Histórias de guarita : encantados do Pacaembú.

Senta que lá vem história!
Da onde falo?
Das matas do Pacaembú, onde se escondem os escravos fugidos dos sobrados do centro e das chácaras de São Paulo. Outro dia vi Dona Maria Antonia procurando uma escrava já com seus 60 anos . Deve ter se embrenhado nas terras do João Ramalho. Ela anunciou no jornal por muitos dias. Queria sua escrava de volta.

anúncio na imprensa de época (1874) de Dona Maria Antonia que dá nome a rua Dona Maria Antonia em SP.

Eu não sabia que Pacaembú era tudo que vai daqui de Perdizes até a Consolação, chegando ali na Doutor Arnaldo. Isto aqui era uma única Sesmaria cortada pelo riacho do Pacaembú, que esta lá na avenida Pacaembú canalizado.Outro dia fui lá tentar por os pés no riacho, não consegui, só dá pra escutar ele correndo bravo nos dias de chuva. Tem pressa de encontrar o rio Tietê e o Tietê de tanta água que desce morro abaixo nos meses de chuva, se perde, enlouquece e, como afogado, leva tudo que vê pela frente junto com ele.

Mas o bairro do Pacaembú ainda me surpreende mais. Ao mesmo tempo que é um dos mais antigos bairros planejados da cidade, uma zona exclusivamente residencial, pode, se a gente fechar os olhos, voltar a ser aquela mata fechada dos outros tempos. Eu ando Pacaembú de Cima e Pacaembú de Baixo. Graças ao seu relevo, íngreme, a Companhia City desenhou este labirinto de ruas, com casas em lotes com bons recuos e vegetação exuberante.

O Pacaembú tem praças que brotam no meio das ruas, pomares de casas que se percebem chácaras ou grandes chalés. Os jardins exclusivos das residências reservam sonhos, os sonhos mais loucos dos seus moradores.

Quem nunca quis morar na casa dos sete anões? Quem nunca comprou os 7 anões mais a Branca de Neve e colocou no jardim? Eu tenho uma amiga que chegou a namorar uns 4 ou 5 dos sete anões pensando que era a própria Branca de Neve.

Casa também é sonho. E quem quiser ver estes sonhos que moram nos jardins, pode ir na avenida dos Bandeirantes que vai encontrar a Branca de Neve, os 7 anões, a estátua grega de delicados traços femininos e um destes faraós que habita a mata do Pacaembú. Pois é, hoje fui ver o Faraó e acabei encontrando a pessoa que resgatou-o de uma caçamba de uma das casas grandes aqui do bairro.

Uma provável família em mudança deixou pra trás o Faraó, o sonho de ser Egito, Cleópatra, Esfinge e Pirâmide. O guarda da rua resgatou o Faraó e instalou ali na praça. Mas resolveu pintá-lo de vermelho, como um bravo guerreiro , um dos orixás talvez. As guias ou os colares de miçangas foram outras promessas que ele encontrou pela rua, nas encruzilhadas das matas bem planejadas que habitam homens e seres encantados. Colocou umas no peito do Faraó e quando chegou a outra entidade, resgatada de outro final de sonho de casa, colocou nela mais guias de proteção.

http://rua olimpio catão rua Olimpio Catão rua Olimpio Catão

Perguntei se tinha algum significado religioso a cor vermelha e as guias. Ele disse que não, só achou. Mas eu sei que o não dele é um fechar-se em segredos que são compartilhados apenas com os iniciados. Para nós, os de fora, fiquemos com a proteção, as preces e um sonho feliz de cidade que nasce das mãos de quem sabe plantar, ter guias e proteger-se. Aperta o play e vamos de Olodum!

Para quem quiser saber mais:

Este texto reune conteúdos sugeridos de amigos do Facebook, obrigada!

Pra quem quiser ir lá, a localização do Faraó no google maps é rua Olímpio Catão: google maps.

Este post tem trilha sonoro indicada pelo João Sirangelo: Olodum recomenda-se durante, depois ou relendo o texto : Faraó Divindade do Egito

Cuidado, você pode se contaminar: uma epidemia de memórias ronda as ruas da cidade.

print do Geosampa com aba para patrimônio cultural/ inventário de memórias paulistanas

Para quem afirmava que São Paulo não tem memória, desabafo comum de muitos paulistanos que voltam de viagens às  cidades europeias  e ficam deslumbrados com o dinamismo do patrimônio cultural de lá, aqui vai uma boa nova. A cidade considerada desmemoriada , sem rosto definido, está mudando de caráter e já faz algum tempo. 

Apesar de uma parcela bastante expressiva destes turistas que amam o bem comportado patrimônio cultural europeu ainda não se aventurarem pelas diversas atividades que já se anunciam na querida Paulicéia. Temos notícias de que  muita gente que se jogou na experiência de conhecer sua própria cidade,  encantou-se  com a aventura  de  embrenhar-se  em universos visíveis e invisíveis que São Paulo oferece em sua extensa malha urbana.

É desta nova onda de cultura urbana presente nas ruas, de memórias às mais diversas, que São Paulo começa a se livrar da pecha de não ter passado.  Com caráter bem diverso de suas irmãs europeias, porém na esteira das inspirações destas  quanto a liberdade de se apropriar das ruas e do prazer de vagar para além dos fluxos diários ditado pelo trabalho, o turista-cidadão descobre-se a cada dia  um viajante  integrando-se das formas mais variadas na identidade urbana de São Paulo.

Desalinhada. Só Sampa. De beleza complexa. Com aspectos dissonantes, sem dúvida.  Com falta de coerência arquitetônica, com certeza! Cidade de expatriados,  refugiados, nordestinos, imigrantes. Da diversidade de gênero.  De poucos ricos e muitos  pobres. Cidade do hip e do hop e  da periferia insurgente também.  É desta cidade, muito diversa do “sonho feliz de cidade”, que surge uma rede criativa e potente de narrativas que talvez explique a espantosa  surpresa  de vermos  surgir  uma epidemia de memórias que se espalham  em forma de pílulas  azuis sendo fixadas do ponto de vista do pedestre  nos muros,  nas fachadas de casas, lojas e nas instituições públicas e privadas.

Campos de Várzea na Vila Manchester. Nessa região se concentraram 7 campos e inúmeras equipes. Em 1968 deu lugar a este centro esportivo. foto DPH/ Instagram

Na verdade, esta  epidemia faz parte de um  projeto da secretaria municipal de cultura de colocar nas ruas placas com  registros de memórias às mais diversas, surgiu em 2019 como parte  do “Inventário de memórias paulistanas” promovido pelo Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) com a colaboração da sociedade civil. 

A  simpática plaquinha  azul, circular, com um título e cinco linhas explicando do que se trata o registro de memória naquele local, vai se fazendo presente  nos logradouros públicos rapidamente. São muitas no centro da cidade, mas já se tornam bem representativas nas áreas  mais periféricas também. São singulares e falam de grupos, feitos, ritos, esportes amadores, cinemas e religiões que dizem respeito às várias maneiras de  habitarmos a cidade ao longo dos séculos. São feitas de memórias que muitas vezes desapareceram por conta da velocidade das  transformações do espaço urbano, mas que  calam fundo nas narrações de quem ficou para contar. São feitas de dores, coisas difíceis de lembrar, mas que precisam ser ditas, porque recuperam  momentos, formas de agir, cicatrizes importantes que as futuras gerações não podem esquecer na garantia dos nossos direitos humanos.

Para mim, esta epidemia de   plaquinhas azuis, além de uma surpresa muito bem vinda,  consolida o resultado de um investimento nas memórias da cidade que vem sendo feito em São Paulo há alguns anos por vários gestores culturais. 

Não dá para esquecer o SESC que muitas vezes faz o papel de vanguarda das experiências no território urbano. Seu estímulo  no que é novo e diverso,  é exemplar para que outras instituições passem a replicar ou integrar propostas que não vingariam sem sua chancela inicial.

A universidade é outro braço deste investimento de memórias no território urbano que opera numa via de mão dupla. A presença dos pesquisadores que pouco a pouco vão perdendo a vergonha para botar nas ruas assuntos complexos da forma mais palatável e, de retorno destas vivências , passam a ter o espaço urbano como um nova ferramenta pedagógica importante no seu percurso acadêmico.

 Finalmente, não posso deixar de falar do próprio  Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) , aquele que é o curador  oficial  do patrimônio cultural da cidade. O órgão  vem mudando de caráter a fim de expandir as memórias paulistanas  e valorizar as várias narrativas que uma cidade destas dimensões compõe de forma coletiva. 

Há alguns anos o  DPH, que historicamente se caracterizou por um viés mais técnico, voltado para a análises e gestão do patrimônio cultural da cidade, ampliou suas prerrogativas na maneira de preservar e manter viva as referências culturais da cidade.  Prova mais cabal disso é a bem-sucedida  Jornada do Patrimônio. Num fim de semana por ano a cidade oferece à população um ir e vir pelo passado através de percursos, discussões, cursos de curta duração e  visitas em imóveis tombados . 

Nestes dois dias  dedicados à memória coletiva da cidade, pesquisadores, guias turísticos,  coletivos e outras instituições públicas e privadas vestem a camisa da Jornada do Patrimônio para receberem a população. É um sucesso absoluto. 

No caso das placas, são 466 histórias que estão sendo fixadas pelas ruas da cidade que descendem destas várias experiências primárias de parcerias com a sociedade civil. E isso faz uma diferença enorme nas memórias que estão indo para as ruas. Não se trata  de colocar placas apenas no patrimônio já eleito historicamente, porém pouco sinalizado, mas de integrar as memórias da cidade nas nossas memórias:  os vários registros vernaculares, os modos de habitar e  viver que passaram ao largo de estilos arquitetônicos ou expressões artísticas consagradas. 

Para quem quiser saber mais sobre as plaquinhas azuis, vale a pena acessar o link que o DPH indica para o mapa digital da cidade de São Paulo, o Geosampa, e  fazer um passeio virtual  pelos pontos/placas já fixadas na cidade. É bem fácil visitar, basta entrar na página do DPH  através do Instagram. No perfil do DPH clique em linktree/dphconpresp. Ai selecione Geosampa.

O mapa digital é uma ferramenta  muito legal e um ótimo jeito de caminhar pela cidade nestes tempos de isolamento.

Da minha parte, eu  espero que  esta epidemia de memórias seja apenas o começo de uma onda crescente, endêmica mesmo, de novos investimentos nas tantas narrativas que a cidade compõe. Depois que a vacina chegar, com certeza,  você já tem um monte de roteiros para fazer pela cidade. A gente se cruza num deles. Até lá! 

Saber mais: 

Resolução que deu origem ao Inventário de memórias paulistanas

Geosampa – mapa digital da cidade de São Paulo

As fotos deste post são do DPH/ Instragam

Luto por Mithes Bernardes: autora do piso mais famoso de São Paulo!

O versão paulo esta de luto pela morte da criadora da calçada mais famosa da cidade. Não existe imagem-título porque a fotografia já esta dada, é a calçada do cabeçalho do versão paulo mesmo. Esta que é a cara da cidade, chão que foi criado por uma funcionária pública de carreira para as calçadas da cidade.

Nesta última Jornada do Patrimônio Histórico de dez/20, fui ao passeio da minha amiga Wans Spiess, do Calçada SP. Fizemos um percurso que foi da praça da República até a praça Roosevelt observando pisos e pensando os caminhos dos pedestres da cidade.

Foto Jornada do Patrimônio Histórico 2020

Mirthes foi com a gente o tempo todo, seja no chão que pisávamos , seja na possibilidade da Wans trazê-la para falar sobre o piso que criou quando era funcionária pública de carreira. Pelo que entendi vai ter uma placa azul com a devida autoria do piso ali nas proximidades da av. São Luiz em breve.

Gosto de repetir várias vezes que Mirthes Bernardes era funcionária pública porque as pessoas não imaginam quantas coisas os funcionários públicos de carreira já inventaram para a cidade de São Paulo. E o pior é que a maioria destas invenções passam totalmente despercebidas. Neste caso não foi diferente, Mirthes criou o piso, ganhou concurso e prêmios por seu trabalho, porém o nome dela pouco é citado quando se fala da calçada símbolo de São Paulo.

Quando em 2017, o coletivo PISA: cidade+ pesquisa, assumiu sua nova identidade deixando de ser SP Safari, ficamos semanas buscando um nome que desse conta do que éramos. Lembrei até de quando meu filho nasceu, eu acho que ficamos mais de mês sem registrar o Marcelo em busca de um nome que se ajustasse a exata presença deste projeto de futuro.

O PISA foi assim também, ele tinha que ser mais feminino do que masculino, mais fácil de pegar e muito próximo de nossas ações. Levantamos um mundo de nomes, até que chegamos no piso da Mirthes Bernardes. O Renato Cymbalista, sugeriu que colocássemos o nome dela, mas acabamos no piso, e do piso chegamos em PISA do verbo pisar. O que fazemos o tempo todo nos nossos percursos pela cidade.

O versão paulo também tem sua história com o piso criado por ela, começou no primeiro percurso que fiz com grupos pelas galerias comerciais do centro novo, aquela região que hoje todo mundo conhece como República, mas eu sou vintage e preservo a referência centro novo em contrate com o antigo. Quando chegamos na Galeria Metrópolis e olhamos do segundo andar em direção à av. São Luiz, esta fotografia com o homem do realejo pisando na calçada da Mirthes foi captada pelo fotógrafo Alexandre Kroner. Acabou sendo o início de um novo caminho pra mim, o blog versão paulo. Eu adoro a foto e não canso de olhar o homem do realejo com sua gaiola amarela em contraste com o piso da Mirthes, um luxo!!

Eu acho que tudo que anda sobre o piso criado pela Mirthes torna-se elegante. Será que ela também pensou nisso ao criar o piso símbolo de SP?

Tem conversas que a gente não faz no tempo de vida das pessoas, ou porque perdemos o time na pressa de dar conta de tantos assuntos da cidade, ou ainda, porque deixamos passar as merecidas homenagens e lembranças que tivemos ao longo dos nossos percursos pessoais e coletivos para dar relevância ao que se materializou.

Eu acho que foi o que ocorreu com ela, o piso se sobrepôs a criadora. Merecia ter escutado mil vezes o nosso obrigada Mirthes Bernardes por ter feito com o erário público, no exercício de sua profissão, este desenho maravilhoso para a gente pisar com elegância e criar tantos caminhos significativos pela cidade.

Ainda assim, sem ter feito isto em vida, gostaria de agradecer porque não tem ninguém que passe por seu piso sem sentir que anda por uma passarela.Muito obrigada por deixar este presente elegante nas nossas calçadas públicas.

Vai em paz Mirthes Bernardes !!!

Mais sobre as homenagens a Mirthes Bernardes:

Coletivo PISA: cidade + pesquisa veja homenagem Mirthes Bernardes

Calçada SP Homenagem a Mirthes Bernardes

Entrevista da CBN com Wans Spiess onde ela dá detalhes da maneira como Mirthes ganhou o concurso e a dificuldade de reconhecimento sobre o piso paulista ao longo de sua vida.

Finados: dia de lembrar dos nossos antepassados.

Cemitério dos Protestantes – Fazenda Ipanema. fotografia Gilberto Antunes

A primeira vez que conheci um cemitério foi quando era criança. Na verdade não conheci, fui dar uma volta no mato e acabei entrando num lugar abandonado e repleto de cruzes. Infelizmente não tenho como provar. Crianças se aventuram, descobrem coisas e dão gritinhos de felicidade.

A partir de então passei a gostar desta plantação de defuntos que em cada lugar é cultivada de formas muito próprias .

Os cemitérios nunca mais me abandonaram. Desde uma básica visita em viagens turísticas, um lugar silencioso na cidade para passar o tempo ou nas pesquisas que faço.

Eu acredito que os mortos falam!

Foi assim que anos atrás me deparei com algo bastante curioso em Cubatão (baixada santista de São Paulo), um cemitério particular israelita anexo ao cemitério municipal da cidade.

A coisa se deu quando trabalhava no Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo (DPH). Iniciava a coordenação de um inventário dos cemitérios municipais da cidade. Acabara de finalizar uma busca insana de processos de leis, atos e decretos que me custaram risadas maliciosas dos colegas por ignorar o peso dos processos que antecedem a formulação das leis. O resultado foi que uma ingênua lista de duas páginas sobre a legislação dos cemitérios da cidade se transformou como por encanto numa kombi lotada de papeis. Ao longo de dois anos este mundo de processos ocupou todos os buracos vazios da sala onde trabalhava.

Naquele mesmo momento caiu na minha mão um artigo sobre um cemitério judaico em Cubatão. Era um cemitério muito diferente, só de mulheres e homens ligados ao tráfico de prostitutas judias.

Através de um livro que acabara de sair, Baile de Máscaras de Beatriz Kushnir, soube que estes cemitérios eram os únicos vestígios materiais de uma história muito maior sobre a vinda de mulheres muito pobres e de origem judaica para as Américas. Quem fazia todo este agenciamento de mulheres nas pequenas aldeias onde os judeus moravam, eram homens de origem judaica também. Na verdade existia uma organização bastante complexa de agenciamento destas mulheres na Europa Oriental e sua vinda para cidades como São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Manaus e tantas outras.

Fazer América

Aqui na América este grupo de imigrantes acabou por criar associações que garantiam a seus membros sinagogas e cemitérios já que a comunidade judaica mais ampla negava a estes seus lugares sagrados. As sinagogas desapareceram da paisagem das cidades deixando poucos vestígios, porém alguns dos seus cemitérios sobreviveram em cidades como Cubatão, Rio de Janeiro e Buenos Aires.

Cemitério israelita de Cubatão. Fotografia tirada em 2017

Resolvi então visitar o cemitério israelita de Cubatão. Passei o dia entre lápides e vistas da cidade. Um monte de chaminés, uma fumaça constante que subia e se misturava à neblina da Serra do Mar rodeava o cemitério israelita de Cubatão. No mesmo dia conheci Evânia Martins, estudante de história à época que havia feito sua monografia de finalização do curso sobre o tal cemitério israelita da cidade. Como contou a jovem historiadora, cada aluno deveria escolher um assunto referente a sua cidade e abordar seus aspectos históricos.

Negando-se a falar do caráter mais conhecido de Cubatão, suas indústrias e a má fama da cidade mais poluída do Brasil, a jovem pesquisadora escolheu uma outra abordagem que também fazia parte da história da cidade, a presença do misterioso cemitério israelita. Lugar sempre presente em seus percursos, mas que causava curiosidade aos olhos dos habitantes locais por fechar-se em símbolos e inscrições em hebraico que nada tinham em comum com o que se via na maior parte dos cemitérios.

Um outro caminho pra falar de Cubatão

Gostei do fato que sua escolha buscava um outro caminho para falar de Cubatão. Ao contrário das tradicionais cruzes, a jovem historiadora deparava-se com as estrelas de seis pontas. Ao invés das quatro direções certeiras dos pontos cardeais, teríamos, ela e eu, que enfrentar agora seis direções diferentes, sendo que umas levavam para a história de Cubatão e outras para a minha própria  origem judaica.

Algum tempo depois vim a conhecer a autora do Baile de Máscaras. Ela então entrou em contato comigo pedindo ajuda para dar busca numa lista de nomes desaparecidos dos túmulos de um outro cemitério israelita ligado a este grupo de imigrantes aqui em São Paulo, desapropriado nos anos 70.

Cemitério israelita de Santana desapropriado nos anos 70. Fotografia de Izak Vadergorn. Anos 70.

Os corpos à época foram trasladados do seu cemitério original em Santana, anexo ao municipal, o “Chora Menino”, para o cemitério israelita do Butantã e estavam sem nomes porque na passagem de um cemitério para o outro a  lista que identificava os restos mortais havia desaparecido.

Uma lista de nomes desaparecer e ficarem ali as sepulturas sem nenhuma identificação por tanto tempo?

Cemitério israelita do Butantã. Paula Janovitch. 2000

Aquilo de fato era algo muito singular. Uma lista de nomes desaparecer e ficarem ali as sepulturas sem nenhuma identificação por tanto tempo? Enfim, são os silêncios da história que muitas vezes só à entrada da investigação histórica pode dar conta de fazer novas revelações sobre fatos passados. Entendo que o livro publicado da Beatriz, assim como outros estudos que estavam se fazendo à época como o de Jeffrey Lesser, O Brasil e a Questão Judaica: imigração, diplomacia e preconceito (1995) e de Margareth Rago, Os prazeres da noite: prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo (1890-1930) (1991) “provocaram” este interesse em procurar os nomes perdidos nos anos 70 para colocá-los no devido lugar trinta anos depois.

Os orgãos públicos sofrem de um fenômeno muito interessante e emblemático, a tal burocracia que gera excesso de documentos e um certo funcionamento moroso que muitas vezes faz tudo demorar quase à eternidade, no caso deste grupo de imigrantes, acabou surtindo um efeito positivo. Uma outra lista foi achada nos sagrados processos que lotaram aquela kombi da prefeitura e este outro original  foi entregue a Chevra Kadishá ( sociedade mantenedora do cemitério judaico), para que identificasse as lápides sem nomes.

lista de nomes encontrados na legislação municipal. Paula Janovitch. 2000

Foi feita uma cerimônia no setor  N em meio às quatro fileiras de lápides anônimas do Butantã. A Chevra Kadisha convidou um Chazan (cantor) e o Rabino Sobel para realizarem um tipo de reinauguração das sepulturas com seus respectivos nomes. Havia poucas pessoas, mas a cerimônia foi linda. Talvez um dos raros momentos em que tudo faz sentido.

As seis pontas da estrela de David ainda seguem ditando direções que por vezes me confundem. Firmo uma ponta e outra escapa do meu controle. Me agarro em três de uma vez e as outras três ficam soltas. Elas não são tão fáceis de definir de uma vez. Vejo que, por vezes, me apontam bem mais pra trás, lá onde moram meus antepassados e como é difícil compreender este silêncio dos mortos.

Mas sei também que lá no céu, entre meus mortos familiares, quando vou ao cemitério, acendo uma vela para o meu pai e agora outra para a minha amiga Lú e, do túmulo dela, tenho uma boa vista do setor N. Penso que as “polacas” são outras tantas estrelinhas que estão no céu. Eu acho que elas brilham pra mim e eu pisco pra elas também. E assim a vida segue…

Cemitério israelita do Butantã. Dia em que foram incluídos os nomes nas sepulturas do setor N. Lú,Claudia, Soninha e eu. 2000

Feliz dia dos mortos!

Estação Deodoro, saudades!

Grafiti no final da avenida Paulista

Para alguns a insuportável espera deu lugar ao estouro da bolha. Impossível ficar parado. Para outros, como eu, a espera foi cuidar da casa, da minha mãe e me perder de modo muito dolorido na ausência da minha grande companheira de vida, a cidade. É com ela que eu vivo, me alimento, sou solidária, me sinto acolhida e surpreendida. Sabe aquele amor que te mostra coisas diferentes quase sempre? É desse tipo de sentimento que se trata. A cidade é esse lugar que junta vida, sonho e trabalho. Fiquei exilada dela, de toca-la, de senti-la, de estar entre as pessoas anônimas conhecendo intensamente maneiras de viver e estar no mundo que não são minhas, mas que aprendo e passam a ser maneiras em que as gentes outras me habitam.

Primeiro de outubro de 2020! Quem diria que se passariam tantos meses de confinamento. O sentimento de espera, de estar em pausa deixou de ser temporário e passou a ser modo de vida. O tempo suspenso armou suas artimanhas.

Como não lembrar das vitrines da Augusta, das bundas e peitos das manecas vestidas de panteras e tigresas, amo! Como não me surpreender com os olhos que colaram do reflexo de uma publicidade na loja do Plas no baixo Augusta.

Como não ter saudades de entrar por galerias comerciais do centro fazendo como Gilberto Gil quando canta o Carnaval no Pelourinho em Salvador: entra em beco, sai de beco…

Galeria 07 de abril – centro SP

Como não ver as pedras das calçadas e ler nelas os vestígios dos dias, a história desgastada, os buracos e perigos de quem anda flanando porque apesar da rua ser fluxo, ela pra mim é passeio, é vida e encruzilhada.

Piso do Pateo do Colégio – passeio pela história das pedras de SP.

Pois bem, ainda espero voltar pra rua. Ainda espero poder caminhar livremente e chegar perto das pessoas. Agora sei mais do que no início de março quando estar na rua passou a ser risco de vida e o medo do desconhecido paralisava a gente. Entendi que não será de um dia para o outro que a vida vai retomar o que era até então. Não será sem um tipo de naturalização de usos e hábitos que fomos adquirindo nesse tempo de isolamento que vamos retomar a vida fora de casa. Talvez máscaras coloridas no lugar do batom. Quem sabe álcool gel misturado com perfume.

Saudades da Estação de metrô Deodoro, te adoro, me espera que eu volto já!! Bj Sampa

Não sei como esta minha cidade, não sei como vai a República, nem a livraria que vou num prédio escondido do centro, nem a Galeria Califórnia onde fica a Ótica Ypê, nem os meus baixos do Minhocão, não vejo faz um tempão.

Saiba mais:

P.S: No final deste pequeno texto que escrevi de madrugada no FB de quinta para sexta, chegou no outro dia um comentário publicado no FB do site São Paulo Antiga. sobre a Plas dizendo que fechou, esta saindo da rua Augusta, parece que vai para o Morumbi. Paula Gabbai passou lá na Augusta hoje e me mandou a fotografia que segue no texto. Coloquei uma outra que tirei em 2012 e a o efeito do reflexo da loja à frente dela que coloca olhos na vitrine da Plas. Mesmo com o “Entre” fechado, os olhos permanecem lá acompanhando a Plas fechada. Muito triste.

Experimentando a cidade com o coletivo PISA: Memórias do chão que a gente pisa e dos rios que a gente não vê!

Projeto Versão Paulo – painéis expositivos- fonte ESP 22 jan.21/Voltolino

O Coletivo Pisa em parceria com a Escola da Cidade oferece no primeiro semestre de 2020 uma série de Cursos Livres  organizados em três blocos temáticos. Os cursos estão abertos para  estudantes da Escola da Cidade e interessados em geral, basta entrar no site da Escola da Cidade e se inscrever para caminhar com a gente! (ec.edu.br).

O primeiro bloco que vamos colocar na rua acontece agora no mês de março, nos dias 21 e 28, dois sábados seguidos. Nada por acaso  Memórias do chão que a gente pisa e dos rios que a gente não vê, são dois  percursos  que ocorrem logo depois da estação das chuvas, momento em que  tanto o calçamento como as águas da cidade tornam-se  protagonistas do dia a dia dos paulistanos. 

Nas Memórias do chão que a gente pisa, Wanessa Spiess nos  coloca para olhar os diversos calçamentos da área central da cidade, o célebre piso do Estado de São Paulo, algumas intervenções artísticas em calçamentos emblemáticos do centro, as novas iniciativas privadas quanto a gestão de algumas  ruas, assim como, problematiza a histórica gestão pública na implantação e manutenção do calçamento urbano.

Já nas Memórias dos rios que a gente não vê, Marília de Castro Garson procura nos sensibilizar  para a presença fluvial subterrânea da cidade, percorreremos alguns rios presentes nos subsolos da área central da cidade e resgataremos aqueles  que passaram por nossas vidas e moram nas lembranças. Eu lembro quando pela primeira vez entrei num edifício da av. São João e vi com ajuda de uma  lanterna um pouco do rio Anhangabaú, seu barulho e  águas transparentes, nunca mais esqueci! Também serão abordados neste percurso as várias iniciativas de organizações e coletivos em revelar e preservar os rios visíveis e invisíveis da cidade de São Paulo. 

Quanto as duas guias deste primeiro bloco de percursos do PISA, Wanss e Marília, só posso dizer que conhecem muito do tema proposto e adoram compartilhar destes achados quase invisíveis que fazemos nas pesquisas acadêmicas, transformando aquilo que a gente não vê, por onde pisamos todos os dias, em histórias de todos nós. Quer mais que isso?

Aguarde os próximos posts com detalhes dos outros percursos do Experimentando a cidade com o coletivo Pisa em parceria com a Escola da Cidade. Vamos virar a cidade do avesso!

Wanessa Spiess faz  mestrado na FAU/Mackenzie, pesquisa o uso e ordenação do calçamento urbano de São Paulo. Há alguns anos  faz percursos pela cidade com o CalçadaSP. 

Marília de Castro é formada pela FAU/USP. Profunda estudiosa da história da evolução urbana de São Paulo. Já desenvolveu vários  percursos com o PISA  que abordam a questão dos rios da cidade de São Paulo.

Os dois percursos do bloco 1 vão ocorrer na parte da manhã e cada um tem duração de 3 horas.

Mais informações sobre inscrições, horários e os outros  blocos de percursos propostos pelo PISA em parceria com a Escola da Cidadeec.edu.br

Bloco 2

18/04 a  25/04 – Imigrações e Segregações: de Santa Ifigênia ao Bom Retiro  com Paula Janovitch, Stephanie Guerra e Giovanna Fluminhan (3 hs de duração 2 sábados/manhãs)

Bloco 3

09/05 a 23/05 – Espaços de violência estatal e processos de memorialização com Rebeca Lopes Cabral, Wanessa Spiess e Deborah Neves (2 hs de duração 3 sábados/manhãs)

Paula Janovitch

Finados na cidade

Capa do livro de Fernanda C. Marquetti

“Bendito sejas, Viaduto Paulista! Sem tu não  poderia passar desta para melhor, embalado pela brisa que te circunda. Adeus! Até para a eternidade és o passadiço de útil eficiência!”

A citação acima nada mais é do que um bilhete  achado no bolso de um suicida que , segundo Paulo Cursino de Moura, pulara do nosso querido Viaduto do Chá. O caso seria só  folclórico se o assunto morresse aí. Porém, através do livro  de Fernanda Cristina Marquetti, O suicídio como espetáculo na Metrópole, fica-se sabendo que o ato de dar cabo a própria vida,  quando cometido   num lugar público, adquire nuances diversas de espetáculo. Um dos palcos históricos mais procurados na cidade de São Paulo para esta representação final da vida foi  por muito tempo o tradicional Viaduto do Chá.

O suicídio em si já gera uma enorme polêmica. Haja vista o caso recente do co-piloto que se trancou na cabine do avião e fez seu gran finale levando consigo todos os passageiros. Inúmeras explicações podem ser dadas para o que leva um sujeito a fazer isto e, neste caso, levar com ele tanta gente. 

O livro da Fernanda de fato não está muito preocupado em compreender e sugerir profilaxias sociais para os suicídios. O que interessa para a autora, e isso que eu achei muito original,  é perceber como o suicídio ao tomar o espaço público nos desloca  do universo privado, onde historicamente tornou-se o lugar  de expressarmos  nossas emoções e sentimentos, para ocupar de forma radical e espetacular o espaço público. 

Não é por mero acaso que a autora faz referência ao livro de Richard Sennett, O declínio do homem público, ao comentar sobre este caminho do homem urbano para dentro de si.  A  intimidade , os amigos nem tão próximos, passam a ser o ambiente mínimo de referência dos indivíduos. É na intimidade que se colocam todas as fichas para que o homem cumpra esta difícil tarefa de se estruturar e sentir-se parte da coletividade numa grande cidade. Porém, este investimento na vida íntima também demonstra que algo se esvaziou no espaço público, lugar que até então dava estrutura ao homem urbano. 

Comenta a autora: o espaço público não está mais disponível para sustentar as manifestações de dor ou prazer. Das vivências de sociabilidade como o lazer, práticas políticas, consumo, religião à experiência da morte há uma tendência para tudo voltar-se para o domínio do privado.”( Marquetti,2011, 56)

A opção de pensar o suicídio num lugar  público da cidade levou a pesquisadora a cercar a questão através de diversas estratégias de abordagem. Uma das mais relevantes foi selecionar as instituições que  lidam com a morte por suicídio na cidade e partir para entrevistas com seus representantes.

O metrô, por exemplo, é um dos lugares mais utilizados para as pessoas cometerem suicídios “eficientes”. Porém, apesar de taxas elevadas, não há divulgação alguma sobre o número de óbitos que ocorrem nos subterrâneos da cidade pois a empresa de transportes acredita que isto atrairia outros suicidas ao local. Por outro lado, existe um dispositivo para evitar os suicídios assim como toda uma organização para minimizar a questão quando ocorre. E isto também parece muito emblemático. Que tipo de sociedade nos tornamos que precisamos eliminar e deixar distante do nosso convívio uma condição que faz parte da existência de qualquer ser vivo? Será que não viveríamos melhor se a condição da morte convivesse de forma mais próxima no nosso cotidiano?

Acredito  que foram estas questões  que  Fernanda Marquetti  tenta responder neste seu livro. Através do levantamento de informações e mapeamento de lugares onde se deram  estas mortes por suicídio, a autora pôde perceber as tais nuances extremamente interessantes para compreendermos melhor como se vive e como se morre na cidade de São Paulo ao  levar para o espaço público um assunto tão controverso, o ato de dar cabo da própria vida!! That is  the question!

Para saber mais:

Fernanda Cristina Marquetti, O Suicídio como Espetáculo na Metrópole. Ed FAP- Unesp. 2011

Richard Sennett, O Declínio do Homem Público, . Ed. Record. 2014

Cada tempo tem seus guias!!!

Um  novo guia da cidade acaba de sair do forno aqui em São Paulo. O Guia dos Lugares Difíceis de São Paulo nasce de um longo processo de construção e compreensão da exploração do território urbano e da possibilidade de problematiza-lo de maneira profunda para fora do ambiente acadêmico. É indiscutível seu pertencimento às novas abordagens sobre a cidade. Como  explica Renato Cymbalista: “este é um guia  que apresenta o território como um conjunto de problemas em aberto, que busca escavar a superfície para revelar feridas ou reabrir cicatrizes”. 

São 143 verbetes de lugares da cidade que foram escritos e devidamente problematizados por um coletivo de autores. Pra quem lê o título do  guia, lugares difíceis,  logo pensa,  pra que vou querer saber de lugares difíceis da cidade? Mas aí vem a curiosidade desta proposta desbravadora de olhar aspectos dissonantes  da cidade que até hoje não integraram guia algum. Você provavelmente vai abrir o livro pra conferir se os lugares difíceis são fáceis ou difíceis mesmo. Talvez se surpreenda com a foto da capa, o Monumento às Bandeiras. Ele  é um dos verbetes que esta na categoria dos “difíceis lugares fáceis”, basta ver a mancha vermelha que cobre o monumento que alguns vão entender que de fácil ele não tem nada mesmo. Se você quiser continuar na categoria dos que parecem fáceis e conhecidos, porém são bem difíceis, pode se aventurar pelo Pátio do Colégio, o Vão Livre do MASP ou ir lá para a Avenida Faria Lima. 

O que te digo caro leitor, é que você vai se surpreender com aqueles que você nunca imaginou serem difíceis, os considerados cartões postais da cidade, à aqueles que você nem poderia imaginar possuírem tamanha complexidade. E, para além disso, vai conhecer a cidade de São Paulo por suas entranhas mais profundas. 

As dificuldades dos lugares foram organizadas por categorias; Segregações, Resistências, Invisibilidades, Morte, Moradia, Urbanos difíceis, Violências de Estado, os Difíceis Lugares Fáceis e  Outros Lugares Difíceis. O guia também trás um mapa que se divide em duas páginas inteiras, onde todos os 143 verbetes estão marcados para facilitar sua localização espacial. 

Quer conhecer São Paulo de verdade? Então está convidadíssimo para o lançamento do Guia dos Lugares Difíceis de São Paulo que será no dia 09 de novembro de 2019, na Casa do Povo, a partir das 16 horas. Espero você lá. 

Guia dos Lugares Difíceis de São Paulo(Coordenação Geral) Renato Cymbalista, ed. Annablume. 2019 Casa do Povo:  rua Três Rios, 252 – Bom Retiro

Para saber mais:

Recomendo o post do Versão Paulo sobre o início destas conversas sobe Lugares Difíceis aqui em São Paulo em 2006: Memórias Difíceis: espaços de reclusão na cidade.

É tarde, mas ainda temos tempo: exposição de Ana Teixeira no Maria Antonia

Dia 29/08, uma quinta-feira,  fui num bate-papo com a artista Ana Teixeira. Ela esta com uma exposição no Centro Universitário Maria Antonia, “É tarde, mas ainda tempos tempo”. A imagem que segue aqui vem com uma integração minha à exposição da artista, a toalha de mesa de chitão de casa. Exatamente um movimento dela na forma como cria seus trabalhos. O outro é sempre parte central de seus projetos. E o espaço público seu foco de ações. 

A exposição mostra vários projetos de Ana ao longo de 20 anos com estes outros e outras sem X. 

Conforme segue nota do texto de abertura da curadora Galciani Neves: “optou-se por abandonar o uso do ‘X’ como linguagem supostamente neutra para flexão de gênero, pois é impronunciável, e, portanto, inaplicável à linguagem falada. Na tentativa de escrever de maneira não sexista, a redação do texto adere ao uso do ‘e’. “ 


Sim, a exposição lida com questões de gênero também. Tem um enorme painel sobre uma das últimas ações de Ana ali mesmo na rua Dona Maria Antônia em que foram representadas 40 mulheres com frases curtas instigadas pela pergunta “o que você não quer mais calar?”. E vieram muitas respostas que estão ali expostas em placas levantadas por mulheres.

 As frases fazem pensar por serem corriqueiras, tão justas, desnecessárias talvez, mas estão ali se repetindo e se repetindo como em qualquer processo de transformação e conquista de novos territórios. Um dia talvez a artista volte pra rua e elas se tornem raras de tão óbvias ou ainda Ana nem faça mais esta pergunta. 

Há ainda os projetos:  Empresto meus olhos, Identidades trocadas e uma captura infindável de grafites com frases das ruas que acompanham a vida da artista. Disse ela: “chega a ser perturbador porque tenho que ler tudo na rua, até uma frase que dizia, ’burro é assim mesmo, tudo que vê lê!’ “

De fato a rua fala com a artista que tem a palavra, a voz do outro, como seu principal protagonista. As trocas entre a artista com estes outros se revelam através destes  infindáveis projetos de instigar a presença das pessoas a conversarem com ela e fazerem trocas de identidades, de palavras, de gêneros e paisagens. Não é por nada que o desenho de frases numa linha sutil acompanhe toda a exposição. A palavra para Ana é corrente. 

foto da exposição “É tarde, mas ainda temos tempo”.


Ainda há um manual bárbaro de ações ou instruções para que estas ações com os “outres” aconteçam:

 1. Coleta de espécies locais

 2.Outra identidade

 3. Escuto histórias de amor

 4. Escute!

5. Troco sonho

O kit de folhetos que forma o pequeno manual  para ações está disponível  para o público levar. Da minha parte  vou colocar o meu manual em uso rapidinho. 


“É tarde, mas ainda temos tempo”. Corre lá no Centro Universitário Maria Antonia que a exposição fica em cartaz até 29 de outubro de 2019. 
http://www.mariantonia.prceu.usp.br/…/e-tarde-mas-ainda-te…/

Prostituição e confinamento na cidade de São Paulo: um percurso pela antiga zona do meretrício do Bom Retiro( 1940-1953)

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Rua Césare Lombroso. Fotografia de  Matheus Cripa Rocha/2019

Quem passa pela movimentada rua José Paulino, dificilmente pode imaginar que em duas acanhadas ruas paralelas que se fecham no paredão dos trilhos dos trens  que dividem os bairros de Campos Elíseos e Bom Retiro, houve durante treze anos uma área de confinamento de prostitutas na cidade de São Paulo. A zona do meretrício do Bom Retiro localizava-se bem ali, entre as ruas Aimorés e Césare Lombroso. Nas palavras do escritor João Antônio era o U do Bom Retiro.

Toda esta história aconteceu no Estado Novo, período em que São Paulo foi governada pelo interventor Dr. Adhemar de Barros. Justificava-se à época que a prostituição havia se espalhado pela área central da cidade perturbando a vida das famílias e do comércio fino. Era necessário “limpar” o centro.  A ideia  foi escolher um lugar numa outra região da cidade nem tão longe e nem tão próxima da convivência com as famílias e o comércio. Nos anos 40, acreditava-se que os homens tinham necessidades sexuais diversas das femininas e estas  deveriam ser toleradas. Aliás é do sentido de tolerância que o Estado conferiu aos antigos  bordeis o termo “casas de tolerância.”

era aqui o posto da injeção

Rua Aimorés. Uma das paradas do grupo para mostrar imagens da rua nos anos 40. Fotografia de Matheus Cripa Rocha/2019

O confinamento das prostitutas, num lugar determinado da cidade, também significou que pela primeira vez o Estado  regulamentou um espaço de controle, vigilância sanitária e policial sobre a vida e o corpo destas mulheres.

Há muitas discussões sobre os motivos que levaram o Dr. Adhemar de Barros em  escolher o Bom Retiro como local  mais apropriado para instalar a zona de confinamento de prostitutas da cidade. Alguns interpretam que a eleição do bairro foi uma maneira de controlar melhor os estrangeiros  ali presentes colocando  um elemento desarticulador entre os “alienígenas”.

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De fato, a presença da “zona” na região do Bom Retiro durante os treze anos que permaneceu paralela a vida comercial da José Paulino, revelou-se em  inúmeros registros de época: nas memórias dos moradores e comerciantes, na ficção literária dos escritores boêmios,  na crônica diária dos jornais e nos relatórios das  assistentes sociais. Cada um traçou das formas  mais diversas a vida das duas animadas ruas do bairro, a Aimorés e a Itaboca. Era este o nome da  antiga rua Césare Lombroso.

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Registro oficial do grupo da manhã. Fotografia Robson  Brito/2019

Saiba mais:

Para quem não sabe, esta história da “Zona”  se transformou num percurso que eu mesma guio. Não é turístico, é PESQUISA EM ANDAMENTO mesmo. E, por ser pesquisa, ele acaba mudando à cada vez que percorro estas ruas seja porque entram novos conteúdos, seja porque os grupos que participam sempre apontam questões às mais diversas. Se num primeiro momento  apenas levava comigo alguns registros  de época, agora carrego memórias, entrevistas, novos achados da imprensa de época e muita conversa com quem participa. Este ano fiz duas vezes o percurso da “Zona” na Jornada do Patrimônio Histórico. Foi incrível.

As imagens do post são destes últimos  da Jornada  em agosto de 2019. Espero continuar esta experiência de levar pra rua a história do lugar e fazer da rua lugar de conversas e debates sobre a identidade de todos nós.