histórica dos Cemitérios, ed. Secretaria de Serviços e Obras do Município de São Paulo. 1977

Vicente Azevedo, O noivo da morte ( Alvares Azevedo), s. e, 1970.

Ernani da Silva Bruno, História e Tradições da Cidade de São Paulo, vol I, II, III, ed José Olimpio, RJ, 1953.

Edgard  Cavalheiro, Fagundes Varella, ed. Martins, SP, s.d

Relatório da Intendência Municipal de São Paulo, 1893 ( Cesário Ramalho da Silva)

Antonio Egydio Martins, São Paulo Antigo, ( 1554 a 1910), Typographia do “Diário Oficial”, SP, 1912.