Dois dias pelos caminhos do Ó

tempo reverso2 abertura

* Este post é resultado de duas caminhadas que fiz junto com Gilberto Tomé, Livia Gabbai, Paula Gabbai e Renato Hofer. Gilberto, artista gráfico, ganhou incentivo do Proac para fazer este lindo projeto de percursos e um livro de artista. Entendo que Tomé fez muito mais do que isso. Sensibilizou pessoas para olharem um caminho antigo ameaçado pelas radicais transformações que estão acontecendo ali. Colocou seus moradores diante da beleza da história da antiga estrada e do caminho de seus ancestrais. E, finalmente, abriu uma exposição no próprio Caminho do Ó, Praça das Porteiras ( Praça da Árvore). Segue um pequeno relato afetivo destas duas caminhadas.

 

 Ontem conversei com a Lívia, que já esta produzindo um filme das caminhadas que fizemos. Achei interessante a nossa conversa. De formas diversas cada um de nós vai desenvolvendo diálogos com o percurso, que também chamo de lugar. Um lugar para mim é algo habitado por gente, por traçados, por histórias e por quem percorre. O lugar se revela como Descobrimento no sentido próprio mesmo: um achamento. Reparei que a caminhada em si é uma ação deste achamento. E muito mais intenso se faz quando somos estimulados a ver, sentir e perceber o que permanece do passado no presente e aquilo que é radicalmente novo. Caminhar é uma troca de olhares que se aprimoram no  espaço e no cruzamento de vistas.

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 No meu primeiro percurso para a Freguesia do Ó desobedecemos o caminho principal, a avenida Santa Marina. Nos perdemos pelas pequenas travessas e pontilhões dos trilhos do trem armados de mapas antigos. Fizemos achados maravilhosos, um riacho escondido numa vila, uma grupo de ruas que é um poema de Paulo Bomfim, Tempo Reverso. E casas, residências pequenas, antigas ainda, mas com portões novos, com estruturas flutuantes  para acomodar um novo  morador, o carro. Com certeza é o antigo se adaptando ao novo, o tal puxadinho que virou garagem. 

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Na segunda caminhada, o Tomé trouxe várias folhas coloridas com impressões fotográficas antigas e distribuiu para o grupo. Começamos no início da Santa Marina, que é ali na Pompéia. A Dna. Neide ao andar pelo antigo Caminho do Ó ( Av. Santa Marina), conseguiu lembrar mais coisas dos seus percursos dos outros tempos por aquela avenida. O escadão e antes dele, a porteira do trem,” era muito mais fácil do que agora”, o local onde pegava o bonde, a relação com o rio Tietê, as distâncias, tudo era mais perto. 

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 Depois a moça da galeria de arte, a Luana, ouviu um barulho de rio, ali invisível, de dentro destes tampões da Sabesp, gravou. Ainda paramos no primeiro ponto de vista, na Praça das Porteiras ( antiga referência da Praça da Árvore) , antes da cancela do trem. E as pessoas maravilhadas conseguiram ver dali a Igreja da Freguesia do Ó, lá do outro lado do rio Tietê. Fez todo sentido. 

 Atravessar a linha do trem e passar para o outro lado da avenida é o segundo obstáculo para penetrar e refazer o antigo Caminho do Ó. 

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O Instituto Rogacionista é a primeira parada que atrai os olhares e o desejo de percorrer por dentro algo do passado. Na extensão da avenida e seus novos usos, aquele casarão antigo chama atenção. Seus jardins, as carpas, a tranquilidade, o que um casarão de chácara esta fazendo ali? Parece que o tempo deixou um marco de outros tempos, de outras histórias, ponto de reflexão numa avenida que passou rapidamente do campo para a produção fabril.  

No jardim uma moça desenhou um peixe.  Lembrei da Virginia Woolf no livro Um teto todo seu tentando agarrar um peixinho/idéia que passava naquela universidade imaginária, “Oxbridge” ( mistura de Oxford com Cambridge). Ela pescou uma carpa linda ali na antiga  Chácara/ Instituto  Rogacionista!!! 

peixes que nadam peixes que se inventam

Saindo de lá, a Vidraria Santa Marina domina a quadra do outro lado da rua, mas nos fins de semana é mais um dragão de boca fechada; dormem os fornos, as chaminés?  descansam os homens. 

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 O barulho vem do Clube Santa Marina, seu vizinho anexo. Criado e mantido por seus antigos funcionários. É o fiel Santa Marina Atlético Clube com uniforme que tem as cores da bandeira francesa. Ali se produzem outros sons: apitos do juiz , gritos de felicidade, o barulho da borracha de tênis  em atrito com o piso de cimento da quadra do futebol de salão. É gente pequena e grande que enche de vida o lugar. Andar pelo clube é percorrer histórias, monumentos e bustos misturados a pura convivência dos clubes de várzea nos fins de semana. Que não morra o Santa Marina Atlético Clube, fábrica de barulhos de felicidade da Avenida Santa Marinex!!!! 

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 Saímos do clube e o movimento do trânsito assume a trilha sonora do lugar. Nosso terceiro obstáculo é passar pela Av. Ermano Marchetti e chegar na última quadra da Santa Marina, do lado de cá do rio Tietê. Jogo duro para o pedestre. A longa travessia diz muito do lugar. Talvez seja por isso, e não por nostalgia dos velhos tempos, que Dna. Neide lembra que antigamente o Caminho do Ó era mais fácil para caminhar. Parece que nada ali é feito para os pés, mas somente para carros. Nada ali é de parar e olhar, e é por isso que estamos fazendo o Caminho do Ó. Queremos buscar ainda os fios rompidos pelo progresso. Queremos dar chance para o tempo lembrar do lugar através dos nossos pés. 

obstaculo ermano

Cruzamento da Av. Santa Marina com a Av. Ermano Marchetti.

 Ali do cruzamento da Ermano Marchetti, os olhos que nos mostraram ao longe a Igreja da Freguesia do Ó, apenas nos alertam para prestar atenção ao cruzar a avenida. Neste obstáculo não há chance alguma de ver nada além dos sinais e os jogos dos corpos humanos sincronizados com a velocidade dos carros. Atravessar a Ermano Marchetti é o que importa! E assim cruzamos o grande rio de concreto. Mas, ao virarmos antes da ultima travessa que chega na Marginal do Tietê, encontramos novamente a Igreja da Freguesia Ó, bem na cara da Marginal. Deste ponto alguém viu o nome de um rio que desemboca ali no Tietê. Outra pessoa falou que os rios não chegavam no Tietê antigamente. O Tomé mostrou outra imagem em papel colorido do lugar, uma canoa dos velhos tempos, e onde estávamos, bem na água, na várzea do rio. 

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Pegamos a calçada da Marginal à direita em direção a Ponte da Freguesia do Ó. Como é difícil andar ao lado da Marginal. O barulho dos carros, a velocidade deixa a gente com medo. Acho que vou dizer que a Marginal é nosso quarto obstáculo. 

Atravessamos uma alça para chegar na ponte. Do outro lado descobrimos um negócio de gás, com cheiro de gás. Na Ponte do Ó, a mocinha das carpas mostrou uma intervenção de um grafiteiro. O melhor de caminhar com os outros é que os olhos de um ensinam os olhos do outro. Atravessamos e teve gente com medo da ponte. Nela só tem um caminho estreito para os pedestres. De um lado o rio não se mostra muito convidativo, do outro, os carros passam como uma motosserra que corta árvores sem parar. A gente se sente muito frágil ao atravessar uma ponte tão “des-humana”. 

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 Lá de cima lembro da outra ponte, a antiga, aquela de madeira que juntava as duas partes da Avenida Santa Marina. Aquela era baixa, de madeira, própria para os animais e homens. Estranho ver uma rua que acaba no rio e começa novamente do outro lado. Fica faltando uma coisa que junte o caminho. Vamos desenhar, vamos ligar os pontos?! 

mapa sara brasil 1930 rua da balsa

Ponte da Av. Santa Marina ligando os dois lados, Caminho antigo do Ó. 1951

 Do outro lado, os canteiros minados de gás continuam no entorno da nova ponte da Freguesia que funciona 24 horas como motosserra cortando árvores. Dá medo ainda. Faz a gente pensar que não só os carros que passam deixam o pedestre meio perdido, mas estas granadas de postes amarelos espalhados a esmo no capim verde são impróprios para o caminhante. Talvez seja isso que Dna. Neide quis dizer ao falar que antigamente era mais fácil o caminho…

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É domingo e deste outro lado da Freguesia do Ó o comércio esta todo fechado. Aqui não dormem os homens, só seus afazeres. Então vamos subindo. Leio uma placa e ela indica que estamos numa travessa da rua da Balsa. Fico feliz de encontrar com a rua exatamente no lugar que margeava o rio. Abro um dos mapas do nossa coleção do Tempo Reverso e vejo a rua desenhadinha no final do século XIX. O rio Tietê serpenteando também esta lá, bem diferente do que é hoje, retinho. De repente dou risada sozinha. Percebo que a rua inventava curvas para dar com o rio e o rio flertava com ela também. Um rio brincalhão, sem limites ou margens fixas, desalinhado, e uma rua safada, pública, que queria a todo custo encostar no rio, só podia ser uma rua da Balsa!!! 

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 Agora vamos subir. A Igreja esta bem pertinho. Mas a ladeira é íngreme. No caminho ganhamos altura. Caixas de correspondência mostram que quanto mais pra cima, mais gente mora ali. E mais a gente consegue olhar o rio e ver da onde partimos. Ai é que surge um outro obstáculo, um monte de prédios, os tais paredões de concreto que se armam como empenas cegas diante dos nossos olhos. Tem lugar que não adianta ganhar altura, porque as paredes são maiores do que os homens, mais altas até do que a torre das antigas igrejas. Quem diria que chegaria um dia em que os olhos de Deus não poderiam mais enxergar a cidade e muito menos o caminho dos homens. 

cartas

 Chegamos na Igreja da Freguesia, bem no dia da entrega dos mastros. E sem querer eu vejo anjos de asas vermelhas e escuto cânticos. E percebo que nosso esforço de caminhantes não é solitário, o lugar nos recebe com seus antigos barulhos. A Freguesia é solidária com seu passado. Os anjos de asas vermelhas ainda querem ver o céu e tudo que a vista alcança entoando cânticos em ÓÓÓÓ!!!!!  

anjos.jpg

 

 Mais sobre este post:

  • Para quem quiser conhecer o livro de arte produzido por Gilberto Tomé e as demais atividades vinculadas a exposição, veja o link com orientações detalhadas de como chegar no local, dias e horários: Ó: Caminho, Estrada, Avenida
  • O filme de Livia Gabbai produzido para este evento, Linhas e Passagens: traçados da av. Santa Marina avistam a matriz,  esta sendo exibido no local da exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.

 

Passeio pelo Bom Retiro com audio-roteiro da Casa do Povo

caras do bom retiro 2Ontem fiz um passeio incrível de bicicleta e a pé. Fui até o Bom Retiro pela ciclovia sob o Minhocão. É uma delícia andar de bike por ali, principalmente nos dias quentes porque lá embaixo é bem fresquinho. De lá peguei outra ciclovia logo depois da Estação Marechal Deodoro e ai foi só felicidade. Barra Funda, Campos Elíseos e o pontilhão do trem anunciando a entrada no Bom Retiro. Sábado é dia agitado nesta região por conta do comércio. Mas se vc vai entrando mais para o miolo do bairro, a febre das compras diminui bem. Eu fui até a Casa do Povo na rua Três Rios para fazer o audio-roteiro do Bom Retiro. Na Casa do Povo tem lugar para parar as bicicletas. Deixei a minha lá, baixei o audio-roteiro no meu celular e sai andando pelo percurso proposto.
Adorei o passeio. Primeiro porque o audio é muito bem bolado. Dosa a fala coloquial com reflexões pontuais arquitetônicas e urbanísticas. Segundo, a grande sacada do audio é não ter um único narrador. Por exemplo, na primeira parada, uma mercearia coreana, somos convidados a conhecer o lugar e, através da fala de uma imigrante coreano, entramos um pouco na vida deles aqui. Os produtos importados, o que gostam de comer, e as adaptações locais. Não precisamos ficar buscando coisas específicas na mercearia para compreender a fala do imigrante, é uma conversa que agrada os ouvidos. Basta flanar pela mercearia sem grandes preocupações que o clima esta todo ali. É algo solto, quase um comentário num programa de rádio.
A outra coisa muito legal é que as explicações e direções são bem claras e voltadas para a situação de um pedestre em sua relação com a rua.
As conversas rolam no audio quase o tempo todo e, ao andarmos para o próximo ponto, vamos acompanhados da simpática narradora , ou de algum habitante do bairro, judeu, comerciante, boliviano ou coreana que esta falando com a gente. Me senti o tempo todo acompanhada pelas pessoas do bairro. Num único momento, acabei me perdendo um pouco. Ao chegar perto do restaurante grego e entrar numa vila operária. Acho que não achei a vila certa do percurso. Errei o caminho e ai desisti e fui para a próxima parada. Nesta parte, o roteiro sai do pedaço mais agitado do bairro e vai entrando num espaço que eu chamaria de mais intimo dos moradores do Bom Retiro, só quem conhece bem o bairro ou mora nele vai caminhar por esta área menos comercial. Temos ali uma feira, e esse é outro ponto singular do audio. Eu fui ontem, sábado, e a feira como a narração do audio comenta, foi feita numa quinta. Logo não vi feira alguma e nem os produtos que o imigrante disse que gosta de comprar – aliás esta parte eu não vou comentar porque vale a pena escutar a fala dele. O que me chamou atenção aqui, é que a ausência da feira no sábado, não desmerece em nada a apresentação e os comentários narrados . Escutamos o barulho da feira e os hábitos do imigrante boliviano quando vai as compras através de suas explicações. Neste momento estamos quase atrás do lugar que começamos o roteiro. E é ali que encontramos uma sinagoga bem pequena do bairro e ouvimos o simpático rabino nos apresentar o lugar. Um pouco mais pra cima, temos a Unibes e uma mercearia judaica bem tradicional. E nessa parte uma das pessoas que narra o passeio, faz comentários muito bons sobre a presença dos coreanos na vida do Bom Retiro no que há de mais rotineiro na vida de um bairro, o cabelereiro. Nesse ponto me deu fome e sede. E como o bairro é farto em pequenos e grandes restaurantes e quitandas. Comprei um saquinho de melancia em pedaços e fui comendo até a Buriquita que fica quase ao lado da Casa do Povo. Comi uma bureca de queijo deliciosa. Conversei com o David, meu amigo, e dono da Buriquita. Sem querer vi uma cena linda que talvez ficou mais bonita depois de escutar tantas histórias cruzadas que o audio-roteiro da Casa do Povo proporciona. Um casal de coreanos e sua filha entraram para comer um doce. Perguntei ao David se os novos habitantes do bairro gostam dos doces e salgados judaicos. E ele disse: adoram, sou eu que faço bolo de aniversário pra muitas famílias coreanas. E ai eu perguntei: e vc já comeu comida coreana? e ele falou: já, é gostoso mas um pouco apimentada. Enfim, foi esse o meu passeio pelo Bom Retiro de sábado. Pra quem quiser fazer o passeio, o audio-roteiro fica afixado na porta da Casa do Povo e demora mais ou menos uns 50 minutos. Basta chegar lá com o celular, um fone de ouvido e baixar o percurso. Eu adorei tudo que vi e escutei. Sai conhecendo melhor este bairro querido da minha cidade.

Será possível que ainda chova? (Re ti será)

A partícula será no início de uma frase – na boca dos paulistas – toma um sentido todo especial e particular. Tem sua herança no português de Portugal, mas é indiscutível sua procedência tupi-guarani conforme afirma  Affonso A. de Freitas:

 “ é uma das quatro partículas que os nossos indígenas costumam empregar para distinguir uma interrogativa de uma afirmativa por desconhecerem a inflexão de voz como fazem os civilizados”.

 Assim, o será tupi-guarani tem a função de encerrar as sentenças como ainda é usado no norte do Brasil: chove, será (Re ti será). Porém, da  influência do português e do índio, o será paulista  se deslocou  para o inicio da frase. Aboliu-se  e afogou-se o enfático “Será possível?” dos portugueses e ficamos   sem sombra de dúvida e poucas previsões de chuva com o  “Será  possível que ainda chova?” que acabou assumindo o  titulo deste  post sobre alguns apontamentos  do abastecimento de água na cidade de São Paulo.

 Durante o século XIX, a cidade de São Paulo era servida de água através  de fontes, bicas, chafarizes, tanques e rios. Mas nem por isso a cidade deixou de ter problemas com o abastecimento de água. Inúmeras são as referências sobre fontes de água que secaram ou rios e tanques que tornaram-se poluídos por detritos jogados de forma aleatória nos afluentes da cidade.

 Diante da escassez de água, a alternativa do governo parecia ser sempre passiva, esperar  a volta das chuvas. Porém para a imprensa e a população reclamante, a volta das chuvas não passava de uma solução paliativa para o  um problema  que apontava para outras direções que não apenas as previsões meteorológicas.

“Estamos sem água”  era o grito que surgia impresso na coluna de reclamações do jornal Diário de S. Paulo no dia 28 de fevereiro de 1867. “A população sofre sede, e o que faz o governo?(…) Não temos água? Esperai, logo há de chover, e chover muito…”

Éh. éh. minha parente. Voce acredita n esse? É mentira: Moyssé não tirô agua de pedra non.

Éh. éh. minha parente. Voce acredita n esse? É mentira: Moyssé não tirô agua de pedra non.

 A charge acima é do Chafariz da Misericórdia em São Paulo, publicada no jornal humorístico  Diabo-Coxo de 1865. O titulo do desenho de Angelo Agostini, “Novos Moisés”, aconselhava os paulistas a baterem com varas no “chafariz” a fim de obterem água. Porém,  assim como na passagem bíblica, o milagre não ocorreu e São Paulo sofreu uma das maiores secas de que se tem registros durante o século XIX.

 O desenho de Agostini “Novos Moisés” foi publicado num momento em que os jornais faziam uma feroz crítica  a administração  do Presidente da Província de São Paulo Tavares Bastos. Este  ocupara-se com a organização dos batalhões que iriam  para a Guerra do Paraguai sem ter tempo e nem recursos de organizar setores básicos da cidade.

O que os paulistas faziam em meados do século XIX quando faltava água na cidade?

 Quanto faltava água nos chafarizes da cidade em meados do século XIX, uma das   alternativas dos paulistas era  utilizar-se  dos  rios próximos  mesmo sabendo que suas águas não eram potáveis, como o rio Tamanduateí. A  outra opção, muito comum também,  era comprar barris de água  dos  “atravessadores”, pessoas que pegavam água dos rios ou dos próprios chafarizes e ofereciam pelas ruas da cidade em barris (tonéis)  que custavam o valor exorbitante de 40 réis.

A 40 réis o barril dágua - 1865

A 40 réis o barril dágua – 1865

  Vida e morte do Chafariz da Misericórdia:

O Chafariz  de pedra do largo da  Misericórdia foi construído em 1792. Removido para o largo de S. Cecília em 1886 e recolhido ao depósito da Prefeitura. Seu construtor, conhecido  por Tebas, foi um mestre de obras, escravo liberto que à época assumiu várias obras importantes na cidade de São Paulo. A antiga Catedral da Sé (1755) talvez seja a que mais merece destaque pela grandiosidade, mas também porque durante a obra, seu senhor veio a falecer deixando Tebas alforriado com a condição  de que este finalizasse a reconstrução do prédio.

autor do post:  paula janovtich

Links associados a este post:

Folha de São Paulo, A lógica do poder e a sociedade, 10/07/2014

Catálogo on-line da exposição versão paulo – caricaturas sobre a falta d’agua em São Paulo

Para saber mais:

 Affonso A. de Freitas, Tradições e Reminiscências Paulistanas, Coleção Paulística Vol. IX, Governo do Estado de S. Paulo.  Este livro não se encontra nas livrarias. Para quem tiver interesse em adquiri-lo, indico os sebos virtuais ou os vários alfarrábios da cidade. Além de fragmentos do cotidiano da cidade de São Paulo ao longo do século XIX, a obra tem mapas das ruas, ilustrações e imagens fotográficas. Capitulo a parte é o que utilizei para este post : “Reminiscências das ruas”, nele temos  algumas cantigas como “Vaca amarela” e o “Será que ainda chova?”. Coisas que não estão mais na cidade mas que permanecem vivas  na linguagem do paulistano. Fonte da imagem “Barris de água”

 Byron Gaspar, Fontes e Chafarizes de São Paulo, Coleção História, Secretaria da Cultura Esportes e Turismo. Não se encontra nas livrarias. É necessário buscar nos alfarrábios ou sebos virtuais. O livro faz um apanhado de vários chafarizes, fontes e bicas da cidade. Os capítulos são separados por “Chafarizes utilitários” e  “Chafarizes Ornamentais”. A maioria vem com desenhos, esboços de como eles eram. Alguns como diz o autor, podem ainda ser vistos na cidade: o Chafariz do Largo da Memória, as fontes dos Túneis Nove de Julho porém acho que todos os que existem não são mais utilitários. Os que sobreviveram viraram monumentos.

 O Diabo Coxo (1864-1865), edição fac-similar, Edusp. 2005. Fonte da imagem “Novos Moisés”

A cidade dos humoristas: Plano diretor X A lógica do absurdo

Cópia de painel 1.5 a

A imagem deste post é de 16 de maio de 1922. Lá na rua São Bento, centro antigo da cidade de São Paulo, um homem olha para cima. Reparem que a rua é estreita para o tamanho do edifício que ele observa. Desproporcional a dimensão da  rua e a visão do homem.
São Paulo cresceu sem grandes regulamentações sobre escalas. Historicamente a especulação imobiliária orquestrou o sobe e desce. A valorização e desvalorização de algumas regiões da cidade em detrimento de outros.
Não quero entrar aqui no caráter dos edifícios novos. Eles falam de um gosto e de uma forma de morar que merece ser cuidadosamente estudada. Pode se começar pelos nomes dos edifícios, e talvez adentrarmos a estética, os esquemas de segurança e da forma destas construções se articularem com o lugar.
Hoje como nos últimos dias, na Folha de São Paulo, o assunto Plano Diretor ocupa o caderno “cotidiano” da cidade :”Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras”. Nunca um plano diretor de São Paulo foi tão debatido e conhecido por seus habitantes. As construtoras através do Secovi anunciam que para dentro dos bairros, onde os edifícios não vão poder obedecer mais a “lógica do absurdo”, os apartamentos vão encarecer. E afirma o presidente da Secovi:” Quem vai pagar não somos nós, se o comprador não puder pagar nós não vamos produzir.” Porém, mais adiante o mesmo afirma que as tabelas podem ser ajustadas.
Tenho certeza que as construtoras vão continuar a construir, talvez numa escala mais humana. Com um pouco mais de reflexão sobre o lugar e a forma morar, espero eu. A cidade merece.

Sobre o post:

Folha de São Paulo, , 5/07/14

Folha de São Paulo, “Preço da maioria dos imóveis deve subir 5%, dizem construtoras. 4/07/14

Ilustração do post: Revista Vida Paulista, 16 /05/1922. Ilustrador: Belmonte.

A dinâmica dos nomes de ruas na cidade de São Paulo *

Ilustração

Ilustração “Minhocão” de Paula Gabbai. Jan/2009

Na rua sem resistir

                              me chamam

                                                     torno a existir (Paulo Leminski)

Resolvi escrever este post depois de ler um artigo no Estadão sobre a proposta do vereador Nabil Bonduki de mudança de nome do Elevado Costa e Silva aqui em São Paulo para como é mais conhecido, Minhocão.

Conforme o artigo, a mudança de nome busca fazer uma revisão do passado recente da história brasileira que acabou ficando cravado em muitas ruas da cidade. Para quem não sabe, Arthur Costa e Silva foi o segundo presidente militar do país, “era da chamada linha-dura do Exército e foi quem editou o Ato Institucional 5 (AI-5) em dezembro de 1968”.

Por sorte Costa e Silva morreu de um derrame logo no inicio de seu mandato, mas o nosso querido governador à época, Paulo Maluf, que estava inaugurando o Elevado (1971), resolveu como é de praxe até os dias de hoje, homenagear o presidente falecido colocando seu nome na nova via da cidade.

Por obra do destino, o Elevado que até hoje é motivo de tantos debates por “rasgar” a Av. São João de uma forma totalmente truculenta, com o correr dos anos passou a integrar e fazer parte da vida da cidade. Hoje, para os moradores dos edifícios da São João, foi conquistado o direito ao silêncio durante à noite quando este permanece fechado, assim como aos domingos e feriados a via dá acesso apenas aos pedestres e transforma-se em um lugar de lazer interessante para quem vive na área central.

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Mas o que mais me chamou atenção na proposta do Nabil em relação a mudança de nomes vai além dos fatos vinculados a ditadura e o justa expressão do desejo de apagar das ruas da cidade referências que tenham a ver com os anos de chumbo.

Alguém já se perguntou por que o Elevado Costa e Silva foi mais reconhecido por seu apelido de Minhocão do que por seu nome de batismo?

A resposta para alguns pode parecer óbvia, Minhocão tem a ver com a formato que a via toma ao passar sobre a São João: uma grande minhoca ou cobra que liga a zona leste à zona oeste de São Paulo. Mas talvez poucos pensaram qual o sentido que um apelido adquire quando de fato torna-se referência principal de um lugar ou pessoa. E é justamente isto que gostaria de destacar na proposta do vereador Nabil Bonduki.

Um apelido chama atenção por algo no caráter da pessoa/lugar que se destaca. Muitas pessoas detestam seus apelidos, outros até os incorporam e passam a pedir para serem chamadas por esta outra referência criada a partir de algo que nasce de uma expressão, forma ou caráter criado na maior parte das vezes pelo olhar de um outro.

Neste sentido, não é por mero acaso que na história do humor, muitos personagens ilustres que foram caricaturados acabaram por receber apelidos ligados em sua maioria a traços físicos ou expressões do seu caráter facilmente reconhecíveis à época.

Aqui segue um caso clássico de transformação caricatural criado por Philipon (1834). Em quatro ilustrações da cabeça do Rei Luis Filipe ele se transforma em uma pêra.

lespoires

O apelido de Minhocão para mim chega a abordar com certo afeto o que esta via concentrou ao longo de sua história. Começando por seu nascimento, pela mãos de um governador que pouco se importava com o impacto humano da obra e por quem tratou a cidade como prolongamento natural de suas propriedades.

De certa forma o Minhocão é mais uma alusão canhestra ao nossa tradição colonial onde os senhores decidiam como, onde e de que maneira trilhariam seus caminhos da casa para a roça e da roça para casa. O que no caso do Sr. Paulo Maluf poderia ser traduzido pela empresa da sua família, a Eucatex, que ficava bem no final do Elevado em sua direção oeste. Depois o crescimento engoliu tudo, inclusive este lembrança amarga da via traçada diretamente para a roça da família do governador. Paralelo a isto, o apelido de Minhocão “pegou” e permaneceu em uso até os dias de hoje, incorporando tudo de bom e de ruim que a via urbana adquiriu em sua história.

As ruas precisam com urgência voltar a ser só ruas!

Era comum nas cidades coloniais brasileiras, incluindo a nossa querida vila de São Paulo de Piratininga, que os nomes das ruas estivessem intimamente ligados ao seu uso (aspectos culturais) e a sua geografia (acidentes naturais). Hoje temos poucas ruas com nomes herdados deste longo período que vai da fundação da cidade à 1897. São ruas que de fato sobreviveram a enxurrada de homenagens e alusões presentes a partir do regime republicano.

De fato como afirma Nabil, precisamos fazer um levantamento dos nomes de ruas que lembram este passado nefasto dos anos de chumbo, onde temos generais, coronéis e presidentes elogiando algo que de forma alguma pode ser incorporado com orgulho à vida e nomenclatura das ruas da cidade. Porém, nossas ruas primariamente trilhadas à mão e no trote dos burros, vão perdendo seu sentido de uso, e parte disso esta na forma como os nomes são dados à elas a partir do final do século XIX.

Quase como monumentos, passaram de sua função de uso à locais de honrarias, expressão de pura abstração desvinculada de qualquer lógica espacial ou coerência histórica.

Os nomes das ruas

Coincidentemente no momento em que faço este post, chega pelo Facebook uma chamada que na Câmara alguém tenta passar a proposta para que o Viaduto do Chá tenha seu nome estendido para Viaduto do Chá Mário Covas. O que mostra que a cisão entre nomes e ruas é em si uma prática comum e totalmente desrespeitosa com até as mais tradicionais vias da cidade.

Tivemos há tempos atrás, uma rua Alegre que ficava próxima de outra que se chamava da Boa Morte, haviam também os caminhos, e um deles ia para a Forca e seu nome era Caminho da Forca, e ainda tivemos vários becos, largos, travessas e ladeiras que nada mais eram do que denominações dos contornos da topografia da região somados ao alinhamento das casas.

O Beco da Merda é exemplar de um fim de rua da cidade que carregava no emblemático nome sua função literal, porque de fato ali eram jogados dejetos humanos das casas dos arredores. Assim como podemos pensar que existia uma rua Alegre e outra da Esperança e, possivelmente uma Triste, e uma outra da Boa Morte quem sabe quando a tristeza, alegria, esperança e morte andavam juntas pela cidade.

Ainda permanecem na cidade algumas ruas que nos lembram destes outros tempos, onde ruas e nomes andavam juntos e de mãos dadas. A Ladeira Porto Geral lá na área central de São Paulo faz referência a um porto, o Porto Geral porque bem ali embaixo passa o rio Tamanduatei e havia de fato um porto nele. Nós não vemos mais o rio, mas ele permanece ali canalizado e, por muito tempo, pelo Porto Geral, um dos portos mais importantes da cidade, fez-se o transporte fluvial de mercadorias para os habitantes da cidade de São Paulo.

E poderia aqui citar outras tantas nomes de ruas presentes e ausentes da cidade que tinham como função principal dar sentido , localização e função para a vida de quem andava pela vila da acanhada Paulicéia. Até poderíamos pensar em ampliar a proposta do Nabil, e fazer um levantamento de quantos nomes de logradouros temos de homenageados ilustres que se concentram nas ruas de São Paulo e nada significam para a cidade.

E por que não ir mais para trás, visitar a seção de logradouros públicos do município de São Paulo e ver de fato quais os antigos nomes que várias destas ruas tinham antes de virarem pouso de generais, deputados e vereadores? E por que não recolocá-los em uso, um mundo em transição, até que o uso tome o lugar como um apelido se sobrepõe ao nome próprio.

Ruas de São Paulo homenageia empresários que apoiaram o golpe e a ditadura

Ruas e memória

Mais referências sobre este post:

1.* O titulo deste post faz alusão direta a um livro editado pela AnnaBlume que tem como assunto principal uma reflexão sobre os nomes dos logradouros da cidade de São Paulo entre 1554-1897. O pequeno e substancioso livro é de Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick e foi publicado em 1997. O livro vira e revira estes nomes das ruas da cidade ligados aos acidentes naturais e culturais de São Paulo entre os “Quinhentos aos Oitocentos”, porque foi neste período de tempo , da fundação da vila em 1554 até a fixação destes topônimos, 1897, que eles de fato vincularam-se à vida da cidade de São Paulo, como os apelidos, exatamente como o Minhocão.

2. São Paulo de Outrora de Paulo Cursino de Moura trata das história das velhas ruas de São Paulo. Livraria Itatiaia Ed. Ltda, 1980.

3. Ruas e Tradições de São Paulo de Gabriel Marques é outro livro que conta “uma história em cada rua”. Editado pela Conselho Estadual de Cultura, 1966.

4. O trecho do documentário sobre o Minhocão Elevado 3.5 aborda um pouco desta alma da via maldita e bendita e vale a pena ser visto na integra.

5. a ilustração que abre este post é da arquiteta e artista gráfica Paula Gabbai e foi gentilmente cedida para esta matéria. (Muito obrigada Paulinha!)

6. As imagens do Minhocão em slideshow foram tiradas por mim num destes dias de domingo.

Link

O Incêndio no Polytheama  (Link do Estado de São Paulo 29/12/14 )

No dia 29 de dezembro de 1914, o jornal O Estado de São Paulo publicou um incêndio numdos teatros mais importantes de São Paulo, o Polytheama. O velho barracão de zinco que atravessou a primeira década do século XX apresentando, em seu palco, a diversidade dos entretenimentos – o circo de cavalinhos, a grande atriz Sarah Bernardt, as pantomimas do Guarani com a Ceci cabocla e o Peri italiano – pegara fogo e estava reduzido a escombros. As causas do acidente não eram conhecidas. “Do Polytheama só restavam apenas pilares e um montão de cinzas.”