Tuca Vieira e o exercício do percurso: a viagem do extremo oriente

Tuca Vieira é um fotógrafo com formação em letras que acaba de defender sua dissertação de mestrado na FAU/USP. Foi fotojornalista por muitos anos e,  em seus trabalhos pessoais,  sempre coloca desafios fotográficos que nada mais são do que experiências e exercícios de  aprofundar-se na essência das cidades,  sua expansão, escalas e diversidade.

Em sua palestra na Escola da Cidade no final de maio, havia acabado de voltar de uma jornada pelo extremo oriente em que a regra estabelecida pelo fotógrafo foi registrar cidades com mais de 10 milhões de habitantes. Em cada cidade Tuca Vieira permaneceu 7 dias. E foi mais ou menos como nas etapas da criação bíblica  que o fotógrafo descreveu sua chegada nas cidades até o momento dos registros fotográficos: fui sistemático nisso, no primeiro dia  fazia a parte burocrática de escolher hotel, trocar dinheiro e ai levava uns 3 dias percorrendo a cidade sem fotografar absolutamente nada. Primeiro reconhecia o quarteirão do hotel, depois o centro da cidade e aí começava a me aventurar pelas bordas e periferias desta área mais central, os locais que mais me interessam.

Estas franjas da cidade, onde o seu cartão postal desaparece, são os pontos de inflexão do fotógrafo. Porém, diz ele, diferente dos registros em São Paulo como o  projeto paulistano, “Atlas da cidade”, chegar nas franjas das hipercidades do extremo oriente, diante do desconhecimento total  do território e dos seus códigos, foi muito mais desafiador. Afinal era um estrangeiro em todas as cidades que percorreu com uma semana para chegar onde suas fachadas oficiais cedem lugar ao que ele define como essência das cidades.

Como explicou o fotógrafo, a máquina fotográfica é mero veículo para satisfazer sua curiosidade e desejo de aventurar-se e descobrir a essência da urbs. O que vale nisso tudo é a busca por chegar naquilo que não é mais o monumental, ou seja,  o que a cidade  deseja mostrar   para os outros. O deslocamento que nos retira do centro “vale ouro”, não podemos nunca desprezar esta experiência dos dias. E citou como fonte de inspiração destes percursos na criação de seus mundos, o livro do cineasta Werner Herzog, Conquista do Inútil. Um diário que Herzog escreveu durante a produção do filme Fitzcarraldo: o preço de um sonho.

Perguntado sobre como são as hipercidades do extremo oriente, Tuca afirmou, são estranhas e assustadoras em escala. De fato, seus registros fotográficos mostram uma China construindo e destruindo cidades e mais cidades, edifícios altíssimos, mesmo que estes não estejam habitados ainda, não importa, a indústria da construção permanece em moto-contínuo.

Mesmo assim o fotógrafo conseguiu perceber semelhanças em cidades como Jacarta, bem  latino-americana. Porém as diferenças como a Tóquio hightech, talvez sejam o  legado mais importante deste projeto.  Nos 6 meses em que se deslocou pelas cidades do extremo oriente, Tuca  sentiu  tocar o século 21 e foi categórico em garantir que  o futuro  é  bem diferente das antigas cidades europeias onde repousa nosso nostálgico bem-estar.

Para saber mais:

Artigos que Tuca Vieira escreveu para a Folha de São Paulo ao longo de sua jornada:  https://arte.folha.uol.com.br/mundo/2018/hipercidades/

Link no site de Tuca Vieira sobre suas fotos nas Hipercidades: https://www.tucavieira.com.br/Hipercidades-em-progresso

Werner Herzog, Conquista do inútil, ed. Martins Fontes, 2013.

Paula Janovitch

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No caminho tinha uma pedra: passeio geoturístico pelo Centro de São Paulo

 

Dia de céu de brigadeiro, um avião cruza o céu e deixa uma linha de fumaça. Penso que ele desenha o risco branco  de propósito, mas meu amigo me diz que não, é o clima que deixa a linha  ali. Começamos o passeio pelo Pateo do Colégio, no mesmo ponto do outro sábado em que fiz o roteiro do #monumentonenhum. Mantivemos o mesmo início histórico, a partir da conquista portuguesa, da escolha do colonizador no ponto estratégico do sítio,  o local mais alto, entre rios. Com muita rapidez saímos das referências  históricas para observar as rochas. Gosto destes passeios que você entra pela cidade através de outras veredas.
Olhamos para o chão, um piso de pedra Itaquera, olhamos para o Monumento à memória ali no centro do Pateo, Itaquera na base, Itupeva na coluna. Rodamos pela Pateo e vamos às fachadas dos edifícios da Agricultura, da Justiça. As mesmas pedras, alguns detalhes de mármore de Carrara no chão pra dar o chique da entrada. A guia/geóloga pergunta se já conseguimos identificar algumas das pedras. Sim, já conseguimos!!!!

Beco do Pinto. Casa da Marquesa de Santos. Exposição Monumento Nenhum

Então vamos para a Casa da Marquesa de Santos, ali nos deparamos com as pedras empilhadas dos monumentos da exposição # monumentonenhum, fica difícil saber quais os tipos. As pessoas tocam nas pedras, sentem as diferenças, tentam falar os nomes das que acabamos de aprender. Descobrimos variações das mesmas quando são lapidadas. Entendemos o desgaste quando maltratas por agentes químicos de limpeza. Alguém recorda o velho ditado:” água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. 

Patéo do Colégio. Pedras rústicas estilo anos 40, 50.

Voltamos para o Pateo, bem nos rodapés das paredes de um dos seus muros um casal diz, parece da minha casa, anos 40 ou 50. Sim, a geóloga diz, começaram a usar pedras rústicas assim para decoração, e ai vemos a jovialidade do Pateo, integrador de várias épocas, fake para uns, mudança de estratégia da igreja católica para outros. Ela pede para gente ir até o  sino do Pateo, e lá na base mostra o granito Ubatuba. Diz que a pedreira em Ubatuba fechou, não produz mais rochas. Perguntamos como a gente faz para lembrar os nomes das rochas, ela diz que é muito fácil, a maior parte das pedreiras fica ao redor da cidade, vejam que os nomes  tem a ver com o local de extração: Ubatuba, Piracaia, Capão Bonito, Azul Bahia, Itaquera, Itupeva e ai podemos até viajar pra fora  do Brasil que os nomes continuam a referenciar seus lugares de extração:  Carrara, Travertino.
Saímos da Fundação da cidade para adentrar o Centro Velho, o antigo mercado financeiro de São Paulo. Nestas fachadas vamos encontrar uma variedade grande de rochas. Vemos o granito preto Piracaia. A guia se esforça pra gente entender a diferença deste para o Ubatuba, aquele da base do sino, meio verde. Paramos no antigo Banco do Brasil, hoje Centro Cultural, o granito ai é meio rosado, Itupeva em alguns pilares, Itaquera em outros. Vamos seguindo até o Martinelli, um integrante  do grupo não se contem e busca uma foto no celular do  que existia ali antes de ser o edifício Martinelli, explica que era uma hospedaria, mostra que cavaram o Vale do Anhangabaú e que a ladeira de São João não era tão íngreme como agora.

 

Vamos caminhando para o Mosteiro de São Bento e dali partimos em direção ao largo do Payssandú pelo Vd. Santa Ephigênia. Ela explica que a maior parte dos edifícios da cidade usam pedras de pedreiras próximas por conta do preço e do transporte, quanto mais próximo, menor o custo. Então chegamos num edifício do INSS que fica bem ali no Vd. Santa Ephigênia, todo de Travertino. As viagens para a Europa que até agora eram de entalhes pequenos nos prédios  e pisos, ganham grandiosidade neste edifício.  

Edifício do Tribunal da Justiça do Estado de São Paulo. Entalhes com rochas importadas no piso de entrada. Pateo do Colégio.

Para mim a  beleza da pedra se desfaz com a dureza da  realidade  histórica. Não deixa de me doer ver o prédio do INSS todo de pedra importada. Alguns tentam identificar a época, anos 40. Nem os bancos, muito menos o edifício da Justiça importou pedra como o INSS, luxo da previdência já na década de 40 do século passado. Cara de pau dos economistas de passarem a conta desta festa imodesta que já vem de longa data. Fico com raiva da fachada do INSS, vou no google para ler como esta instituição se define: “Autarquia que garante proteção aos cidadãos por meio do reconhecimento de direitos, com o objetivo de promover…” Chega de ler! Quero voltar para as pedras, as fissuras e artes do tempo na sua constituição. A geóloga olha sua cola na prancheta e caminha para um outra parada.

Monumento a Mãe Preta. Largo do Payssandú

Chegamos no largo do Payssandu, Mãe Preta lá no alto. Mas a nossa   guia  esta atenta   à  base, olha  para tentar identificar o tipo de pedra, não consegue. Mostra o lado onde as pessoas colocam velas. Explica que a fumaça  deixa a pedra daquele jeito, toda escura.  Eu  amo a Mãe Preta e cada vez que encontro com ela tento fotografá-la de um ângulo diferente. Ela deixa os prédios e o céu do largo do Payssandu mais bonitos, tem uma força incrível, faz contrastes múltiplos com o lugar. A Mãe Preta sai bem na foto de qualquer ângulo, é isso.

Piso de calcário com colônia de fósseis na Galeria Olido

Seguimos nosso passeio para dentro da Galeria Olido. Trabalhei naquele prédio um tempão e não sabia que ali no piso existem colônias de fósseis no  piso de calcário, quem quiser ir comigo, já sou capaz de  identificar os fósseis da Galeria Olido. 

Dante. Praça Dom José Gaspar

Dali partimos para a Praça Dom José Gaspar  para ver os bustos dos pensadores que rodeiam a Biblioteca Mário de Andrade. Dante é Travertino rústico como o INSS, a diferença que o último é lapidado ( não vou conseguir esquecer o INSS, inferno!!!). A Biblioteca tem bastante Itaquera na fachada, estou ficando craque!
Já estávamos com duas horas de percurso e ainda haviam  pedras para  serem vistas na Av. São Luis, a guia se perde nas localizações, meu estômago já estava na boca, mas vou com o grupo numa última  identificação de  rocha, a que a geóloga disse ser a mais rara de todas, o granito azul bahia!!!

Hotel Boulevard. Granito azul Bahía com a bandeira americana infiltrada.

Nunca dei nada por aquela fachada do Hotel Boulevard, quase  esquina da São Luis com a Consolação. E estava lá o tal granito azul Bahia de raridade incrível.  Quando o grupo saiu, o  porteiro do prédio disse que aquela pedra não era raridade da Bahia, mas de Israel, e que haviam dois tipos diferentes dela na fachada do prédio, uma mais clarinha e outro de segunda, a  escura. Mais à frente falei para a nossa geóloga das teorias do porteiro. Ela, como boa cientista,  disse que a afirmação dele era totalmente incorreta. Mas o que eu quis dizer é que para além das características geológicas, haviam as lendas, a forma de se apropriar daquilo com o que nos deparamos, e por falta de outros pontos de vista, a construção da imaginação ganha suas narrativas próprias como  esta do  porteiro. Quando as narrativas se encontram assim na rua, acho de uma riqueza incrível, surge  um granito azul Bahia de Israel.
 Por estas camadas de rochas  que se cruzam no nosso caminho e pelos usos que fazemos  delas ao termos mais possibilidades de construirmos outras narrativas, é que  um percurso destes torna-se fundamental. Fazer a Universidade andar na cidade e a cidade tornar-se  prática dos cientistas me parece uma aproximação  interessante e desafiadora  para ambos. 
Este percurso dos geólogos da USP foi de graça e lotou. Haviam 120 pessoas que se dividiram em 4 grupos, cada um com um especialista. Não precisa ser guia formado, não precisa saber tudo de história da cidade, basta compartilhar um pouco destas pesquisas tão interessantes que são feitas nas universidades. Todo mundo ganha com estas pedras  no meio do  caminho.
Parabéns à  professora geóloga  Eliana Aparecida Del Lama e a sua equipe que tornou este projeto possível. Muito obrigada!
Paula Janovitch

Saiba mais:

O rio que não era doce e a ponte que não partiu !!!

ladeira do acu debret 1822

Imagem: Ladeira do Acu – Debret 1822

Ladeira do Acu/ Rua de São João

Quem desce a ladeira de São João no centro da cidade talvez nem imagine que aquele pedacinho de rua tem uma história tão bonita.

Antes de ser conhecida pelo nome do santo fogueteiro, quando a cidade ainda era bem colonial, chamou-se Ladeira do Acu. Neste pequeno mundo, cercada  por santos e igrejas foi onde a acanhada ladeira  permaneceu por muito tempo. No século XIX era uma trilha e ligava as duas partes da cidade separadas pelo rio Anhangabaú. Com o tempo, a trilha passou a ser caminho, que logo foi se alargando e sendo povoada de casebres humildes cobertos de tabatinguera ( palha). O povo passou logo a chamá-la de Descida do Acu. Do Acu  era a ladeira, a ponte, o rio e a zona toda.

“Yacuba” quer dizer água em tupi-guarani. “Acu” quer dizer veneno. Dai o rio Anhangabau que permanece   ainda subterrâneo por baixo no Vale do Anhangabaú   ter sido por tanto tempo conhecido  por suas “águas venenosas”.

Diante de tão arriscado caminho o povo passou a cantarolar o perigo das águas do Anhangabau ao passar  sobre a ponte do Acu:

“Eu fui passar na ponte,
E a ponte estremeceu…
Água tem veneno, morena,
Quem bebeu, morreu!”

Quando o desespero do povo cresceu ao máximo e na cidade só se falava em dar cabo daquela água maléfica, foi que surgiu um homem de apelido João-Nhá-Mãe que teve uma idéia de como acabar com o misterioso veneno da água.
A idéia foi pegar a santa imagem de São João Batista e levá-la  para ser “batizada” nas águas venenosas do Anhangabaú.

Na madrugada gelada do dia 24 de junho o povo saiu em procissão com São João nos braços para batizá-lo ali na altura da ponte do Acu, onde se dizia que as águas eram mais venenosas.

João-Nhá-Mãe  retirou as vestes de São João, entrou com ele nas águas do Anhangabaú envolvido pela cantoria do povo. E foi limpando o santo e a água foi ficando cristalina!

Já como rua das mais agitadas da cidade, honrou o nome de São João que limpou as águas venenosas do Anhangabaú.
Ladeira de São João passou a ser o começo da rua que ligava a cidade de cá com a cidade de lá, a vida noturna, os divertimentos, o comércio e a descida desabalada dos moleques de bicicleta.

P.S: Só para esclarecer uma passagem da música das “águas venenosas”. A ponte  do Acu balançava sim, mas nunca caiu com ninguém, assim como o rio que tinha uma água ferrosa, calcária, pelo que consta, parece que nunca derrubou um ser humano. Saudades dos velhos tempos que a gente cantarolava que a ponte estremeceu só pra rimar com quem bebeu morreu, longe  da amargura e dor de uma Vale com nome de  Rio Doce mas promotora  de  assassinatos em série.

Para saber mais:

– Afonso A. de Freitas  em seu livro Tradições e Reminiscências Paulistanas, editado pelo Governo do Estado de São Paulo ,( Coleção Paulística Vol IX)  trás um monte destas histórias das ruas da cidade nas suas “reminiscências das ruas”, vale a pena!!

São Paulo Paisagens sonoras ( 1830-1880) – CD  que faz um percurso sonoro pelo século XIX  paulistano, tá lá a composição deste post. Para quem quiser escutar, o Spotify disponibiliza a trilha sonora São Paulo Paisagens sonoras.

O Brasil é o Museu do Índio

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Aldeia indígena do povo Guarani Mbya, Parelheiros Foto: Pedro Robles. Julho/18

A sacada humorística de Millôr que dá título a este post a cada dia faz mais sentido para mim. Sou antropóloga de formação, mas  nunca estudei grupos indígenas, pesquiso cultura urbana desde sempre. Porém, em maio deste ano, quando tive a oportunidade de participar de um evento no Departamento de Psicanálise do Sedes, “Deslocamentos”, na primeira mesa, “Novas Histórias”, a questão indígena surgiu com a participação do Tiago Honório dos Santos Karai , liderança do povo Guarani Mbya, localizada em Parelheiros . O Tiago chegou no Sedes com sua companheira e  filho. No lanche, um pouco  antes da abertura do seminário,  quando falavam entre si, usavam o tupi-guarani, quando falavam comigo, era o português. De certa forma  sentia-me recepcionando  estrangeiros em sua própria terra.

Até o começo do século XVIII, a proporção entre as duas línguas faladas na colônia era mais ou menos de três pra um, do tupi para o português.(…) O tupi era a língua dominante, a língua da colônia, todos a falavam ou a compreendiam, parecia mesmo haver certa predileção por ela. ( Teodoro Sampaio)

Explicaram-me que sua primeira língua, aquela em que são alfabetizados,  é o tupi-guarani. A segunda é o português.  Para mim a recuperação do tupi como primeira língua é  uma grande conquista, usar sua língua materna  e transmitir para as futuras gerações as sonoridades, a cultura e a forma de ver o mundo que vem junto com a liberdade  de se expressar, resgata o direito de qualquer grupo humano de  ir e vir.

 Isso me levou a uma outra questão que anda tomando meus percursos pela cidade de forma recorrente.  A grande quantidade de palavras indígenas que nomeiam ruas, bairros e acidentes geográficos. Meu bairro por exemplo é uma aldeia completa de nomes em tupi pendurada nos relevos montanhosos que habito: Aimberê, Turyassú, Apinajés, Itapicuru, Traipu. Há meses atrás, ao  fazer uma pesquisa sobre Higienópolis, me dei conta que Pacaembú de Cima e de Baixo, correspondia a toda a região que envolve a Santa Cecília, Vila Buarque, Higienópolis e Perdizes. Todo o território de baixo e de cima  estava assim nomeado pela presença do rio Pacaembú que hoje em dia passa  calado embaixo da avenida de mesmo nome.

O seminário “Deslocamentos”, no Sedes, também  aconteceu exatamente nesta “aldeia de nomes indígenas” que toma  o bairro de Perdizes. Inevitável ao final da fala do Tiago interroga-lo sobre a quantidade de nomes e monumentos indígenas espalhados na cidade e nas várias regiões do Brasil. Como afinal os grupos indígenas  que foram dizimados desde a conquista portuguesa pareciam  marcar os acidentes geográficos, as ruas, os monumentos e tomar Perdizes  como uma tribo de plaquinhas azuis penduradas  em mastros cinzas? Qual  seria o motivo destas  “demarcações” no território do conquistador?

Ele respondeu com uma frase enxuta que aquilo era um engano. E alguém na plateia completou que estas referências  presentes nas ruas e relevos do território nacional  eram na verdade  uma descorporificação dos sujeitos.

 

 

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Num fim de semana chuvoso uns dois meses depois do  evento “Deslocamentos”, o nosso coletivo  “Escutando a cidade” foi  conhecer a aldeia do Tiago. Neste segundo encontro,  ele nos convidou para conversar na “Casa de Reza”. Sentados em volta de uma fogueira, Tiago  foi  nos contando muitas coisas sobre a luta dos grupos indígenas de Parelheiros  e a trágica história da  demarcação de suas  terras. Como foi difícil para eles entenderam o significado de demarcar seu território. A princípio apontaram apenas a aldeia, o lugar das casas. Porém,  depois de muitos  enganos e incompreensões,  entenderam que este lugar da casa não incluía  o lugar do caminho.  No lugar da casa estavam excluídos  deslocamentos, o ir e vir para outras aldeias de mesma língua, as trilhas sagradas, a possibilidade de se refazerem e de  deixarem a terra  mãe respirar a fim de permanecerem interagindo com a natureza.

O lugar do caminho como forma de estar no mundo me fez voltar para  a questão lançada no seminário “Deslocamentos”: qual o sentido desta quantidade de nomes indígenas espalhados pelas ruas de Perdizes e do Brasil afora ? Como se deu esta “descorporificação”, este engano ?

Eduardo Viveiros de Castro veio em meu auxílio no seu livro  Metafísicas Canibais ao apontar uma “outra” proposta para o tradicional registro etnográfico dos grupos indígenas. Os antropólogos teriam que fazer uma mudança radical de paradigmas para irem além do acúmulo de conteúdos sobre o  “outro” fixados  através dos nossos  parâmetros eurocêntricos e civilizados.  Trocando em miúdos,  nós antropólogos registramos muitas coisas importantes sobre hábitos, cultura, língua e etc…, porém não conseguíamos ler ou ver o que registramos sem pensar em olhar para os nossos próprios espelhos. A  dica de Eduardo Viveiros de Castro foi  que precisávamos  “aceitar a oportunidade e a relevância de pensar outramente, com outra mente,  pensar com outras mentes…” como  um anti- Narciso,  o “padroeiro ou demônio da antropologia”.

Relendo o  livro de Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional, depois de percorrer outros territórios e buscar “corporificar” a terra e a vida de uma aldeia pra lá do bairro de Parelheiros, consegui compreender que os portugueses, os primeiros colonizadores que aqui chegaram, assim como os jesuítas e bandeirantes, tiveram a perspicácia de compreender que os povos que habitavam a maior parte do litoral brasileiro poderiam leva-los ao interior do Brasil com muito mais facilidade do que  uma aventura por conta própria, estava integrada  na cultura indígena o nomadismo, os caminhos e  deslocamentos.

Fazia-se a conquista, tendo por veículo a própria língua dos vencidos, que era a língua da multidão.(…)  Recebiam, então, um nome tupi as regiões que se iam descobrindo e o conservavam pelo tempo adiante, ainda que nelas jamais tivesse habitado uma tribo de raça tupi. ( Teodoro Sampaio)

A  língua geral  transformou-se  numa moeda de troca, num meio de mediar os caminhos do conquistador. “Descorporificou”  os vários grupos indígenas ao marcar o percurso dos conquistadores pela língua daqueles  que tinham o caminho como lugar de morada também. E assim, ao percorremos  as cidades brasileiras ou adentrarmos o país, temos este atrito do desejo de conquista dos colonizadores assentados na língua geral dos índios do litoral. O conquistador nomeou nos lugares desbravados  o caminho e fez do  território percorrido uma nação de porteiras fechadas. “O Brasil é o Museu do Índio”  que pega fogo à menor labareda.

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Caminhamos pelas fotografias de Mauro Restiffe com a urbanista Raquel Rolnik!

Raquel

Raquel Rolnik / foto: Paula Janovitch

No dia 07 de junho à noite, uma quinta-feira, ocorreu a palestra de Raquel Rolnik na exposição de Mauro Restiffe no IMS . Cheguei atrasada e quando entrei na Galeria 2, onde seria a palestra, vi um aglomerado de gente no fundo da sala. Raquel estava mostrando uma imagem do fotógrafo Mauro Restiffe, no Campos Elíseos, e explicando o que havia ocorrido ali. Falava de Santa Efigênia, da rua que é o segundo PIB comercial da América Latina, porque o primeiro, explicava ela, é o da 25 de março. Tudo isto para enfatizar o absurdo que é a expressão revitalização em uma área que não esta desvitalizada. Disse: “esta palavra revitalização deve ser banida do nosso vocabulário, é uma mentira!!! O melhor seria usar reabilitação, acolhimento de novos usos, oferta de condições de moradia para quem esta nesta região.
”
Caminhamos mais uma pouco para outra imagem, um terreno desocupado, um estacionamento com o Teatro Oficina ao lado. Ela explica que o terreno é de Silvio Santos, que este queria fazer uma edifício-torre, já os moradores do Bexiga, desejam que ali seja o Parque do Bexiga. Em meio a esta disputa ela nos pergunta se sabemos em qual categoria de zoneamento este terreno se enquadra. Ninguém responde. Ela explica: zona especial, mais ou menos quer dizer zona que pode ser qualquer coisa. Depois nos dirigimos para uma fotografia pequena, do Templo de Salomão, no Brás. Ela diz que esta foto é muito interessante porque mostra uma imagem do Templo no tapume e, ao fundo, ele ainda no início de sua construção. Novamente vem a pergunta se sabemos em que tipo de zona se enquadrava este terreno onde foi construído o Templo. Alguém chuta zona especial também. Nada disso, outra categoria, era uma ZEIS ( zona  especial de interesse  social), a mesma da área do Campos Elíseos, lembra Raquel. Porém, neste caso, havia uma casinha no terreno, e o Templo de Salomão foi construído como reforma da tal casinha. Logo passou ao largo das burocracias e impedimentos das leis. Veja que uma casinha virou um Templo reconstruído à imagem e semelhança daquele que em Jerusalém esta em ruínas até hoje. Só tinhamos lembrança dele através da Bíblia, mas agora temos uma replica “perfeita” no Brás paulistano, onde uma casinha reformada se tornou o bíblico e literal Templo de Salomão.
Depois do  percurso  neste território fotográfico, sentamos e nos estendemos nas conversas sobre a cidade, mais especificamente estes locais de conflito. E foi ali sentados que a Raquel deu um conselho ótimo para quem quer participar das discussões e decisões sobre a cidade. Motivo pelo qual escrevo sobre a palestra e compartilho aqui. Então lá vai. Temos que entender da nossa cidade como as pessoas entendem de futebol. É assim que podemos entrar em campo, aprendendo no território, nas exposições e nos deslocamentos pela cidade. Ontem caminhamos pelas fotografias de Mauro Restiffe e conhecemos vários jogadores e muitas jogadas ensaiadas. A técnica de plantão é na realidade uma boleira histórica . Valeu Raquel !!! Paula Janovitch

Para saber mais:

Exposição São Paulo, fora de alcance – Mauro Restiffe A exposição do fotógrafo Mauro Restiffe  é um desdobramento de um registro inicial que começou em janeiro de  2012 a convide da Revista Zum.  Mauro fotografou a região da Luz logo  após a Polícia Militar expulsar dali traficantes e usuários de drogas. Nesse registro não estão apenas presentes o desmonte do espaço, mas a tragédia humana e o conflito. A idéia inicial acabou virando motivo para outros registros de conflitos, desmontes e paisagens arquitetônicas na cidade de São Paulo que compõe a mostra do fotógrafo no IMS. O catálogo da exposição também esta a venda na Livraria Travessa ( IMS) e para quem quer se deter por mais tempo sobre estas imagens fora de alcance, vale a pena adquirir.

Vila Itororó: uma história em três atos

capa livro

Coleção Canteiro Aberto Instituto Pedra e Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo.

 

Foi lançado em fevereiro de 2018 o segundo volume da coleção Canteiro Aberto, do Instituto Pedra em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo: Vila Itororó: uma história em três atos, das urbanistas e pesquisadoras de história da cidade de São Paulo, Sarah Feldman e Ana Castro. A publicação resgata a história da emblemática Vila paulistana, localizada na área central da cidade, entre os bairros da Liberdade e Bela Vista.

Por incorporar em sua construção materiais de demolição de um antigo teatro da cidade, o São José, e outras implantações inéditas e singulares para uma habitação do início do séc. XX como piscina, chafariz, bustos e esculturas, a Vila Itororó acabou chamando atenção de muitas gerações de urbanistas e pesquisadores do patrimônio histórico a partir dos anos 70 do século passado. Tornou-se de fato parte do debate das transformações dos critérios dos bens a serem qualificados como relevantes à memória da cidade de São Paulo.

 

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Considerada de arquitetura exuberante, surreal, o imóvel localizado numa encosta do Vale do rio Itororó ( atual avenida 23 de maio), acabou sendo foco de disputas e discussões sobre suas possíveis ocupações a partir do momento em que passou a ser protegido pelos orgãos de patrimônio histórico. Nomes como Benedito Lima de Toledo, Carlos Lemos, Claudio Tozzi, Décio Tozzi e Flávio Império fizeram parte destas primeiras discussões e formulações de projetos de novas qualificações que por anos nunca saíram do papel.

Eu mesma fui vítima do encantamento da Vila Itororó. Nos anos 1990, quando era    pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico, fizemos uma vistoria nas construções. Recordo a forte impressão que me causou entrar naquele casarão decadente que tinha logo a entrada dois leões, esculturas, varandas, longas escadas, pilares e uma piscina coberta ao fundo. Era difícil definir visualmente o que havia sido aquele conjunto de casas. Lembro de ter conhecido uma senhora muito pintada que diziam ser uma antiga atriz. Fui embora com aquela imagem dos leões da entrada, dos pilares e da velhinha com ruge nas bochechas, moradora solitária de um cômodo do antigo palacete.

 

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Lendo o livro sobre a Vila Itororó de Sarah Feldman e Ana de Castro, as formas arquitetônicas que por tantas décadas ocuparam o imaginário da Vila, saem do centro das atenções. Outras histórias revelam-se através de documentos públicos, recortes de jornal, depoimentos e fotografias que multiplicam a vida da casa colocando-a em diálogo com a história da construção e das formas de morar na cidade de São Paulo, especialmente na área central.

Somos convidados desde o primeiro ato a entrar em contato com a vida de Francisco de Castro, o primeiro proprietário e idealizador da Vila. Um filho de imigrantes portugueses, que como tantos outros estrangeiros, contribuíram para a formação da cidade de São Paulo. Acompanhamos a maneira como este investidor anônimo, integrava-se ao comércio da terras urbanas no início do séc. XX, momento em que a cidade transformava-se a olhos vistos.

A pesquisa tem o mérito de partir de um pequeno registro, o recorte de uma habitação central, para potencializar redes de conexões com o tecido urbano que ampliam os horizontes das relações e conexões destes possíveis franciscos de castro em diálogo com escritórios renomados como o de Ramos de Azevedo e as definições dos melhoramentos urbanos para a nascente capital do café. Percebemos neste cruzamento de diálogos, que a cidade não se expandia apenas pelas mãos de grandes loteadores, o solo urbano era negócio para todos.

Percorrendo a história da área central através da história da Vila Itororó, temos de fato um recorte urbano de São Paulo. Revelam-se personagens que passam a ter corpo, nome próprio, relações de amizade e parentesco. Projetos, desejos, sonhos e histórias que apontam conteúdos inéditos da formação social urbana. Tudo que se fala da Vila , não constitui-se como fato isolado do que a integra na cidade.

No segundo ato do livro entramos no universo mais íntimo da casa, dos moradores que habitaram a Vila Itororó. Num terreno de quase 6.000 metros quadrados, Francisco de Castro não construiu apenas seu sonho de morar, mas também um conjunto de casas de aluguel que lhe garantiriam um renda fixa. Algo extremamente comum à época, esta mistura de usos que poderiam muitas vezes ser compartilhados num mesmo lote, resultando em um dos investimentos mais seguros naquele momento. Como afirmam as autoras,  80% das famílias moravam em casas de aluguel em São Paulo nas primeiras décadas do 1900.

Francisco de Castro vem a falecer nos anos de 1930, repleto de dívidas e sem ver vários dos seus sonhos realizados. Os projetos urbanos que atravessariam sua propriedade valorizando seu lote, como a avenida Itororó (atual avenida 23 de maio), acabaram acontecendo décadas depois de sua morte, nos anos de 1960.

Nos anos de 1930, a Vila Itororó passa a ter novos proprietários, mas permanece como local de moradia de famílias que se caracterizavam por proximidades de parentesco e amizade. O palacete, morada de seu idealizador, neste segundo momento é dividido e ocupado para aluguel. A geografia da casa grande com a ocupação rentista, não deixa de refletir as hierarquias sociais do espaço urbano. Os mais abastados passam a morar nas áreas de acesso independente e próxima à rua. Os de menos posses, ocupam áreas da casa mais distantes da rua e com acessos compartilhados.

Porém, destacam as autoras, a sociabilidade dos moradores da Vila se mantém ao longo de  toda a sua existência como residência. Áreas comuns do terreno que incluíam a piscina e o pátio, entre o palacete e as casinhas de aluguel, revelam-se nas memórias dos antigos moradores como um rico espaço de convivência. Alguns lembram de um abacateiro, outros das festas e do clube Eden que incluía o uso da  piscina.

Outro aspecto fundamental que destaco neste segundo ato, refere-se a localização estratégica da Vila, entre o centro da cidade e a avenida Paulista. Como habitar entre espaços centrais da cidade, com instituições culturais e educacionais potentes, propiciou aos moradores da Vila condições de acesso à cultura e educação que caracterizam de forma singular a vida na área central da cidade.

Eis ai nos registros da história da cidade de São Paulo, um capítulo que precisa ser iluminado, batido e rebatido: a ótima coexistência entre habitação popular, cultura e serviços em regiões centrais.

 

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O terceiro ato talvez seja o momento que nos deixe mais pessimista em relação aos destinos da Vila e de seus morados. A partir dos anos de 1960, a presença da av. 23 de maio, projeto tão esperado por seu primeiro proprietário, tornou-se o início de um pesadelo para seus moradores. A área se valoriza muito e o imóvel a partir de então passa a fazer parte das várias disputas imobiliárias que ocorrem até hoje na área central da cidade. Nestes embates, inúmeros são os projetos de usos, desde a defesa legítima da permanência dos moradores, até aqueles que indicam, pelas características arquitetônicas do imóvel, um futuro centro cultural.

O livro se encerra em 2013, momento em que o Instituto Pedra assumiu o restauro e a coordenação das atividades   sobre o imóvel.  Num galpão adquirido na fase atual, criou-se um centro cultural temporário ao lado da Vila Itororó. Todas as atividades de reflexão e oficinas acontecem neste novo espaço cujo acesso se faz pela rua Pedroso, 238.

Como parte do processo de reflexão e investigação empreendido sobre a Vila Itororó desde 2013, esta publicação abre-se para os futuros possíveis do imóvel. O que só vem a reforçar a potência de materiais presentes no canteiro aberto pelo Instituto Pedra. O passado é material frágil e de fino trato, capaz de levantar questões e conteúdos importantes na reconstrução  da Vila Itororó. Vou mais longe, a história ao ser incluída no presente, é capaz  de  sugerir  novas formas de habitar a cidade.

O livro oferece muito mais histórias sobre a Vila Itororó. É uma pesquisa cuidadosa e bem escrita. Para aqueles que gostam desta emblemática Paulicéia, é leitura obrigatória.

Para saber mais:

O livro Vila Itororó: uma história em três atos pode ser adquirido na versão física e gratuita no próprio “Canteiro Aberto da Vila Itororó” . Para quem mora em São Paulo, basta acessar o site e olhar os dias e horários de visita. Para quem não mora em São Paulo, há uma versão digital do livro em pdf e vários depoimentos e registros daqueles que participaram desta história.

Vila Itororó página Facebook

Tel de contato Vila Itororó ( Centro Cultural Temporário/ Secretaria Municipal de Cultura): 32530187

 

Delírios Psicodélicos : Cracolândia, Campos Elíseos e Higienópolis

Antiga Rodoviária da Luz. Acervo Biblioteca FAU/USP

A área da antiga rodoviária de São Paulo, no Campos Elíseos, por algumas décadas tornou-se um terreno vago. Ali, naquele vazio rodeado de casarões antigos, tendo a Estação de Trem Sorocabana a frente e a introvertida Sala São Paulo como vizinhas, a extensa área virou um terreno baldio. Para quem passava por ali, até meses atrás, havia um campo de futebol, onde também era frequente uma outra presença que tomou aquele território, a conhecida Cracolândia. Inúmeros projetos surgiram na imprensa anunciado novas ocupações para o terreno da antiga rodoviária desativada nos anos 80 e depois ocupada por um shopping. Se não me falha a memória, um dos projetos mais recentes seria um complexo cultural. Frequentes  foram as operações para higienizar a área “doente”. Vejam que nos últimos anos a imprensa se aliou ao Estado e reforçou a imagem do território “doente”. Nesta inversão de pegar a parte pelo todo, Campos Elíseos desapareceu das referencias do lugar, passamos a reconhecer o território como “cidade do crack”, exclusivamente Cracolândia, um lugar extremamente difícil e perigoso. Eliminar a doença, limpar o território, normatizar os espaços vagos é uma articulação frequente e bem sucedida desta histórica união do Estado com a especulação imobiliária e os meios de comunicação. Depois de anos, aquele terreno vazio, antigo local de partidas e chegadas, nosso sonho psicodélico, foi preenchido rapidamente por vários prédios sem identidade alguma que poderiam estar em qualquer lugar da cidade. Uma outra  população de moradores desta utópica “nova Campos Elíseos” vai ocupá-los em breve.

Edifícios localizados onde foi a antiga rodoviária de São Paulo. Terreno baldio foco de disputas. Abril 2018

A quadra 36, a qual estão sendo expulsas famílias que moram há décadas no bairro de Campos Elíseos, também parece revelar um outro traço bastante interessante desta normatização do lugar. Dentre muitas ações históricas do Estado para valorizar um território, a introdução de um equipamento hospitalar, no caso, o futuro Pérola Byington, é sem dúvida uma maneira de valorizar uma região e eliminar aquilo que sintomaticamente tomou o território como  representação da doença e a fragilidade de sua mobilidade errante, o “fluxo”.

Procissão Fórum Luz /Teatro do Faroeste. Abril 2018

Impossível não lembrar que no início da ocupação de Higienópolis, há mais de um século, se deu também  com equipamentos estratégicos de valorização de um território que   no final do séc. XIX era considerado  muito distante do centro da cidade. Dentre institutos educacionais como o Mackenzie e novos arruamentos dos loteadores,  a implantação da Santa Casa da Misericórdia foi fundamental neste plano “feliz de cidade saudável”. Sem a presença da Santa Casa, a distante região do Pacaembu, em tupi-guarani “terras alagadas”, nunca se tornaria a nobre cidade da higiene, a glamourosa Higienópolis.

Publicidade da Escola Americana/Mackenzie, Almanach 1888.

Boa Viagem a todos!!!

Paula Janovitch

Para saber mais:

Quem construiu a Rodoviária da Luz? por Abílio Guerra

Folha de São Paulo 05/06/18 Obra de hospital é paralisada e lança dúvida sobre nova cracolândia de SP.

Folha de São Paulo, 05/06/18 Plano gera conflito com vizinhos da Ceagesp.

São Paulo Antiga – Terminal Rodoviário da Luz – No site da São Paulo Antiga, um interessante post recupera imagens da antiga rodoviária da Luz. Neste texto ficamos sabendo que o projeto da Rodoviária num primeiro momento foi pensando para ser no Parque da Luz. Outro dado interessante  é que as pastilhas coloridas internas  da nossa rodoviária psicodélica da Luz, podem ser vistos ainda hoje na fachada do Jornal Folha de São Paulo. Otávio Frias  foi um dos construtores da  antiga rodoviária.

Descontruíndo a Luz – matéria publicada no Estado de São Paulo na época da demolição da rodoviária. O ensaio fotográfico da desconstrução é maravilhoso. Não poderia deixar de compartilhar com vocês.

Fórum Aberto Mundaréu Luz  em defesa da permanência dos moradores no Campos Elísios. O Fórum elaborou um projeto de habitação para o Campos Elíseos, assim como equipamentos para o entorno, onde permanecem os moradores e se preservam os imóveis antigos da região. Vale a pena conhecer melhor o Fórum. Foi ele o responsável pela procissão que começou no Teatro do Faroeste, em que os atores, vestidos de branco e com extintores, higienizavam em tom de paródia  toda a região em risco  com água perfumada.

Dois dias pelos caminhos do Ó

tempo reverso2 abertura

* Este post é resultado de duas caminhadas que fiz junto com Gilberto Tomé, Livia Gabbai, Paula Gabbai e Renato Hofer. Gilberto, artista gráfico, ganhou incentivo do Proac para fazer este lindo projeto de percursos e um livro de artista. Entendo que Tomé fez muito mais do que isso. Sensibilizou pessoas para olharem um caminho antigo ameaçado pelas radicais transformações que estão acontecendo ali. Colocou seus moradores diante da beleza da história da antiga estrada e do caminho de seus ancestrais. E, finalmente, abriu uma exposição no próprio Caminho do Ó, Praça das Porteiras ( Praça da Árvore). Segue um pequeno relato afetivo destas duas caminhadas.

 

 Ontem conversei com a Lívia, que já esta produzindo um filme das caminhadas que fizemos. Achei interessante a nossa conversa. De formas diversas cada um de nós vai desenvolvendo diálogos com o percurso, que também chamo de lugar. Um lugar para mim é algo habitado por gente, por traçados, por histórias e por quem percorre. O lugar se revela como Descobrimento no sentido próprio mesmo: um achamento. Reparei que a caminhada em si é uma ação deste achamento. E muito mais intenso se faz quando somos estimulados a ver, sentir e perceber o que permanece do passado no presente e aquilo que é radicalmente novo. Caminhar é uma troca de olhares que se aprimoram no  espaço e no cruzamento de vistas.

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 No meu primeiro percurso para a Freguesia do Ó desobedecemos o caminho principal, a avenida Santa Marina. Nos perdemos pelas pequenas travessas e pontilhões dos trilhos do trem armados de mapas antigos. Fizemos achados maravilhosos, um riacho escondido numa vila, uma grupo de ruas que é um poema de Paulo Bomfim, Tempo Reverso. E casas, residências pequenas, antigas ainda, mas com portões novos, com estruturas flutuantes  para acomodar um novo  morador, o carro. Com certeza é o antigo se adaptando ao novo, o tal puxadinho que virou garagem. 

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Na segunda caminhada, o Tomé trouxe várias folhas coloridas com impressões fotográficas antigas e distribuiu para o grupo. Começamos no início da Santa Marina, que é ali na Pompéia. A Dna. Neide ao andar pelo antigo Caminho do Ó ( Av. Santa Marina), conseguiu lembrar mais coisas dos seus percursos dos outros tempos por aquela avenida. O escadão e antes dele, a porteira do trem,” era muito mais fácil do que agora”, o local onde pegava o bonde, a relação com o rio Tietê, as distâncias, tudo era mais perto. 

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 Depois a moça da galeria de arte, a Luana, ouviu um barulho de rio, ali invisível, de dentro destes tampões da Sabesp, gravou. Ainda paramos no primeiro ponto de vista, na Praça das Porteiras ( antiga referência da Praça da Árvore) , antes da cancela do trem. E as pessoas maravilhadas conseguiram ver dali a Igreja da Freguesia do Ó, lá do outro lado do rio Tietê. Fez todo sentido. 

 Atravessar a linha do trem e passar para o outro lado da avenida é o segundo obstáculo para penetrar e refazer o antigo Caminho do Ó. 

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O Instituto Rogacionista é a primeira parada que atrai os olhares e o desejo de percorrer por dentro algo do passado. Na extensão da avenida e seus novos usos, aquele casarão antigo chama atenção. Seus jardins, as carpas, a tranquilidade, o que um casarão de chácara esta fazendo ali? Parece que o tempo deixou um marco de outros tempos, de outras histórias, ponto de reflexão numa avenida que passou rapidamente do campo para a produção fabril.  

No jardim uma moça desenhou um peixe.  Lembrei da Virginia Woolf no livro Um teto todo seu tentando agarrar um peixinho/idéia que passava naquela universidade imaginária, “Oxbridge” ( mistura de Oxford com Cambridge). Ela pescou uma carpa linda ali na antiga  Chácara/ Instituto  Rogacionista!!! 

peixes que nadam peixes que se inventam

Saindo de lá, a Vidraria Santa Marina domina a quadra do outro lado da rua, mas nos fins de semana é mais um dragão de boca fechada; dormem os fornos, as chaminés?  descansam os homens. 

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 O barulho vem do Clube Santa Marina, seu vizinho anexo. Criado e mantido por seus antigos funcionários. É o fiel Santa Marina Atlético Clube com uniforme que tem as cores da bandeira francesa. Ali se produzem outros sons: apitos do juiz , gritos de felicidade, o barulho da borracha de tênis  em atrito com o piso de cimento da quadra do futebol de salão. É gente pequena e grande que enche de vida o lugar. Andar pelo clube é percorrer histórias, monumentos e bustos misturados a pura convivência dos clubes de várzea nos fins de semana. Que não morra o Santa Marina Atlético Clube, fábrica de barulhos de felicidade da Avenida Santa Marinex!!!! 

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 Saímos do clube e o movimento do trânsito assume a trilha sonora do lugar. Nosso terceiro obstáculo é passar pela Av. Ermano Marchetti e chegar na última quadra da Santa Marina, do lado de cá do rio Tietê. Jogo duro para o pedestre. A longa travessia diz muito do lugar. Talvez seja por isso, e não por nostalgia dos velhos tempos, que Dna. Neide lembra que antigamente o Caminho do Ó era mais fácil para caminhar. Parece que nada ali é feito para os pés, mas somente para carros. Nada ali é de parar e olhar, e é por isso que estamos fazendo o Caminho do Ó. Queremos buscar ainda os fios rompidos pelo progresso. Queremos dar chance para o tempo lembrar do lugar através dos nossos pés. 

obstaculo ermano

Cruzamento da Av. Santa Marina com a Av. Ermano Marchetti.

 Ali do cruzamento da Ermano Marchetti, os olhos que nos mostraram ao longe a Igreja da Freguesia do Ó, apenas nos alertam para prestar atenção ao cruzar a avenida. Neste obstáculo não há chance alguma de ver nada além dos sinais e os jogos dos corpos humanos sincronizados com a velocidade dos carros. Atravessar a Ermano Marchetti é o que importa! E assim cruzamos o grande rio de concreto. Mas, ao virarmos antes da ultima travessa que chega na Marginal do Tietê, encontramos novamente a Igreja da Freguesia Ó, bem na cara da Marginal. Deste ponto alguém viu o nome de um rio que desemboca ali no Tietê. Outra pessoa falou que os rios não chegavam no Tietê antigamente. O Tomé mostrou outra imagem em papel colorido do lugar, uma canoa dos velhos tempos, e onde estávamos, bem na água, na várzea do rio. 

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Pegamos a calçada da Marginal à direita em direção a Ponte da Freguesia do Ó. Como é difícil andar ao lado da Marginal. O barulho dos carros, a velocidade deixa a gente com medo. Acho que vou dizer que a Marginal é nosso quarto obstáculo. 

Atravessamos uma alça para chegar na ponte. Do outro lado descobrimos um negócio de gás, com cheiro de gás. Na Ponte do Ó, a mocinha das carpas mostrou uma intervenção de um grafiteiro. O melhor de caminhar com os outros é que os olhos de um ensinam os olhos do outro. Atravessamos e teve gente com medo da ponte. Nela só tem um caminho estreito para os pedestres. De um lado o rio não se mostra muito convidativo, do outro, os carros passam como uma motosserra que corta árvores sem parar. A gente se sente muito frágil ao atravessar uma ponte tão “des-humana”. 

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 Lá de cima lembro da outra ponte, a antiga, aquela de madeira que juntava as duas partes da Avenida Santa Marina. Aquela era baixa, de madeira, própria para os animais e homens. Estranho ver uma rua que acaba no rio e começa novamente do outro lado. Fica faltando uma coisa que junte o caminho. Vamos desenhar, vamos ligar os pontos?! 

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Ponte da Av. Santa Marina ligando os dois lados, Caminho antigo do Ó. 1951

 Do outro lado, os canteiros minados de gás continuam no entorno da nova ponte da Freguesia que funciona 24 horas como motosserra cortando árvores. Dá medo ainda. Faz a gente pensar que não só os carros que passam deixam o pedestre meio perdido, mas estas granadas de postes amarelos espalhados a esmo no capim verde são impróprios para o caminhante. Talvez seja isso que Dna. Neide quis dizer ao falar que antigamente era mais fácil o caminho…

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É domingo e deste outro lado da Freguesia do Ó o comércio esta todo fechado. Aqui não dormem os homens, só seus afazeres. Então vamos subindo. Leio uma placa e ela indica que estamos numa travessa da rua da Balsa. Fico feliz de encontrar com a rua exatamente no lugar que margeava o rio. Abro um dos mapas do nossa coleção do Tempo Reverso e vejo a rua desenhadinha no final do século XIX. O rio Tietê serpenteando também esta lá, bem diferente do que é hoje, retinho. De repente dou risada sozinha. Percebo que a rua inventava curvas para dar com o rio e o rio flertava com ela também. Um rio brincalhão, sem limites ou margens fixas, desalinhado, e uma rua safada, pública, que queria a todo custo encostar no rio, só podia ser uma rua da Balsa!!! 

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 Agora vamos subir. A Igreja esta bem pertinho. Mas a ladeira é íngreme. No caminho ganhamos altura. Caixas de correspondência mostram que quanto mais pra cima, mais gente mora ali. E mais a gente consegue olhar o rio e ver da onde partimos. Ai é que surge um outro obstáculo, um monte de prédios, os tais paredões de concreto que se armam como empenas cegas diante dos nossos olhos. Tem lugar que não adianta ganhar altura, porque as paredes são maiores do que os homens, mais altas até do que a torre das antigas igrejas. Quem diria que chegaria um dia em que os olhos de Deus não poderiam mais enxergar a cidade e muito menos o caminho dos homens. 

cartas

 Chegamos na Igreja da Freguesia, bem no dia da entrega dos mastros. E sem querer eu vejo anjos de asas vermelhas e escuto cânticos. E percebo que nosso esforço de caminhantes não é solitário, o lugar nos recebe com seus antigos barulhos. A Freguesia é solidária com seu passado. Os anjos de asas vermelhas ainda querem ver o céu e tudo que a vista alcança entoando cânticos em ÓÓÓÓ!!!!!  

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 Mais sobre este post:

  • Para quem quiser conhecer o livro de arte produzido por Gilberto Tomé e as demais atividades vinculadas a exposição, veja o link com orientações detalhadas de como chegar no local, dias e horários: Ó: Caminho, Estrada, Avenida
  • O filme de Livia Gabbai produzido para este evento, Linhas e Passagens: traçados da av. Santa Marina avistam a matriz,  esta sendo exibido no local da exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.

 

Precisamos olhar para a Colômbia!

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Trecho da peça “Os Inocentados”. fonte: teatro mapa

Sabe aquela piadinha do japonês que fotografa tudo quando sai em viagem, ai volta pra casa e visita os lugares pelas imagens que tirou? Pois é, tô me sentindo assim. Fui para Medellin e Bogotá na Colômbia e só vi o que o guia de turismo deixa ver. Voltei pra casa e aqui em Sampa, encontrei outras coisas sobre a urbanização de Medellin e vida cultural de Bogotá.  As fissuras da violência contida sobre a topografia urbana das cidades. E ontem, por acaso e curiosidade , comprei ingresso no SESC Pinheiros para uma peça colombiana ma-ra-vi-lho-sa, do Mapa Teatro. Sim, eles fazem algo instigante e maravilhoso. Misturam encenação teatral, rádio, cinema, arquivos de documentos e transformam tudo isso num espetáculo instigante. Eu tive a honra de ver. Foram só três dias de apresentação, mas eles voltam, tenho certeza. O importante é o que deixaram aqui pra gente fazer. Muita coisa bacana. Se a política brasileira vai mal, detonando a cidade, nossas esperanças e a vidinha miúda, há vida nos palcos aqui ao lado. Salve Colômbia e seus “Incontados”.

Foram três palcos, um sobreposto ao outro que de forma ousada mostravam cada um uma festa celebrada na Colômbia. O primeiro cenário, numa sala familiar, parece uma fotografia que começa a se mexer com uma banda formada por crianças colombianas e uma mulher mais velha. A segunda festa, é um carnaval maluco que vai puxando serpentina e loucura para a silenciosa sala domiciliar da primeira casa. Depois vem o terceiro cenário, que acontece num jardim tropical colombiano, parece uma selva onde o narcotráfico faz uma celebração particular, com músicos e um discurso  meio ficcional de Pablo Escobar. Esse terceiro cenário  é chocante e vigoroso, faz  o plano de fundo dos outros dois e o efeito da mata verde, um cantor de hip hop semi- nú no meio do jardim tropical, é incrível.
Os três cenários se misturam e a catarse da cocaína chega na casa da pequena banda mirim, que aliás abandonou a cena nos primeiros momentos da peça, só deixando na sala uma menina colombiana que assiste a tudo até o final. Pesado né?  a criança fica vendo tudo.  Quando a banda volta é pra terminar a catarse. Bom gente, é coisa pra ver, não consigo expressar a potência do espetáculo em toda  sua grandeza. Nem máquina japonesa conseguiria registrar com precisão  o que vi e ouvi. O que posso fazer é deixar o site deles, o que já fizerem, o laboratório, a maneira de construção com o lugar. Enfim, as trilhas do Mapa da mina.

Segue aqui o link do site do Mapa Teatro:

http://www.mapateatro.org/es

VIDA LOKA: Canal Motoboy

canal-motoboy

Revista Zum # 10 Canal Motoboy Daigo Oliva

 O motoboy é quase um fenômeno paulistano. Faz parte integrante das ruas da cidade  há bastante tempo. E não passa despercebido na vida dos motoristas. Causam polêmica no trânsito. Inventam faixas entre os carros. Esbarram na lataria dos automóveis sem a menor cerimônia. Parte da rua é deles,  conquistaram na raça as faixas entre os carros sem pedir nada para ninguém . 

O paulistano ama odiar os motoboys

 Quem compartilha com  eles as ruas desta cidade que tem a pressa como caráter mais aparente de sua personalidade, fica tomado de ódio.  Basta um raspão no espelho retrovisor, uma olhada para dentro do carro na hora que emparelham nos semáforos, para se estabelecer entre motorista de carro e moto um  clima de animosidade que só  pode ser compreendido por aqueles que trafegam pelas ruas de São Paulo.

O motoboy surgiu dos congestionamentos da cidade. É quase um pirata das ruas porque rouba espaço e ganha tempo. Duas coisas que os veículos de quatro rodas, tão promissores e cobiçados no início do séc. XX , vão perdendo diariamente na cidade. 

Por conta deste clima de guerra nas ruas, especialmente nos horários de congestionamentos – irônico escrever isso já que em São Paulo o congestionamento parece não ter mais horários fixos –  parar para perceber como os motoboys  vivem e registram a crônica urbana é algo extremamente desafiador.  Foi isso que Antoni Abad, artista espanhol, propôs ao criar um canal na internet, o Megafone.net, que busca dar voz a grupos  socialmente discriminados em várias cidades do mundo. Em Nova Iorque e na Cidade do México, ele entregou aos taxistas as ferramentas digitais, já em Madri, foram  as prostitutas que passaram a registrar o seu dia a dia e, em outras cidades e países,  são os refugiados e  deficientes visuais que mostram seus percursos e maneiras de ver e viver na cidade.

 Na prática a  idéia de Abad é  colocar na mão  dos grupos escolhidos um celular e ferramentas de áudio e vídeo portáteis para que possam circular livremente pelas ruas da cidade. No caso dos motoboys,  a pauta é livre, o grupo discute e se expressa  como deseja. Alguns vídeos que assisti podem ser precursores do nosso santo salvador Waze, outros denunciam situações que ocorrem nas ruas quando estão trabalhando, e outros ainda mostram que todo motoboy tem um casa, uma esposa ou namorada,  sai de manhã como qualquer trabalhador e volta no final do dia. O pirata das ruas, tão odiado nos congestionamentos, tira a armadura  de metal e volta a ser gente como a gente, e  quem não veste uma fantasia   para  sair de casa de vez em quando ?

Bom Carnaval !

 Para saber mais:

 Revista Zum #10, Canal Motoboy :  O artigo que saiu na Revista Zum que inspirou este post, quem quiser acessar segue o pdf com o texto na integra.